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Este é o Fora do Baralho especial ouvintes, em que os ases respondem às perguntas que são enviadas para foradobaralho@observador.pt e esta semana tenho comigo o Jorge Fernandes para responder a questões sobre comentadores, principalmente televisivos, que muito destaque têm na política nacional. Jorge, o nosso ouvinte Armando Fernandes aproveitou o regresso de Sebastião Bugalho ao comentário político fixo na CNN, onde já tinha estado, para lançar a seguinte pergunta: o que os ases acham sobre a presença de comentadores partidários nas televisões?
Antes de mais, agradecendo ao nosso ouvinte pela pergunta. Eu acho que um dos problemas da democracia portuguesa, de facto, é a relação muito pouco saudável que existe de transumância entre política e comentário, porque, em primeiro lugar, parece que agora ter um espaço de comentário se tornou uma condição absolutamente necessária, não suficiente, para que as pessoas consigam ter uma carreira bem-sucedida na política. Estou a pensar, por exemplo, no caso António José Seguro, que uns meses antes de anunciar a sua candidatura presidencial, foi ser comentador. Muito brevemente, mas foi. O Almirante agora é comentador. Marques Mendes era comentador. Isso é só para citar o exemplo das últimas presidenciais, em que todas as pessoas que estiveram envolvidas ao mais alto nível naquela contenda ou foram, ou imediatamente depois das eleições, tornaram-se comentadores. Por exemplo, Cotrim Figueiredo agora também é comentador. Portanto, há aqui um papel que torna tudo bastante obscuro, porque ninguém sabe exatamente como é que estas pessoas são escolhidas para comentadores. Isso é a primeira coisa. Depois, a segunda coisa, que para mim é o maior mistério de todos, é por que alguém, algum espectador, quereria ver um comentador como Marques Mendes ou Sebastião Bugalho, alguém claramente alinhado com o partido, seja ele que partido for. Atenção, quando eu digo isto, é seja ele que partido for. É uma coisa extraordinária. Eu já vivi em vários países e assisto à televisão em vários países, por exemplo, aqui em Espanha, e não há ninguém, nenhum comentador político que seja uma pessoa que esteja na política ativa. Não existe, simplesmente. Podem ir uma vez por mês dar uma entrevista ou de três em três meses, mas fundamentalmente os comentadores são pessoas que são jornalistas, acadêmicos, pessoas completamente que não estão, nem foram, nem nunca serão, à partida, pessoas que estarão no boletim de voto de uma maneira ou de outra. E depois eu não consigo entender qual é o apelo que isto tem para o espectador, o que um espectador espera de Sebastião Bugalho ou de Marques Mendes. Não são particularmente inteligentes, não fazem um comentário particularmente sofisticado. Quer dizer, vão estar ali simplesmente a ler a cartilha do governo e portanto, aquilo fundamentalmente devia ser um espaço que tinha aquela coisa que passava quando há o espaço de propaganda eleitoral na semana das eleições, a dizer que o espaço que se segue é da responsabilidade das autoridades intervenientes. E portanto, absolutamente não adiciona rigorosamente nada ao debate político, porque eles só vão dizer o que a cartilha diz, não se vão desviar do que o governo ou do que o partido a que pertencem dizem.
Mas distingue isso de um percurso como aquele que fez, por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa ou Luís Marques Mendes, que foram anos e anos comentadores antes das candidaturas à Presidência da República.
Apesar de tudo, distingo, porque o Marcelo Rebelo de Sousa começou nesta vida muito antes de os comentadores serem uma moda, ou alguma coisa que domina o espaço. Quer dizer, Marcelo Rebelo de Sousa anda nisto e vamos fazer a justiça. Eu sou muitas vezes crítico de Marcelo Rebelo de Sousa, mas Marcelo Rebelo de Sousa, em 75, escrevia no Expresso. Portanto, é uma pessoa que tem um percurso de intervenção política que já é muito antigo. E ele chegou a Presidente da República muitos anos depois, mas é uma pessoa que intervinha politicamente no espaço público, fundamentalmente desde que há democracia em Portugal. E portanto, apesar de tudo, isso é um bocadinho diferente. Marques Mendes é um híbrido, digamos assim. Agora, o que para mim é incompreensível é como é que alguém que está a exercer funções políticas no ativo, por exemplo, Sebastião Bugalho, e ao mesmo tempo é comentador. Quer dizer, o que se espera daquela pessoa? Aquela pessoa, naturalmente, vai defender o seu partido. E portanto, como existem n programas onde estão lá deputados, está o Pedro Pinto do Chega, está a Isabel Lopes do Livre. Aquilo é uma coisa completamente irrelevante, porque não traz rigorosamente nada. Aquilo simplesmente é: à tarde há debate no plenário, depois à noite eles vão debater pra televisão. E portanto, estão ao mesmo tempo a ser atores e a comentar os atores, o que é uma coisa extraordinária, é um paroxismo que eu não consigo entender. E isto é altamente pernicioso para a democracia portuguesa, porque os grupos de mídia conseguiram, de facto, ter uma capacidade de criar ou de fomentar estas elites. E, no fundo, havia uma coisa em ciência política chamada a escolha antes da escolha. Se alguém almejar ser presidente da República, se não tiver o beneplácito
Por audiências.
