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Bem-vindos a "Filhos da Europa", podcast da Rádio Observador, em parceria com o Parlamento Europeu, onde conversamos com portugueses nascidos em 1986, o ano em que Portugal aderiu à então CEE. 40 anos de história comum é o tempo de vida da convidada desta semana, Tatiana Faia, escritora e poetisa, recebeu o Prêmio de Literatura PEN, categoria poesia, em 2019. A Tatiana Faia é doutorada em Literatura Grega Antiga e é uma das editoras da Enfermaria Seis, um projeto editorial que vamos também querer conhecer. Atualmente, é investigadora e dá aulas numa escola de Oxford, no Reino Unido. Tatiana, bem-vinda.
Olá, João, tudo bem? Olha, a vida começou a percorrer.
Então.
Tudo bem.
Tudo.
Ainda faltam cinco meses para os 40 anos e, portanto, a minha juventude ainda não acabou. Vai com calma.
Eu já tinha dado 40 anos de vida. Faltam uns meses, então. É uma coisa que mexe contigo, a idade, Tatiana?
Não, nem um pouco. Muito embora tenha reparado, que há umas semanas reparei que estou a ficar com o cabelo branco e a princípio eu senti-me bem, porque achei que ia ser à Susan Sontag, que ia só ser um lado da parte da frente do cabelo, mas de repente percebi que não, que é muito mais vasto do que isso e que não, nem um pouco. Eu sou daquelas pessoas que querem envelhecer, definitivamente.
Ah, boa. Por quê?
Sim. Não sei, quero viver uma vida longa. É inevitável envelhecer, desse ponto de vista. Parece que é um pouco isso. Não sou daquelas pessoas que tenham essa preocupação.
Olha, Tatiana, tu tens uma paixão antiga, não é? Desde tenra idade, pelo mundo antigo, pelo Império Romano, pela civilização grega. Por que esta paixão?
Não há muito uma explicação, não foi uma escolha muito lógica. Também não posso dizer que tenha sido por acidente, porque foi uma coisa muito deliberada. Talvez devesse fazer uma breve homenagem à minha velha professora de latim no liceu, que me deu uma língua que acabou por ser o mapa da minha vida, que foi latim. Ninguém diria que isso pudesse ser, como é que isto se diz em linguagem comercial, uma life skill. Ninguém diria que aprender latim seria isso.
Uma competência para a vida, não é?
Exato, mas no meu caso acabou por ser. Mas é uma coisa que não tem muita explicação, mas mais a Grécia do que Roma. Eu comecei por gostar imenso dos romanos, mas os romanos são os americanos do mundo antigo, de alguma maneira. Ao mesmo tempo que é fácil admirá-los, é difícil gostar deles. Não é o meu mundo, Roma, deixou de ser. Isso é cansado.
Portanto, toda tu és Grécia, é isso? Mas Grécia antiga.
É assim, os classicistas são uma espécie que normalmente há um ponto em que eles têm de especializar. Tu tens aqueles classicistas que se especializam no latim e tens aqueles classicistas que se especializam no grego, se tornam helenistas. E eu sou uma helenista, é nisso que eu me especializei. Eu fiz uma tese sobre a Grécia arcaica, portanto, nem sequer é sobre a Grécia antiga. Ainda mais para trás, mais anterior ao século V. No fundo, sou uma arcaica. Uns 40 anos.
Mas tu fizeste uma tese de doutoramento sobre a Ilíada, não é, de Homero?
É, que é o período que muito embora talvez a datação não seja o período arcaico, é a memória arcaica da Grécia. Portanto, é o período anterior ao século V a.C., não é? Quando tens o período clássico, é quando pensas na democracia ateniense, na tragédia grega. O que vem antes é esse mundo da lírica e antes da lírica, a épica. Portanto, é essa referência.
É um livro, podemos dizer, que é fundador da nossa civilização, certo, Tatiana? A Ilíada.
