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Uma saída a meio de uma crise. A Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, demitiu-se enquanto grande parte do país ainda está a viver as consequências do mau tempo, depois do vento e da chuva, agora sobretudo as cheias. A opção de o primeiro-ministro puxar a si a pasta, o perfil do sucessor ou sucessora, as mudanças na gestão política da catástrofe ficam para a jogada da semana, na segunda parte deste Fora do Baralho. Nesta primeira parte, os ases da análise política, Susana Peralta, Jorge Fernandes, Nuno Garoupa e Luís Aguiar Conraria têm outras cartas para outros temas. E vamos começar, Luís, logo com uma carta de espadas para o que consideras ser a incapacidade da Justiça portuguesa para lidar com José Sócrates.
Certo, e está-se a ver novamente agora com a nova troca de advogado. Agora José Sócrates chamou uma nova advogada, que naturalmente anunciou logo de início que pedia cinco meses para analisar o processo. A juíza já respondeu que não, que os advogados anteriores têm a obrigação de lhe passar a informação, mas é óbvio que ela recorre e vai insistir nisto e se for necessário vai mudar novamente. Eu acho que este caso José Sócrates está verdadeiramente a mostrar que, pelo menos quando falamos destes megaprocessos, é impossível chegar ao fim de um julgamento de alguém que tenha bastante dinheiro e que possa pagar os advogados que são necessários para todos os recursos que vai pondo e para poder ir despedindo de advogados e ir contratando outros. Isto mostra mesmo uma enorme incapacidade da Justiça portuguesa e começa a ser caricato chamar a isto de justiça. Aqui ficam as minhas espadas.
Espadas para a Justiça portuguesa. Não é, de resto, a primeira vez que há cartas negativas para a Justiça. Nuno Garoupa, tens também aqui espadas e paus. São logo duas cartas para o governo pelas nomeações recentes que fez, designadamente para a reforma do Estado. A reforma do Estado é uma bandeira deste segundo Executivo do Luís Montenegro. O que é que vês de errado nestas nomeações?
Olá a todos e precisamente o que eu quero pegar é nessa bandeira, porque repara, o problema, como tem sido colocado nas redes sociais e nos jornais, parece menos relevante, porque é evidente que este governo faz o que os governos anteriores fizeram. E ver agora o PS a criticar a AD por fazer isto, quando o PS fez o mesmo, e ver a AD que criticou o PS por fazer isto, fazer agora o mesmo, a hipocrisia dos dois lados, e até poderíamos dizer, começa a haver também uma certa hipocrisia do Chega, porque também começa a ter histórias destas a nível autárquico e critica os outros partidos. Do ponto de vista partidário, eu penso que é uma enorme hipocrisia quem critica e é uma enorme hipocrisia quem faz. Agora, qual é o problema? O problema é essencialmente isso mesmo. A reforma do Estado é uma bandeira do governo. E é uma bandeira do governo que todos nós, aqui neste programa e muitas das pessoas que nos estão a ouvir, queremos acreditar que é uma coisa a sério, que isto não é uma conversa só para encher jornais e televisões, que há algo sério a acontecer.
O ministro Gonçalo Saraiva Matias tem dito que é mesmo a sério.
Pois, mas é que começamos a passar um ano, resultados não há, portanto, pedem-nos uma confiança em promessas que não estão a resultar e depois quando se fazem estas nomeações, isso retira toda a credibilidade à reforma do Estado. Eu penso que esta nomeação em particular, como outras que ouvimos esta semana em matérias ambientais e de transição energética, como várias nomeações que têm sido feitas também nas últimas semanas na saúde, retiram completa credibilidade aos ministros e credibilidade às pseudorreformas. Do meu ponto de vista, a reforma do Estado acabou aqui. Só alguém que não quer ver o que está a acontecer é que acredita que vai haver uma reforma do Estado com base num conselho em que a pessoa que coordena não tem as mais competências técnicas para o fazer. Penso que é uma coisa muito triste e não percebo, sinceramente, como é que os ministros valorizam mais a lealdade ao partido do que encontrar gente com competência técnica para fazer estas reformas.
Luís, quase um ano depois, já deveria haver resultados mais evidentes desta reforma do Estado?
Desculpa, eu tinha isto em mudo.
Sim. Mas ouviste-me?
