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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360 desta quinta-feira, com análise de Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, bom dia.
Olá, Miguel. Quinta noite de ataques norte-americanos contra o Irão. Teerão fala em pelo menos 35 mortos e mais de 300 feridos civis desde o retomar do conflito. Miguel, a ser verdade, e à medida que o custo humano começa a subir e as imagens da destruição chegam à opinião pública, o opô internacional à ação militar dos Estados Unidos corre o risco de colapsar, transformando o Irão na vítima desta história, ou isso nunca vai acontecer?
Essa pergunta é interessante. E por que é interessante? Porque nós assistimos, na última reunião da NATO, acima de tudo, a um reunir de vozes à volta de Donald Trump, a dizer que Donald Trump efetivamente estava a fazer algo importante na questão do Irão. E que efetivamente os Estados Unidos tinham, neste momento, eu não vou dizer um mandato, porque não têm, e obviamente que não ficou fechado, mas quando nós ouvimos vozes como as de Keir Starmer, Macron, ou mesmo o chanceler alemão, a dizer que os Estados Unidos estavam a fazer, de forma correta, esta pressão sobre o Irão, e que a intervenção militar que começou a 28 de fevereiro tinha um objetivo que todos entendiam qual era e que apoiavam, fica, de alguma forma, um certo apoio, mesmo que não institucional, mesmo que não firmado. Neste momento, o que a comunidade internacional e todos nós precisávamos saber é exatamente qual é o objetivo. Porque qualquer intervenção militar tem que ter um objetivo. O objetivo da primeira intervenção militar era a questão dos mísseis balísticos, dos proxies, da questão relacionada com a possível queda do próprio regime e aquilo que Donald Trump e a administração americana sempre falou, a questão do programa nuclear. Esse era o objetivo daquilo que eu chamo a primeira guerra. E a primeira guerra acabou com um memorando de entendimento e com o Ceasefire, um memorando de entendimento que não era nada positivo para os Estados Unidos e era muito mais positivo para o Irão.
E muito frágil, não é, esse memorando? Como se vê.
E muito frágil, e que serviu um propósito, que foi, na altura, terminar o conflito, permitindo a reabertura do Estreito de Ormuz e permitindo a volta à vida normal da economia. E este é o grande objetivo do memorando de entendimento na altura. Findo isto, o que nós hoje estamos a assistir é aquilo que eu chamo pela segunda guerra. Tanto que na semana passada, na sexta-feira, ele reinforma o Congresso norte-americano dizendo que está a encetar novos ataques e considera isto como uma nova guerra. Por isso é que ele agora tem, legalmente, também, mais 60 dias para fazer estes ataques sem ter a necessidade, ter a obrigação do Congresso. E hoje, esta nova batalha, que eu lhe chamo até a batalha pelos estreitos de Ormuz, é efetivamente um segundo momento da guerra. E é pelo controle dos estreitos, pelo controle daquilo que possa ser uma garrote à economia mundial. E é aí que nós estamos. Por isso é que a comunidade internacional terá grande dificuldade de apontar o dedo a Donald Trump, pelo menos para já, porque ele está a tentar controlar aquilo que possa ser um garrote feito à economia mundial. Como isso da primeira vez causou, e nós vamos assistir nos próximos meses ao impacto do que aconteceu da primeira vez. Para já, ele está ainda em um terreno em que se olha e que a comunidade internacional olha e diz: "bom, mas ele está a fazer até, não vou dizer uma boa ação, mas ele está a fazer algo importante para evitar que o Irão tenha capacidade de estrangular de novo a economia mundial".
Entretanto, Miguel, o número dois dos Estados Unidos, o J.D. Vance, admitiu que o objetivo a curto prazo dos Estados Unidos é destruir de vez a capacidade nuclear do Irão, mas ao mesmo tempo garante que a era de enviar soldados americanos pro terreno terminou. É militarmente possível neutralizar de forma duradoura o programa nuclear do Irão, que está enterrado em bunkers subterrâneos, apenas com bombardeamentos aéreos e sem nenhuma operação terrestre?