Sim, mas é um livro bárbaro, de alguma maneira. Isso também é interessante. É um longo poema de guerra e sobre a devastação da guerra. É muito inquietante pensar que esse é o livro fundador da nossa identidade partilhada. E ao mesmo tempo é outro mundo. Tudo aquilo que tu queiras pensar sobre o que é uma vida, talvez possa ser encontrado na Ilíada de uma maneira muito intensa. Isso é muito belo, isso também existe.
O que é que há na Ilíada de Homero, que possa ser transportado para os dias de hoje?
Tanta coisa. A relação, por exemplo, para já a relação entre pais e filhos é um poema, em certo sentido, antes de Freud, um pouco freudiano. É um poema sobre a devastação da guerra, sobre a ideia de que não há nada para ser ganhado com a violência. Ao mesmo tempo, é um poema que fala muito claramente do fascínio da violência, que é uma violência diferente da nossa. É um poema sobre famílias, sobre paixões devastadoras. O que é que não há para aprender com a Ilíada? É um manual de maus costumes, João.
Um manual de maus costumes. Há muita coisa fascinante em torno da Ilíada. Uma que eu não sabia de todo é que Homero pode até nem ter existido, não é? A pessoa.
Isso é verdade e pensamos que não, quase certeza que não A dúvida que fica é: foram vários e houve algum que em algum momento, provavelmente no século VI a.C., se sentou algures, provavelmente em Atenas, e no fim da tradição, quando ela já tinha morrido e já não havia ninguém capaz de cantar de memória, porque aquilo eram poemas orais, um poema tão longo, se sentou e apontou, ou eram muitos e alguém, em algum ponto, ou todos, coseram o poema juntos e aquilo tem coerência. Eu sou daquelas pessoas que acha que não, que há uma mão que tem uma visão coerente, e não é a coerência da linguagem. Aqui há uns anos, na década de 30, houve dois indivíduos, um que se chamava Milman Parry e outro que se chamava Albert Lord, que era um dos professores americanos que vieram à Europa. Eles foram à Sérvia e gravaram um poeta que ainda conseguia cantar um poema da extensão da "Odisseia". Na década de 30, havia ainda uma destas figuras que está ainda na geografia do mundo, que tem uma influência grega, que conseguia ainda compor um poema destes de memória, e era alguém analfabeto e não o deixavam carregar armas também, porque ele tinha uma pistola e não permitiam. Além de não saber escrever, não lhe permitiam andar armado de pistola. Eram duas coisas que ele não podia fazer. Mas era alguém que tinha ainda essa memória prodigiosa, que entretanto desapareceu. Isso hoje em dia já não existe. Mas estes dois tipos tentaram replicar as condições e tentar contar a história de como é que um poema tão longo podia ter sido feito, e cantado de memória e guardado na memória, porque ele é muito anterior à escrita. Portanto, imagina que tu tens de ter tido durante séculos uma série de tipos que aprenderam a cantar isto e que guardaram isto porque não tinham como registrar e não queriam que a memória destas figuras morresse.
É fantástico.
Isso é muito comovente.
Portanto, é um livro ao qual tens dedicado grande parte do teu tempo. Foi sobre a "Ilíada" o teu doutoramento. És escritora, também és poetisa. Tatiana, o que te inspira para escrever?
Isso é uma pergunta muito difícil, João. A inspiração, de onde é que ela vem?
Ou não vem de lado nenhum. É uma resposta válida também. Não eras uma poetisa repentista?
Já fui, já deixei de ser.
Já?
Já. E senti que isso era uma coisa reacionária.
Como assim?
Reacionária no sentido da reação.
Não no sentido político.
Não, não no sentido político.
No sentido comportamental, é isso?
É, no sentido comportamental. E passei a esperar mais tempo. Eu dependo muito da memória para escrever e dependo muito, em certo sentido, da memória visual. Pode-me levar muito.
Como assim?
