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Luís Montenegro até pode nem ter grandes dores de cabeça com o orçamento do Estado, mas não é que surge aquela moinha que pode causar algum incômodo dentro do próprio PSD, ouvir recados de Cavaco Silva na semana em que o primeiro-ministro, ele próprio, decidiu homenageá-lo e ainda ver Passos Coelho à espreita. Fica para a jogada da semana, na segunda parte. Estamos fora do baralho com os quatro ases do costume: Susana Peralta, Luís Aguiar-Conraria, Jorge Fernandes e Nuno Garoupa. Nesta primeira parte, lançamos cartas para as eleições locais nos Estados Unidos, para os estudantes ucranianos em Portugal, refugiados da guerra, que perderam o estatuto legal, também para o ministro da Reforma do Estado, a propósito da contratação pública e para a Justiça. E é mesmo pela Justiça que começamos. Luís, tens uma carta de paus a propósito de dois processos. O processo da Operação Marquês, José Sócrates ficou sem advogado esta semana, e a Operação Influencer, dois anos depois, há três arguidos que nunca foram ouvidos e até e-mails por abrir.
É paus ou espadas, porque não temos uma carta de choro. Aqui o que precisava era de chorar. Ou então o contrário, rir pra não chorar. Acho que temos aqui dois casos que mostram o estado lamentável em que está a nossa Justiça e de certa forma, faces diferentes do estado em que está a nossa Justiça, num caso prejudicando e noutro caso beneficiando os suspeitos ou pelo menos os investigados. O caso Sócrates, foi tão óbvio, ou é tão óbvia esta manobra dilatória de deixar de ter advogado com base numa desculpa, que é um esfarrapo de desculpa, para obviamente poder pedir adiamentos pra os novos advogados poderem consultar processos, para depois poder fazer queixa no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, porque não lhe foi assegurada a defesa, porque obviamente lhe foi entregue um advogado oficioso que ele não quer e, portanto, vai querer substituir por um novo advogado. Tudo isto é simplesmente uma preparação para futuras queixas de José Sócrates. E realmente é lamentável termos um antigo primeiro-ministro com esse tipo de manobras e termos advogados a fazerem de forma tão óbvia esse tipo de manobras, e sabemos que a Ordem dos Advogados não vai fazer absolutamente nada, mostrando que é uma organização corporativa que pra nada serve, a não ser pra proteger os seus, neste caso, os seus advogados, os seus sócios. O outro caso que é interessante.
Operação Influencer. Sim.
O outro caso que me chamou a atenção esta semana foi até um tweet do João Galamba, em que ele tem toda a razão. Ele pega numa primeira página do jornal Sol, onde se mostra o governo a anunciar e com grande alegria, o maior investimento de sempre, que é aquele investimento, o projeto Start Campus, que é exatamente o caso e o investimento que levou à constituição.
Que despoletou esta investigação.
Que despoletou a investigação, que despoletou a queda do governo. Nós sabemos que o João Galamba esteve vários anos sob escuta e ao fim destes dois anos, desde que o caso rebentou, que não há desenvolvimentos, quer dizer, há arguidos que ainda não foram ouvidos. E na verdade, temos o governo a celebrar o maior investimento sempre numa empresa que está a ser investigada nesse âmbito. Eu não sei, isto é o descrédito total da Justiça. O governo da República pode celebrar um grande investimento, quando esse grande investimento supostamente está sob investigação judicial. Portanto, isto é mesmo o sintoma de que ninguém liga às investigações da Justiça. É o descrédito completo.
Vou só deixar aqui uma nota, o procurador-geral da República, Amadeu Guerra, diz que há um recurso no Tribunal da Relação que está a justificar esta questão dos arguidos não continuarem a ser ouvidos e esses e-mails ainda não terem sido lidos. Vamos para a próxima carta de ouros. Nuno Garoupa, à boleia de uma entrevista do ministro Gonçalo Saraiva Matias, o governo tem a ideia de simplificar e agilizar os procedimentos pré-contratuais e reduzir o controle prévio do Tribunal de Contas. O que te apoquenta ou não nesta entrevista do ministro da Reforma do Estado?
