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E começa agora mais um Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta terça-feira, com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas e relações internacionais. Bem-vindo, professor. Bom dia.

Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.

Bom dia. Está cada vez mais próximo um acordo na Faixa de Gaza. Tanto Israel como os Estados Unidos asseguram que as negociações no Qatar estão numa fase adiantada. Numa primeira fase, o acordo prevê que o Hamas liberte 33 reféns. Em troca, Israel compromete-se a libertar palestinianos detidos em prisões israelitas. Esta terça-feira há uma nova ronda negocial. Professor, tudo aponta para que Netanyahu esteja à espera da próxima segunda-feira, dia da tomada de posse de Donald Trump, mas não se pode valorizar todo o trabalho da administração Biden.

Maria João, Biden acaba de reconhecer que a sua administração está a trabalhar, e a palavra é dele, urgentemente, para que o Hamas e Israel assinem o cessar-fogo. Ora, o advérbio urgentemente é um advérbio de modo e é muito justificado porque reflete precisamente o modo como a administração Biden, que não conseguiu fazer valer a influência norte-americana no Médio Oriente, tem pressa, tem urgência nessa assinatura, embora deixando para o sucessor, Donald Trump, o ônus que vai decorrer da difícil implementação das três fases desse acordo. Eu julgo que estamos a chegar ao momento oportuno, ou seja, aquele em que estão reunidas as condições mínimas para a assinatura. E por quê? Como eu tenho dito, o Hamas está decapitado e militarmente muito fragilizado e quer garantir a sobrevivência política. Depois, Netanyahu também está muito fragilizado. Está a enfrentar uma crescente oposição interna, porque a opinião pública há muito que já percebeu que os reféns, na sua maioria, será exagero, uma parte considerável dos reféns já não estará viva. Além disso, Israel precisa de continuar vigilante no sul do Líbano e ter em conta a operacionalidade dos houthis, que ainda esta noite voltaram a atacar Israel. E está à espera da decisão de Trump relativamente a como lidar com o Irão. Por quê? A circunstância, por exemplo, do enviado Kit Kellogg, o enviado à Ucrânia, por parte de Trump, não ter ido à Ucrânia invocando a lei Logan, que é verdade, mas ter comparecido a um encontro em Paris, precisamente da oposição iraniana, aquela que pretende transformar o regime, que neste momento é teocrático, num regime secular, pode funcionar de indício de qual será a posição de Trump relativamente ao Irão. O importante também ainda é percebermos que este número de reféns vivos que deverão ser libertados, em princípio 33, e o número e o nome, eu volto a frisar, Maria João, o nome dos prisioneiros palestinianos que Israel terá de devolver, acabam por ser ainda os elementos fundamentais neste rascunho. Repare, este rascunho pra passar a texto final, é um rascunho com muitas emendas. E isso é um claro sinal que nenhuma das partes estava interessada na assinatura. Cada uma das partes queria dizimar o outro. O problema é que as circunstâncias estão a obrigar a ditar a lei e a chegada de Trump é evidente que influencia muito estas decisões.

Entretanto, os Estados Unidos procuram impor sanções ao Tribunal Penal Internacional pela emissão do mandado de captura de Netanyahu. Professor, o que pode a Casa Branca fazer? Isto não é descredibilizar ainda mais uma instituição que já não goza de uma boa imagem, porque parece que ninguém respeita as suas decisões.

É evidente. Esta é uma criação que prova que o eixo normativo é o eixo dos fracos. Em termos reais, o eixo normativo assenta no direito. E nós percebemos que sempre que esse direito interfere nos interesses das grandes potências, num mundo de múltiplas ordens, esta realidade vai levar a que essas potências acabem precisamente por fazer tábua rasa de todo o normativo. É o que aqui estamos a assistir. Significa que a lei invoca-se quando defende os nossos interesses. Sempre que os põe em causa ou os nossos interesses ou os interesses dos nossos aliados, nós pura e simplesmente fazemos tábua rasa, nós desvalorizamos. É uma descredibilização total e isto prova aquilo que eu digo, que é o mundo de múltiplas ordens, em que há princípios, em que há valores, mas a interpretação que se faz desses princípios e desses valores é marcadamente uma interpretação interesseira. Os Estados Unidos, com esta decisão, mais uma vez reforçam aquela que é a minha ideia.

