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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Helena Ferro Gouveia, especialista em assuntos internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Kaja Kallas, a chefe da diplomacia da União Europeia, alertou hoje que a Rússia está a planear mais atos de sabotagem e ataques a democracias europeias. Apelou, por isso, à vigilância dos Estados-membros, mas ainda há poucos dias Vladimir Putin assegurava que não fazia intenções de atacar a Europa. Considera que os países europeus devem estar de facto vigilantes? Acredita que a Rússia pode avançar com estes ataques?

Boa noite, Lori. Muito obrigada pelo convite. Mais do que vigilantes, os países europeus devem estar preparados. A ameaça russa é concreta, assim como são concretas as operações desencadeadas pela federação russa em solo europeu, sejam elas por via de ciberataques, sejam elas por via de drones, sejam elas assassinatos de dissidentes ou de opositores políticos em solo europeu. O facto de Vladimir Putin dizer que não tenciona atacar a Europa não vale rigorosamente nada. Se nós recuarmos a 2022, vamos encontrar declarações semelhantes com o presidente russo a dizer que não tencionava atacar a Ucrânia. A verdade é que os relatórios que existem feitos por analistas militares, por especialistas dos serviços secretos e, sobretudo, no Norte da Europa, estão me lembrados os casos dos bálticos ou do caso finlandês, ou mesmo do caso polaco, os alertas multiplicam-se e nós temos assistido a incidentes que poderiam ser bastante graves, para não falar de incidentes como a invasão de águas territoriais, como também tem acontecido, o corte de cabos submarinos e todas as manobras de perturbação do espaço cibernético, que é uma das outras dimensões da guerra híbrida conduzida pela Rússia. Há todas as razões, não apenas para estar preocupado, para estar alerta e, sobretudo, para apostar naquilo que quer a União Europeia, quer a NATO tem vindo a fazer, naquela que é a defesa anti-drone e naquela que é a defesa anti-guerra, se quisermos, no ciberespaço.

Há uns dias, Volodymyr Zelensky afirmava que Donald Trump concedeu à Ucrânia licenças para a produção dos mísseis Patriot. Que leitura é que faz destas declarações? São reais ou os Estados Unidos podem ainda recuar?

Nós já ouvimos Donald Trump dar esta garantia pelo menos duas vezes. A verdade é que o fabrico de Patriots é complexo, não apenas pelos componentes que são autorizados para o fabrico destes mísseis defensivos, como pela própria complexidade dos mísseis em si. Há mais países que têm esta licença, um destes países é o caso alemão. A Alemanha terá os primeiros Patriots em 2027. Há o receio, sobretudo das empresas implicadas, em que a Ucrânia, com o seu engenho e arte que lhe é conhecido, que possa não apenas fabricar os Patriots, mas que possa vir até melhorá-los e criar aqui um equipamento próprio ou, se quisermos, um míssil de defesa antiaérea próprio, que seja melhor ou tenha maior qualidade que os Patriots. Mas, neste momento, temos que ter a esperança que Donald Trump esteja, de facto, empenhado nesta promessa que faz e neste momento em que há eleições intercalares e que boa parte do seu partido e a esmagadora maioria dos norte-americanos continua a ser favorável ao apoio dado à Ucrânia. Trump pode ter também aqui um instrumento para se posicionar neste embate político, uma vez que o segundo conflito onde os Estados Unidos estão envolvidos, estou a referir à questão do Irão, lhe tem corrido menos bem e está a causar dano naquilo que são as suas perspectivas eleitorais para novembro.

Vamos olhar também para o Medio Oriente. Apesar de estarem em curso negociações, os negociadores iranianos estão pessimistas sobre o acordo com os Estados Unidos antes das eleições intercalares. É o que está hoje a avançar a imprensa internacional. Entretanto, soube-se também hoje que o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano vai encontrar-se com mediadores em Nova Iorque. Como é que encara este novo processo negocial? Vai dar frutos ou pode acabar frustrado como outros anteriormente?