Eu quero começar pelo lado positivo, por isso é uma carta de ouros e na verdade é uma carta de ouros a duas intervenções do ministro. Uma delas, como já disseste, na verdade, à boleia de várias entrevistas que foram feitas nestas últimas semanas e que culminou na audição parlamentar no princípio desta semana, onde diz, e na minha opinião, corretamente, que o sistema português tem excesso de controle prévio e tem falta de controle a posteriori. Portanto, nós deveríamos ter um sistema mais eficiente, com menos controle prévio e com mais controle a posteriori. E depois tirou ilações sobre a burocracia que isso representa no Tribunal de Contas, coisa que a presidente do Tribunal de Contas não gostou e respondeu. Isso foi uma intervenção. A outra intervenção, ligeiramente a seguir, e vou citar as palavras, que é: a justiça administrativa e tributária é uma vergonha nacional. O Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais não gostou e também respondeu criticando o ministro, mas no fundo, com o velho mantra de que faltam são recursos. Ora bem As duas intervenções merecem ouros. Qual é o problema? É quando se põe as duas intervenções juntas, porque o que estamos a dizer? Estamos a dizer que queremos passar de controle prévio para controle posterior e que o controle posterior, passo a citar: "é uma vergonha nacional." Ora, se o controle posterior é uma vergonha nacional, como é que nós vamos abolir o controle prévio? Significa isso que não estamos a escolher entre controle prévio e controle posterior, estamos a escolher entre controle prévio e não há controle. Eu bem sei a resposta da AD. É que há 18 meses que está em curso a maior reforma e a mais exigente reforma dos tribunais, há 18 meses que está em curso a mais exigente reforma do contencioso tributário, há 18 meses que está em curso a mais exigente reforma do contencioso administrativo e há 18 meses que está em curso a mais exigente reforma do Ministério Público e da Estratégia Nacional contra a Corrupção. Só que essas exigentíssimas estratégias e reformas nem ao papel chegaram. Nós ainda não vimos o papel, quanto mais passar à prática. Portanto, a prudência diria que daqui a cinco anos, se estas reformas produzirem esses resultados enormes que a AD promete, e portanto, a justiça administrativa e tributária já não é uma vergonha nacional e a justiça penal já não é uma vergonha nacional, então podemos fazer esta reforma. Parece-me que fazer esta reforma agora tem um problema, é que depois têm que ouvir, e passo a citar também do líder da oposição, André Ventura: "o fim do visto prévio, o Tribunal de Contas parece um bar aberto à corrupção." E infelizmente, é essa ideia que passa quando se diz que vamos fazer a reforma, eliminar o controle prévio, quando o controle posterior é uma vergonha nacional.
Tens aqui uma achega, Luís, sobre o visto prévio.
Eu não queria entrar na discussão política e na discussão politiquice, mas queria falar mesmo sobre o visto prévio. E na prática, desde que eu sou presidente de escola, já tive de lidar muito e intensamente com a contratação pública e para mim, tornou-se claro que o visto prévio é quase uma segurança que nós temos. As interpretações do código de contratação pública são tão intrincadas e a jurisprudência é tão complicada que muitas vezes ficamos sem saber o que fazer. Devemos seguir este procedimento ou aquele? E depois, na dúvida, os nossos serviços técnicos mandam sempre seguir o procedimento mais complicado, porque é exatamente aquele que nos garante que não teremos problemas com o Tribunal de Contas mais tarde. E portanto, o visto prévio é aquilo que nos permite correr alguns riscos no sentido de optar pelos procedimentos que não são os mais complicados e os que são os mais lógicos e mais adequados, porque precisamente como está sujeito a um visto prévio, nós temos a segurança de que mais tarde não iremos pagar as favas. E portanto, eu diria que a última coisa a fazer é reduzir o visto prévio, porque neste momento é o que dá racionalidade ao sistema. Mais tarde, se realmente conseguirem fazer um código fantástico e os problemas de jurisprudência e as interpretações deixarem de ser múltiplos e passarem a ser mais simples, então sim, poderemos abandonar o visto prévio ou dar-lhe menos importância.
Ficamos com esta análise de quem sente na pele estas questões, análise mais prática e também a análise política do Nuno Garoupa. Vamos para a próxima carta nesta primeira parte de Espadas, Susana, para a situação em que o Estado português está a deixar estudantes ucranianos refugiados da guerra que perderam o estatuto legal.