Se não tiver o beneplácito de um grupo de mídia que patrocina a sua carreira enquanto comentador ou comentadora, a probabilidade de conseguir sequer lançar uma candidatura remotamente vencedora é muito baixa. E portanto, isto preocupa-me, porque estamos a transferir o poder sobre escolher quem é que serão as pessoas que poderão eventualmente vir fazer parte da elite política para um grupo de pessoas, que são as pessoas que comandam os grupos de mídia, que nós nem sabemos exatamente quais são os seus motivos, as suas motivações. Ou então, se eu pensar nas motivações, seriam motivações que não seriam propriamente boas.
Deixa-me pegar nessa ideia para lançar aqui a outra pergunta também sobre este tema, que é da Filipa Rainho. E faz a seguinte questão: como é que os novos comentadores devem ser vistos, tendo em conta que não têm carreiras conhecidas e que muitas vezes aparecem do nada?
Há um grupo, de facto, de comentadores que apareceram em Portugal, que são patrocinados, ninguém sabe muito bem por quê. Estou a falar de pessoas como Adriana Cardoso, João Maria Jaunet, Maria Castelo Branco, um conjunto de pessoas que a única coisa aparentemente que as recomenda é serem novos, dizer: "Nós somos novos, nós representamos a nossa geração." Primeiro, ninguém os elegeu representantes de nenhuma geração, nem para falarem em nome de nada. Mas é interessante, porque as coisas, de facto, mudaram muito. Eu já sou velho o suficiente para me lembrar quando para ser comentador numa televisão ou num jornal, era preciso ter uma carreira. Uma carreira no sentido substantivo do termo, era preciso ter uma carreira e não era uma carreira curta. Quer dizer, era uma carreira com algumas provas dadas, ser um acadêmico, ser um jornalista tarimbado. Quer dizer, José Pacheco Pereira, para citar um exemplo, uma pessoa que faz comentário há muitos anos em Portugal, José Pacheco Pereira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, João Benardo da Costa, Maria Filomena Mónica. Estou a me lembrar aqui de uma série de pessoas que noutra geração, quem se lembra dos anos 80, 90 e mesmo dos anos 2000, eram pessoas que tinham, de facto, um peso e apareciam como comentadores regulares sobre assuntos sociais e políticos em Portugal. Mas eram tudo pessoas que tinham carreiras, quer dizer, doutoramentos, tinham carreiras acadêmicas e agora ninguém percebe exatamente muito bem o que é que estas pessoas fazem. Mais, estas pessoas tornaram-se comentadores profissionais. Eles vivem à base do comentário. Eu não sei exatamente qual é a profissão que eles têm ou se têm profissões, são profissões que eventualmente seriam aquilo, ou então estamos a formar aquilo que seriam os chamados facilitadores, digamos assim, pessoas que estão ali entre a política e o comentário, que frequentam os mesmos sítios, os mesmos ecossistemas de políticos, jornalistas, pessoas ligadas a empresas. E mais uma vez, nada disto é saudável, nada disto é bom para a sociedade e para a lisura da democracia portuguesa. Mas infelizmente, as televisões portuguesas, e eu acho que um dos motivos pelos quais isto sucedeu, e vou terminar aqui com isto, é que fazer comentário é barato. Quer dizer, em vez de porem duas ou três pessoas a fazer comentário, se tiverem que mandar um jornalista para ele estar durante cinco ou seis meses a fazer uma investigação, ou se tiverem que o mandar para a Ucrânia ou para Washington durante meses a fio e terem que arcar estes custos de fazer jornalismo no sentido mais puro e duro e mais nobre da palavra, isto sai caro, exige recursos. E pôr três ou quatro pessoas num estúdio a falar, muitas vezes coisas que nem sabem muito bem exatamente o que estão a falar horas a fio, é uma coisa que para as televisões é barato e, portanto, dá para conseguirmos fazer um produto com custos absolutamente mínimos. E isto é mais um sinal da crise da comunicação social em Portugal.
Este "Fora do Baralho" especial ouvintes fica por aqui. Para nos escrever, fazer perguntas ou deixar comentários para que os ases respondam, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Até para a semana.