O que nós temos sobre a mesa não é nada de novo. É que as propostas que foram apresentadas agora, ou reapresentadas por Teerão, são aquelas que constavam no memorando de entendimento de junho último e são, sobretudo, um conjunto de exigências. Teerão diz disponível para discutir o nuclear, mas diz disponível para o fazer depois de os Estados Unidos levantarem o bloqueio do Estreito de Ormuz, levantarem os condicionamentos económicos e levantarem o congelamento, se quisermos, dos ativos iranianos que estão congelados e que são muitos milhares de milhões de dólares. E isto são exigências, não há aqui nenhuma cedência iraniana. O que Teerão está a fazer é tentar passar, e mais uma vez estamos aqui no domínio, se quisermos, da comunicação, da perceção, da narrativa, tentar passar a ideia de que está a tentar negociar e que é o lado americano que não está interessado nesta negociação, pondo com isto, uma vez mais, o peso ou, se quisermos, o ônus do lado americano, no momento em que há muitas críticas em relação a Donald Trump, sobretudo pelo aumento do preço dos combustíveis e pelo aumento do custo de vida, que está sempre relacionado com uma subida destes assets energéticos. Não vejo aqui nenhuma novidade. As negociações continuam, como sempre continuam nestes processos, porque há sempre uma diferença entre aquilo que sai para os holofotes, que é dos comunicados de imprensa, o que é transmitido aos jornalistas e depois aquilo que é feito pelos sherpas, que são os verdadeiros negociadores. E procura-se realmente encontrar aqui uma solução. O lado americano, neste momento, e porque tenho informação nesse sentido Também está aqui a explorar a fraqueza de Teerão, que está numa situação desesperada do ponto de vista económico. E todos nos recordamos que o que deu origem aos protestos do ano passado foram os bazaris, aquelas pessoas que vendem nos bazares, em dezembro do ano passado. Protestos estes que continuaram no início do ano e que foram esmagados de uma forma violentíssima pelo regime de Teerão. Quando as pessoas sentem o desespero, quando as pessoas sentem a sua condição de vida cada vez mais posta em causa, e por exemplo, os alimentos subiram mais de 120% no Irão, a inflação está perto dos 70%. A situação interna do ponto de vista económico está muito difícil. E apesar de nós vermos imagens propagandísticas colocadas cá fora por Teerão de alegados apoios ao regime, a verdade é que internamente, e os membros da oposição, que estão no exílio, ou mesmo a informação que vão sendo passadas de dentro do Irão cá para fora, demonstram, de fato, este grande descontentamento popular. Os Estados Unidos tentam, através daquele que é o garrote econômico, levar aqueles que nas lideranças iranianas são, se quisermos, mais pragmáticos, a querer ter algum tipo de comprometimento com os Estados Unidos. Agora, há aqui uma linha mais dura, uma linha que não está disposta a ceder em nada aos norte-americanos. Há aqui algumas razões para pessimismo, e eu acredito, e se me perguntar qual é a minha leitura, que nós, depois das eleições, ou eventualmente, pois também há alguns sinais nesse sentido, antes das eleições, possamos ter aqui uma ação de força por parte dos Estados Unidos para tentar vergar o Irão. Não falo, naturalmente, de boots on the ground, porque isso parece um cenário muito irrealista, mas há alguns ataques militares. Eu sei que me vai responder com a questão de haver baixo estoque em Patriot, em sistemas de defesa antiaérea, mas há outras formas de conduzir estas operações e há aliados na região que poderão participar, ou não, nestes ataques. Verdade é que até ao final do ano, estou convicta por aquilo que tenho lido, e sobretudo em termos de análise militar, que poderemos voltar a ver um reacender deste conflito, até porque no próprio Partido Republicano há quem peça a Donald Trump para resolver de uma vez por todas o problema iraniano.

Entretanto, Donald Trump disse hoje que estaria disposto a aliviar as sanções ao Irão e a libertar os ativos congelados em troca de um progresso concreto nas negociações em relação à energia nuclear iraniana. Acha que algum dia o Irão vai ceder ou pelo menos tornar-se mais flexível neste ponto?

Tenho muitas dúvidas. O Irão percebeu que se tivesse uma arma nuclear, não teria sido atacado pelos Estados Unidos. E continua a desenvolver, aliás, o seu programa nuclear, porque aquilo que as imagens de satélites vão mostrando é que na montanha de Pikak, na montanha Piquemal, está a ser desenvolvido este programa, as centrífugas estarão a ser transportadas para lá. O Irão nunca parou de tentar chegar àquela que é uma arma nuclear, e alguns analistas dizem mesmo que já terá a capacidade de produzir o que é uma arma nuclear suja. Tendo o Irão aqui esta alavanca, se quisermos, de poder, não irá desistir dela e nós não temos nenhuma razão para confiar na palavra dos iranianos. Iranianos estes que muito recentemente foram alvo de uma ação da Agência Internacional para Energia Atômica, que se queixou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que não consegue entrar no Irão e que o Irão não permite visitas. Nós não podemos olhar para este conflito como tendo bonzinhos de um lado e mauzinhos do outro, porque aquilo que nós temos é um país que é uma ditadura teocrática e que desde 1979 é o principal fator disruptor naquela região, é um dos principais patrocinadores do terrorismo a nível mundial, e não só no Médio Oriente. Eu recordo que o Hezbollah, um dos proxies do Irão, treinava e tinha o seu campo de treino na Isla Margarita, na Venezuela, e era responsável por boa parte do tráfico de droga que vinha daquela região do globo, da América Latina e da América Central, para a Europa e para outras regiões do globo. Aliás, essa era uma das fontes de financiamento do Hezbollah, era precisamente o tráfico de droga, o tráfico de armas, todo um conjunto de tráficos, isto tudo com o alto patrocínio do Irão. Não é este país, não é este regime que é confiável. Temos todas as razões para estar céticos em relação a Donald Trump e a esta administração norte-americana. Percebemos que é um presidente ziguezagueante, que muitas vezes afirma uma coisa e depois afirma o seu contrário, que tem, de fato, desbaratado aquilo que é a credibilidade norte-americana e tem posto em causa as alianças com os seus aliados, sejam eles europeus, seja o Canadá, seja a Coreia do Sul, seja o Japão. É um presidente que em termos de política externa tem causado muito dano, mas do lado de lá temos o regime que temos e não há razão nenhuma para ter confiança em qualquer palavra que seja dita por este regime. Até porque, e esta é uma questão de fundo, nós não sabemos até hoje quem é que está no comando no Irão, porque o Aiatola Khamenei, que alegadamente estará vivo, verdade é que nós nunca o vimos. Houve um vídeo, não sabemos de que data é, provavelmente será anterior aos ataques. Há comunicados que são lidos, mas nunca o vimos de viva voz. Ninguém sabe muito bem quem detém as rédeas de poder no Irão. Há aqui muitas razões para também ter muito ceticismo em relação àquilo que vem de Teerão.

Muito obrigada pela sua análise, Helena Ferré Correia, especialista em assuntos internacionais. Obrigada.

Muito obrigada, boa noite.

Fica por aqui o "Gabinete de Guerra", está de regresso amanhã.