Sim, e parece que já desde meados de agosto que estas pessoas começaram a receber notificações a dizer que a proteção temporária que tinham direito, o estatuto ao qual tinham direito, já não tinha validade e portanto tinham que abandonar o país. Isto já vem desde meados de agosto. Eu julgo que foi o Público a primeira a dar a notícia já no dia 25 de outubro, portanto, já passaram praticamente duas semanas, na prática. E agora, finalmente, a AIMA vem dizer que talvez comece a dar autorizações de residência analisando caso a caso, porque aqui a questão é se há um estatuto que no fundo abarca todos os casos, porque são pessoas que vieram ao abrigo de acordos especiais de refugiados da guerra da Ucrânia, ou se agora a AIMA vai se pôr a analisar com a celeridade que lhe é conhecida, os casos individuais destes estudantes. Uma federação académica diz que há 45 estudantes neste caso, nesta situação. Aqui eu tenho aqui umas declarações da Reitoria da Universidade de Coimbra que fala de 37. 37 não é assim tão longe de 45. Estamos a falar de um número substancial de casos de pessoas que estão nesta situação. E eu gostava de destacar aqui as declarações do ministro Leitão Amar, que realmente são extraordinárias e que mostram uma total falta de sensibilidade e de noção da vida destas pessoas, e verdadeiramente da vida de qualquer cidadão que está num limbo burocrático num determinado momento da sua vida, para mais sendo pessoas que são imigrantes, que sem estatuto têm que se ir embora e cujo resultado é voltarem pra um país em guerra, e além disso com risco grande de perderem os anos que entretanto investiram, já há três anos de formação. E diz o ministro Leitão Amar que está a fazer tudo para garantir que não há uma disrupção no seu processo de permanência em Portugal. Ora, o que estas pessoas estão a viver desde agosto até agora, já lá vão dois meses e meio, três meses, não sei, já é disruptivo. Uma pessoa numa situação destas recebe uma carta a dizer que perdeu o estatuto e que vai ter que abandonar o país, está completamente em disrupção. E ainda hoje de manhã eu ouvi uma entrevista a um destes jovens estudantes de medicina a dizer que obviamente, não é, não consegue concentrar-se, não consegue ir às aulas. Estamos a falar de estudos, obviamente, com grande grau de exigência, fora o tempo que perdem. Esta pessoa contratou advogado, não sabemos com que dinheiro é que está a pagar este advogado e o ministro acha ainda que pode evitar a disrupção. Eu acho que a disrupção já não vamos evitar. Talvez tivesse: "Olha, ainda vamos a tempo de evitar a vergonha de começar a expulsar estas pessoas sem nenhuma razão aparente." São estudantes, é deixá-los. E já agora, parem lá de se queixar da falta de capital humano e não sei o quê. Eu sou cética desse discurso dos jovens que se vão embora, não acredito. Enfim, esses números são medidos com muita incerteza, mas neste caso temos pessoas de alto potencial de capital humano que querem ficar aqui e estamos a tratá-las mal.
Fica esta indignação aqui bem patente da Susana Peralta. Agora, a carta que falta nesta primeira parte de Copas, Jorge Fernandes, para as eleições locais nos Estados Unidos, têm merecido grande destaque, sobretudo a eleição do democrata imigrante governador de Nova Iorque, mas a tua análise vai mais além.
Sim. Olá a todos. Estes resultados devem ser olhados, na minha opinião, à luz da batalha existencial e a tensão que existe dentro do Partido Democrata, no fundo, sobre qual é a linha programática a adotar para o que resta da presidência de Trump. E no fundo, também, como começar a pensar nas primárias para a presidência. Isso começará dentro de um ano, mais ou menos, esse processo. Existe esta ala de mais extrema esquerda, no contexto americano, claro, da qual personagens como a AOC ou o Madani são protagonistas, e uma linha mais centrista. E apesar de ter havido um enorme hype midiático em torno deste novo presidente da Câmara de Nova Iorque, mas a verdade é que a linha centrista foi aquela que ganhou em toda a linha. Em primeiro lugar, em Nova Iorque, os resultados foram bastante eleitorais curtos. Pensando simplesmente nas duas eleições anteriores, os candidatos democratas tiveram, nas duas eleições, 67% dos votos. Desta vez, o candidato democrata teve 50% contra um adversário, Cuomo, que tem uma ficha de serviço em termos de escândalos sexuais, que é uma coisa extremamente assinalável. Portanto, apesar de tudo, não foi a avalanche eleitoral que eu vi celebrada por muitas pessoas nas redes sociais em Portugal.
