Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra, na Rádio Observador, o programa onde olhamos e analisamos, com a ajuda dos nossos convidados, os conflitos em curso e hoje centramos particularmente no conflito da guerra da Ucrânia. Vamos também falar sobre a eventual invasão da Venezuela pelos Estados Unidos. É nosso convidado Miguel Baumgartner, é especialista em relações internacionais. Miguel, bem-vindo. Obrigado pela disponibilidade.
Miguel, boa tarde.
Começamos, como dizia, pela Ucrânia e por mais um caso de corrupção que envolve a administração liderada por Volodymyr Zelensky. Desta feita, as suspeitas recaem sobre o chefe de gabinete do presidente da Ucrânia. Que impacto têm estes casos, particularmente na ajuda prestada pelos países ocidentais que têm suportado o esforço de guerra da Ucrânia?
Olá Miguel, boa tarde novamente e também a quem nos ouve. Curiosamente, ex-chefe de gabinete. Há poucos minutos, aparentemente terá informado o presidente Zelensky de que efetivamente apresentaria a sua demissão. Agora, estes casos não são novos. Nós sabemos que a corrupção na Ucrânia é uma questão também muito forte, como é em todas aquelas que são as ex-repúblicas soviéticas. Também acontecia a mesma coisa na Roménia e na Bulgária, que se juntaram à União Europeia. Portanto, nós sabíamos que efetivamente existia já, mesmo antes do início da guerra, um problema de corrupção fortíssimo e nomeadamente corrupção ligada àquilo que é a exploração dos recursos naturais da própria Ucrânia. Agora, o que é que isto, em termos políticos, piora a situação ou porque é que nós agora estamos a falar disto? É que nós estamos há quatro anos em guerra e a Ucrânia tem sido ajudada de uma forma financeira por parte da União Europeia, da Europa, de uma forma brutal, para permitir que a Ucrânia tenha condições de se defender da agressão que sofreu por parte da Rússia. E o que nós assistimos, não só a todas as semanas, mas assistimos nas últimas semanas, foi realmente o despencar desta teia de corrupção que circunda o presidente da Ucrânia. Qual é que a imagem em termos políticos nos dá? Dá a imagem de um presidente que cada vez está mais isolado internamente, digo eu, porque neste momento caíram dois ministros, que era o ministro da Defesa e o ministro das Finanças, que eram pessoas particularmente próximas de Volodymyr Zelensky. Nós sabemos também a questão do processo da corrupção àquele que é o seu amigo de longa data e parceiro de negócios de longa data, e agora o chefe de gabinete, que não é só o chefe de gabinete, mas também foi o líder da equipa que esteve a negociar com o Marco Rubio e de alguma forma, de forma indiretamente com a Rússia e com a Europa, o processo negocial dos chamados 19 pontos, portanto, uma contraproposta daquilo que foram os 28 pontos apresentados pelo Trump. Isto fragiliza muito Zelensky, mas acima de tudo internamente. Os europeus sabem, nós já falámos sobre isso, que não podem deixar cair Zelensky de um momento para o outro, de uma forma abrupta, porque corremos o risco, por exemplo, de termos um líder futuro na Ucrânia que não seja tão próximo da Europa e seja mais próximo da Rússia. Portanto, existe esse perigo e a Europa sabe-o bem. Agora, internamente, as coisas estão muito complicadas, porque estamos num momento em que a deserção militar é enorme. A Europa está com uma incapacidade de garantir a parte financeira que a Ucrânia precisa. E depois temos outra coisa, Miguel, é a fadiga da guerra criada nas populações, juntamente com esta questão da corrupção. Isto poderá efetivamente criar um problema político interno brutal a Zelensky. E termino dizendo isto, veja-se que a semana passada tivemos o ex-presidente ucraniano a dar uma entrevista a um canal de televisão francês, a dizer que a democracia estava cerceada neste momento na Ucrânia, porque era um país controlado pelos oligarcas e que efetivamente Zelensky era apenas uma marionete. Portanto, isto é tudo um barril de pólvora pronto a explodir e isto justifica também o porquê de quer Donald Trump, quer Putin estarem a apertar com a Ucrânia neste momento, porque sentem a fragilidade.