Ouvi. A pergunta eu ouvi. Demorei foi tempo a ligar isto. Eu confesso que sou cético. Eu quando penso na reforma do Estado, e agora que sou presidente de uma escola de uma universidade, neste caso a Escola de Economia, Gestão, Finanças e Ciência Política, e eu já trabalho na universidade há 20 ou 30 anos, já tenho muita experiência disto. E de facto, agora que estou como presidente, começo a perceber uma série de coisas no funcionamento da administração pública e, por exemplo, a questão da contratação pública e essas coisas, que de facto tornam impossível. Há um quadro legal e uma interpretação desse quadro legal que tornam verdadeiramente impossível ter uma administração pública que faça uma gestão eficaz e profissional dos seus serviços. Duvido muito que alguém que venha de fora da administração pública consiga perceber a extensão de todo o problema que é a dificuldade de gerir algo que tenha de obedecer às regras do nosso Estado e às regras da contratação pública. Portanto, eu sou um bocado descrente das qualificações do atual ministro para fazer isso. Acho que, de facto, não podia ser alguém do setor privado, tinha de ser alguém com forte experiência de administração pública e que, obviamente, imbuído de um enorme espírito reformista, conseguisse pegar nisto e tentar limpar grande parte do nosso código e também grande parte das interpretações que são feitas aos códigos de contratação pública. Portanto, eu sou muito cético e essas nomeações claro que não ajudam nada.
E tu, Jorge, irias tão longe quanto o Nuno Garoupa ao dizer que a reforma do Estado já acabou, ainda antes de ter começado?
Eu concordo absolutamente. Desde que me lembro daquela célebre conferência de imprensa de Paulo Portas, em que ele anunciou aquele documento com não sei quantas páginas, com o tamanho de letra a 30 ou a 40 para encher muitas páginas, toda a gente sabe mais ou menos o que é a reforma do Estado em Portugal. Aliás, esta semana saiu uma notícia muito interessante no "Público", acho que foi hoje ou ontem. Foi uma notícia muito interessante em que o "Público" marcava exatamente os 10 anos de uma conferência de imprensa de Pedro Marques, que era então Ministro das Infraestruturas, em que anunciou, na altura, uma grande reforma da ferrovia. Anunciou uma reforma gigantesca. Na altura, era 2016, isto era para até 2020. E o "Público", 10 anos depois, fez as contas e basicamente não há uma única medida daquelas que tenha sido implementada. Passaram 10 anos.
Pois, e o tempo passa, de facto, bastante rápido. Jorge, já agora, a tua carta é de ouros para o reitor da Universidade Nova de Lisboa e para a legalidade linguística, já vais explicar esta expressão, a propósito da designação das faculdades de Economia e de Direito.
Sim, infelizmente, esta semana, por falar em reformas importantes e em coisas que são realmente relevantes para mudar a vida das pessoas e, neste caso, das instituições, o reitor da Universidade Nova de Lisboa repôs esta semana aquilo que Bacelar Gouveia chamou, aliás, recomendo a toda a gente, de resto, que comprem o novo livro do Bacelar Gouveia, chamado precisamente "Legalidade Linguística", edições Almedina. E o reitor esta semana decidiu repor aquilo que chama de legalidade linguística, proferiu um despacho que obriga todas as faculdades da Universidade Nova de Lisboa a utilizarem como nome oficial o nome em português. Isto aplica-se fundamentalmente à Nova SBE, que toda a gente conhece como Nova SBE, de resto, a marca em si mesma tem esse valor já intrínseco e portanto deveria começar a voltar a chamar-se, digamos assim, Faculdade de Economia da Universidade Nova e a mesma coisa no Direito, deixar de ser Nova Law School, enfim, e passar a ser Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. O reitor fez o despacho, é uma decisão administrativa. Eu acho que é vagamente patético, pessoalmente, não acho que seja um nome que vá ditar uma direção ou outra e portanto acho que o despacho em si não tem grande interesse. Mas quem não gostar, pode impugnar e tem as vias legais, certamente, para isso, e penso que as universidades, as faculdades avaliam. Agora, também é preciso perceber que o reitor é um agente político, digamos assim, político no sentido em que é eleito por uma coligação dentro da universidade que o elegeu e, portanto, a ideia de que o reitor está a fazer isto motu próprio, não, o reitor faz isto porque certamente tem ambições de, eventualmente, reeleição e está a responder claramente a uma fação interna dentro da própria universidade. Portanto, não há aqui o certo e o errado. Estamos na presença de um fenómeno político por excelência. E agora, o problema para mim, e este é que é o ponto central da minha intervenção, é que o nome é uma coisa de somenos, digamos assim, se quisermos pensar.