Mas foi uma maioria absoluta e um imigrante. Chama-se já agora Zohran Mamdani.
Claro, é evidente que é uma maioria absoluta, mas em Nova Iorque não há propriamente eleições gerais nesse sentido. Em Nova Iorque há eleições primárias. Quem ganha a primária, à partida, tem a eleição garantida. Neste caso, até, por exemplo, os republicanos nem sequer foram a jogo. Portanto, na verdade, o ponto que eu quero fazer é que este candidato só teve 50% quando nas últimas duas eleições, Eric Adams e o Bill de Blasio, tiveram os dois 67%. A história já é um pouco diferente quando olhamos para as duas candidatas que se tornaram, uma foi reconduzida, uma foi eleita pela primeira vez, governadoras da Virgínia e de New Jersey. E aqui o que é que vimos? Duas candidatas muito centristas, ambas com currículos ligados inclusive à segurança, ao exército. Uma tinha saído na lista de segurança da CIA, e conseguiram fazer com que o eleitorado suburbano saísse de casa e conseguiram que o partido tivesse uma performance, um resultado eleitoral muito mais interessante e mais robusto do que nas eleições anteriores. E como eu gosto sempre de olhar para os dados em vez de fenômenos de redes sociais, que é o que eu acho que o Madani é, acho que rapidamente isso vai ficar perceptível. Eu prefiro os dados e tenho esperança que esta ala mais centrista consiga vencer. Não é vencer, simplesmente. É que não exista um momento suficiente dentro do Partido Democrata para que haja qualquer veleidade de que um candidato da área política mais à esquerda possa remotamente pensar ser candidato a presidente, porque aí seria uma catástrofe para o mundo, acima de tudo, porque um candidato desses nos Estados Unidos, em geral, não teria qualquer hipótese.
Dos Estados Unidos, vamos regressar a Portugal na jogada da semana, na segunda parte. Até já. Jogada da semana no Fora do Baralho, 40 anos do primeiro governo, uma homenagem, recados talvez inesperados e um artigo de opinião. O mesmo protagonista, Cavaco Silva, e um PSD a querer ser farol, mas com nuvens a pairar sobre Luís Montenegro. Susana Peralta, Luís Aguiar Conraria, Jorge Fernandes e Nuno Garoupa, aqui vamos nós para esta jogada da semana. Susana, vamos começar por ti. Ouvimos Cavaco Silva avisar, na homenagem que lhe foi feita por Luís Montenegro em São Bento, que os erros dos governos não podem ser escondidos. Estou aqui a citar. Viste aqui um recado pela situação em que se encontra a Ministra da Saúde?
Eu acho que toda a gente manda recados relativamente à situação em que se encontra a Ministra da Saúde. E eu devo dizer que eu não vi a cerimônia de homenagem aos 40 anos da tomada de posse de Cavaco Silva, mas daquilo que li, parece-me que ele, ao mencionar essa questão dos erros do governo que não podem ser escondidos, falou de uma famosa remodelação que fez de cinco ministros ao mesmo tempo, e de cinco ministros, pessoas até que lhe são bastante próximas, como por exemplo, a Leonor Beleza, nessa altura, nessa ocasião. E eu acho que é evidente. Eu tenho a minha opinião acerca do interesse destas intervenções do Cavaco e desta coisa que ele tem de ainda estar permanentemente a opinar e a querer ser uma espécie de bússola moral da República, que eu acho que ele não é, manifestamente. Houve erros que ele não assumiu. Gostava de recordar aqui o BPN e a Sociedade Lusa de Negócios e os alegados ganhos que Cavaco Silva terá feito a vender ações. Isso são erros que a mim me parecem bastante graves e que não tiveram esta dimensão de reconhecimento que ele agora pede. Ainda assim, eu acho que é evidente. Eu acho que a situação da Ministra da Saúde é perfeitamente insustentável. Já aqui falámos dela, acho que foi na semana passada, e portanto, parece-me evidente que Cavaco Silva mandou esse recado, porque começa a ser um pouco incompreensível como é que Luís Montenegro mantém, e os custos políticos que poderão advir para o próprio primeiro-ministro, de manter esta situação na saúde.