Ainda ontem Vladimir Putin questionava precisamente a legitimidade de Volodymyr Zelensky para negociar um acordo de paz, um cessar-fogo com as autoridades russas. Um dia depois, surge esta notícia.
O Miguel lembra-se que ainda não há muito tempo, na última visita que Zelensky fez ao presidente, já foi uma visita muito mais simpática, ao presidente Donald Trump, quero eu dizer, na Sala Oval, e que ele lhe perguntava, quase numa conversa de café, perguntava então: "Mas não acha que era melhor ir a eleições?" Aqui nos Estados Unidos nunca passaria pela cabeça um presidente estar à frente do seu país sem eleições. E portanto, há muito que a fragilidade de Zelensky é essa, quer para Donald Trump e principalmente para Putin, que utiliza essa carta como fragilidade política de Zelensky. E portanto, o que sentiram agora, até para as pessoas terem uma ideia, é um bocadinho como quando o tubarão pressente que há sangue na água, e foi o que sentiram agora Internamente ele está acossado, está com problemas sérios, está com problema de garantia de apoio militar e financeiro, tem a questão toda do avanço militar, que apesar de ser um avanço vagaroso, está a acontecer no território e Putin e Trump tentam dar a machadada final. Qual é a percepção? A percepção é que se Zelensky cair, poderá aparecer um líder da Ucrânia que tivesse maior facilidade de negociar com a Rússia.
O Miguel fazia referência à Europa. Hoje Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro, está na Rússia, vai encontrar-se com Vladimir Putin, tem por objetivo negociar o fornecimento de energia com o inverno aí à porta. Também de hoje, a oposição mais uma vez expressa pela Bélgica, a utilização dos bens russos congelados na Europa. Está difícil termos uma Europa a falar a uma só voz?
Está difícil termos a falar uma Europa a uma só voz, quando a Europa nunca se preocupou com esta questão. E atenção, o Miguel sabe que eu sou alguém que é europeísta convicto, mas o problema, e o que nós estamos aqui a fazer é uma análise, e a análise da realidade é que a Europa não se precaveu nunca, na sua coesão política, de conseguir ter uma linguagem, um denominador comum, uma linha de continuidade política que permitisse que os Estados tivessem uma certa independência, mas que tivessem um conceito comum que os juntasse. E isso não aconteceu. Nomeadamente, o que é que não acontece? Os países de leste ainda hoje se sentem quase como uns europeus de segunda classe. E Putin também soube explorar essa situação. Não é despiciendo pensar e dizer que há países como a Hungria, a Eslováquia, a Roménia ou a Bulgária, conversas, por exemplo, de ser criado conjuntamente com a Rússia, no futuro, uma união aduaneira e económica, muito ao estilo daquilo que é a União Europeia, mas daquele bloco de leste. Portanto, seria uma fragilidade imensa a saída desses países para a União Europeia. Dito isto, Orbán está a fazer pela vida e foi lá pedir que continue a fornecer energia, porque além de, em termos tecnológicos, a Hungria só poder utilizar o chamado crude Ural, o crude que vem da Rússia, que é diferente do Brent, são dois tipos de crude e a Ucrânia não tem essa tecnologia pra utilizar, por exemplo, a crude que viesse dos Estados Unidos ou de outro país. E depois tem aqui o ponto do seguinte: a Hungria quer ter um papel importante e determinante no futuro daquilo que será uma Europa muito diferente daquela que nós conhecemos hoje. E isso a Rússia também está implicada nesta guerra híbrida que tem feito e neste apoio aos extremos, à extrema-direita, fundamentalmente. E a questão da Bélgica é um pouco simples de explicar e é difícil de os europeus entenderem, que é o seguinte: o dinheiro não foi bloqueado pela União Europeia, que não tem capacidade jurídica para o fazer. Foi a Bélgica, que tem um fundo particular, uma empresa particular que faz gestão desses fundos, que bloqueou por estar dentro da União Europeia e concordar que os fundos sejam bloqueados. Para a utilização do dinheiro, não existe legislação. O próprio Banco Central Europeu é contra que isso aconteça, por quê? Não é porque não se queira utilizar o dinheiro do russo, mas é o problema da erosão da confiança. Só muito rapidamente, para as pessoas entenderem.