Mas o que é que vai para além do nome?
O que vai muito para além do nome é que há aqui claramente um confronto entre duas visões do que deve ser a academia em Portugal. E uma visão, que aliás tem-se digladiado nos jornais. Uma visão é uma visão internacionalizada, que quer alinhar Portugal pelos padrões internacionais de investigação, de publicações, aberta à contratação de estrangeiros. E quem não se lembra, de resto, dos belos artigos que foram publicados no "Público" aqui há uns anos sobre o problema que era contratar uma grega e uma pessoa grega perfeitamente qualificada, mas não estava capacitada porque era grega e não falava português e, portanto, não poderia ser contratada por uma universidade. E depois há outro grupo, claro, que é de pessoas como Bacelar Gouveia, etc., que fundamentalmente defendem esta ideia da língua portuguesa, do ensino de português, da investigação em português, e isto, no fundamental, vai muito para além da língua. Isto é fundamentalmente uma ideia de manutenção de clientelas, catedráticos locais que controlam completamente a entrada e a subida na carreira. Nem sequer querem ouvir falar de estrangeiros acadêmicos em Portugal, é uma ideia que deixa esta gente toda com os cabelos em pé. É uma ideia de país. E, portanto, eu acho que o reitor da universidade, ao proferir este despacho, posicionou-se, mesmo não querendo. Acho que a questão linguística é um sinal sobre O caminho que o reitor pelo menos está disposto a que a universidade vá para que a coligação que o elegeu, de alguma maneira, fique satisfeita.
Sei que a Susana Prata era possível que discordasse aqui contigo nalguns pontos, mas vai juntar-se a nós na segunda parte deste "Fora do Baralho". A jogada da semana vai ser dedicada às mudanças na gestão política desta crise provocada pelo mau tempo. A ministra da Administração Interna demitiu-se esta semana, o primeiro-ministro assumiu essa pasta. Até já. Já vamos à segunda parte, à jogada da semana no "Fora do Baralho", mas antes disso, Jorge Fernandes, uma correção sobre o tema que trouxeste aqui da legalidade linguística.
Sim, eu queria fazer uma correção, que é importante, que é o seguinte: no despacho reitoral que foi proferido, o reitor não impõe em lado nenhum que seja exclusivamente utilizado em português. O que impõe é que seja utilizado sempre, quando é utilizado o inglês, sempre também a denominação em português em simultâneo. Fica aqui esta correção por uma questão de rigor, para os nossos ouvintes saberem exatamente aquilo que se está a tratar. Embora, isto é naturalmente um tema de nicho, mas acho que é importante porque é uma certa ideia de país e daquilo que está a ser feito.
Isto a propósito da designação da Faculdade de Direito da Nova de Lisboa. Entretanto, vamos agora sim à jogada da semana. A primeira demissão do segundo executivo de Luís Montenegro, Maria Lúcia Amaral aguentou-se apenas oito meses na, acho que podemos dizer, famigerada pasta da Administração Interna, depois de ter estado oito anos como Provedora de Justiça. A gestão da crise dos incêndios primeiro, as filas no aeroporto de Lisboa depois e agora a gota de água, a calamidade provocada pelo mau tempo, fizeram com que a até aqui ministra considerasse não ter as condições pessoais e políticas para continuar no cargo. E não podia continuar nem mais um dia, Nuno Garoupa, como é que avalias esta saída a meio de uma crise?
