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Até o final deste mês, o Bruno Cardoso Reis e o "Cinco Continentes" estão de férias. Abrimos, por isso, um gabinete de guerra nesta manhã de sábado. Analisamos os últimos desenvolvimentos desta invasão russa, hoje com a ajuda do professor Carlos Gaspar, aqui para uma conversa com o Diogo Teixeira Pereira.
Bem-vindo, Carlos Gaspar, à "Rádio Observador". Obrigado pela disponibilidade. Proponho que comecemos com uma notícia que começou a ser veiculada ontem. Zelensky demitiu todos os líderes regionais de recrutamento militar. Justificou esta decisão com a corrupção que existe nestas instituições. De que forma é que isto afeta a organização ucraniana?
Esperemos que afete de uma maneira positiva, que introduza uma maior disciplina nos processos de recrutamento. É notável a maneira como, desde o princípio, o presidente Zelensky, por um lado, trava uma guerra existencial contra o invasor russo e, por outro lado, procura reformar as instituições do Estado ucraniano, indicadamente travar um combate permanente contra a corrupção, que é importante não só para aumentar a eficácia do Estado na guerra, como para consolidar a sua legitimidade perante a comunidade ucraniana e preparar a entrada da Ucrânia nas negociações com a União Europeia.
Isto porque a corrupção continua a ser um dos principais calcanhares daquilo, digamos assim, da Ucrânia.
Certamente, é um problema que é assumido pela primeira vez com este presidente. E a guerra não significou uma diminuição da luta contra a corrupção, mas sim um aumento da luta contra a corrupção a todos os níveis do aparelho de Estado, incluindo as estruturas administrativas e militares que são responsáveis pelo recrutamento, mas também ao nível judicial ou dos aparelhos de informação.
Mudando um pouco de assunto, mas também não tanto, porque vamos falar também um pouco da União Europeia, porque o presidente da Bielorrússia pediu ontem melhores relações com a União Europeia, num discurso talvez surpreendente.
Com a Polónia.
Com a Polónia, sim, e também com a União Europeia. Num discurso que foi talvez surpreendente, Lukashenko destacava a tecnologia de ponta do Ocidente. O presidente bielorrusso está a ensaiar uma mudança de discurso?
O presidente bielorrusso, desde o princípio da invasão da Ucrânia pela Rússia, tem estado ao lado da Rússia, mas com um empenho limitado. As forças militares bielorrussas nunca entraram no conflito, nunca assumiram sequer uma posição agressiva nas fronteiras com a Ucrânia ou, neste caso, nas fronteiras com a Polónia. E perante a mobilização militar anunciada pelo primeiro-ministro polaco, que vai reforçar as posições de fronteiras com 10 mil soldados, Lukashenko imediatamente recuou para uma posição mais conciliadora. Lukashenko tem uma posição interna muito difícil. Há uma verdadeira oposição na Bielorrússia, uma oposição estruturada, organizada contra o presidente bielorrusso, que limita a sua capacidade de ação. E, por outro lado, a Bielorrússia tem capacidades militares muito limitadas.
Mas este ensaiar de discurso de aproximação à Polónia e à União Europeia deve-
Significa apenas que a Bielorrússia não vai lutar ao lado da Rússia. Não significa mais do que isso.
Portanto, não há razões para Putin estar preocupado com esta declaração.
A Bielorrússia não vai mudar de campo, se é essa a sua questão, e duvido que o presidente Putin, no seu planeamento estratégico, conte com a participação militar ou a intervenção militar da Bielorrússia.
Fica essa nota também. Há outra notícia a marcar estas últimas horas e que está relacionada com uma nave russa que foi lançada para a Lua. Este é o momento ideal para a Rússia estar nesta corrida espacial?