Este é o argumento usado também por Vladimir Putin, que ontem chamava precisamente a atenção para isso.
Mas Miguel, muito rapidamente, a questão dos mercados, da bolsa. A bolsa funciona em cima da confiança. E eu estou a analisar isto do porquê da Bélgica não querer. Sendo que a Bélgica não é produtora de petróleo, a Bélgica não é um grande país agrícola, a Bélgica não é um grande país que tenha outra coisa a não ser serviços, nomeadamente serviços financeiros. E o problema é a fuga aos mercados, não só aos mercados da Bélgica, mas aos próprios mercados europeus, por outros fundos soberanos que possam olhar e possam pensar que poderão vir a ter o mesmo problema se algum dia a Europa decidir bloquear os seus bens. E a Europa tem um problema sério, porque tem que ir buscar esse dinheiro. E neste momento, mesmo alguns países que são muito apoiantes da Ucrânia, como a própria Noruega, que tem o maior fundo soberano do mundo, não estão dispostos a pôr como colateral os seus fundos soberanos. A Europa, neste momento, está com um problema sério, que é garantir a sobrevivência financeira da própria Ucrânia.
Ainda temos aqui mais dois minutos, não é assim, Rita? Temos mais dois minutos. Miguel, tempo ainda para uma pergunta relacionada com um conflito que está iminente. Donald Trump veio avisar na última noite que as incursões terrestres na Venezuela vão começar muito em breve. Isto vai, de facto, acontecer? Os dados lançados apontam nesse sentido?
Eu não acredito que haja uma ação de tropas no terreno, no sentido de termos aqui uma invasão terrestre. Não me parece. Parece que vamos ter à imagem daquilo que aconteceu já noutros pontos do globo, nomeadamente a última vez aconteceu no Irão, uma intervenção da Força Aérea americana a fazer o bombardeamento de pontos estratégicos, sejam pontos estratégicos militares De apoio ao regime, sejam efetivamente de questões ligadas ao narcotráfico. E possivelmente, aqui ou ali, uma intervenção de tropas especiais, mas uma intervenção muito focalizada. Agora, isto não é uma ação militar contra a questão do narcotráfico. Isto está-se a utilizar como um pretexto. É o mesmo pretexto que os Estados Unidos em 89 utilizaram para invadir o Panamá, porque tinham um problema sério na altura com o Noriega. Aqui nós não nos podemos esquecer de que a Venezuela está muito próxima dos Estados Unidos, duas horas de avião, é o grande pivô da China e da Rússia na América Latina, inclusive os militares da Venezuela são treinados por militares russos e por chineses, que é quem fornece toda a questão do armamento, nomeadamente a Rússia forneceu há pouco tempo os mísseis terra-ar. Portanto ali a questão é uma questão de dominação de um ponto estratégico de um país, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo e é o oitavo país produtor de gás natural. É uma questão política da qual Donald Trump não pode dizer que quer invadir ou quer, de alguma forma, fazer cair Maduro, e utiliza a questão da droga, quando nós sabemos que mais de 80% da droga vai até pelo Pacífico, vai numa rota completamente diferente. Mas utiliza-se este argumento e este artefato da questão do narcotráfico. Ronald Reagan em 83 e 89 também o utilizou para fazer uma intervenção militar para a tentativa de derrubar um regime, neste caso um regime militar, que é o regime de Maduro na Venezuela.
Despeito que haveremos de voltar a falar sobre este diferendo que opõe os Estados Unidos à Venezuela. Miguel Baumgartner é especialista em Relações Internacionais. Muito obrigado pela presença nesta edição de Gabinete de Guerra.
Um abraço. Bom trabalho.