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Abrimos o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, desta feita com a análise de Orlando Salmões, especialista em Relações Internacionais. Viva, Orlando Salmões, muito boa tarde.

Viva, muito boa tarde e obrigado pelo convite.

Ora essa. Começamos por olhar pra política doméstica da Ucrânia. Há algumas mudanças de rostos no governo, pessoas próximas ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Demitiu, por exemplo, a vice-chefe do seu gabinete, que está a ser investigada por suspeitas de corrupção. A Agência Anticorrupção Ucraniana fala numa organização criminosa com liderança de deputados e com a participação de altos funcionários do gabinete da presidência da Ucrânia. Ao mesmo tempo, o Parlamento Ucraniano aprovou hoje um novo ministro da Defesa. Orlando Salmões, estamos a assistir aqui a uma espécie de arrumar da casa por parte do presidente ucraniano?

Não, estamos de facto numa altura crucial, que já sabemos que internamente o governo da Ucrânia está sempre nestas tensões. É verdade que há muito tempo que não vai a eleições pra que se calhar possa ser uma remodelação um pouco mais completa e definitiva. Mas, na realidade, desde 2019 que temos este conjunto de pessoas. Fedorov até foi muito leal e toda esta crítica, este desafio que agora é feito a Zelensky, é de alguém que vem de dentro, que esteve com ele até na altura das próprias eleições e da campanha, teve vários cargos, agora o último era ministro da Defesa. Cargo que tentou voltar a ter com esse nome e não com outro, porque no fundo Zelensky teve aqui um esforço para tentar recolocá-lo. É verdade que hoje é que foi finalmente nomeado, de forma mais formal, o tal Yevhenyk Mara, que vem com-

Substitui o interino

...substitui o interino, mas que no fundo dá aqui uma certa continuidade, porque já era o nome apontado, é um ex-chefe do SBU, portanto, dos Serviços de Informação e de Inteligência. E quanto ao nome do ministro dos Negócios Estrangeiros, que também era aquele que estava agora a ser debatido, no fundo mantém-se. Ele é renomeado, porque ele já estava no cargo desde setembro de 2024, creio eu. E portanto, no fundo, a principal transformação ocorreu em julho com a mudança do primeiro-ministro, quando saiu aquela primeira-ministra que ficou muito conhecida pelo facto de ter obrigado os Estados Unidos a melhorar o contrato por causa da extração das terras raras, a Yulia Svyrydenko, que foi alguém que na altura foi conseguindo algumas reformulações desse contrato até conseguir obter um conjunto de melhorias significativas do ponto de vista da Ucrânia.

Só dizer, Fedorov também falou hoje sobre eleições, disse que a democracia não pode ficar refém da Rússia e que mesmo em tempo de guerra, se pode pensar em eleições. Com o desgaste do conflito, é expectável que surja mais oposição a Zelensky. Estas declarações são uma mensagem em jeito de desafio? Pretende-se ir a eleições e Fedorov pode ser a cara dessa oposição?

É interessante como é que alguém que vem tão de dentro e que no fundo cresceu com Zelensky, agora afirma, e é verdade, a democracia não pode ser um luxo. Foi uma das frases que eu retive dele. E não pode, e mesmo em tempo de guerra, é bom que houvesse condições para a realizar. Agora, constitucionalmente, Zelensky está protegido, está em lei marcial. Ele já respondeu, Zelensky diz eleições, sim, claro que sim, com a ajuda dos Estados Unidos pra que sejam minimamente justas, competitivas. Que tipo de campanha teríamos quando milhões de ucranianos estão em diáspora e podem não conseguir aceder a urnas, os cadernos. E há um conjunto de centenas de milhares de pessoas que estão desmobilizadas, mesmo militares na guerra, ou na frente de batalha, ou em determinadas bases militares. E portanto, é natural que as pessoas até não estejam perto de casa, o que dá azo a que Zelensky também possa ter aqui uma preocupação legítima. E sabemos, aliás, como a sua pergunta induz, e bem, é que em tempo de guerra, pra o incumbente, até é difícil justificar a situação de grande privação que as pessoas sentem. E mesmo que Zelensky conseguisse um cessar-fogo, que a Rússia não aceita, se calhar poderia não ter mesmo condições para disputar eleições, no sentido de as ganhar, e se calhar Fedorov tinha aqui hipótese. De dizer também em relação a esta questão da demissão da vice-chefe do gabinete. É um sinal que estas agências, a NABU, a SAPO, que na altura até criticamos o facto do Zelensky querer dispô-las como se tivessem subalternas para o gabinete do primeiro-ministro. Estas agências de anticorrupção têm a sua autonomia, estão a fazer investigação e tanto entraram pela casa, fizeram buscas desta senhora, da Iryna Mudra, como também foram para o Vadym Stolar, que era um daqueles líderes de um partido que era declaradamente pró-russo, que até depois teve dificuldade em prosseguir. Eu creio que esse partido até já está mais desmobilizado, e de um banco que é um dos maiores bancos da Ucrânia e que podia estar a servir aqui de plataforma. E portanto, estas alegações tanto atingiram os próximos de Zelensky como aqueles que também são pró-russos. O que significa que, se calhar, estas agências estão a conseguir fazer o seu trabalho e isto não é um caso novo, porque volta a estar envolvido, e é sempre aquele cargo inicial do ex-primeiro ministro de Energia, o Herman Halushchenko, que foi visado e que foi alegadamente corrupto e que o envolveu a ele, e ainda é na esteira dessa investigação que surge agora mais esta demissão. Portanto, não é um caso novo, é um caso em continuidade, assim como deste baralhar do governo também há alguma continuidade, na realidade.

