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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, centrado no conflito no Médio Oriente, hoje com o Major-General João Vieira Borges, a quem agradeço a disponibilidade. Boa tarde, Major-General. Depois de ameaça em cima de ameaça, Donald Trump anunciou ontem à noite o prolongamento do acordo de cessar-fogo com o Irão, em vigor até que o regime iraniano apresente uma proposta de acordo de paz permanente. Como é que interpreta esta decisão do presidente dos Estados Unidos depois das ameaças que antecederam este anúncio?

Muito boa tarde. Era a única solução que tinha. A justificação para essa solução de adiamento, até porque não havia interesse em continuar a guerra, julgo que das duas partes não haverá, mas era uma solução. Tinha que encontrar uma justificação, tendo em conta que várias vezes antes tinha dito que não ia adiar. Mas já estamos habituados a Trump, portanto encontrou uma solução e a solução foi que foi a pedido do Paquistão e simultaneamente passou a bola para o lado do Irão.

Sendo que o Irão devolveu a bola ao dizer que só falta sentar-se à mesa das negociações com os Estados Unidos, depois dos Estados Unidos levantarem o bloqueio aos portos iranianos. Estamos aqui numa situação de impasse?

Impasse. É uma situação que agora esperemos que, pelo menos da parte da comunidade internacional e em particular agora de moderador, encontre aqui uma solução que abra uma porta. A pressão da China tem sido importante, temos notado claramente que, ao contrário de outros conflitos, aqui a China está muito empenhada, até porque também tem uma ligação estreita com o Irão e, por outro lado, tem uma ligação económica e 80% desse petróleo vai pra China e a China também tem consequências negativas daquilo que têm sido estes bloqueios sucessivos. Mas neste momento, passando a bola para os Estados Unidos para a questão do bloqueio, ele acabou de dizer mais uma vez, de cinco em cinco minutos, Trump diz que o bloqueio são 500 milhões, está sempre ele com aquela linguagem, são 500 milhões que o Irão perde por dia. Vamos ver até quantos bilhões ele quer que ele perca para fechar o bloqueio, porque eu tenho a certeza que por muita pressão que haja, o Irão é muito resiliente nisso.

Donald Trump, os Estados Unidos vão ter que ceder.

Sim, mais uma vez. Vai arranjar outro argumento qualquer, como arranjou este. Vai ser a pedido do Irão, a pedido, peço desculpa, a pedido do Paquistão ou a pedido dos países do Golfo ou uma coisa qualquer. Então vai certamente deixar o bloqueio durante X dias, vai arranjar uma história destas, porque senão não saímos daqui, porque a resiliência do Irão já vem da guerra do Irão e Iraque. Portanto, eles vão sempre até o limite. E agora têm um argumento único, que é aquele estreito, que é uma arma de destruição massiva, já perceberam. E a pressão sobre a comunidade internacional é tão grande e o fator tempo é um fator estratégico para o Irão, não é para Trump, é para o Irão. Por isso é que ele está sempre a dizer que não é, mas é. Todos nós sabemos que é e, portanto, o Irão vai ganhando usando o tempo. Trump vai ter que tomar uma decisão e esperemos que não seja a decisão da guerra.

Os Estados Unidos têm referido sistematicamente que as capacidades militares do Irão foram aniquiladas. Ora, hoje tivemos notícia de que três navios foram atacados no estreito de Ormuz. Duas dessas embarcações foram apreendidas pelo regime iraniano. Não estará assim tão mal, pelo menos, a capacidade da marinha iraniana.

Não só da marinha, mas isso é a linguagem Trump. Ao fim de dois dias de guerra, estava tudo aniquilado. Já não havia marinha, não havia Força Aérea, não havia mísseis. E todos nós sabemos agora que passados estes tempos e com outro tipo de informações, inclusamente de outros atores, mais de dois terços dos mísseis ainda lá estão. E relativamente à marinha, obviamente que também ela estava salvaguardada em determinados portos, em determinados refúgios. É evidente que não é a marinha de grande porte, porque essa foi quase toda destruída, mas para ter esta capacidade que referiu agora, bastam lanchas rápidas que se escondem numa garagem ou que se escondem numa cave. Eles continuam a ter essa capacidade da mesma maneira, que é capacidade dissuasora, basta ter quatro ou cinco homens com mísseis dispostos ao longo daquelas montanhas também para ser dissuasora relativamente a navios. Isso penso que já percebemos todos e Trump também já percebeu. A solução que encontrou foi efetivamente também este bloqueio, que em termos económicos é muito complicado para o Irão. Portanto, foi uma boa solução numa perspectiva dos Estados Unidos. Agora, numa perspectiva mundial e das consequências daquele conflito para todos nós, obviamente que é péssimo. Vamos ver se saímos deste impasse em breve. Mais importante do que a guerra era resolver o problema com caráter de continuidade, até porque toda aquela região está a ser afetada e todo o mundo, por consequência, está a ser afetado. Portanto, acho que há consciência disso e o tempo não favorece Trump e as eleições intercalares vão se aproximando e ele sabe que a situação em termos de credibilidade, não é só uma questão interna. Nós percebemos hoje em dia até o acompanhamento da situação por parte de diferentes órgãos de comunicação social, que a China vai ganhando um posicionamentoDe maior credibilidade a nível internacional, seja para os atores tradicionais, seja para a comunidade internacional mais ligada ao mundo ocidental, que é uma coisa que ninguém esperava há uns anos atrás ou pelo menos antes desta administração Trump.

