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O professor Álvaro Santos Pereira é a melhor escolha por ser independente. Não vem de dentro do banco, nem vem de um governo. É independente.

Depois de semanas de especulação sobre quem iria substituir Mário Centeno à frente do Banco de Portugal, finalmente o governo anunciou o próximo governador. O período de indefinição fez com que Centeno venha a exceder o tempo do mandato à frente do supervisor nacional.

Álvaro Santos Pereira é assim o próximo governador do Banco Central, o sucessor de Mário Centeno, e é por isso que o economista e antigo ministro é a figura da semana.

Eu prefiro que me chamem Álvaro a que me chamem ministro.

Esta frase foi o cartão de visita de Álvaro Santos Pereira quando chegou a ministro da Economia e do Emprego no governo de Pedro Passos Coelho, em junho de 2011. Logo da primeira vez que apareceu em público na Feira Internacional de Artesanato, na FIL, explicou que preferia a informalidade que aprendeu nos seus anos de aluno em Inglaterra e depois como professor universitário no Canadá.

Além do "chamem-me Álvaro", que lhe ficou colado à pele, ainda haveria de ter outro momento que lhe deu notoriedade.

A grande questão é por que não existe um franchising de natas? Até hoje, muitos dos produtos portugueses são pouco conhecidos fora de portas, não por terem pouca qualidade, mas sim porque até hoje temos falhado na estratégia de internacionalização dos nossos produtos.

A frase acabou por ser ridicularizada, apesar de ser uma crítica ao falhanço de Portugal na internacionalização dos seus produtos. Sobre este franchising de pastéis de nata, o tempo haveria de dar-lhe razão.

Mas não ficou por aqui. Também decidiu anunciar o fim da crise.

2012 certamente irá marcar o fim da crise, que não exista qualquer dúvida.

Para depois se desdizer.

Eu não anunciei o fim da crise.

Ora, gafes à parte, Álvaro Santos Pereira deixou o ministério marcado pelo fim da ideia de construir o TGV, pelo corte nas rendas da energia e a suspensão de quatro feriados, isto em nome da produtividade. Ainda introduziu uma nova lei da concorrência e defendeu os investimentos mineiros e a reindustrialização de Portugal. Segundo o próprio, o poderoso lobby da energia foi o seu maior combate político nos dois anos que esteve à frente do Ministério da Economia. Chegou a dizer à grande entrevista da RTP, anos mais tarde, que até ao tempo em que esteve à frente do ministério, nunca ninguém tinha tirado um cêntimo às elétricas. Gabava-se de ter sido responsável por um corte de 3.500 milhões de euros.

Foi esse combate que causou a primeira baixa na sua equipa. Henrique Gomes, secretário de Estado da Energia, bateu com a porta após ter sido impedido pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, de aplicar uma contribuição sobre as empresas de energia que iria afetar as receitas da EDP, que estava em vias de privatização à época. Santos Pereira chegou a afirmar em público que a saída de Henrique Gomes terá sido celebrada na sede da EDP com garrafas de champanhe.

O perfil de Santos Pereira, publicado no Observador, relata com pormenor a saída do governo em julho de 2013. E não foi pacífica. Teve o cunho do irrevogável Paulo Portas, o então ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, que tinha anunciado a sua demissão a 2 de julho, logo depois de Vítor Gaspar, desencadeando assim uma crise política. Portas queria um governo com mais economia e menos finanças, mas a substituição de Vítor Gaspar pela secretária de Estado do Tesouro, Maria Luísa Albuquerque, em nada indicava que essa seria a direção a seguir.

Seguiram-se dias de indefinição, que culminaram com o líder do CDS a revogar o irrevogável e a assumir a pasta de vice-primeiro-ministro.

Álvaro Santos Pereira acabou por ser um dano colateral. O novo arranjo do governo combinado entre Passos Coelho e Paulo Portas previa a saída do então ministro, que foi substituído por um dirigente do CDS, António Pires de Lima.

A saída foi abordada por Álvaro Santos Pereira no livro que publicou um ano depois de deixar de ser ministro, no qual não escondeu a mágoa pela forma como saiu do governo. De resto, a passagem pelo governo também ficou marcada pelo constante braço de ferro com as finanças de Vítor Gaspar, com o qual até perdeu várias vezes.

No livro, explica que o ministro das Finanças era, segundo o próprio, quase intocável e, por isso, sobrou facilmente para aquele que vinha de fora, referindo-se a si próprio.

Depois, candidatou-se à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e foi escolhido para diretor do Departamento de Estudos Nacionais da organização.

Sem papas na língua, nem na OCDE, Álvaro Santos Pereira não se coibiu de outros combates, desta vez com o governo PS. Em 2019, um relatório económico sobre Portugal que incluía uma análise à corrupção no país, não caiu bem no governo de António Costa, em que o ministro das Finanças era Mário Centeno. Álvaro Santos Pereira confirmaria de viva voz no Parlamento que existiram pressões e até uma tentativa de que a palavra corrupção não aparecesse no relatório.

Esses membros do governo manifestaram a sua intenção de remover a palavra corrupção do relatório. Que a palavra corrupção não estivesse no relatório.

A palavra manteve-se, mas o próprio, no Parlamento, contou que a expressão foi suavizada.

A equipa que representou Portugal, da delegação, era uma equipa que devia ter umas oito ou nove pessoas e era liderada pelo secretário de Estado das Finanças, Mourinho Félix. Disseram que o problema da corrupção em Portugal não era dos mais graves.