Um pouco como na "Ilíada". As pessoas pensavam que o Homero era um poeta cego, no entanto, as descrições das coisas são eminentemente visuais, aquilo é quase cinema. De alguma maneira. Mas o que eu quero dizer com isto é que eu dependo da observação de certas coisas e de conviver durante algum tempo, durante cada vez mais tempo, com a observação dessas coisas. Eu sou daquelas pessoas que eu acho que só me sento para escrever quando sinto, de facto, uma profunda necessidade de fazer isso. Depois é sustentada, é uma coisa que tem uma oficina, que pede trabalho, mas tem de ser uma coisa que me tenho de perseguir durante algum tempo. Tem de me assombrar para eu sentir que vale a pena escrever sobre isso. Isso, aliás, nota-se nos poemas que são bastante longos. Mas sim, acho que é daí que vem a inspiração, João.
Ok. Tens já vários livros, cinco livros. O "Lugano", editado em 2011, "São Luís dos Portugueses em Chamas e Outros Textos", em 2016, também em 2016, o "Back Across the Barrier of the Teeth". É a tua tese, na verdade. Esse não conta. "Um Quarto em Atenas", de 2018, e o "Leopardo e Abstração", de 2020. Não tens escrito depois, não é? Falta um, diz.
Faltam-te vários, porque são sete livros. Espera aí, deixa cá ver se eu consigo.
O último é de quando?
O último é deste ano, é o "Recurso e Pobreza", saiu em 2025. Antes do "Recurso e Pobreza", saiu o "Adriano" em 2022 ou 2023. Antes do "Adriano", saiu o "Leopardo e Abstração". Há um livro de contos que é pouco conhecido, só existem 80 cópias, que é o "São Luís dos Portugueses em Chamas". E entre o "Lugano" e "Um Quarto em Atenas", há um livro que se chama "Teatro de Rua", também que teve uma circulação pequena, mas é, na verdade, um dos livros que eu escrevi de que mais gosto. Foi feito por uma pequena editora de Coimbra, que é o Do Lado Esquerdo, e é o último livro que eu escrevi em parte em Portugal. É esse livro que saiu em 2013.
2013, ok. Daí para frente, todos os teus livros foram escritos no Reino Unido.
Ou por aí, por onde calhou.
Por onde calhou.
O "Adriano" foi um livro quase todo escrito em Atenas. É o outro livro estrangeiro.
É uma cidade a que tu regressas muitas vezes.
Sim, é uma cidade onde sinto vontade de voltar. Todos os escritores precisam de uma comunidade. Tu não escreves na solidão. A tua primeira comunidade são os livros que lês e depois as pessoas que tu à medida que escreves, vais descobrindo que escrevem e com quem tens afinidade ou não, ou que te causam alguma coisa. Uma parte da minha comunidade escrita está em Atenas. São poetas gregos, são escritores gregos e são muito importantes para mim. E é um acaso. Mas escritores são mais ou menos todos iguais. Só muda a língua.
E Portugal, Tatiana, não te inspira para escrever?
Não, Portugal é muito importante.
É?
E aliás, houve um ponto em que deixou de ser importante, em que eu estive algum tempo em que não voltei, em que ia pouco, em que talvez tenha perdido a minha comunidade por aí. Mas depois passou-me essa melancolia de perder as raízes. Isso acontece, e é muito importante. Tenho outra comunidade aí, tenho, portanto, várias comunidades em vários países. Isso pode acontecer. Ainda é possível ser cosmopolita, eventualmente.
Mas tu ainda tens ligação, ainda tens raízes em Portugal, Tatiana?
Sim, claro que sim. Com raízes queres dizer família, amigos? Sim. E tenho esse projeto, que está mais ou menos parado, mas não vai morrer nunca, que é a Enfermaria, que é um projeto que eu mantenho com alguns amigos.
A editora de livros, não é?