Vamos tentar analisar aqui também essa remodelação de que falavas de cinco ministros com o Jorge Fernandes, porque Cavaco Silva, o Jorge diz que lhe permitiu depois alcançar a maioria absoluta. E Luís Montenegro, que já se assumiu sacarneirista, esta semana foi cavaquista, dizendo que vê no antigo primeiro-ministro um farol, que ele também quer ser um farol. O atual chefe do governo tem sido mais parecido com Cavaco ou com António Costa?
Nem com um, nem com o outro. Acho que quem me ouviu durante os últimos anos do "Fora do Baralho", sabe que eu nunca fui propriamente meigo com António Costa, mas acho que colocar Luís Montenegro no mesmo patamar ou em comparação com Cavaco e António Costa, o António Costa sai claramente a perder. Luís Montenegro não tem a estatura política de nenhum dos dois. Eu lamento imenso, nem estatura política, nem estatura intelectual, nem sequer de ego. Luís Montenegro é um político de província que conseguiu subir dentro do aparelho do PSD e que a dada altura, ele nem sabe muito bem como, agora é primeiro-ministro.
Eu fiz a pergunta porque Luís Montenegro está também, como António Costa, a segurar a ministra da Saúde. António Costa também ficou muito conhecido por segurar os ministros até não poder mais. E além disso, estes governos de Montenegro têm sido marcados também por uma política de subsídios, de reposição de alguns rendimentos, como aconteceu com António Costa. Mas a tua análise está a ser mais aqui do ponto de vista de elite política, não é?
Sim, de elite política, sim, mas eu posso falar mais especificamente sobre isso. Vamos ver. Desde que Cavaco Silva foi o líder do PSD nos anos 80 e 90, que o PSD continuadamente procurou um novo Cavaco Silva. Todos os líderes querem sempre comparar-se com Cavaco Silva, porque o Cavaco Silva teve anos irrepetíveis sob o ponto de vista do sucesso eleitoral do partido, enormes maiorias absolutas. Comparar as vitórias eleitorais de Montenegro às vitórias eleitorais de Cavaco Silva. Cavaco Silva chegou a ter vitórias de três milhões de votos. Estamos a falar de ordens de magnitude completamente diferentes sob esse ponto de vista. Mas há sempre esta busca dentro do PSD do novo Cavaco Silva e Luís Montenegro, de resto, tem utilizado Cavaco Silva ao longo dos últimos anos retoricamente, acima de tudo, para se distanciar de Passos Coelho. Luís Montenegro, no fundo, é uma criação política no sentido do palco nacional, do momento do passismo. E a dada altura, quando começou a crescer e a afirmar-se como líder e a parecer ser possível chegar a primeiro-ministro, virou-se para Cavaco Silva, como ideia de: "Não, eu não sou nada Passos Coelho, mal conheço esse senhor, não é uma referência política pra mim. Pra mim a referência é a nível Cavaco Silva, como referência ética, moral e política." E portanto, sob esse ponto de vista, eu acho que esta ligação que Montenegro tenta forjar com Cavaco Silva é muito mais artificial do que aquilo que Montenegro acha, na verdade, até porque geracionalmente não tem nada a ver um com o outro. São pessoas que vêm de extratos políticos muito diferentes, Montenegro são de carreiras muito diferentes, idades muito diferentes. Portanto, sob esse ponto de vista, eu acho que Montenegro sempre tentou forçar a tecla de Cavaco Silva. Embora eu acho que Cavaco gosta de ser bajulado, claramente, como qualquer líder político. A política tem sempre uma dimensão de ego, naturalmente. Não é possível ninguém chegar a grandes lugares políticos sem ter uma ideia de si próprio muito aumentada, mas isso aplica-se a Cavaco como pra toda gente. E Cavaco ficou satisfeito por, nesta altura tão tardia da sua vida, e ele que não teve uma relação muito fácil, nem nunca muito boa com Passos Coelho, no fundo, ter sido ressuscitado por este líder novo no PSD, como a referência do PSD. Sob esse ponto de vista, digamos que há aqui uma certa ligação entre os dois, que é uma ligação fundamentalmente transacional. Cavaco Silva gosta de ser bajulado, gosta de ser apontado como uma referência moral e ética, e Luís Montenegro gosta da capa política que aparecer ou tentar aparecer como o delfim de Cavaco Silva lhe dá.
