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Episódio extra de domingo do Fora do Baralho, dedicado às dúvidas, perguntas e comentários dos ouvintes que recebemos no e-mail foradobaralho@observador.pt. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta semana temos nas respostas a Susana Peralta. Susana, Alexandre Pimentel Ferreira enviou-nos uma pergunta sobre os preços das casas. Obrigada, Alexandre. Pergunta se o valor das casas em Portugal não passou já para o patamar do ridículo, do absurdo. Isto é, se os valores atuais se distanciaram tanto do valor real dos imóveis, se não estão tão inflacionados para além do materialmente justificável, que entrámos no campo do disparate. E se com isto o mercado imobiliário não irá eventualmente colapsar ou estagnar, porque já ninguém se sujeita a comprar nada.
Eu queria agradecer a pergunta ao Alexandre e dizer que eu não tenho assim muito boas notícias para o Alexandre, no sentido em que, o que é o valor real das casas? O valor real das casas é aquilo que as pessoas querem pagar por elas. As casas não têm nenhum valor intrínseco. No fundo, elas dependem de uma lógica de mercado que verdadeiramente é quase uma lógica de leilão, no sentido em que as casas, sobretudo as casas nas zonas mais densamente populadas, nos centros urbanos, no litoral, são de algum modo objetos únicos, cada uma a seu modo, e eu estou sempre aqui a simplificar uma análise econômica do mercado imobiliário, e portanto, elas vão sempre ser vendidas a quem está disposto a pagar mais por elas. Isso é muito diferente, por exemplo, do mercado dos iogurtes, em que se produz em massa iogurtes, em que é muito fácil reproduzir o mesmo iogurte muitas vezes, para muitas toneladas de iogurte. Uma casa não é assim, o mercado habitacional não é assim. E o aumento do preço médio das casas em Portugal é muito determinado por zonas de grande densidade, os centros urbanos, o nosso litoral. E portanto, é verdade que existe este desligar entre o rendimento médio ou o salário médio em Portugal e o preço das casas. E é verdade que em vários rankings, o preço das casas em Lisboa e noutras cidades, depende um pouquinho como é que isso é medido, mas aparece como o mais desligado ou cuja taxa de crescimento é mais diferente da taxa de crescimento do salário médio, por exemplo. Estou a falar de medidas desse gênero, que dizem que o mercado português é aquele que está mais desligado do rendimento médio do país. Bom, esse raciocínio tem várias falácias, mas além disso, isso não traduz uma realidade econômica. Traduz uma realidade econômica da falta de acessibilidade, da dificuldade que as pessoas que não têm casa conseguem ou não comprar casa. Repara, em primeiro lugar, nestas zonas onde os preços das casas são mais elevados, muitas vezes os rendimentos são bastante superiores à própria média do país. E portanto, isso quer dizer que quem está a puxar esse preço imobiliário para cima são pessoas de rendimentos desligados aos próprios da média do país, sobretudo quando nós sabemos que em Portugal há um problema, há uma característica do que nós chamamos de inflação importada, porque nós temos muitas pessoas a viver cá que têm rendimentos muito superiores à média portuguesa, estamos a falar de muitos estrangeiros com níveis de rendimento mais elevados, e não só, e também muitos portugueses nestas zonas mais gentrificadas, mas também muitos estrangeiros. E portanto, essas pessoas é que puxam o preço do imobiliário para cima. O que é que é uma bolha de especulação imobiliária? Uma bolha de especulação é quando eu compro uma casa por um preço muito elevado na expectativa de a vender mais tarde a um preço igualmente elevado. Aquilo que nós vemos no mercado imobiliário, nestas zonas mais densas do nosso país, com maior pressão imobiliária, é que as casas se vendem muito rapidamente, não existem por aí casas vazias. Temos um problema de velutos, mas isso é outra questão. Mas de facto, nós não vemos isso a acontecer. Nós vemos um mercado que é bastante líquido, em que as casas se vendem e em que o preço continua a aumentar e esse aumento está ligado a uma realidade, a variáveis reais do mercado, que é o rendimento das pessoas que estão a comprar essas casas. Eu vou dizer isto, pode parecer absurdo, mas é um mercado que é pequenino, ou seja, o nosso país é pequeno, os nossos centros históricos são muito pequeninos, quando comparados com a quantidade de pessoas que há no mundo a potencialmente quererem viver para o nosso país e a querer investir aqui, depois podemos ter opiniões políticas sobre isso, não é essa a questão. Eu estou a falar apenas do ponto de vista económico. Eu não vejo nada à minha volta que me leve a crer que vá haver uma quebra generalizada no mercado imobiliário. Isto não impede que em algumas regiões mais periféricas possa vir a haver alguma diminuição. Se eu tivesse que apostar num cenário que levaria a uma diminuição generalizada do preço das casas em Portugal ou uma desaceleração muito acentuada, outra vez recordando que os economistas são muito maus a fazer previsões, mas eu acho que um cenário desse tipo só vai aparecer se de facto acontecer uma grande tragédia, um terramoto, um cenário à Tibete ou enfim, problemas de terroristas. Esperemos que isso não aconteça.