A vida não para e a competição estratégica pelo espaço também não para. No passado, a competição era entre a União Soviética e os Estados Unidos, desde os anos 50. Agora a competição é mais alargada. Esta nave russa, Luna 25, está a competir com uma nave indiana, o Chandrayaan 3, que se dirige exatamente para o mesmo sítio, para uma alunagem no polo sul da Lua A Lua e estão marcados um para o dia 21 de agosto e o outro para o dia 23 de agosto. Não sabemos quem é que vai chegar primeiro. Esperemos que as duas alunagens tenham sucesso. Houve várias missões, entretanto, ao polo sul da Lua que falharam, designadamente do Japão e de Israel, mas há aqui uma nova configuração da competição espacial que inclui não apenas os Estados Unidos e a União Soviética como no passado, mas inclui também, obviamente, a China, a Índia, o Japão, a França, Israel, a Grã-Bretanha, com meios muito importantes. É um domínio prioritário na competição internacional nos próximos tempos.
Entretanto, e já falámos da Bielorrússia, Yevgeny Prigozhin tem estado mais ou menos desaparecido. Esta semana também, ontem mesmo, um jornalista antevia que Prigozhin poderia estar mesmo morto ou então a liderar uma nova rebelião do grupo Wagner. Sabemos exatamente o que é que se está a passar com este líder militar que há uns meses, há umas semanas, fez essa rebelião no interior da Rússia?
Prigozhin não é, de todo, um comandante militar. É um dirigente político, é um homem político que comanda um exército de mercenários com uma capacidade de projeção internacional ao serviço do Ministério da Defesa Russa. Não sabemos onde é que ele está. Os jornalistas querem sempre saber onde é que ele está e fazem muito barulho. Com certeza, há serviços de informação que sabem onde é que está Prigozhin. O problema é saber se ele não está a preparar uma intervenção da companhia Wagner no Níger, onde o golpe de Estado, que foi realizado por uma facção que tem ligações fortes com a Rússia e com a companhia Wagner, não vai abrir as portas à intervenção dos homens de Prigozhin, dos mercenários de Prigozhin. Isso é uma questão crítica. Os Estados Unidos estão a fazer tudo o que podem para impedir a intervenção da companhia Wagner. Os Estados Unidos têm duas bases de drones extremamente importantes no Níger, têm mais de mil soldados nessas bases do Níger. São os drones que fazem a vigilância e os ataques contra forças terroristas ao longo de toda a faixa do Sahel e essas posições poderiam estar comprometidas se a companhia Wagner entrar no Níger ao lado da facção que tomou o poder no último golpe de Estado, que parece estar a consolidar-se rapidamente perante a incapacidade da Nigéria de montar uma intervenção contra o novo regime.
E esta história que estamos a ver acontecer no Níger, podemos vê-la repetida noutros países africanos?
Não é preciso ser repetida noutros países africanos. Há vários países do Sahel, incluindo o Mali, onde houve golpe de Estado recentemente. Todos esses golpes de Estado vão no mesmo sentido, no sentido de neutralizar a presença militar francesa do Sahel. A questão que se põe agora é se também está em causa a presença militar norte-americana do Sahel. É óbvio que os Estados Unidos não têm a mesma posição que a França, não são uma antiga potência colonial, mas são o que resta de uma presença ocidental crucial para limitar as forças jihadistas que operam na região.
E a Rússia precisa destes aliados africanos e esta instabilidade favorece a Rússia?
Tudo o que possa prejudicar os Estados Unidos e os seus aliados ocidentais é, do lado de Moscovo, visto como um ganho de causa, não apenas do lado de Moscovo, mas também do lado de Pequim. É essa a regra do jogo na nova Guerra Fria.
Muito bem, muito obrigado, professor Carlos Gaspar, que nos esteve a ajudar a olhar para os últimos desenvolvimentos da invasão russa na Ucrânia, neste gabinete de guerra especial que fizemos hoje, numa altura em que o Cinco Continentes está de férias, regressa o Bruno Cardoso Reis no final do mês de agosto.