Creio que fica perceptível a tua ideia. Luís, ter aqui uma figura de peso como Cavaco Silva, e este peso é dado pelo próprio Luís Montenegro, com a pompa e circunstância com que assinalou os 40 anos de cavaquismo, ter Cavaco Silva e já agora, e o Jorge já estava aqui a falar também de Passos Coelho, a enviar recados, fragiliza essa imagem de reformador e de farol que Montenegro quer passar?
Não fragiliza essa imagem, porque obviamente que ele não tem essa imagem. Não dá pra fragilizar o que não existe. Então falar em farol.
Já utilizou várias vezes esta expressão, Luís Montenegro. Ou seja, é uma mensagem que quer fazer passar.
Eu não consigo comentar sequer, é tão absurdo que eu não consigo comentar. O Montenegro como um farol. Mas eu acho que é evidente, eu penso que há uma estratégia de Montenegro para aparecer tão ao lado de Cavaco Silva. Portanto, o Montenegro apercebeu-se, e aliás, o Jorge também salientou isso muitas vezes, que precisava de fazer a paz e de se reconciliar com os reformados. E portanto, foi buscar um reformado, que é o Cavaco Silva, que aliás, foi daqueles reformados que ficou muito prejudicado com as políticas da troika. Foi daqueles que se queixou do seu corte de pensões e, portanto, a forma de Montenegro chegar ao eleitorado dos reformados é aparecer com Cavaco Silva ao lado. "Ora vejam que está aqui uma pessoa a quem cortaram tanto a pensão que até me apoia." Portanto, eu penso que nesse aspecto fica
Fica relativamente assegurado. A parte de Passos Coelho é evidente que é um pouco mais assustador para Montenegro, porque apesar de Passos Coelho sistematicamente dizer que não tem ambições políticas, a verdade é que começa a aparecer tantas vezes que naturalmente nos questionamos sobre quais as suas reais motivações. E vendo o tipo de apoios que ele tem, que consegue claramente unir uma ala muito grande do PSD com o Chega, parece que há aqui uma ameaça a pairar no ar. Mas não sei. Eu acho sempre que esses regressos do passado são sempre muito difíceis, mas que podem servir como assombração, isso sim.
Nuno Garoupa, o que é que vai na cabeça de Pedro Passos Coelho? E já agora, esta herança cavaquista tem de servir inevitavelmente de barómetro e de guia para o PSD, seja com Luís Montenegro, seja com Passos Coelho eventualmente a regressar, ou o partido está demasiado preso a esse passado sem conseguir encontrar um caminho de futuro?
Eu acho que todos os partidos tentam, em todo momento, fazer uma ligação do líder que está, principalmente quando é primeiro-ministro, com os momentos heroicos e históricos do partido, e nessa forma de estar, os partidos fazem revisionismo histórico. O Partido Socialista, por exemplo, neste momento, parece que José Sócrates não existiu. E, portanto, foi apagado isso. Eu acho que o PSD está um pouco nessa fase, ou seja, há de fato uma tentativa de colagem a Cavaco Silva. Como disse o Jorge muito bem, estamos a falar de uma pessoa que não só enquanto presidente da República, mas enquanto candidato a primeiro-ministro, teve três milhões de votos, 50%, a que se somavam 5% do CDS. Luís Montenegro teve os piores resultados do PSD, 29% e 32% com o CDS. E, portanto, está muito longe de qualquer comparação com Cavaco Silva. Agora, há uma saudade desses tempos heroicos em que o PSD sozinho tinha 50% dos votos e portanto há um revisionismo de tudo isso. O outro ângulo, já toda a gente aqui focou, há uma tentativa de apagar Passos Coelho, isso é muito claro. Portanto, Montenegro hoje é cavaquista, é sacarneirista, não é passista. O passismo desapareceu, o passismo foi eliminado do baú das memórias do PSD. Se isso é consequência ou causa de Passos Coelho estar a enviar recados, não faço a mais pequena ideia, porque não estou na cabeça nem de um nem de outro. O que eu sei, e também aí o Jorge focou, é que não é gratuito que Montenegro passa a vida a usar Cavaco Silva como uma referência ética. É que Montenegro está pendente do que acontece neste momento no Ministério Público. Montenegro não é um primeiro-ministro livre. Montenegro é neste momento o primeiro-ministro a prazo, porque está à espera de saber se há ou não há inquérito, e se havendo inquérito, é ou não é arguido. E todos sabemos que se houver inquérito e for arguido, vai haver questões éticas muito graves na discussão e obviamente Passos Coelho terá toda a liberdade nessa altura para dizer o que entende.