Nós não editamos há bastante tempo. E mantemos o site. Eu penso que o nosso último livro talvez tenha sido um livro sobre cinema do Fernando Guerreiro.
"A Cadeira do Fantasma", será?
Será. Eu acho que nós fizemos ainda outro livro dele depois disso. Não tenho a certeza, mas o último é dele e é uma boa maneira de acabar, porque é um grande escritor. Mas mantemos o blog vivo.
O enfermaria6.
É, sim.
Muito bem. Estamos à conversa com Tatiana Faia, escritora, poetisa, professora numa escola em Oxford, no Reino Unido. Tatiana, tu acompanhas o que se passa em Portugal?
Sim.
Com regularidade?
Com regularidade, com alguns cortes pelo meio, às vezes. Há coisas que eu entendo que não percebo tão bem o que se está a passar, como se vivesse.
O que tu lês sobre Portugal que não interpretas bem?
O que eu leio sobre Portugal que não interpreto bem? Queres falar das notícias?
Por exemplo.
Por exemplo, há coisas mais básicas, mais óbvias. Toda a gente usa aí uma coisa que se chama MB...
MB Way.
MB Way. Eu não faço a mínima ideia do que isso é. Não entendo. Sempre que vou jantar com os meus amigos, eles agarram-se todos ao MB Way. Eu não sei o que é isso, qual é a vantagem disso em relação ao Apple Pay. Mas percebo que é uma parte central da-
Da nossa vida económica.
Exato.
Pronto, eu estava à espera de coisas assim profundas, grandes leituras sobre o país e a Tatiana: "MB Way". É desconcertante.
Mas a literatura eu acompanho, eu acompanho o que se escreve, eu leio as pessoas que estão a escrever agora. Eu acho que tenho uma boa ideia do que está a acontecer em termos literários. Em termos políticos, também. Eu subscrevo os jornais, eu leio-os.
Ah, ok. Portanto, manténs ligação permanente a Portugal.
Sim. Não me parece possível viver de outra maneira.
Pois. Podias estar completamente mergulhada na vida inglesa e ter virado costas ao país. É perfeitamente normal, não é?
Sim, por acaso eu estou a pensar os outros imigrantes que eu conheço também. Eles também vivem muito Portugal, não cortam as ligações. Eu não tenho passaporte inglês, podia ter. É já há muito tempo a viver lá. Também não sinto que não seja parte da vida inglesa. Só nunca tinha pensado nisso, mas não me parece que virar. Portugal é um lugar interessante, é um país bom, apesar de tudo.
Apesar de tudo. Apesar do quê, Tatiana?
Apesar da configuração. Para já, tornou-se na última década um país extraordinariamente desigual. Tens pessoas que têm salários baixíssimos, tens pessoas que não podem viver na capital. Eu gostava de escrever um texto sobre isso, por acaso, sobre os Airbnbs em que fui ficando ao longo dos anos em Lisboa.
Sim.
Porque tu sentes, não sei se tu tens essa perceção ou não, que é uma cidade que tem o centro vazio.
Sim.
São prédios e prédios onde ou não vive ninguém, ou vivem os turistas.
É um fenómeno que está a acontecer um pouco por toda a Europa. Há muitas cidades assim. Ou seja, não é um exclusivo português, ou um exclusivo lisboeta.
Mas em Lisboa é muito, João, é muito agressivo. Atenas, por exemplo, é uma cidade que tem décadas de turismo e há obviamente uma gentrificação e há também uma monopolização pelo Airbnb, que leva à subida das rendas. E apesar de eles terem o mercado imobiliário quase tão desregulado como o nosso, há uma resistência. Ainda é possível viver no centro de Atenas. Para muita gente em Portugal não é.
Não é.
Isso é muito óbvio.
Mas dizias que gostarias de escrever um texto sobre os Airbnbs por onde passaste em Lisboa, é isso?
Sim.
Para nos contar o quê?
Não sei, há uma perspectiva de turista que vocês talvez não tenham.
