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Este é o Fora do Baralho especial ouvintes, em que os ases respondem às perguntas que são enviadas para foradobaralho@observador.pt. E esta semana tenho comigo o Luís Aguiar-Conraria, que vai falar sobre educação, numa altura em que o país ainda tem de olhar para os maus resultados do PISA, que é o relatório que faz o retrato do desempenho dos alunos de cada país face aos padrões estabelecidos pela OCDE. Luís, o nosso ouvinte, Pedro Filipe de Sousa, fez-nos duas perguntas sobre este relatório, mas antes disso pedia-te só para nos explicares um pouco o que é este relatório e o que os resultados, que foram negativos para o país, significam.
Este relatório é um estudo internacional que junta várias dezenas de países, incluindo todos os da União Europeia e da OCDE, mas que vai além desses, e que pretende medir competências dos miúdos e miúdas de 15 anos em vários domínios. Portanto, não é propriamente uma avaliação dos programas de Matemática, não chega a pedir para resolver equações de segundo grau, que terão sido dados nuns países e não noutros, mas faz perguntas em que as pessoas têm de aplicar raciocínios que envolvem raciocínio matemático ou raciocínio de leitura ou de ciências. A bem dizer, tem um nome, que é metaliteracia. É a literacia matemática ou numérica, a literacia verbal e a literacia científica, podíamos lhe chamar assim. E como junta vários milhares de miúdos de cada país, todos mais ou menos com a mesma idade, permite comparar as competências que são adquiridas pelos jovens de 15 anos nos vários países. E isto costuma ser interpretado como uma proxy para a qualidade de ensino.
E o que o ouvinte, Pedro Filipe de Sousa, quer saber é quem é responsável por estes resultados na educação, neste caso específico, pelos maus resultados que saíram este ano.
Agora vou ser acusado de negacionista, mas acho que temos de pôr aqui alguma água na fervura, porque os resultados foram maus, mas não foram catastróficos para Portugal. Foram catastróficos para o conjunto dos países, não especialmente para Portugal. Para terem uma ideia, há 27 países na União Europeia, e Portugal classificou-se em 14º. Se calcularmos a média dos três testes, Portugal ficou em 14º, ou seja, há 13 países que tiveram resultados melhores do que nós e 13 países que tiveram piores resultados do que nós. Nós estamos exatamente na média.
Na medianita.
Somos o mediano. Somos o mediano puro. É daqueles casos em que até parece coincidência. Eu estava a olhar para estes números para preparar esta resposta e até fiquei admirado. Eu sabia que tinha ficado na média, não imaginei que fosse mesmo exatamente o 14º país de 27. Eu pergunto em quantas áreas de atividade é que Portugal está tão bem classificado, por comparação com os restantes países da União Europeia. Se calhar, no futebol e pouco mais. Estamos no mesmo nível da Alemanha, da Dinamarca, da Holanda, da França, da Eslováquia. Estamos acima da Espanha, estamos acima da Grécia e estamos abaixo de outros países como a Irlanda, como a Finlândia, como a Áustria. Esta é uma fotografia do que nós temos neste momento. Nós estamos absolutamente na média da União Europeia. Peço desculpa pelos meus cães, que se calhar não estão a gostar do que eu estou a dizer. Mas isso é um lado, e claro que não podemos ficar contentes com isto por dois motivos. Para já, porque não temos nada a ficar contentes com a média, não há nada que nos impeça de ser muito melhores do que a média. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto, e nisso nós acompanhamos os vários países, os últimos anos foram muito maus. Houve uma queda muito forte nos últimos anos. Nós caímos.
Há quem faça uma ligação disso à questão da pandemia.
Eu faço, eu sou daqueles que fazem essa ligação. Também faço a ligação às redes sociais, principalmente aquelas redes sociais que usam menos o nosso intelecto, a pensar em TikToks e Instagrams. Por exemplo, na altura dos blogs, quando os blogs entraram na moda, os blogs tinham uma vantagem, que obrigavam as pessoas a escrever muito. Eu até acho que os níveis de literacia terão aumentado bastante no mundo na altura dos blogs, que as pessoas, de facto, não eram habituadas a escrever e de repente habituaram-se a escrever e a ler. Mas depois as redes sociais evoluíram.
