Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra da Rádio Observador, esta manhã com a análise do coronel José do Carmo. Olá, coronel, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Bom dia. Começamos pela Rússia, que diz que o Reino Unido é cúmplice e coautor dos ataques ucranianos em território russo e que terá de responder por essa colaboração militar. Londres já reagiu, diz que vai continuar lado a lado com a Ucrânia e a fornecer o equipamento necessário à sua defesa. Coronel, do ponto de vista militar, qual é a margem real de retaliação da Rússia sem arriscar um confronto direto com a NATO? Apostar em ciberataques, sabotagem no Mar do Norte, por exemplo, provocações no espaço aéreo?
Sim, a Rússia está tentando fazer aquilo que sempre fez, que é declarar linhas vermelhas e que depois é obrigada a engolir, porque de fato não fazem sentido. A própria Rússia, numa atitude bastante cínica, para quem recebe tropas, coloca tropas no terreno vindas da Ásia e mísseis e drones, depois pretende que os outros países não ajudem um país europeu que está a ser atacado pela Rússia. Isso é nitidamente uma tentativa de dissuadir esses países com ameaças. A Rússia pode fazer muitas coisas, tal como os outros países também podem fazer. A Rússia pode fazer ataques diretos, pode fazer sabotagens, mas isso implica também que os outros podem fazer o mesmo. É evidente que será muito difícil ou não será muito provável que a Rússia tente uma ação declarada de ataque a países da NATO, que leva ao acionamento do artigo quinto, mas pode funcionar e funciona. Aliás, tem funcionado, a Rússia tem feito isso em vários países, através de grupos, através de ações que podem ser depois negadas, podem ser outros grupos, pode contratar pessoas no próprio país, dentro do crime organizado comum, por exemplo, para fazer um atentado a uma linha férrea, mas isso também os outros podem fazer. Ou seja, a Rússia, ao entrar por esse caminho, tal como acontecia no tempo da Guerra Fria, ao fazer ações no campo do adversário, levava também com ações do mesmo tipo no seu próprio território. Portanto, isso é daquelas ameaças que se fazem, mas às quais também estamos sujeitos quando as tentamos cumprir. Por aí não há nada de novo. A Rússia irá sempre tentar dissuadir os europeus de ajudarem a Ucrânia, porque de fato preferia que não ajudassem.
Esta semana foi também notícia que a Rússia construiu pelo menos 10 bases secretas e dezenas de pistas de lançamento adaptadas em aeroportos e zonas rurais que colocam a Polônia, um flanco leste da NATO, sob o alcance direto desses mísseis e drones russos. Como é que devemos olhar para isto? É mais uma manobra de intimidação, como a que falávamos ainda agora sobre o Reino Unido, para forçar os aliados a recuarem no apoio à Ucrânia? A Europa não deve reagir?
É exatamente isso. Toda mundo sabe que a Rússia tem mísseis e drones capazes de atingir território europeu. Aliás, muitas vezes esses drones e esses mísseis desviam-se, entre aspas, para território de países que ajudam a Ucrânia. E portanto, isso faz parte da dissuasão. Se isso vai ter algum efeito? Não creio. Neste momento, eu acho que já passamos muito essa fase. A Europa está completamente comprometida. Os países europeus, pelo menos aqueles principais que estão ali na linha da frente, estão ali junto à Ucrânia, e não só, o Reino Unido também, a França, estão completamente comprometidos porque sabem que isto não é uma questão de caridade, não é por humanitarismo que está a ajudar a Ucrânia, nem por solidariedade, é também por interesse próprio, porque sabem que do outro lado está um poder que é um bully e atua como um bully e só se tem se enfrentar uma força decidida. Não creio que a Europa, os países da Europa e esses países maiores que estão de fato ali na fronteira e na linha da frente se vão acobardar por causa disso, porque de fato não têm nada a fazer.
Mas esquecendo a guerra na Ucrânia, a Europa não deve reagir de todo, é isto?
A reação, não. A Rússia diz que tem estas bases de mísseis, a gente sabe que as tem. A Rússia tem mísseis capazes de atingir a Europa, tem mísseis, por exemplo, em Kaliningrado, capaz de atingir todos os países da Europa. Mas isso a gente sabe. E está no fundo a relembrar aos países que os tem, mas isso não é nada de novo, é apenas a tentativa de criar mediaticamente um efeito de intimidação. Sim, os países da Europa reagem preparando as suas defesas, é o que estão a fazer, embora mais lentamente do que seria desejável, mas estão a fazê-lo, sim, aos bocadinhos estão a preparar-se para isso.
Quanto ao Médio Oriente, Donald Trump garantiu esta terça-feira que não há conversações em curso ou previstas com Teerão, que o Estreito de Ormuz está aberto e que todas as minas foram retiradas ou detonadas. Vamos por partes. Primeiro, as conversações. Coronel, em que é que ficamos? É que no início da semana, o próprio conselheiro de Donald Trump, o Jared Kushner, falou em conversações robustas. O que ganha Trump com este desmentido?