Uhum.
Como é viver como turista em Lisboa. Mas eu tenho esse privilégio. Aliás, é um privilégio que me entristece. Eu acabei esta semana de ler um livro que foi bastante popular ano passado, que é aquele livro do Vincenzo Latronico, que não sei se tu ouviste falar, que é "As Perfeições". Que é um destes nômades digitais que tentou viver em Lisboa com a namorada e não correu bem, porque eles sentiram que Lisboa estava demasiado turistificada para eles.
Uhum.
Sendo que eles viviam como nômades digitais em Berlim, e a descrição da vida deles em Berlim é a descrição de turistas que vivem demasiado tempo numa cidade, mas que nunca se integram socialmente, nunca se tornam parte da vida social da cidade. Não pagam impostos, como a maior parte daquilo que tu vês na gentrificação de Lisboa acontecer. Não falam a língua, não entendem a cultura e não querem ver a cultura também. Se tu entrares em boa parte dos cafés de Lisboa, tu entendes isso muito rapidamente. Não é muito diferente de entrar num café em Londres ou em Copenhaga. Quer dizer, tens pontos de resistência, tens sítios onde isso não aconteceu.
Uhum.
Mas sentes muito a diferença.
O livro chama-se "As Perfeições", não é?
É talvez uma mudança que seria inevitável.
Uhum. Consideras que era inevitável?
Parece-me.
"As Perfeições". É o do Vincenzo Latronico. É isso? "As Perfeições". Chama-se "As Perfeições".
O que eu quero dizer é que algum nível de mudança e de mobilidade cultural eu acho que sim, que era inevitável. E eu acho que até certo ponto houve um bom equilíbrio, que foi bom pra nossa economia.
Sim.
E depois destruiu-se uma cidade. Isso parece-me que aconteceu. Não sei se tens essa percepção. Pode ser discutível, mas acho que sim. Acho que isso aconteceu. Lisboa mudou muito, de uma maneira muito agressiva.
Agressiva. Olha, e o que tu notas de diferente do Portugal que tu deixaste há 14 anos e o Portugal de hoje, Tatiana?
É muito mais cosmopolita.
É?
É muito mais turístico. Eu quando saí de Lisboa, Lisboa era a capital de um país e era o centro administrativo de um país, era uma cidade onde as pessoas trabalhavam, tinham vários empregos, estava economicamente completamente estagnada. Eu fui embora em 2012, que é o auge da crise pra nós. E agora tu tens uma cidade cuja vida econômica, pelo menos, não cultural, mas cultural também parece que sim, é completamente monopolizada pelo turismo. Eu acho que não existe quase mais nada. Isso parece-me óbvio. Pode ser a minha percepção e pode ser muito parcial, eu não vivo aí diariamente.
Uhum.
Isso precisava de algum controle. Explica outras coisas, explica a enorme desigualdade social, explica parte daquilo que se chamaria, como é que isso se diz em português?
Diz em inglês.
Disposable income. Como é que isso se diz?
Rendimento disponível.
Mais do que o rendimento disponível, é aquele rendimento que tu podes dispor pra te divertires.
Uhum.
É essa a ideia. Em Lisboa, os preços das rendas subiram tanto que para boa parte das famílias deixa de existir.
A maior parte das pessoas sobrevive, não é? É isso que tu sentes quando vens cá.
Os portugueses?
Sim.
Até certo ponto, sim. E gente com salários confortáveis. Mas sim, os salários em Portugal são baixos, isso definitivamente é parte da realidade. Tu tens gente altamente qualificada que não recebe um salário que reconheça minimamente aquilo que eles fazem, o trabalho que essas pessoas fazem. Isso parece muito óbvio.
Pois.
Os professores, os enfermeiros, os condutores dos autocarros, as pessoas que limpam os prédios, que trabalham nos cafés. Isso é muito óbvio.