Repara, aqui há questões diferentes. Vamos começar com a questão original. Aqui várias vezes já tínhamos dito, na minha opinião, foi um erro ter passado da Provedora de Justiça para o ministério, foi uma porta giratória, que não deveria ter sido feito e a piada faz-se sozinha, porque neste momento não há Provedor de Justiça. Portanto, ela conseguiu estar os oito meses ministra sem que a AD tenha conseguido corrigir o problema que criou há oito meses. Mas isso é outras contas que vamos falar depois. Aqui sobre a demissão da ministra, eu, como sabem, dou sempre ouros ou copas a quem se demite, porque acho que quem se demite merece o nosso respeito. Mas repara, até aqui eu tenho alguma dificuldade em tomar partido, porque repara, há uma versão que um jornal divulgou ontem de que o presidente da República estava a tomar o café na Mexicana quando foi surpreendido pela demissão da ministra, passa publicidade que o próprio presidente da República faz a esse local. Mas depois há outro jornal que diz que ela se demitiu no princípio da outra semana, portanto, praticamente há 10 dias, e que simplesmente manteve-se em segredo, porque estávamos em eleições presidenciais e, portanto, o primeiro-ministro teve mais de uma semana para gerir esta demissão e para encontrar um spin para essa demissão, que pelos vistos não encontrou, tanto que chamou a si a pasta. Portanto, há aqui diferentes versões exatamente de quando é que ela disse ao primeiro-ministro que se demitiu, quanto tempo o primeiro-ministro e o governo e o presidente da República tiveram para acautelar esta situação e chegados aqui, penso que é evidente que há dois problemas. Um é encontrar uma solução para esse ministério, que vai ser complicado, porque muitas das coisas que estamos a falar da ministra não são responsabilidade direta dela. Ela herdou isto de muitos erros do passado, mas evidentemente ela fez uma má gestão dentro dos erros que herdou. E aproveito para acrescentar e arranjar uma solução para Provedor de Justiça também seria um bom desafio para o governo até ao fim do mês.
Sendo que o cargo de provedor ou neste caso provedora de Justiça era ocupado precisamente por Maria Lúcia Amaral e nos últimos meses não teve sucessora, agora ela própria sai do governo como ministra.
Claro, por isso, Vanessa, há dois lugares. Maria Lúcia Amaral deixa dois lugares.
Dois vagos.
Dois vagos.
É isso. Luís Aguiar-Conraria, para ti começou e acabou mal esta passagem de Maria Lúcia Amaral pelo governo, precisamente por causa desta questão de ter saído de Provedora de Justiça para ministra.
Eu não me sinto habilitado a comentar o mandato dela. Eu acho que o trabalho do ministro é normal que no primeiro ano seja um trabalho silencioso e que demora alguns anos a ver resultados e, portanto, não tenho habilitações para avaliar o trabalho dela. Agora, de facto, ela começa mal e acaba muito mal, na minha opinião. Começa muito mal pelos motivos que o Nuno referiu. Não me parece minimamente razoável alguém passar da Provedoria da Justiça, onde tem como uma das suas principais missões proteger o cidadão do Estado E depois vai para a Ministra da Administração Interna, que obviamente tem a tutela sobre as polícias, que é precisamente quem, num Estado civilizado como é o nosso, tem o monopólio da violência e o seu trabalho anterior era garantir que não havia abuso dessa violência que ela agora tutela. E aliás, a situação ficou perfeitamente absurda. Este conflito ficou absurdo quando ela, como ministra, desvalorizou um relatório sobre aquela operação policial em Bem Formoso, em Baião, a dizer que tinha havido graves violações dos direitos humanos nessa operação policial. Ela desvalorizou esse relatório, que ela, enquanto provedora, tinha encomendado. Portanto, ela desvalorizou um documento que ela própria tinha criado ou pelo menos tinha dado início a isso. Custa-me que alguém com a tarimba jurídica de Maria Lucía Amaral não percebesse que era impossível ir de um cargo para o outro. Agora, estando aqui, sair no meio da crise, sair no momento em que os diques estão quase a rebentar. Alguém que tem a tutela da Proteção Civil, sair quando os diques do principal rio nascido em Portugal, portanto um dos principais rios portugueses, numa das cidades mais importantes de Portugal, que é Coimbra, quando aquilo está prestes a rebentar, e rebentou mesmo depois dela sair, também não lembra o diabo. E portanto, acho que esteve muito mau nestes dois momentos.
A Susana Prata quer também perceber qual é a tua avaliação e já agora junta outra pergunta, se Luís Montenegro ao assumir a pasta provisoriamente, fez sentido, e se também não tinha outra alternativa.