Que é o oposto, a questão dos reels, do imediato.
Que é o oposto. Agora a coisa parece ter evoluído no sentido contrário. Mas eu também queria dizer aqui uma coisa: nós caímos com a média da OCDE, mas se calhar caímos um pouco mais do que a média. Os nossos resultados são um pouco mais preocupantes. Nós neste momento estamos na média, mas se usássemos exatamente os mesmos países para comparação nos últimos 20 anos, vemos que caímos mais do que devíamos, aqui o devíamos entre aspas, do que devíamos ter caído. Eu faço ligação a essas coisas que tu dizes, e já agora antecipo a pergunta seguinte do ouvinte é: quem é o culpado? Porque esse é o lado que um bocado me assusta, que não é me assusta, mas que me obriga a rever um pouco aquilo que eu pensava Porque eu fui daqueles que mais se revoltaram contra as escolas fechadas. Aliás, em Portugal fui o primeiro colunista público, opinion maker, a criticar amargamente essa opção de fechar escolas e nunca mais abrir. Depois houve vários outros que se juntaram, o Daniel Oliveira, a Susana Peralta e muitos outros, mas eu de facto fui o primeiro. Portanto, eu aqui tenho uma autoridade de ter sido o primeiro a alertar que aquilo ia ser um desastre do ponto de vista educativo. E depois, nos anos seguintes, voltei a alertar para o desastre que era não haver uma aposta séria na recuperação de aprendizagens. Qual é a minha dificuldade na argumentação? A minha dificuldade argumentativa é que eu, na altura, tinha um país que era um modelo. Um país que se esforçou muito por manter as portas das escolas abertas, que foi a Dinamarca. Os nossos resultados agora são iguais aos da Dinamarca. A Dinamarca tem dois ou três pontos acima de nós, é uma coisa estatisticamente absolutamente não significativa, e a queda da Dinamarca foi maior do que em Portugal. Em Portugal, na leitura nós caímos 20 pontos, na Dinamarca foi 28. Na matemática, a queda foi semelhante e na leitura nós caímos 14, a Dinamarca caiu 28, portanto, a Dinamarca caiu o dobro, e nas ciências nós mantivemos e a Dinamarca caiu 16 pontos. Ou seja, aquilo que para mim era o culpado óbvio, que foi que nós não soubemos lidar com a pandemia e lidámos pior do que os outros e não soubemos depois recuperar as aprendizagens, na verdade, eu depois olho para os outros países e vejo o mesmo desastre. E outro país que era modelo, digamos que não é modelo, mas aquele que manteve as escolas abertas o tempo todo, se calhar as pessoas já não se lembram, mas agora que vou dizer vão se lembrar, que é a Suécia. A Suécia é aquele país que nunca fechou as escolas, nunca impôs máscaras às crianças e por aí fora. Foram zero semanas de escolas fechadas na Suécia, os resultados caíram mais na Suécia do que em Portugal. Portanto, eu com estes dados não consigo simplesmente lançar culpas. Não consigo lançar culpas. Nós temos de estudar isto com calma. Temos de fazer disto uma prioridade nacional, porque eu volto a dizer, para mim, a questão de estarmos na média é só para não errarmos no diagnóstico. Não tenho aqui nenhuma imagem de facilitismo, acho inadmissível estarmos na média, eu quero estar no top cinco. Economicamente não é possível estar no top cinco em 10 anos, porque a economia tem sua própria inércia. Em nível educacional, nada nos impede de estar no top cinco daqui a cinco ou 10 anos. Portanto, eu quero estar no top cinco.
Vamos ver onde é que vamos ficar nos próximos anos.
Portanto, acho que devemos fazer disto uma mobilização nacional para que os nossos resultados melhorem e melhorem muito. Agora temos de acertar com o diagnóstico e, para já, não estou contente com nenhuma explicação.
Muito obrigada, Luís. Este "Fora do Baralho" especial fica por aqui. Para nos escrever, fazer perguntas ou deixar comentários para que os ases respondam, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Eu sou a Inês André Figueiredo e pode sempre ouvir-nos na Rádio Observador e em podcast nas plataformas habituais.