Vários problemas internos para o presidente ucraniano. Para fecharmos este tema e seguirmos para outros conflitos, peço também uma resposta sintética. Nas últimas horas, e falávamos de vários militares que estão longe de casa há muito tempo, foram libertados 103 militares ucranianos presos pela Rússia e vice-versa, 103 russos libertados pela Ucrânia. Falamos aqui de um número significativo de militares que estavam em cativeiro. Pergunto-lhe se há alguma justificação pra esta troca acontecer nesta altura do conflito.

Aquilo que isto nos demonstra é que os contactos estão sempre a ser feitos, mesmo que não sejam públicos. Nós temos sempre a sensação que não temos nenhuma negociação em processo. Mas o problema é que nós podemos estar à beira de uma negociação e precisamente este tipo de sinais, a Ucrânia e a Rússia sempre se conseguiram entender para este tipo de trocas, e ainda bem, de prisioneiros. Pelo menos são um sinal de que houve contactos e isto às vezes simboliza que quer a Ucrânia, e claro que a Rússia, mas da Rússia é diferente, está numa posição de força maior, mas a Ucrânia tem que estar sempre muito preparada para ir para a mesa, porque nunca sabemos se estes contactos, que são muito indiretos e que por vezes resultam neste tipo de efeitos, que ainda assim implicam alguma coordenação mútua, significa que às vezes podemos estar mais perto de uma negociação e, portanto, deixar a Ucrânia numa posição mais forte. Do ponto de vista dos aliados conseguirem dar à Ucrânia alguma maneira de reequilibrar no campo de batalha, pode ser importante, porque nunca sabemos quando é que vão surgir formas de articular posições e alguma forma de entrar num processo negocial para o qual a Ucrânia era bom que estivesse munida de alguma força.

São negociações que vão acontecendo nos bastidores. Falamos agora da Faixa de Gaza. As negociações estas sobre o desarmamento do Hamas permanecem sem avanços. Hoje registou-se mais um ataque israelita em Gaza, nove pessoas morreram. Israel diz que tinha como alvo agentes terroristas. O impasse mantém-se. Queria falar consigo sobre a condenação de Alemanha e França às declarações do ministro da Segurança de Israel, Ben-Gvir, que sugeriu esta semana que Israel devia assassinar seletivamente entre 30 a 40 palestinianos todas as noites na Faixa de Gaza. Isto porque, segundo Ben-Gvir, não têm o direito a viver, visto que nem sequer são pessoas. O chanceler alemão fala em apelos desumanos que violam o direito internacional. Do mesmo modo, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros classifica as declarações como intoleráveis e utiliza a mesma expressão como desumanas. São palavras particularmente graves. A condenação verbal por parte dos países europeus parece-lhe suficiente ou este tipo de discurso justificava uma resposta mais pesada e concertada por parte da União Europeia?