Eu acompanho completamente a avaliação de que esta ministra nunca devia ter sido ministra, não pela falta de competência. É uma pessoa por quem eu tinha imenso respeito enquanto provedora de Justiça, devo dizer, mas de facto, o conflito de interesse saltar da Provedoria para o Governo, pelas razões que o Nuno e o Luís agora também explicaram. Portanto, eu revejo-me completamente nos comentários deles. Eu acho que o primeiro-ministro assumir a pasta é uma consequência legal da saída desta ministra. Acho que ele não tinha possibilidade, a não ser, mas eu desconhecia aquele facto que o Nuno aqui trouxe há pouco, se de facto é verdade que a ministra já tinha avisado há mais tempo que queria sair, aí já me parece que Luís Montenegro esteve mal. Não podemos agora vir sacar responsabilidades à ministra por sair. Não, eu acho que podemos na mesma, acho que ela sair com os diques a rebentar é sempre mau, o Luís tem razão, mas seja como for, há um corresponsável desse péssimo momento de saída ou desse momento em que sai uma ministra e uma pasta tão importante num momento destes fica ao Deus dará, por assim dizer, que é o primeiro-ministro. Portanto, eu acho que isto é tudo muito patético, isto é tudo desgraçado. E já agora, é verdade o que também o Nuno disse que de facto há aqui muita coisa que tem a ver com uma organização dos serviços do Estado que é anterior ao mandato desta ministra. Aliás, ainda hoje o Expresso tem uma peça a explicar que não há uma integração automática entre o exército e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e que devia haver, e dá a ideia até que isto é quase uma gestão de capelinhas.
As Forças Armadas esta semana explicaram que são um agente secundário da Proteção Civil.
Exato. E a pergunta que o Expresso coloca, e até falando com alguns especialistas, é que obviamente isto devia estar tudo integrado desde o início para a atuação. Nós temos visto a atuação das Forças Armadas, é absolutamente essencial do ponto de vista logístico, de chegar às populações. Eles têm veículos anfíbios com os quais conseguem, por exemplo, fornecer víveres àquelas aldeias isoladas. Portanto, não me parece de todo razoável que as Forças Armadas não estivessem já aplicadas nisso logo desde o início, de uma maneira integrada logo na própria máquina da Proteção Civil. E portanto, isto dá a ideia, de facto, que há uma incapacidade enorme do país de organizar este serviço de emergência, não só nas comunicações, como depois na capacidade de intervenção no terreno, como a cadeia de comando decente, com a verdadeira integração dos serviços. Isso provavelmente, infelizmente, deve-se inclusivamente a capelinhas, a pessoas que querem manter o seu pequeno quintal de poder e que não querem, no fundo, ser integradas numa estrutura maior. Agora, também é verdade que, mais uma vez, a ministra, quando aceitou a pasta, devia saber que as incumbências do Ministério da Administração Interna não se cingem às forças de segurança, nas quais ela possivelmente teria um maior conhecimento e uma maior capacidade de fazer a diferença se não viesse ferida de uma questão de princípio, como o Luís já explicou. E portanto, ou ela não sabia que esta parte também fazia parte das suas competências, e isso é um problema, ou ela sabia e reconhecia que de facto não é uma pessoa que tenha um conhecimento desta parte do trabalho do MAI, mas então não lhe custava nada ter ido buscar membros para o seu gabinete que a ajudassem. Portanto, custa-me sempre um bocadinho não responsabilizar politicamente uma pessoa que apesar de tudo esteve lá um ano, não sei, quase um ano, não chegou a um ano, acho eu.
Oito meses.
Parece que não percebeu o básico. E depois, de facto, teve também uma gestão agora mais da parte, eu diria, comunicacional, de estar no terreno ao longo destas últimas semanas, que foi verdadeiramente desastrosa.
Jorge, pode agora ser difícil para Luís Montenegro encontrar um sucessor, tendo em conta que esta pasta é historicamente tão difícil?