É um facto. Olha, Tatiana, tu vives no Reino Unido há 14 anos. Presumo que te dês com outros portugueses também. Como é a comunidade portuguesa onde tu estás inserida?
Não estou, por acaso.
Ah, não estás? Ok, pronto. Não, como há pouco falavas dos portugueses daí do Reino Unido, achei que estivesses integrada.
Na comunidade das portuguesas em Oxford, na verdade, muito pouco. Mais com os gregos, talvez, do que com os portugueses. O que me queres perguntar ao certo acerca da comunidade das portuguesas?
Juntam?
Juntam, sim.
Sim.
Isso acontecia muito no princípio.
Uhum.
Boa parte daquilo que era a minha comunidade portuguesa foi-se embora com o Brexit. Deixaram Oxford, não ficaram. Era gente que por uma razão ou outra sentiu que podia sair. Boa parte voltaram. Voltaram em parte pelo lado positivo daquilo que foi a recuperação econômica em Portugal. Essa descoberta de Portugal enquanto sítio de turismo abriu oportunidades de negócio pra pessoas que tinham emigrado e puderam voltar.
Uhum.
É uma comunidade engraçada a dos portugueses, mas eu acho que é uma imigração diferente daquela que-
A do passado, não é? Agora são os portugueses qualificados, com estudos.
Sim. Isso é a herança da democracia, o acesso à educação. Mas tens também a outra, a outra também ainda existe e é engraçado de ver. São os portugueses dos cafés, dos sítios onde podes ir comprar Sagres quando tens nostalgia de beber cerveja portuguesa. Isso também existe.
A ti dá-te essa nostalgia de vez em quando ou não, Tatiana?
Não, essa nostalgia às vezes atropela-me é diferente.
Ah, é? Então.
Há uns anos entrei num café em Londres, num dia de chuva, em que tinha de renovar o cartão de cidadão, tinha ido ao consulado, qualquer coisa assim. Entrei num café que tinha na montra pastéis de nata, mas não me pareceu ser um café português, pareceu-me ser um café chinês. Havia uma decoração chinesa. Mas lá dentro estava um português, de facto, um português de gema, madeirense, casado com uma chinesa, que me vendeu um pastel de nata e me explicou como tinha estado, eu não me lembro se era na Escócia, se na Irlanda, a explicar aos irlandeses como fazer uísque, porque aquilo era como se fazia à bronca, não era como eles faziam. Portanto, os portugueses atropelam mais do que outra coisa qualquer. Sim.
Muito bem. Como é a vida em Oxford? Como é viver nessa cidade histórica do Reino Unido? Muito ligada à universidade. É uma cidade jovem, tem muitos jovens, Tatiana?
João, sim, tem necessariamente muitos jovens.
Muitos jovens, claro.
É uma cidade jovem, dinâmica, é também uma cidade muito velha, também há esse lado, porque é uma cidade conservadora. Tem mais vida do que Cambridge, eu conheço um pouco as duas, mas Oxford tem indústria, tem um grande clube de futebol importante, que é o Oxford United, que é um clube que está não sei se na segunda, se na terceira divisão. Mas que é seguido com fervor pelos habitantes da cidade. É uma coisa importante, os ingleses valorizam o futebol local. É uma cidade fascinante, de alguma maneira.
Sim.
Porque tantas coisas diferentes coexistem. É uma cidade do mundo. No entanto, tem também um lado provinciano, que também é engraçado. Sim.
Como assim? É uma cidade do mundo porque recebe gente de todo o mundo para estudar na universidade. Tem um lado provinciano. Como assim, provinciano?
Porque é uma cidade muito pequena. É uma cidade mais ou menos do tamanho de Coimbra, talvez.
Ok.
