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Temos conosco, em direto nesta edição das 11h, Daniela Melo, professora de Ciência Política na Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Muito obrigada por estar conosco. Gostava de aproveitar o fato de conhecer muito bem a realidade norte-americana e a política norte-americana para perceber melhor o impacto que esta decisão de Donald Trump pode ter nos Estados Unidos, até porque uma eventual declaração de guerra tem de ser declarada, passe a expressão, pelo Congresso.

Olá, bom dia. Ainda não temos uma reação exatamente da população, porque muitos ainda estão a acordar, como pode imaginar, são 6h nos Estados Unidos.

E eu agradeço a disponibilidade da Daniela para estar conosco tão cedo.

Claro, não se preocupe. No entanto, os jornais obviamente começaram logo a responder, e isso já se esperava. E aliás, tem sido um dos temas da semana, entre muitos temas, aqui nos Estados Unidos, porque no próprio discurso da União, que foi na terça-feira, Donald Trump falou no Irã, mas não deixou claro se realmente haveria uma intervenção deste tipo ou não, quais seriam os objetivos principais dessa intervenção. Ou seja, tem havido uma certa equivocação do presidente, ou falta de claridade, se quisermos, da parte do presidente para com o povo americano sobre o verdadeiro objetivo. Obviamente, o presidente na terça-feira falou sobre armas nucleares, mas outras vezes falou sobre a libertação do povo iraniano de um regime cruel. E, um à parte, todos sabemos que sim, que os iranianos estão realmente sob um regime cruel, mas a questão é, do ponto de vista tanto da lei internacional como da lei americana, até que ponto o presidente pode intervir com esse tipo de justificação. Portanto, o que eu quero dizer é que tem havido muito pouca claridade sobre os objetivos a atingir no Irã.

Isso pode ter repercussões na base eleitoral de Donald Trump.

Exatamente, ou seja, repercussões eleitorais, ponto final, porque estamos em ano de eleições, temos eleições em novembro, e essas eleições são intercalares, são para o Congresso, e há a verdadeira possibilidade de o Partido Republicano perder essas eleições e, portanto, perder a capacidade de controlar o processo legislativo nos Estados Unidos, o que basicamente congelaria toda a agenda de Donald Trump. Donald Trump, obviamente, também será questionado muito publicamente sobre a decisão de entrar num conflito, mais uma vez, sem o aval do Congresso, como referiu. Portanto, veremos até que ponto a sua base republicana estará preparada para criticá-lo. Como estamos em ano de eleições e tirando ilações do que aconteceu com a Venezuela, prevejo que haja uma grande parte do partido que se alinhe com Donald Trump e que tente justificar tudo isso. No entanto, a sua base eleitoral não é uma base eleitoral aventureira do ponto de vista da política externa, muito pelo contrário.

Mais conservadora.

Exatamente. Donald Trump ganhou eleições prometendo que ia terminar guerras e não se envolver em novas. Portanto, isto pode realmente ter um efeito muito grande na base MAGA, que já está muito dividida na questão de Israel, na questão de intervenção e de envolvimento neste tipo de conflitos, e que certamente não apoia ser arrastado para mais guerras, sobretudo no Oriente Médio, onde, como sabemos, os Estados Unidos têm um historial questionável, digamos assim.