Nós estamos aqui perante mais uma situação muito grave a envolver este ministro extremista, Ben-Gvir. Isto não é de agora. Ele iniciou este processo há muitos anos. Ele cresceu naquele grupo chamado Kach, que depois, entretanto, foi proibido. Ele não foi favorável aos acordos de Oslo. Ele já foi condenado por incitamento ao ódio desde 2007. Conseguiu, de forma ardilosa, aumentar o seu número de deputados, até usando uma coligação com o partido de Smotrich, que fez com que ele amplificasse muito a sua força. Tornou-se ministro da Segurança Nacional. Ele acaba por ter um papel de supervisão dos polícias e até de prisões e até, se calhar, por essa via, vimos o tratamento desumano daqueles manifestantes que chegaram até com a flotilha e ainda há bem pouco tempo, creio que em maio, houve um conjunto de imagens em vídeo que mostrava essa desumanização que Ben-Gvir faz das pessoas, manifestantes, neste caso pró-palestinianos e mesmo, nesse caso, dos próprios palestinianos. Ele quando faz essas declarações, por sorte, começa com a frase "eu discordo do primeiro-ministro", antes de dizer isso. Essas palavras, de incitamento ao ódio, que são muito para lá de qualquer liberdade de expressão, porque no fundo já são elas próprias quase um ato de violência. E dizer que não merecem a vida, são palavras muito mais graves do que algumas das ditas por Gallant ou por Netanyahu, que levaram àquele mandado de captura do Tribunal Penal Internacional.

Visto dentro do governo israelita, são palavras extremistas.

São e inaceitáveis. E repare, já tivemos de facto um conjunto de países a fazer umas sanções um bocadinho mais sérias. Recordo a Austrália, Nova Zelândia, Noruega e Canadá, creio eu, até em conjunto, depois com o Reino Unido. Portanto, há muitas sanções. Depois mais tarde a Espanha também com a proibição de entrar, ele não pode entrar. Temos a questão da Eslovénia e Países Baixos, que o declararam pessoa non grata. A entrada da França foi um pouco mais tarde. Isto é interessante porque a Alemanha era dos países que ainda assim se mostrava um pouco mais relutante num tipo de condenação um bocadinho mais vincada, mas também já estão claramente fartos deste tipo de situação. Isto num mundo ideal. Poderíamos esperar que agora o resultado das eleições pudesse anular este efeito do Otzma, e o Otzma pudesse ser excluído. As sondagens apontam para o contrário. Se calhar é mais o partido de Smotrich agora pode estar um bocadinho mais até abaixo do limiar e se calhar Ben-Gvir vai continuar a ter. Há sondagens que apontam para cinco ou 10 deputados, que se voltar a ter a possibilidade de ser aquele o fiel da balança num governo liderado por Netanyahu, é a prossecução deste problema e portanto, aí, sim, se calhar seria bom a União Europeia ter uma voz um bocadinho mais forte contra este tipo de declarações inaceitáveis, mas que não fossem coletivizadas. Porque não é por uma pessoa que já nunca foi favorável aos esforços, até que apontaram nos dois Estados ou de algum tipo de acordo. Ele não deve ser representativo do todo e portanto, questões com acordos de associação, os cortes comerciais com Israel, creio que seria excessivo. Agora contra pessoas em concreto e neste caso contra este tipo de ministros, que no fundo começa como rabino do Meir Kahane. Ele no fundo tem esta versão quase religiosa, também messiânica, acha que pode ultrapassar tudo e até todos os trâmites e a usar a violência em nome do bem. E isso, de facto, da nossa perspetiva, enquanto europeus, deve ser uma Uma linha muito firme.

Benny, vi que anunciou também a construção de um centro de execução para palestinianos condenados à morte em Israel, anunciou julgo que ontem. Pedia-lhe que vamos avançar para outro conflito no Médio Oriente, mas continuamos também a olhar para o papel que pode ter a Europa. Segundo o Financial Times, o Irão disse hoje que pondera atacar alvos militares norte-americanos na Europa, isto caso Donald Trump intensifique a guerra. A NATO já reagiu, garante estar preparada para enfrentar qualquer ameaça do Irão. Aliás, lembra que já interceptou por quatro vezes mísseis balísticos provenientes do Irão em direção à Turquia. Orlando Somôs, devemos interpretar esta ameaça sobretudo como uma forma de dissuadir Donald Trump ou levá-la um bocadinho mais a sério?