Eu acho que vai ser muito complicado. Há dois perfis aqui que podem acontecer: ou alguém que tenha realmente um forte sentido de serviço público e que esteja, no fundo, disposto de alguma maneira até a prejudicar a sua imagem e a sua carreira, ou então alguém que seja um soldado do PSD, uma pessoa do partido, e isto aqui não é crítica nenhuma, alguém que realmente perceba que o partido, por vezes, exige fazer determinado tipo de sacrifícios, exige tomar determinado tipo de posições. Eu queria só comentar aqui, relativamente à ministra, à sua saída. Um dos problemas que existe fundamentalmente nesta questão do Ministério da Administração Interna é que, ao contrário da maioria dos ministérios, na maior parte deles há uma diferença temporal entre, por exemplo, o momento em que se anuncia uma reforma, o momento que se anuncia uma mudança, por exemplo, aquela situação que eu estava a falar na primeira parte sobre o Pedro Marques. O ministro anuncia, por exemplo, um grande plano para a ferrovia, o ministro da Educação anuncia uma grande mudança na escola, mas isso não tem implicações no dia a dia das pessoas, no imediato. Portanto, o ministro consegue sempre ganhar espaço e tempo político sem ser imediatamente queimado pela imprensa pública. O problema do Ministério da Administração Interna é que a accountability é direta. Isto é, se os meios do Estado, se o Estado não está a funcionar como deve ser, se os meios para socorrer as populações não são perfeitos ou praticamente perfeitos, se a comunicação não é boa, fica imediatamente visível para toda a gente. Por exemplo, se há um grande incêndio ou agora esta situação das cheias, quer dizer, a ministra torna-se imediatamente evidente se as coisas estão bem ou estão mal. E, portanto, esse é o motivo, na minha opinião, pelo qual a pasta da Administração Interna tipicamente faz imensas vítimas políticas. Sob esse ponto de vista, Maria Luísa Amaral sai como a esmagadora maioria dos seus antecessores. Eu lembro-me de poucos ou de nenhum mesmo que tenha saído bem da fotografia e, portanto, eu acho que Luís Montenegro vai ter aqui muitas dificuldades, a não ser que escolha alguém internamente ou realmente uma pessoa que esteja muito disposta a sacrificar-se politicamente e até pessoalmente. Luís Montenegro vai ter aqui muitas dificuldades, até porque acabando agora o estado de emergência, haverá certamente um momento de reconstrução que, embora a Administração Interna não esteja puramente envolvida, estará sempre envolvida. Portanto, será sempre uma tarefa muito difícil.
Estamos em estado de calamidade, é diferente do estado de emergência. Sim, Luís.
Como eu costumo dizer e muitas vezes o Jorge disse que é difícil arranjar pessoas boas para o governo, porque pessoas boas não se querem meter nisso ou porque não estão para aturar comunicação social ou o que quer que seja, eu por acaso tenho dificuldades em acreditar nisso. Eu acho que a vaidade conta muito e acho que isso muitas vezes é usado como desculpa para levar pessoas parásitas para o governo, em vez de levar pessoas competentes. Eu duvido muito que convidando três ou quatro pessoas competentes e qualificadas, que as três ou quatro recusassem. Ou seja, se no fim for um soldado do PSD, eu não acredito que isso tenha sido uma coisa inevitável. Ficarei plenamente convencido que é simplesmente uma escolha política.
Dá para tirar ilações, Susana, da capacidade da ministra? Não sabemos também, se calhar, da anterior ou de anteriores, tendo em conta o estado em que está o próprio Ministério da Administração Interna?
Não, acho que isso não tem nada a ver com as capacidades da ministra. Saiu hoje um artigo no Página Um a falar do péssimo estado de conservação do edifício do Terreiro do Paço, onde está localizado o Ministério da Administração Interna, e é verdadeiramente decadente. Por exemplo, ao fim de semana, quando as pessoas não estão a trabalhar no MAI, há polícias e seguranças que têm de ir retirar baldes d'água, porque os baldes que os funcionários lá deixam não chegam para aguentar toda a chuva do fim de semana. Portanto, esta é a dimensão do problema e depois também há todo um relato acerca das instalações da Secretaria da Administração Eleitoral, quer dizer, que no fundo é muito simbólico, porque tem a ver com o funcionamento da democracia, tem a ver com os arquivos das eleições deste país, e há imagens mesmo do péssimo estado de conservação do edifício. Acho que isto tem simplesmente a ver com o desleixo deste país com o investimento público. Quando se fala da diminuição do stock de capital público, ou seja, que o facto de não ter havido investimento público nos últimos 10, 12 anos levou a uma diminuição do stock de capital público, é disso que estamos a falar, é desta degradação dos edifícios que acaba por tornar os edifícios indignos, que acaba por colocar em risco o nosso patrimônio histórico e democrático, estamos a falar de arquivos importantes, e também uma enorme falta de respeito para quem lá trabalha. Eu acho que talvez isto explique até mais a saída da ministra do que outra coisa. Atribuir-lhe a responsabilidade por isto acho que seria um bocadinho despropositado.