Sobre a guerra na Ucrânia, um alto diplomata russo, o Vladislav Maslennikov, que está ligado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, garantiu numa entrevista que Moscovo não vai atacar países da NATO. Professor José Filipe Pinto, podemos confiar em alguém tão próximo de Putin?

Podemos confiar tanto, Maria João, como no respeito da palavra que Putin deu, por exemplo, para os ucranianos.

Exatamente.

Em termos reais, significou o quê? Antes da atual invasão, porque a invasão começou em 2014, quando Putin invadiu a Crimeia. A atual invasão, quando começa, seis meses antes, um discurso de Putin deixou claro que verdadeiramente não se trataria de uma invasão, seria uma reconciliação nacional do mesmo povo, que aqueles dois povos verdadeiramente era apenas um povo. Tudo isto é uma falácia, tudo isto é um discurso montado pra quê? Pra justificar aquilo que estamos a assistir hoje na Ucrânia e que significa que enquanto Putin pensava, imaginou, eu acredito até que ele não tenha imaginado, fez valer a imagem de que os soldados russos iriam ser recebidos à boa maneira eslava, com pão e sal, foram recebidos a tiro. E isso prova o quê? Que verdadeiramente não podemos confiar nas palavras, nem de terroristas, que é o caso que acabamos de falar no Médio Oriente, do Hamas, mas também não podemos acreditar na palavra de um ditador. O ditador faz letra morta de tudo aquilo que complica a sua posição. Verdadeiramente, o que um ditador quer, mesmo a política expansionista que leva a cabo, é apenas com uma finalidade: é a continuar a capturar o poder, perpetuar-se no poder. Portanto, não é de acreditar. E repare, quando ontem o novo secretário-geral da NATO, Mark Rutte Falou em mais de 3%, mas depois acabou que se não fizéssemos isso, poderíamos acabar a ter de falar russo, a aprender a falar russo. Este foi o momento Trump de Mark Rutte, mas é precisamente o abanar, o apelar, mais do que apelar, é o chocar a opinião pública com a imagem. Para quê? Para mostrar a inevitabilidade da Europa.

E para levarmos a sério estes avisos, que são vários.

Exato, exatamente, de levar a sério e percebermos que temos de atuar em conformidade. É claro que ele também disse que havia um aspecto, é que apenas 23 membros da NATO é que afetavam, em 2024, 2% do PIB, portanto, à defesa. E repare, a passagem de 2% para um pouco mais de 3%, sabemos que Trump quer 5%, parece merecer uma análise. E por quê? Porque isso vai exigir um grande esforço orçamental aos vários membros e isso terá repercussões noutros setores da atuação do Estado, designadamente no campo social. E eu penso que temos de perceber se estamos a falar numa despesa ou num investimento. Ou seja, os países europeus vão gastar a verba a comprar material bélico ao principal fornecedor, que são os Estados Unidos, ou, pelo contrário, vão investir numa indústria militar conjunta que lhes possibilite essa autonomia crescente. E Maria João, aqui entra novamente Trump em jogo. E por quê? Porque para Trump, ele dá por adquirido que a Europa vai aumentar o grau da sua dependência relativamente aos Estados Unidos e por isso mesmo aqueles 5% acabam por beneficiar essencialmente o PIB interno dos Estados Unidos.

Entretanto, Volodymyr Zelensky acusou o primeiro-ministro eslovaco de apostar por Moscovo depois de Robert Fico ter afirmado que o presidente ucraniano anda pela Europa a pedir esmola. Professor José Filipe Pinto, o que é que quer Fico com estas declarações? E não devia a Europa estar mais atenta a casos como este, a Viktor Orbán e outros?