Eu já há muito tempo que descontei a retórica hiperbólica de Trump. Trump diz coisas que de fato não se manifestam. Há uma que é óbvia, o Estreito não está aberto.
Não está aberto.
Agora, uma coisa é certa. De fato, tanto o Irão como os Estados Unidos controlam o Estreito, no sentido em que o mantêm fechado. Ou seja, no sentido que conseguem impedir a circulação de navios, uns por ameaça, outros por interceção, mas conseguem de fato manter o Estreito fechado. Ambos controlam, podem ambos reivindicar controlar o Estreito. Não em termos de manter aberto, porque manter aberto nenhum deles consegue fazer passar navios à vontade.
É possível declarar um canal marítimo seguro e sob controle unilateral quando Teerão e Omã, por exemplo, continuam a desenhar as regras de navegação no terreno?
Não, o problema do Omã é que está metido nisso porque é um pequeno país, partilha aquelas águas e não queria nada disto, mas está à mercê, é uma espécie de fiambre entre dois bocados pão bastante grossos. Que é o caso do Irão, que é uma ameaça efetiva, ou seja, o Irão ataca mesmo, o Irão ataca os navios que passam por Omã. Tem atacado vários, um de vez em quando, não ataca todos os dias, ataca de vez em quando. No fundo, é o suficiente para intimidar quem tente passar por ali, que é aquela rota que os Estados Unidos dizem que está aberta. Na verdade, está aberta. Ou seja, ninguém impede passar por ali, a não ser o Irão. O Irão é que impede pela ameaça. Agora, a outra parte não está aberta, porque os Estados Unidos interceptam os navios que, sob certas condições, vão e vêm dos portos iranianos, ou não só, ou que o Irão autorizou passar. Oman é apenas alguém que tenta sobreviver e não quer afrontar o Irão, não quer afrontar os Estados Unidos. Este acordo que estava a desenhar com o Irão, Oman não tem grande necessidade dele, porque Oman tem nas suas águas canais suficientes para os navios todos passarem. Nem sequer é preciso que passem pelo Irão. Só que o Irão não quer, obviamente. Oman está a tentar não conflituar nem com o Irão, que vai estar sempre ali, nem com os Estados Unidos, que é um aliado bastante forte, com bastante caboeso. Está a tentar sobreviver.
E em relação às conversações, coronel, quanto a isto não existe nada?
Eu acho que haverá sempre, como disse o seu gera, Kushner. Sim, terá haver. Mas é curioso que falou-se aqui também que era o presidente curdo do Curdistão, o Barzani, que estava a servir de back channel para estas negociações e agora o Irão, ou alguém, lançou dois mísseis em direção ao palácio do Barzani. Há aqui muitos jogos de sombras que nós não entendemos. Eu creio que terá haver sempre negociações, há sempre conversa entre pessoas que, próximas, não são diretas, obviamente, não há negociações diretas, isso de fato pode-se negar, mas há negociações por entrepostas pessoas, sim. Conversa-se sempre. Isso sempre aconteceu.
Entretanto, já que falamos em conversações, as negociações em Gaza permanecem sem avanços, Israel e Hamas ainda em desacordo sobre o desarmamento. Coronel, com este dilema de quem dá o primeiro passo, existe alguma fórmula intermédia sustentável ou o plano de paz está, de fato, condenado a ficar assim paralisado?
Não vai ficar muito tempo. Aquilo que está aqui em causa é que o que se acordou já em 2025 e depois em março, foi mais em 2025, é que o Hamas desarmava, depois ficaram por definir, era a fase dois do acordo. O Hamas desarmava, mas desarmava completamente. Agora, o Hamas não desarmou, porque as condições também não foram criadas. Houve aqui acordos que fizeram nas costas dos protagonistas, por exemplo, este acordo dos 15 pontos que está agora em vigor, supostamente, foi feito por quem? Israel não participou neste acordo, foi feito por países que Israel não confia, que é o Qatar, a Turquia, o Egito e os Estados Unidos. E o Hamas aceitou esse acordo porque o acordo não implicava um desarmamento antes de Israel retirar. O mecanismo era: o Hamas desarma um determinado setor ou entrega as armas a uma força, que não sabe bem qual vai ser.
E depois então Israel saía.
Mas Israel, essa força quem era? O Hamas entregava às forças, a uma força ligada à autoridade palestiniana ou ligada àquele governo com tecnocratas palestinianos, ficavam lá as armas. Israel não vai aceitar isso, obviamente. Não vai aceitar isso e, portanto, impõe o contrário, que é: "Não, nós só saímos quando o Hamas desarmar". Aliás, estamos também neste pé no Líbano. É a mesma coisa, Israel não irá sair, tanto quanto todos sabemos, enquanto estes movimentos não desarmarem. Verificadamente, não é apenas dizer que desarma.
Coronel José Ducar, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si.
Um bom dia também. Obrigado.
Obrigada.