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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Vasco Maldonado Correia e fazemos um ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje contamos com a ajuda do tenente-general Marcos Ronha. General, bem-vindo.
Muito obrigado, boa tarde.
Obrigado nós. Começamos por uma notícia que nos chegou nesta madrugada. Os Estados Unidos lançaram um ataque contra a ilha iraniana de Larak, um ataque que resultou em dois mortos. General, eu perguntava lhe que interesse é que têm os Estados Unidos neste ataque a esta ilha em específico?
Boa tarde mais uma vez e a todo o auditório. Este mecanismo que o Irão, de algum modo acordou com o Omã, mas é um acordo que não vem a terreiro de forma aberta. Vamos lá ver. Para já, os Estados Unidos ontem tentaram e conseguiram passar alguns navios pelo corredor do Omã e conseguiram. E foi isso que leva a que o Irão se preparasse e até tomou diligências no sentido de minar essa parte do estreito. E isso, naturalmente, levou a uma resposta dos Estados Unidos, que já tinham avisado o Irão que não iam aceitar, naturalmente, qualquer ação de minagem a partir de um determinado momento. Aliás, houve declarações dos Estados Unidos que consideraram, pelo menos os corredores a sul, livres de minas e, portanto, habilitados a que os navios passassem naquela região, nomeadamente naquela zona mais a sul, que está nas águas territoriais do Omã, ou pelo menos está ali perto. O Irão já sabia que qualquer tentativa nessa direção, e foi o que tudo indicou que se passou, portanto, havia preparações na saída de Láqua para se fazer a minagem de algumas zonas dos canais do estreito, levou a uma intervenção dos Estados Unidos, que estão a monitorizar em permanência toda essa capacidade que o Irão tem de lançar minas ou de atacar os navios mercantes. Estavam avisados que iria haver retaliação e foi o que aconteceu. Uma retaliação moderada, portanto, os Estados Unidos não atacaram mais do que a infraestrutura militar adstrita a esta tarefa que a Guarda Revolucionária ia ter de minar, seja através dos lançamentos de minas, seja dos sistemas disparáveis, seja através de navios, de lanchas. Portanto, foi um ataque dimensionado a isso, os Estados Unidos não atacaram mais nada senão isso. E depois houve uma retaliação, como sabemos, do Irão sobre a base dos Estados Unidos na Jordânia. Estamos por aqui, mas há aqui uma ameaça latente dos Estados Unidos relativamente à questão da traficabilidade. E isso é o que vai continuar. Portanto, qualquer tentativa do Irão de impedir a passagem de navios, desses que são escoltados pelos Estados Unidos, vai com certeza ter consequências. E evidentemente, o Irão provavelmente também irá atacar os navios mercantes, conforme já fez, embora quando são escoltados por navios americanos, é mais fácil de serem detectados de onde é que saem os tiros para esse tipo de navios ou os mísseis, aquilo que for, assim como a capacidade de minagem que está muito bem monitorizada pelos Estados Unidos, naturalmente.
Hoje, entretanto, começam a chegar ao Quirguistão vários líderes mundiais para a Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que vai começar amanhã. Um desses líderes é o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, que garantiu que quer uma solução diplomática para a guerra com os Estados Unidos. Eu pergunto-lhe, general, primeiro, se acredita nessa intenção do Irão de chegar a uma solução pela via da diplomacia e, por outro lado, se essa solução diplomática ainda é possível nesta fase.