Eu suponho que ajude a clarificar a situação. Claro que o Irão gostaria de levar a guerra para além do Médio Oriente. E na sua campanha de destabilização também ameaçou cortar os cabos submarinos em Ormuz, quer ter efeito mundial. Agora, aqui em termos de alcance, a Turquia poderia ter sido vítima e também é membro da NATO e na base aérea onde tem presença dos Estados Unidos também já pode ter sido lá o alvo em Çiğli e não aconteceu. Portanto, esta ameaça foi vista como sendo um pouquinho mais credível para a Bulgária, para a base de Merc, que aliás é uma base que teve um efeito parecido à nossa, porque também foi apenas para reabastecimento. Quanto ao Chipre, não pertencendo à NATO, ainda assim tem instalações britânicas. É algo realista, mas ainda assim não creio que o Irão fosse capaz de atingir neste momento as bases nestes países, porque isso também poderia fazer um acorrer da Europa e até um maior despertar da Europa para com este problema.

Poderia levar à ativação do artigo quinto da NATO lá acontecer.

Do artigo quinto da NATO e, portanto, aliar ainda mais os esforços dos Estados Unidos e deixar o Irão numa situação ainda mais difícil. Agora, que a própria ameaça depois se estenda ao sul da Europa, mas eu creio que aí já está muito fora do alcance, quer as bases na Itália, na Espanha, já estão muito fora do alcance. E aqui também há alguma credibilidade dos ataques dos Estados Unidos terem deteriorado a capacidade de alcance do Irão e eles também nunca chegaram a ter um programa de longo alcance, de mísseis de longo alcance assim tão robusto. Podem ter um ou dois mísseis que até já podem ter usado, mas não conseguiriam uma campanha deste género.

Para fechar, vamos continuar a falar de Donald Trump, que decidiu encurtar os exercícios militares que acontecem todos os anos entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Estes exercícios estão a decorrer neste momento, começaram dia 17 e vão até depois de amanhã. Era suposto durarem 11 dias, mas Trump disse que eram dispendiosos. Orlando Somôs, duas perguntas e temos também sensivelmente dois minutos para fechar. De forma sintética, o que é que nos revelam estes exercícios entre estas duas grandes potências? E parece-lhe que foram encurtados mesmo por serem dispendiosos ou Donald Trump está com receio de ser hostil para a Coreia do Norte?

De facto, temos razões para estarmos em alerta. Donald Trump é capaz de ser um pouco confuso. Ele parece que vai iniciar uma espécie de negociação com a Coreia do Norte e talvez por isso quer aliviar esta aliança que tem com a Coreia do Sul. Mas o problema é que a Coreia do Sul tem mostrado alguma abertura para melhorar o estatuto do armistício que existe e para tentar levar algum sinal de paz. Mas se olharmos, o Norte continua a ser muito ameaçador até dos Estados Unidos, tem aqueles vídeos em que mostram os mísseis a chegar a Washington e continuam numa campanha que, no fundo, é em conjunto com a China, que ajudou a Coreia do Norte a recuperar a sua zona aquando da guerra, e da Rússia, com quem têm uma grande interdependência. Ora, os Estados Unidos, a saquejar este apoio à Coreia do Sul, perdem aqui a oportunidade até de mostrar ao mundo um pouco daquilo que seriam os seus valores, que a Coreia do Sul conseguiu se desenvolver imenso. E este conjunto de exercícios são planeados com muita preparação. Há um de verão, há um de inverno, demoram anos, portanto é um ano a ser preparados. São precisamente para mostrar a capacidade de interoperacionalidade, mas também da ilha, desta península ser defendida por parte dos Estados Unidos. Há uns anos estes exercícios chegaram a ter o nome de Team Spirit, porque havia de facto um espírito de equipa. E mesmo quando presidentes passados como Carter tentou reduzir o número de efetivos militares, também por ser caro, eles aceleravam estes exercícios para demonstrar precisamente à Coreia do Norte de que a parte do Sul estaria sempre defendida. Portanto, é um Trump sempre muito deslumbrado pelas simpatias pessoais que julga ter ou a procurar ter algum benefício, porque repare-se que quanto a esta questão com a Coreia do Sul, o que ele fala é dos custos, fala de uma falta de apoio quanto à guerra no Irão por parte da Coreia do Sul, mas que a Coreia do Sul também estaria disposta a repensar e até a ajustar em declarações feitas hoje à casa branca.

Não vale a pena continuar a ter este exercício de uma forma tão extensa. Orlando Somôs, temos mesmo que terminar. Muito obrigado pela análise.

Muito obrigado.

Muito obrigado pela análise. Mais um Gabinete de Guerra, programa que está de regresso logo à noite.