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Está no ar mais um Gabinete de Guerra na tarde da Rádio Observador e com o historiador Bruno Cardoso Reis, também a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. E o encontro de hoje vai ser mais centrado na Rússia, nas críticas ao ministro russo da Defesa e em Vladimir Putin, que tem acusado o Ocidente de fazer chantagem com alguns países.
Acusações feitas precisamente hoje para que países do Ocidente cortem relações com a Rússia. É esta acusação feita por Vladimir Putin, diz que não é segredo nenhum que há chantagem à força a visar parceiros de Moscovo. Bruno Cardoso Reis, boa tarde. É um discurso de Putin num fórum económico. Estamos perante, mais uma vez, a narrativa russa ou há evidências de que isso possa estar mesmo a acontecer?
Aquilo que é profundamente irônico é um país que invade o outro, quer dizer, que desencadeia a maior invasão na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, depois vir usar este argumento de que o Ocidente está a usar a força para tentar coagir outros países. Não, o Ocidente está a usar meios diplomáticos e meios económicos. Está a implementar as suas próprias sanções e está, no fundo, a tentar encorajar os outros países, através da diplomacia, para também o fazerem, mas não está a forçar nenhum país sequer a adotar sanções, quanto mais a utilizar o tipo de meios, nomeadamente a força militar, para impor o que quer que seja. É verdade que há muitos países, sobretudo no sul global, que não querem, de facto, ceder a essa pressão ocidental. Isso é assim agora, foi assim no passado. Ainda hoje estava a dar uma aula sobre a questão da invasão soviética do Afeganistão e nessa altura também foram decretadas sanções, por exemplo, sobre a questão dos cereais pelos países ocidentais. E também nessa altura houve críticas a essas sanções, inclusive de países como o Brasil ou a Argentina, que novamente hoje em dia criticam essas sanções. E nessa altura estávamos no pico da Guerra Fria, esses países até eram governados por ditaduras de direita, ditaduras anticomunistas e, no entanto, por razões económicas manifestaram a sua discordância. Portanto, há, de facto, esta tensão, esta discordância sobre o que fazer em termos, por exemplo, de sanções para reagir a esta invasão da Rússia, mas isso de maneira nenhuma pode ser caracterizado como utilizar a força ou coagir outros Estados a romperem relações com a Rússia. Desde logo, também não é essa a questão, romper relações não, mas seria eventualmente condicionar as suas relações económicas com a Rússia, e isso também foi muitas vezes feito no passado, em reação precisamente a este tipo de agressão armada. Mais, os países ocidentais avisaram repetidamente a Rússia de que era isto que iria acontecer se violando todo o tipo de acordos, a Carta das Nações Unidas, os acordos de Helsínquia de 1975, que foram explicitamente negociados essencialmente pela Rússia, ou seja, pela antecessora da Rússia, a União Soviética, a Rússia é a sua herdeira legal, e pelos países ocidentais, em particular os Estados Unidos. A violação do Memorando de Budapeste, de 1994, em que a Rússia, em troca do armamento nuclear que a Ucrânia tinha, de origem soviética, garantiu as fronteiras da Ucrânia tal como elas estavam definidas e reconhecidas em 1991. E esse acordo tinha também como outro garante, precisamente das fronteiras e da segurança da Ucrânia, os Estados Unidos. Portanto, depois de a Rússia violar tudo isso, os Estados Unidos e os países ocidentais avisaram: "Vai haver sanções económicas sem precedente" e portanto, é disso que estamos a falar.
Falando dos objetivos da Rússia nesta guerra, o porta-voz do Kremlin diz que é para serem alcançados, e estou a citar, "no curso da operação militar especial ou por outros meios disponíveis". Que meios são estes, Bruno? Estamos outra vez a ver acenar com o nuclear ou há outros recursos na manga?