Estarei a jogar já na antecipação, Passos Coelho?
Não só isso, estão a jogar os dois. É que Montenegro teme, e muito, o que Passos Coelho vai dizer quando Montenegro, se e quando for constituído arguido num inquérito sobre a Spin off Viva. E portanto, estamos todos a jogar por antecipação sobre uma questão que agora o PGR diz que é até ao Natal, mas também era até ao verão, e portanto entretanto já se passaram outros seis meses, e vamos aguardar e ver. O que é curioso, Luís Montenegro neste momento é que ele não tem maioria absoluta, é um governo minoritário por opção própria, é preciso sempre insistir, porque a AD diz que é vítima, não é. Foi a AD que quis governar sozinha, que não quis fazer nem pactos à direita, nem pactos à esquerda, decidiu este caminho. E agora o problema já não é o orçamento de Estado, o problema não é eleições antecipadas, o problema não é leis que não passam na Assembleia da República, o problema é Spin off Viva e o que é que o Ministério Público vai fazer. E, portanto, eu penso que os diferentes jogadores digamos assim, estão a preparar os cenários que vamos ver no final do ano, no Natal, se há ou não há inquérito, e havendo inquérito, se o primeiro-ministro é ou não é constituído arguido.
E se Jorge Fernandes, Passos Coelho vierem entrar em cena e se as coisas correrem mal para Luís Montenegro, ainda não sabemos, vamos ter de esperar, podemos à boleia de Passos Coelho, vir a ter o Chega no governo?
Se Passos Coelho decidir entrar em cena, temos que atualizar, no fundo, não são só previsões, tudo aquilo que nós pensamos sobre a configuração política eleitoral dos passes do centro-direita e direita, no fundo, tudo se reconfiguraria. E eu, apesar de tudo, sou um pouco mais hesitante, eu acho que Passos Coelho, não vejo condições neste momento para Passos Coelho chegar a uma liderança, eventualmente até chegar a primeiro-ministro. Inclusive, posso estar aqui a exagerar, mas eu acho que eventualmente Ventura já terá pensado que pode ter passado o ponto de não retorno. Isto é, Ventura pode já estar a sonhar com o momento em que já não precisa do PSD, mesmo que liderado por Passos Coelho, e em que o Chega já estará em condições para eventualmente fazer o que ele sonha, naturalmente, que é o sorpasso do PSD, e no fundo conseguir que o Chega numas próximas eleições consiga ganhar uma maioria relativa, digamos assim, ficar em primeiro lugar. O que não seria um cenário que eu excluiria liminarmente. Portanto, sob esse ponto de vista, eu acho que Mesmo dentro do PSD, eu não tenho a certeza se a vinda de Passos Coelho seria suficiente. Quer queiramos, quer não, a não ser num cenário em que Montenegro tivesse essa situação legal muito complicada, eu acho que apesar de tudo, Montenegro como primeiro-ministro, até pela gravitas que o próprio cargo lhe dá, naturalmente que tem o partido controlado. Não me parece que neste momento haja qualquer risco de haver um golpe de Estado dentro de um partido que está no poder e que tenha, apesar de tudo, um governo formado e a funcionar.
Voltando a Cavaco Silva, para além da homenagem e dos recados que deixou, também escreveu esta semana, esta sexta-feira, um artigo de opinião.
Vanessa, posso dizer uma coisa de Passos Coelho?
Sim, pode.
Exato, Passos Coelho. Esta semana, na sua entrevista na RTP, o André Ventura foi buscar duas grandes referências, dois grandes faróis. Os grandes faróis eram, por um lado, o general Ramalho Eanes, eu pergunto-me onde é que ele meteu na cabeça que o general Ramalho Eanes era de facto um bom exemplo para ele. Mas depois falou longamente acerca de Pedro Passos Coelho. Parece-me evidente que esse romance entre Pedro Passos Coelho e André Ventura está no ar e é das duas partes.
E este artigo de opinião, como estava aqui a referir, de Cavaco Silva no Observador sobre as presidenciais, declarou apoio a Luís Marques Mendes e disse que Gouveia e Melo na presidência com o almirante corre-se o risco de instabilidade. Acreditas, Luís, que este artigo de opinião de Cavaco Silva pode ter algum efeito junto do eleitorado de centro-direita, não tem qualquer influência ou pode até ser contraproducente?