Talvez um pouco maior, mas não muito. A história de Oxford enquanto cidade cosmopolita é muito recente. É a história de como a cidade recebeu tantos refugiados durante a Segunda Guerra. E como eles absorveram uma espécie de êxodo de académicos muito importantes que estavam dispersos pela Europa e que estavam a ser perseguidos, os judeus e outros. A história de Oxford enquanto cidade académica cosmopolita vem daí, porque antes era uma cidade academicamente muito fechada, muito inglesa. E ainda hoje em dia as duas coisas existem.
Ok. É uma cidade onde a tradição ou o peso da tradição se impõe no quotidiano?
Depende da onda onde tu estás. Depende, como é que eu hei de dizer isto? Depende. Como é que é a palavra? Wavelength. Depende do comprimento de onda onde tu estás a viver. Se tu és alguém, por exemplo, vive na universidade, se tu trabalhas na universidade ou se estás a estudar na universidade, a expressão tradição académica não é aquilo que nós associamos em Portugal à tradição académica, é outra coisa. É mesmo uma tradição de investigação muito longa e de debate intelectual muito longo.
Centrada no saber e no conhecimento, é isso?
Sim, e muito competitiva desse ponto de vista, porque a universidade tem instituições. Essa coisa que são os colleges, que competem entre eles. Por diferentes tradições, por diferentes disciplinas académicas. Tens colleges que são conhecidos por ensinarem muito bem certas coisas. É esse tipo de tradição. Ao mesmo tempo é muito fechada desse ponto de vista, pode ser muito fechada. Tem os seus códigos próprios, é uma universidade muito elitista, onde é muito difícil entrar, onde cada vez menos entram alunos de escolas públicas, onde é muito caro estudar, isto é, de escolas públicas no nosso sentido. A cidade, por outro lado, tem também uma vida fascinante. O mundo do trabalho tem uma série de grandes editoras que estão à volta de Oxford, escritórios editoriais. Tens uma indústria de engenharia enorme e também bastante interessante. É uma cidade que por algum motivo está cheia de Minis e BMWs, porque tu tens fábricas desses carros. E, portanto, os carros vendem-se na cidade e circulam. E ao mesmo tempo é uma cidade muito antiga. Sim, isso é engraçado.
E é a cidade dos Radiohead
É verdade. E eu conheço o pub onde ele vai.
Tu conheces quem?
O pub, o bar onde o Thom Yorke costuma parar, mas não vou dizer.
O vocalista dos Radiohead. Boa. E já o viste por lá ou não?
Sim, várias vezes, mas não vou te dizer qual é o pub pra não arruinar. Digo depois da conversa acabar.
Muito bem. Olha, Tatiana, regressar a Portugal está nos teus planos ou não?
Não, não me parece, João. Mas talvez nunca tenha partido, em certo sentido.
Mas fisicamente viver em Portugal é uma coisa que não te atrai agora. Nem agora, nem no futuro. É isso?
Não sei. Não é não atrair, eu sinto falta de Portugal. Agora, sou uma pessoa também que sou muito má a planear a minha vida. Há aquilo que eu posso fazer e há aquilo que eu não posso controlar.
Sim.
Eu não planeei viver em Oxford, não foi uma coisa em que eu tivesse pensado com muito cuidado, foi uma coisa que aconteceu. Mas não parece provável. Ao mesmo tempo, ter emigrado é uma coisa que enriqueceu a minha vida extraordinariamente. A Inglaterra é um país grande, é um país onde acontece muita coisa, que está no centro. Não há regresso, não me parece. Quer dizer, posso voltar, mas não me parece que regresse. A pessoa que partiu, não.
Já não volta. Muito bem.
Mas acho que qualquer imigrante pode dizer isso, João. Sim.
Muito bem. Tatiana, foi um gosto. Muito obrigado por esta conversa.
Obrigada eu, foi um prazer.
Tatiana Faia, convidada do "Filhos de Europa" desta semana. É um podcast da Rádio Observador em parceria com o Parlamento Europeu, onde conversamos com portugueses nascidos em 1986, o ano da adesão formal de Portugal à então CEE. Até a próxima.