Eu penso que estaremos a falar mais uma vez desta chantagem nuclear, ou seja, não se vê muito bem que outros meios é que a Rússia pudesse utilizar. Quer dizer, ciberataques? Mas isso já fazia antes da guerra. Recorrer aqui a meios, digamos, não convencionais, terrorismo, mas não há nenhuma razão para acreditar que seja mais eficaz do que uma invasão militar em grande escala. Portanto, o único sentido que parece poder atribuir-se a essas palavras é realmente a questão da utilização de armas não convencionais, ou seja, armamento eventualmente nuclear ou eventualmente químico ou biológico também, que esses estão mesmo proibidos pela lei internacional. Agora, o problema desse tipo de discurso e de chantagem é que já foi usado tantas vezes que perdeu a sua credibilidade, até como forma de condicionar minimamente ou assustar um pouco, por exemplo, os aliados ocidentais na sua ajuda à Ucrânia. Tanto mais quando tem ficado muito claro que países que se tornaram indispensáveis para a Rússia, dos quais a Rússia está mais dependente do que nunca, em particular a China, mas mesmo a Índia, por exemplo, em termos económicos, em termos de comércio, em termos de investimento, tecnologia, esses países deixaram muito claro que são completamente contra, são completamente hostis à utilização de qualquer tipo de armamento nuclear num conflito deste tipo. E portanto, acho que isso também ajudou a descredibilizar esse tipo de chantagem e acho que é mais um sinal do desespero e de um certo esgotamento também até da própria retórica da Rússia em relação a este conflito.
Bruno, um sinal de desespero ou pelo menos de alguma discórdia na Rússia foram as críticas do fundador e líder do grupo Wagner no Telegram, numa longa entrevista. Ele admite o fracasso da campanha militar, pede até a demissão do ministro da Defesa e sugere que a guerra pode acabar com um motim dos soldados russos. Russos contra russos, reside aqui o reconhecimento de Putin de que a Rússia atravessa tempos difíceis?
Essa é uma das teorias da vitória possível da Ucrânia. A ideia de que voltaríamos a assistir algo do tipo do colapso russo em 1917 ou mesmo em 1905, durante a Primeira Guerra Mundial ou na Guerra Russo-Japonesa. O acumular dificuldades militares, disfunções também nas Forças Armadas, divisões nas Forças Armadas, e depois isso culminar em algum tipo de levantamento. Eu acho que isso é revelador, e é revelador que alguém que faz parte da elite russa chame a atenção para esse risco. Também temos, por exemplo, informações dos serviços secretos britânicos que estimam que desde janeiro terá havido autour de 1000 deserções, um número muito maior do que todo o ano anterior. Haveria aqui uma espécie de crescendo na desmoralização e no aumento das deserções dos soldados russos, o que tendo em conta as punições que eles sofrem, realmente é muito significativo. No fundo, preferirem correr esse risco a continuar a combater quando acham que não têm condições, nem comandantes também à altura dessa missão. Agora, eu acho que temos que ter aqui algum cuidado, ou seja, não há sinais disso. E a verdade é que para haver um real colapso do Estado, é fundamental que haja fraturas nas elites, haja elites também credíveis que possam apresentar uma alternativa àquilo que existe, e eu tenho grandes dúvidas que isso aconteça. Parece-me que as elites próximas de Putin estão todas muito fragmentadas, muito divididas, muito descredibilizadas também, e muito contaminadas pela guerra, pelo regime, pela corrupção. E portanto acho que é muito difícil termos confiança que isso vai acontecer. Agora, não há dúvida que este estresse permanente, este choque permanente, o fato inegável que o próprio Prigozhin reconhece que isto não está a correr de acordo com o plano, obviamente aumenta os riscos para o regime. Agora eu acho que é demasiado cedo para dizer que vemos aqui sinais de um colapso iminente. Pode acontecer, mas não vejo sinais iminentes disso.
Estaremos aqui para analisar os desenvolvimentos. Bruno Cardoso Reis, obrigada pela tua análise. O Gabinete de Guerra está de volta amanhã.