É evidente que deveria ficar, porque com exceção da Polónia, que está mais alinhada com o modelo ocidental, mas onde corremos o risco do PiS, o Ordem e Lei, voltar ao poder a curto prazo, e aí a posição já não é tão favorável à União Europeia, todo o grupo de Visegrád é muito mais pró-russo do que pró-União Europeia. Isso levanta o problema: a União Europeia alargou a leste sem estudos de previsibilidade, de sustentabilidade do modelo e, mais do que isso, sem ter em conta que eram povos com realidades diferentes e, portanto, com interesses também diferentes. Toda a investigação que tenho feito nessa zona mostra-me que Robert Fico não está sozinho nesta posição relativamente ao apoio russo. Sabe por quê? É um diálogo, por exemplo, Zelensky convidou agora o líder da Eslováquia a ir a Kiev. Mas ir lá para dialogar. Dialogarem sobre a passagem do gás russo pela Ucrânia, que neste momento está impedida por decisão da Ucrânia. Eu penso que isso é um diálogo impossível e não apenas por Fico estar alinhado com o Kremlin. Repare, há aqui as perdas resultantes do valor que a Eslováquia recebia pela passagem do gás para outros países. E quando a ideologia e a economia dão as mãos, torna-se fácil identificar os amigos e os inimigos, sendo os amigos aqueles que servem os nossos interesses. E neste momento, tal como eu percebi na Hungria, e na Eslováquia a situação é a mesma, entendem que a União Europeia acaba por estar mais apostada em defender a Ucrânia do que em defender alguns dos seus Estados-membros que acabam por sofrer devido a este conflito que está em curso na Ucrânia. Dito de uma forma mais simples, tanto a Eslováquia como a Hungria não querem sair da União Europeia, mas querem o melhor de dois mundos. E isso é impossível. Por que é impossível? Porque há aqui um elemento ideológico, e este elemento ideológico é: todas as informações que colhi na região apontam que nada disto tem de ideologia, tem de interesses. O meu problema é que os interesses também são ideológicos e, portanto, neste momento, nós assistimos a um aproximar de parte do Grupo de Visegrád a Moscovo, e Putin sabe que isso acabará por minar toda a união daquela que deveria ser a União Europeia.

Ainda sobre Zelensky, o presidente ucraniano diz estar disposto a entregar dois soldados norte-coreanos capturados a Pyongyang, em troca de prisioneiros de guerra ucranianos que estão na Rússia. Parece-lhe que Putin se interessa pelos soldados norte-coreanos?

Não interessa, mas os soldados norte-coreanos, temos de perceber que pode haver aqui uma leitura interessante. Por quê? Porque estes dois combatentes norte-coreanos que foram capturados pela Ucrânia, por um lado, podem prejudicar Zelensky, por outro lado, podem favorecer a posição de Zelensky. Por quê? Podem favorecer porque servem de prova da participação norte-coreana na guerra. Não há dúvida nenhuma, foram capturados em Kursk, que é território russo, mas estavam a combater e por isso mesmo estavam feridos. E como tal, a comunidade internacional não pode duvidar da presença de soldados norte-coreanos no conflito. Depois, pode prejudicar, porque corre o risco de Zelensky vir a ser acusado de estar a expor esses prisioneiros como uma espécie de troféus de guerra. E esse é um dado que não colhe junto de vários países, designadamente do nosso país, Portugal. Por quê? Porque se considera que os prisioneiros de guerra têm um estatuto especial e merecem proteção e respeito pela condição de prisioneiros. E há uma demasiada exposição. E esta exposição, quando Zelensky diz que os vai disponibilizar aos jornalistas, todo esse cenário pode, sob o ponto de vista humanitário, virar-se contra ele. Há ainda um outro dado, Maria João, com esta troca. Repare, estes militares não podem voltar à Coreia do Norte, nem um, nem outro. E por quê? Porque é muito previsível que o líder norte-coreano prefira cadáveres a soldados que se deixaram capturar. Todos nós sabemos que estes soldados têm a mesma indicação que tinham os agentes secretos dos filmes que animaram o nosso imaginário, que é: no momento em que são capturados, devem suicidar-se. E se não têm um veneno escondido numa cavidade de um dente, têm uma arma que podem virar contra o próprio. É este o elemento que temos de ter em consideração. Verdadeiramente, Pyongyang não está interessada em receber soldados que se deixaram capturar. Prefere os seus cadáveres, porque entre heróis e prisioneiros, prefere claramente os primeiros, mesmo que regressem apenas num caixão.

Professor José Filipe Pinto, é sempre um gosto tê-lo connosco. Muito obrigada pela análise. Um bom dia.

Muito obrigado, eu, Maria João. Um bom dia para si.