Que fizessem essas pessoas que têm poderes de compra muito altos deixar de vir para cá e de comprar as casas.
Porque a deterioração do próprio espaço urbano ia ser tal que isto de repente perdia todo o interesse.
Vamos avançar para uma segunda pergunta, feita por André Gomes. Obrigada, André. Que quer voltar a um tema da campanha de António José Seguro para as presidenciais, o tema do pacto estratégico para a saúde. Este ouvinte do "Fora do Baralho" pergunta se não devíamos estar a ouvir mais o Presidente da República sobre este pacto ou se esta foi só uma ideia para ficar na gaveta.
Outra vez uma excelente pergunta, mas entretanto houve algumas notícias sobre esse pacto. Julgo que agora mesmo no final da semana. O Adalberto Campos Fernandes diz que já fez a auscultação a todos os parceiros e que se espera que o Presidente da República venha dar notícias acerca do pacto no final do ano. Finalmente ouvimos alguma coisa. Não é muito substancial, é verdade. O que eu acho deste pacto? Acho várias coisas. Acho que, por um lado, são boas notícias não estarmos a ouvir falar dele a toda hora, porque se de facto este pacto der nalguma coisa, se de facto este pacto for alguma reflexão profunda e credível acerca do Serviço Nacional de Saúde e da coexistência com os privados e dos vasos comunicantes entre os vários sistemas, entre o público e o privado, e o cooperativo também, ao setor social, como se diz. Tem que ser uma reflexão prolongada e não é compaginável com declarações semanais a dizer que já encontraram a solução, porque a solução não é fácil. Por outro lado, eu sou bastante cética relativamente à capacidade de vir da presidência esta solução, porque não tem capacidade legislativa e eu também não sei, apesar de Adalberto Campos Fernandes ter feito estas declarações, diz que já ouviu as partes ou já fez essa parte da auscultação. Há aqui uma questão fundamental, que é: nós temos um Parlamento que é o que é, onde é muito difícil fazer coisas. Temos um governo que escolheu governar sem procurar pactos estáveis, acordos estáveis de incidência parlamentar ou outra maneira de garantir apoio para reformas. Vejo com alguma dificuldade do ponto de vista institucional, que agora apareça do lado da presidência e mesmo com toda a credibilidade de Adalberto Campos Fernandes. E olha, nós temos aqui um conjunto de coisas que ouvindo especialistas fazem sentido. E já falámos com o PS, com o PSD, com o Chega, com o Livre, com a Iniciativa Liberal e com o Bloco de Esquerda, com o PCP, com o JPP, para não me esquecer de nenhum, com o PAN, todos os partidos que estão no Parlamento. E estamos aqui a acordo para esta reforma, para aquela reforma e depois o Parlamento vai mesmo fazer isso? Quem é que vai ter os diplomas a votação, uma vez que eles venham a votação, porque não pode ser o Presidente da República, nem o Adalberto Campos Fernandes a colocar-se a votação. Isso vai ou não vai depois dar origem ao habitual jogo parlamentar? Não sei, eu sou um bocadinho cética disto, mas de facto, se há boa notícia nisto é que não se tem ouvido falar muito, porque isto tem que ser um trabalho de fundo cuidadoso, se é que ele vai dar nalguma coisa.
Obrigada, Susana. Se quiseres ouvir respostas para as suas perguntas nos episódios extra do "Fora do Baralho", basta escrever para foradobaralho@observador.pt. Um dos ases aqui estará a cada domingo, na rádio e em podcast.