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Entramos hoje no oitavo mês de guerra e com alertas de uma escalada descontrolada de uma bomba suja. Já vamos explicar o que estas expressões querem dizer com o historiador Bruno Cardoso Reis. É mais um encontro do gabinete de guerra que conta com a Judite França, o Bruno Viana Amaral e também com a Vanessa Cruz.

Oito meses, 243 dias de guerra. A Rússia acusa a Ucrânia de estar a preparar uma bomba suja com material radioativo no próprio território ucraniano, com a ajuda de Estados Unidos, França e Reino Unido. Entretanto, estes três países já emitiram um comunicado conjunto a negar tudo. Kiev diz também que é um pretexto de Moscovo para um ataque e uma autêntica campanha de desinformação. Bruno Cardoso Reis, é perante isto que estamos e já agora, Portugal poderia aqui eventualmente correr riscos num cenário de bomba suja?

Boa tarde. Acho que é importante começar por esse aspecto, que é de facto uma bomba suja, que é algo que nós nunca vimos, portanto, não temos propriamente um precedente, mas à partida pelas suas características, é bastante menos perigosa para países vizinhos do que seria a utilização mesmo de uma arma nuclear tática. Ou seja, estamos a falar basicamente de um engenho explosivo, portanto uma bomba convencional com explosivos convencionais. Até se fala deste risco de uma bomba suja em relação a grupos terroristas, mas a que nesse engenho explosivo, digamos, com explosivos convencionais, seria acrescentado material radioativo e, portanto, o efeito da explosão em termos da natureza da explosão, da amplitude da explosão, seria o que resultaria destes explosivos convencionais, mas depois a par disso, haveria uma difusão de material radioativo e potencialmente isso também implicaria que uma determinada zona onde houvesse a explosão passasse a ter um nível radioativo que tornasse perigoso a presença de pessoas nessa região. Mas à partida, em termos de impacto mais amplo, seria um risco muito mais limitado e, portanto, a probabilidade de afetar Portugal diretamente, obviamente é basicamente nulo. Tanto quanto nós conseguimos perceber, lá está, de algo que nunca teve aqui precedentes. Portanto, eu percebo alguma preocupação, mas acho que é importante sublinhar isso, que à partida, esse tipo de arma não constituiria um risco imediato para as pessoas. Enfim, não teríamos de nos preocupar com questões como aqueles famosos comprimidos de iodo em Portugal. Agora, de facto, tudo isto é preocupante. Tivemos chamadas entre ministros da Defesa que à partida são uma boa notícia, são utilizadas de forma discreta. Geralmente nem se sabe muito bem o que é que foi dito para ajudar a gerir aqui riscos de uma escalada descontrolada, que aparentemente foram usados pela Rússia para promover, uma vez que eles próprios tomaram a iniciativa de divulgar também o que é que foi dito, promover aqui uma dinâmica de escalada, pelo menos retórica. Portanto, mais uma vez, vir aqui com a ideia de utilização de meios não convencionais no contexto desta guerra e as próprias declarações russas falavam exatamente de uma escalada descontrolada.

Desculpa, Bruno.

Não. Eu acho que aqui o que é fundamental é esta mensagem que foi passada pelos ministros da Defesa dos países ocidentais que foram contactados, de dizer que nós não damos nenhum crédito a esta informação da Rússia, de que a Ucrânia estaria a preparar-se para isto. De facto não se percebe nenhuma razão ou lógica militar, lógica estratégica que pudesse justificar isso. E há sempre este receio que isto pode fazer parte de uma escalada retórica, de uma certa pressão psicológica, até de uma tentativa de dividir os países ocidentais entre si e em relação à Ucrânia, mas também pode ser uma forma de preparar uma ação russa que depois vai ser atribuída à Ucrânia.

O ministro russo da Defesa falou hoje numa escalada descontrolada deste conflito, no dia em que os russos anunciaram a criação de uma milícia local em Kherson. Estamos cada vez mais próximos de uma batalha por Kherson?

Sim, eu acho que isso é bastante claro. Neste momento é claramente a zona da frente mais ativa, apesar de já terem começado as chuvas, apesar de haver esta expectativa que no outono as ações ofensivas são sempre bastante mais difíceis, mas claramente dos dois lados há sinais de que Kherson é realmente prioritária. Agora, o que isso quer dizer? Não sabemos. Quer dizer, esses anúncios, mais uma vez, podem fazer parte aqui de criar uma certa fachada para ajudar a disfarçar o fato de que os russos até estão a organizar uma retirada a partir de Kherson e que portanto, se calhar até se preparam para abandonar a cidade. Pode ser um sinal de sentido oposto. Também ouvimos notícias de que o presidente Putin teria ordenado que Kherson era para defender, que mesmo que militarmente seja uma zona de muito difícil defesa, está na margem errada do rio do ponto de vista dos interesses russos, a maior parte das forças da logística russa está na outra margem do rio Dnipro. Houve todo aquele esforço ucraniano para derrubar pontes, zonas de atravessamento, portanto, estrangular a logística russa. Mas pode ser que haja uma aposta da Rússia em forçar um assalto ucraniano com linhas defensivas, com uma batalha, um combate urbano, que é como vimos já, bastante desgastante. Independentemente daquilo que sejam as opções, o que parece claro é que neste momento, de facto, a prioridade é esta zona de Kherson E é previsível que realmente haja aqui uma corrida contra o tempo atmosférico, ou seja, não há assim muito mais tempo, provavelmente, para grandes ofensivas noutras regiões, embora temos que ser sempre prudentes. Como temos estado a ver, de semana para semana, de mês para mês, já vamos no oitavo mês de uma guerra que muita gente achou que ia acabar em poucos dias ou em poucas semanas. E nesses oito meses as coisas já evoluíram e já houve alturas em que parecia que a Ucrânia estava em vantagem a vencer. Já houve outras alturas em que a Rússia pareceu estar em vantagem a vencer.

Bruno, indo aqui um pouco mais para Oriente, Xi Jinping saiu fortalecido do Congresso do Partido Comunista Chinês para um terceiro mandato. Crês que exista algum tipo de mudança relevante daqui para frente na China e no papel e posição que o país tem sobre a guerra? E pedia-te um comentário breve a esta pergunta.

Sim, isto é um grande evento público, altamente coreografado, as coisas que é sempre mais esperado são sinais no discurso do líder. Aí, de facto, não apareceu nenhuma referência à Ucrânia, mas também não era muito expectável que aparecesse. Houve algumas referências a Taiwan. E em termos também de escolha de pessoal, quem é que são os novos líderes. Aí há alguma especulação, porque apesar de tudo, os ministros só serão definidos em março, que o novo ministro dos Negócios Estrangeiros será provavelmente o anterior embaixador nos Estados Unidos. E um sinal também importante é que o principal ideólogo e pensador estratégico, que faz parte deste grupo dos sete do comitê permanente, que são os homens que realmente governam a China, esse ideólogo mantém-se e é uma figura que se caracteriza por ter uma visão muito negativa, muito pessimista também do Ocidente. Portanto, eu diria que claramente os Estados Unidos continuam a ser muito importantes para a China e provavelmente mais importantes do que a Rússia, mas isso não significa que haja aqui uma expectativa de uma relação mais positiva. E, portanto, eu diria que os sinais para já são de que não haveria aqui mudanças radicais em relação quer à relação com a Rússia, de uma certa parceria, mas não no completo alinhamento e de uma relação com os Estados Unidos, que não se quer que seja de corte completo, mas que se percebe que vai ser de tensões provavelmente crescentes.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise neste dia. Faz hoje oito meses desde que a guerra na Ucrânia começou.