Lamento pelo Cavaco Silva, que acho que ele realmente tem pena e acha-se muito importante, mas acho que não tem impacto absolutamente nenhum. O impacto da opinião dele é o voto dele.
E mais não disse.
É que não sei mesmo o que dizer. A opinião de Cavaco Silva não interessa para nada.
E Nuno, esta declaração de apoio a Marques Mendes também era previsível, certo?
Eu acho que é totalmente previsível e concordando com o Luís, eu acho que neste momento o problema de Marques Mendes, francamente, é que Marques Mendes vale nas sondagens 15 a 20%. A AD teve 32% nas legislativas, 35% nas autárquicas e Cavaco Silva teve 50% numas presidenciais. Marques Mendes está a anos-luz de tudo isto. Ele nem sequer faz o pleno da AD. Portanto, eu acho que Cavaco Silva, neste momento, arrisca-se a valer, de facto, o voto dele. Depois há aqui uma outra questão. Eu sei que não é Cavaco que começou isto, e reconheço que aí Cavaco não está a fazer nada que outros não tenham feito, mas acho muitíssimo negativo que ex-presidentes da República tenham intervenções públicas extremamente indelicadas, extremamente pouco próprias contra outros candidatos presidenciais. Uma vez mais, eu sei que não foi ele que começou isto. Mário Soares fez isso, Jorge Sampaio fez isso, e portanto, Cavaco Silva está a fazer isso e pressuponho que Marcelo Rebelo de Sousa vá fazer isso. Mas acho que é mau no nosso sistema político que os presidentes da República, uma vez retirados, tenham intervenções negativas, críticas a outros candidatos e a outras forças políticas. Acho que não lhes fica bem e não os coloca acima da politiquice, como deveriam estar acima da politiquice.
Luís.
Vanessa, desculpa. Eu acho que eu e o Garoupa estamos a desvalorizar o voto de Cavaco Silva. Ele vale um voto, mas as últimas eleições autárquicas mostram que um voto pode ser decisivo, como se vê aqui no desempate entre o Chega e a CDU para a eleição do segundo vereador. Portanto, não desvalorizando o voto de Cavaco, porque por um voto se ganha, por um voto se perde.
Mas isso significa que o processo eleitoral deve melhorar em Lisboa para que esse voto possa ser imediatamente contado e esclarecer quem é o novo presidente da República, não é? Espero não ficarmos à espera o Tribunal Constitucional.
Garoupa, mais ou menos. Termos estado duas semanas com o espectro de repetir as eleições em Lisboa foi divertido. E eu tenho pena que não tenha havido empate para assistir a uma repetição da votação.
É possível que não repitamos, mas ainda voltemos a falar tanto de Passos Coelho como de Cavaco Silva em próximas jogadas da semana. Temos só aqui uma nota final muito rápida, Jorge Fernandes, para a morte de um dos maiores nomes da música popular brasileira.
Sim, esta semana morreu o Lô Borges, que é um músico mineiro, que foi absolutamente determinante na criação do Clube da Esquina, que foi o movimento estético, depois da bossa nova, mais importante de música brasileira dos últimos 50 anos. Era aquilo que se costuma chamar o músico de músicos. Ele era muito pouco conhecido em Portugal. Eu acho que ele nunca tocou em Portugal, pelo menos em nome próprio, que eu saiba. E era um gênio absoluto. Basta dizer uma coisa, no seu último álbum em vida, Tom Jobim, que nunca gravava músicas de outros compositores, gravou uma música que Lô Borges tinha escrito aos 17 anos e portanto, é aqui que estamos, e o resto é história.
E que música é essa, já agora?
É o "Trem Azul".
Fica a sugestão para os nossos ouvintes ouvirem, passa a expressão. Voltamos a reunir os quatro ases à mesa de jogo na próxima sexta-feira, depois das 19h. Não se esqueça, há ainda a edição extra de resposta à perguntas dos ouvintes aos domingos. Esta semana é o Nuno Garoupa que tem essa tarefa. Fica disponível em podcast no domingo de manhã, passa na rádio por volta das 08h45. Eu sou a Vanessa Cruz, sempre fora do baralho. Bom fim de semana.