Sr. Major-General, voltemos agora o olhar para o conflito que envolve Israel e o Líbano. Amanhã há uma nova ronda negocial. Que expectativa está em torno deste encontro?

Eu tenho boas expectativas, independentemente de ter a noção que Netanyahu gostava mais que a guerra continuasse, designadamente entre o Irã e os Estados Unidos. Aliás, das suas palavras é fácil inferir isso. Independentemente disso, também há, da parte do governo do Líbano, uma disponibilidade já manifestada há pouco, pelo menos nos órgãos de comunicação social, no sentido de alargar este círculo de modo a encontrar uma solução mais perene ou de maior continuidade. Nós temos noção e ontem aquela reunião entre o primeiro-ministro libanês e Macron em Paris, deu para perceber que efetivamente o Líbano tem a intenção de caminhar para a paz, mas que também o governo tem grandes dificuldades em afastar ou, neste caso, desarmar o Hezbollah. E é uma solução de alto risco. Esta pressão de Israel e até dos Estados Unidos sobre o Líbano para desarmar o Hezbollah pode levar a uma nova guerra civil e já tivemos essa experiência e que foi maior a mortandade do que propriamente perante os ataques de Israel. E, portanto, há um cuidado muito grande, inclusivamente o pedido ontem ao primeiro-ministro, neste caso do primeiro-ministro do Líbano ao presidente da França, que também tem influência muito grande, foi potência colonizadora, continua a ter influência na região, no sentido de apoiar o governo do Líbano, exatamente a afastar o Hezbollah ou afastar o braço armado do Hezbollah. É um processo muito complexo.

Há precisamente um pedido de Israel também ao governo libanês para se comprometer com esse objetivo. Tendo em conta as dificuldades que aqui refere, entendo que dificilmente o executivo libanês poderá assumir esse compromisso face a esse receio de uma guerra civil a que fazia referência?

Muito dificilmente. Tem camaradas generais libaneses que estão de marmitas. É um processo muito complexo a nível interno. E isto não é novo. Os nossos ouvintes sabem o que é que foi o ano 2000, depois de 22 anos de guerra, aquela tal linha azul que foi traçada, as missões que foram atribuídas ou reatribuídas depois, até em 2006, à UNIFIL. Morreu mais um dos soldados que eu tinha citado antes, um soldado francês, já tinha morrido um, morreu um outro. Acabou de morrer há pouco. Mas isto para dizer que a própria UNIFIL e o governo têm uma grande dificuldade em cumprir a própria resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a 1701. E, portanto, tem que haver aqui outros atores a apoiar, porque não são 7500 homens da UNIFIL que vão conseguir fazer cumprir a missão. Não é o governo libanês só, tem que haver também da parte de Israel uma postura mais defensiva e menos ofensiva. E, portanto, o acordo vai ter que não ser só entre o governo libanês e o governo de Israel. Eu acho que o Hezbollah tem que entrar por pressão de alguém, de alguma entidade, de alguma instituição, de algum país. Do Conselho de Segurança não será, certamente. Mas tem que haver mais atores, que nós andamos nisto já desde 1948 ali naquela fronteira e em particular em guerra desde 1978. E, portanto, com este cenário, digamos que a pressão é grande no sentido de resolver o problema, porque está diretamente ligado ao conflito do Irã com os Estados Unidos e portanto, da parte do Irã só há negociação enquanto houver paz ali na questão do Líbano e portanto aí apoiando o Hezbollah. Ou seja, a solução não é fácil, mas a pressão neste momento é enorme sobre Israel no sentido de encontrar uma solução. Esta questão da linha amarela a 10 km com destruição total e ocupação por parte de Israel, é evidente que isso está no acordo de paz no âmbito de Gaza, mas aqui não está. E, portanto, também o próprio governo, para ter autoridade interna, o governo do Líbano, também tem que pressionar no sentido de Israel se afastar da linha azul, ou seja, na prática, a linha azul é a fronteira, não é bem, tem umas variações, há ali 13 pontos de conflito que está mais ou menos a 450, 500 metros daquilo que é a fronteira tradicional de 1948, se não me engano, ou 49, acho eu. E portanto, não vai ser fácil, mas há uma pressão muito grande. As duas guerras estão interligadas e há uma pressão muito grande. Esperemos que seja adiado o cessar-fogo, que se encontre uma solução, porque isso vai contribuir certamente para que a guerra entre o Irã e os Estados Unidos tenha uma solução.

É pelo menos essa a intenção do Líbano, que fez saber-se já hoje que levará amanhã a esta nova ronda negocial com as autoridades israelitas. Sr. Major-General João Firme Santos, muito obrigado, mais uma vez, pela sua presença e pelo seu contributo para que possamos interpretar estes últimos desenvolvimentos nos conflitos no Médio Oriente.