Não é. E só será possível alguma vez ter um controle total deste projeto e desta questão do nuclear, se efetivamente chegarem a um acordo, e um acordo que seja firmado com seriedade por ambas as partes. Ou então, se houvesse efetivamente uma intervenção militar terrestre. Da mesma forma que a questão do regime, a mesma forma do controle sobre os proxies, sobre a questão dos mísseis balísticos, etc, só será possível se houver um acordo que seja capaz e sério entre as duas partes, e nós temos grandes dificuldades e temos questões sobre a seriedade do Irão nesses tópicos todos. E, portanto, a tentativa de J.D. Vance é fazer a mesma coisa que Donald Trump sempre fez, que é manter aquela ideia de que aquilo que foi prometido na campanha natural, de que os Estados Unidos não mais entrariam nestas guerras vãs, com intervenção militar no terreno e que muitas vezes trouxe os dissabores que nós conhecemos, Afeganistão, Iraque, por exemplo, para dizer só estas duas, de que isto não voltará a acontecer E isto leva-nos à mesma questão sobre o estreito. Como é que os Estados Unidos vão tentar consolidar a sua capacidade militar, quer seja sobre a questão de garantir que não haverá um programa nuclear no futuro, mesmo que haja um acordo assinado, ou como é que vão garantir que a questão do estreito de Ormuz continua aberto e que eles continuam a ter a vantagem. Porque hoje esta grande batalha é sobre a capacidade de assegurar os estreitos, como antigamente era a questão do nuclear, sem uma presença militar. E no dia que os Estados Unidos tiverem que ter uma presença militar, vão efetivamente estar suscetíveis a que haja baixas. E se houver baixas, como é que o presidente dos Estados Unidos vai, de alguma forma, suster a opinião pública americana e a visão que os americanos vão ter sobre isto? Portanto, vai ter implicações sérias também em casa a nível político, quando estamos num ano, efetivamente, de eleições. Portanto, é difícil garantir essa segurança. Estes bombardeamentos vão terminar um dia, até por causa da capacidade militar. A mesma coisa que a gente vê na Ucrânia, com a dificuldade, por exemplo, da produção de mísseis, etc. Portanto, que Iran tem um bocadinho de wishful thinking a achar que isto se resolve só com ataques através de bombas.
Miguel, vou apelar à tua capacidade de síntese para esta última questão. O Irão tem retaliado contra bases militares norte-americanas nos seus aliados do Golfo Pérsico. Até que ponto esses países, que dependem também, e quase a 100%, da estabilidade de Ormuz, vão aguentar esta estratégia agressiva do Donald Trump?
Essa pergunta é a mais interessante de todas aquelas que a gente pode fazer relativamente sobre a questão política local. Há, efetivamente, já a criação de uma nova linha de coligação. Paquistão, Arábia Saudita, Egito e Turquia. E estes países, nomeadamente a Turquia, não esquecendo que é um país que pertence à NATO, começam a olhar para aquela área do globo e começam a pensar que efetivamente aquilo que foi prometido pelos Estados Unidos aos países do Golfo, que foi estabilidade comercial, econômica e segurança, relativamente ao Irão, não está a ser cumprida. Portanto, o que é que está a acontecer? Começa-se a criar uma nova arquitetura de uma ideia da possibilidade de haver uma nova arquitetura de segurança. E repara, o Paquistão tem capacidade nuclear e a Turquia tem capacidade de efetivamente ser um país NATO e tem capacidade de criação de capacidade militar. E a Arábia Saudita tem dinheiro. Está a começar a criar-se aqui uma ideia. Todos eles ligados por uma coisa que chama-se Irmandade Muçulmana, que é outro perigo que nós ainda não falámos, mas havemos de falar no futuro. E o que é que está a acontecer? Começa-se a entender no Golfo de que os Estados Unidos não mais conseguem mesmo garantir aquilo que foi a promessa de Donald Trump quando no ano passado esteve no Médio Oriente e que assinou contratos milionários e que foi oferecido aquele avião, etc. Aquela ideia de que o presidente americano era o garante da segurança e que ia garantir, inclusive, a estabilidade política com Israel, através dos acordos de Abraão. Hoje, existe um grande ponto de interrogação, saber efetivamente se este presidente, se essa administração americana consegue mesmo garantir a estabilidade e o futuro de alguma estabilidade política e de alguma segurança no Médio Oriente.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise.
Obrigado a ti, Joana.
Bom final de semana, Miguel. Obrigada.
Igualmente, para ti também. Até para a semana.