Vejamos, eu acho que a solução diplomática é sempre possível. Nós já percebemos que há duas linhas de pensamento e de ação dentro das elites iranianas. Por um lado, o lado do governo e algumas vezes o porta-voz lá da assembleia, Ghalibaf, que são, assim como o ministro dos Negócios Estrangeiros, partidários de uma solução que envolva algum grau de negociação. Do outro lado, temos a Guarda Revolucionária, como sabemos, que não é partidária de nenhum tipo de solução negociada e que percebe que é através do uso da força que vai tentar impor uma solução que leve os Estados Unidos a abandonarem muito daquilo que são os seus requisitos para haver um processo negocial, nomeadamente a questão do Estreito de Ormuz aberto, que a Guarda Revolucionária já disse que não, naturalmente, e a questão nuclear também, que a Guarda Revolucionária também quer tirar isso da agenda. Agora, vejamos, a pressão internacional, não dos Estados Unidos, naturalmente, mas dos países do Golfo e de alguns dos aliados do Irão, ou membros, pelo menos, dessa Organização de Cooperação de Xangai, dos BRICS, enfim, de outras entidades que possam eventualmente vir a pressionar as alas menos radicais do regime, ou aliás, neste caso, pressionar as alas mais radicais, a Guarda Revolucionária, no sentido de que pelo menos a via negocial não esteja completamente fechada. É evidente, nós sabemos que ela também está muito fechada pela parte dos Estados Unidos, pelas declarações que o presidente Donald Trump tem feito, que neste momento não há negociações, não há condições para haver negociações, porque o Irão não quer, pelo menos Abdicar dos dois pontos fundamentais que é a questão da circulação no estreito e a questão nuclear. Estamos numa dinâmica e aí corrobora o seu grau de preocupação relativamente às fracas condições atuais não é para se negociar qualquer coisa, é para se reiniciar o processo negocial. Nós sabemos que, por exemplo, o Paquistão tem feito algumas tentativas de falar com os líderes ou pelo menos os representantes das duas partes, mas de qualquer modo não tem havido condições sob o ponto de vista da dinâmica política e estratégia na situação do Golfo Pérsico que leve, de facto, aqui neste momento haja algum grau de abertura pra perspetivar um novo memorando ou um documento, o mais simples possível, mas que pelo menos introduzisse de novo um fator de cessar-fogo controlado, monitorizável, que levasse depois a negociações no futuro. Mas de facto não vemos condições pra isso e, portanto, muito provavelmente o que vai continuar é este mecanismo das sanções dos Estados Unidos por um lado, e outro lado o bloqueio naval econômico ao Irão e o Irão a atacar os navios que passem o Estreito de Ormuz sem a sua autorização, que é o que se tem passado ultimamente.
Nesta cimeira da Organização de Cooperação de Xangai não está só o presidente do Irão, como eu dizia, estão também acima de tudo-
A China, está a Rússia
Exatamente. Os líderes da Rússia, da China, da Índia. Eu perguntava o que é que pode sair desta cimeira se também uma aproximação entre a Rússia e a China e também um alinhamento entre os principais inimigos dos Estados Unidos nesta altura?
Vejamos. Há questões que preocupam alguns dos países, naturalmente, a Organização de Cooperação de Xangai. E a China à cabeça, porque esta questão do prejuízo que está a ser criado ao comércio mundial com esta seja na área dos produtos petrolíferos, seja de outros produtos, porque não é só petroleiros ou porta dos que transportam gás que atravessam o estreito. Há muito comércio de outra natureza, naturalmente, nomeadamente exportações chinesas, que exportam muito pra aquela região, exportavam não só pro Irão, mas essencialmente pras monarquias do Golfo, que é quem tem muito dinheiro pra comprar bens à China, entre outros. A China, sob o ponto de vista dos dados estatísticos, tem sido o principal prejudicado com esta baixa do comércio mundial, fruto desta situação que estamos a viver. Não sabemos o que é que faz nos bastidores, mas dá a ideia que não têm feito muito para de algum modo tentar convencer o Irão a ser mais flexível na questão da circulação no estreito. Vejamos, é evidente que isto é um facto desta guerra, desta operação militar que os Estados Unidos fizeram, que tudo indica que os Estados Unidos sairão muito mais fragilizados sob o ponto de vista do seu poder internacional, do seu conceito e da sua prática de superpotência. Há um provérbio dos chineses que diz que se o teu inimigo estiver a fazer asneiras, não convém interrompê-lo. E portanto, a China, de algum modo, percebeu que os Estados Unidos vão sair muito erodidos sob o ponto de vista do seu poder internacional e da sua capacidade de