Álvaro Santos Pereira não se ficou e afirmou na Comissão de Economia, na Assembleia da República, que o problema da corrupção estava a ser menosprezado pelo governo.

A corrupção e o compadrio foram, e estou a dizer isso como Álvaro Santos Pereira Foram claramente os responsáveis por este país ter ido à falência.

Na mesma ocasião, Álvaro Santos Pereira teceu várias críticas à falta de ação do Governo no combate à corrupção, naquela que tem sido uma das suas bandeiras. Mas de onde vem Álvaro Santos Pereira?

Álvaro Santos Pereira nasceu em 1972, em Viseu, e é de nacionalidade portuguesa e canadiana. Santos Pereira licenciou-se em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e doutorou-se na mesma área pela Simon Fraser University, em Vancouver.

Pai de três filhos, gosta de ler, mas também de escrever livros sobre a economia portuguesa, memórias, onde contou a sua passagem pelo governo PSD/CDS sem medir as palavras contra Paulo Portas e o irrevogável, mas também ficção. "Diário de um Deus Criacionista: A História de Deus e da sua Solidão Infinita" é um dos livros que já publicou.

Entre 2000 e 2004, ensinou no departamento de Economia da University of British Columbia e entre 2004 e 2007 foi docente no departamento de Economia da Universidade de York, onde lecionou Economia Europeia e Desenvolvimento Econômico.

Foi director de Estudos Nacionais no Departamento de Economia da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE. Em 2024, foi nomeado economista-chefe. E, como sempre, vamos agora ouvir a mensagem de um amigo conhecedor da figura da semana. A Raquel tem esta missão de encontrar esse amigo, que esta semana é Sérgio Monteiro. Foi secretário de Estado de Álvaro Santos Pereira e ficou conhecido como o secretário de Estado das Privatizações pelo papel que teve na privatização dos CTT e da TAP. Ora, vamos ouvir o que nos conta do novo governador do Banco de Portugal.

Sérgio Monteiro, conte-nos um episódio com o Álvaro Santos Pereira que ache que o caracteriza.

A história que me recordo e que, de alguma maneira, acaba por refletir aquilo que é o Álvaro Santos Pereira, foi logo a nossa primeira conversa. Nós não nos conhecíamos quando eu fui sondado para poder aceitar ficar na equipa do Álvaro Santos Pereira, no Ministério da Economia, como secretário de Estado dos Transportes e Infraestruturas. E na nossa primeira conversa, nós éramos ambos independentes, nunca tínhamos estado na política, ele disse uma coisa que eu não me esqueci: que naqueles lugares só vale a pena estar para reformar, para mudar o país. E se não fosse dessa maneira, com essa atitude que nós encaramos aqueles lugares, não valia a pena estar neles. E a conversa impressionou-me de início por causa disso. Eu percebi que tinha à frente alguém com quem eu ia trabalhar e que era um verdadeiro reformista, um homem que acreditava que o país precisava de ser melhorado, mas também acreditava que ia conseguir reformar aquilo que estava no seu quadro de responsabilidades. E depois acabou por haver duas áreas, uma diretamente a ver com o meu trabalho e outra lá no Ministério da Economia, que eu acho que são bem o exemplo da forma como ele encara as reformas. No caso da renegociação das PPPs, mas também no caso da reforma do mercado laboral, foi tudo feito por acordo. Um acordo de concertação muito difícil, naquela altura da troika, e foi possível chegar a um acordo de concertação social. E o mesmo se passou na renegociação das PPPs, quando muita gente pedia medidas unilaterais, foi possível chegar a um acordo e baixar os encargos de forma plena. Isso mostra que reformar não precisa ser um exercício unilateral, pode ser um exercício feito de forma construtiva e por acordo, como acho que o Álvaro Santos Pereira bem demonstrou.

E o que é que deseja para o futuro do Álvaro Santos Pereira?

Hoje, o Álvaro Santos Pereira tem uma dimensão mundial. Para lá da experiência que teve no governo até 2013, a partir de 2014 trabalhou na OCDE, onde subiu internamente até economista-chefe e granjeou um prestígio que lhe permitiu estar com os principais atores, não só do mundo financeiro, mas também do mundo político a nível mundial. E, portanto, pode elevar o perfil do Banco de Portugal dentro do próprio BCE para ajudar e influenciar o BCE no desenvolvimento de políticas dentro do seu mandato, mas o desenvolvimento de políticas que possam ajudar Portugal a navegar um tempo tão difícil, com tanta incerteza que existe na economia mundial, julgo que pode ser um contributo muito importante para o futuro. Desejo-lhe, por isso, obviamente, as maiores felicidades e deixo-lhe um abraço muito amigo.

E é assim que o amigo Sérgio Monteiro prevê um futuro auspicioso, no mínimo, para o novo governador do Banco de Portugal. E para onde vai Álvaro Santos Pereira? Para já, para o Banco de Portugal, onde será governador pelo menos durante um mandato de cinco anos.

E que tipo de governador será? Mais ou menos informal? Será que vamos poder continuar a tratar o novo governador apenas por Álvaro?

E será que vai incomodar o governo que agora o acabou de nomear?

E finalmente, a pergunta que todos fazem: será que vai ter direito a dois mandatos ou fica como Centeno?

Vamos ter que esperar durante mais alguns anos até a conclusão deste primeiro mandato, que só se vai iniciar depois de setembro. Muitas perguntas que ficam no ar para a semana. Mais uma figura, mais um protagonista.