Olhando aqui para o que se segue, o Jorge já falou aqui um pouco dessa questão do sucessor que há de ser encontrado e o Luís também, mas Nuno também gostava de te ouvir falar sobre isto, sobre essa dificuldade e sobre se Luís Montenegro pode ou não aproveitar para uma remodelação mais abrangente. O Observador apurou que isso não estará nos planos para já.
Vanessa, antes disso eu gostava de corrigir o Jorge.
Sim. É um troço?
Não. Ele disse a palavra accountability pelo menos duas vezes e repondo a legalidade da língua.
Legalidade sempre, legalidade linguística.
Eu gostava de dizer prestação de contas. Mas agora sério, acho que o problema é esse mesmo. Eu acho que se nós ignorarmos aquilo que é o currículo e a personalidade do primeiro-ministro, o normal nesta altura que esperaríamos era que o primeiro-ministro recuperasse rapidamente a agenda política e impusesse o seu papel de primeiro-ministro. Repare, ele sai muito fragilizado destas eleições presidenciais, ele tem neste momento em cima mais histórias que estão a sair hoje e ontem no Ministério Público, acresce todas estas calamidades que se vai seguir inevitavelmente, apesar do PSD estar a querer evitar algum tipo de comissão parlamentar de inquérito, que não vai ser favorável, obviamente, à AD. Portanto, o que eu esperaria de alguém que é o líder da direita, como ele diz? Uma remodelação ministerial muito grande e uma moção de confiança na Assembleia da República para encostar o Chega e o Partido Socialista às suas responsabilidades e portanto forçar o Partido Socialista e o Chega a terem que tomar uma opção: ou viabilizam a moção de confiança ou são responsáveis por irmos a eleições dentro de uns meses. Claro, este primeiro-ministro não faz nada disso, porque ele faz uma gestão tática permanente, aquilo que eu chamo a gestão tutifruti, daquilo que é a política mais rasteira partidária. E, portanto, o que vai fazer? Vão tentar impedir a CPI através de truques, de criar comissão eventual para o acompanhamento da prevenção e da protecção civil. Vão tentar minimizar a remodelação ministerial, que a tudo indica vai ser à volta das figuras cimeiras do PSD, portanto, um soldado do PSD, e depois tentar navegar até o Orçamento de Estado, onde esperam que António José Seguro force o Partido Socialista a viabilizar o Orçamento de Estado no outono. Portanto, em resumo, não espero uma gestão heróica e gloriosa do primeiro-ministro, espero navegação à vista e tentativas táticas de impedir que isto tenha grandes custos políticos no curtíssimo prazo.
Por falar em tática, ou nem tanto, é isso que também vou querer perceber contigo, Jorge Fernandes. O debate quinzenal desta semana com o primeiro-ministro foi adiado uma vez, depois foi adiado uma segunda vez a pedido do governo, já depois do rebentamento do tal dique no distrito de Coimbra. Isto pode ser interpretado como Luís Montenegro estar a fugir ao escrutínio e a ter aqui a ganhar tempo para a poeira assentar ou para a cheia acalmar, neste caso, ou o adiamento do debate quinzenal é mais do que natural, tendo em conta este novo pico de crise?
Acho que, em primeiro lugar, é preciso sublinhar que neste momento Luís Montenegro é também ministro da Administração Interna, para além de ser primeiro-ministro. Portanto, ele está a gerir, ele está no centro do furacão, digamos assim, para o bem e para o mal, de toda a gestão do que está a acontecer neste momento, das consequências das tempestades em Portugal. Portanto, parece-me perfeitamente natural que neste momento ele tenha adiado ir à Assembleia da República. Eu acho que as coisas podem, aliás, ser ao contrário, porque eu acho que quando a poeira assentar, provavelmente vamos começar a ter muitas informações, muitas notícias dos falhanços que existiram, das coisas que correram mal e provavelmente ele vai ter que se justificar, tendo a oposição já muito mais informação do que aquilo que eventualmente até teria esta semana.
Bom, a ver vamos. Nós temos as cartas distribuídas, o tabuleiro de jogo está com menos uma peça, a ver vamos qual é que vai ser o sucessor ou a sucessora na pasta da Administração Interna. Escreva-nos para foradobaralho@observador.pt ou envie mensagem ou áudio para WhatsApp 910024185. Este domingo a Susana Peralta vai responder às perguntas e críticas dos ouvintes. Eu sou a Vanessa Cruz. Bom fim de semana.