influência, seja o hard power que está como sabemos, o soft power também está muito mal sob o ponto de vista da influência dos Estados Unidos, principalmente nas monarquias do Golfo, que era onde tinha mais influência, portanto, tudo isso está muito erodido. E a China vai deixando correr o mercinho, como dizemos, no sentido de levar os Estados Unidos a um ponto que seja, aos olhos da China, relativamente irrecuperável como voltar a ser a superpotência única. Superpotência sob o ponto de vista dos instrumentos do poder real não é daquilo que diz Donald Trump, que já sabemos e que muita gente já não liga muito àquilo que ele diz, mas sob o ponto de vista do poder real e como é que se vê o poder real. Vê-se nesta questão da incapacidade dos Estados Unidos de resolverem, não só sob o ponto de vista militar, mas mesmo sobre outros instrumentos de natureza estratégica, até que o soft power, que os Estados Unidos utilizaram muito nos últimos anos, de convencimento por influência e até pela sua economia, pela capacidade do dólar, todos esses fatores estão muito erodidos e a China há de ver um ponto que pode eventualmente fazer qualquer coisa, mas quando perceber que os Estados Unidos estão num ponto quase de não retorno à sua condição de superpotência. A China é o elemento central de tudo isto. A Rússia tem os seus problemas, os países da Ásia Central têm também as suas questões. A Índia está muito dividida, está num dilema, tem boas relações com os Estados Unidos e com a Rússia, está sujeita a penalizações fortes sobre a questão do petróleo, como sabemos, das importações russas. Eu julgo que há países aqui, e Índia poderá ser, embora não seja um ator afirmativo sob o ponto de vista internacional muito grande, mas sob o ponto de vista do poder que tem, naturalmente, seja o poder demográfico, seja o poder econômico poderá tentar forçar de algum modo uma estabilidade. Talvez não seja uma solução, mas forçar uma estabilidade regional, até porque está a ver o seu principal inimigo, o Paquistão com um papel ali importante naquela região. Pode também querer assumir, porque a Índia, não podemos esquecer, fez aqui uma parceria não muito formal com Israel, como sabemos e com os Emirados Árabes Unidos E com os Estados Unidos. Portanto, há aqui também aqueles pequenos alinhamentos estratégicos que têm sido feitos fruto da ausência da superpotência na região do Médio Oriente, que têm de algum modo estabilizar e tem que se perceber quem é que vai participar na gestão da segurança daquela região. Porque o grande risco hoje que temos é que o conflito, porque normalmente no Golfo Pérsico não tinha muito conflito Israel-Árabe, houve aqueles conflitos entre a Arábia Saudita e o Iémen, os Houthis e o Irão, pode rapidamente escalar para Leste, para a região do Índico. Isso pode acontecer para a região Norte, abrangendo a Turquia ou o Mediterrâneo Oriental e de algum modo apanha países europeus. E, portanto, toda esta possibilidade de escalada horizontal em termos geográficos é relativamente preocupante e acho que as médias e grandes potências têm cada vez mais a percepção que isto não pode continuar como está. Estão ainda a dar alguma folga aos Estados Unidos no sentido de ver se conseguem resolver alguma coisa, mas tudo indica que não. Depois há aqui outra questão que não temos que ver. O Irão faz parte da Organização de Xangai, a Organização de Xangai é uma aliança estratégica, embora não seja tipo NATO. Não obriga a uma resposta caso um país seja atacado.
Exatamente.
Mas é provável que dali também saia um elemento criticista relativamente à ação dos Estados Unidos. Portanto, vamos ver, mas o mais importante é começar eventualmente a falar-se mais de paz do que propriamente de guerra.
Entretanto, Putin e Xi Jinping já se reuniram, foi um encontro que aconteceu na última hora e hoje, general, gostava de lhe perguntar também, sai aqui uma informação na revista Economist, conhecida revista norte-americana, que diz que tem informação de que Vladimir Putin receia ser morto se não capturar o Donbass e que por isso se vai preparar para escalar a guerra. Este aparente receio de Vladimir Putin tem algum fundamento, eu pergunto-lhe, ou será apenas um pretexto para escalar a guerra com a Ucrânia?
Putin tem preocupações de segurança enormíssimas, como sabemos. De diversas dimensões, desde os duplos até super guardas pretorianas que o protegem de maneira relativamente exagerada, mas relativamente àquilo que é o risco crítico. Agora, o risco político, nós sabemos que as alterações do regime da Rússia normalmente não acabam bem para quem está no poder. Se não ganhar, normalmente a coisa não acaba bem. Mas há ali outra característica que é, Putin sendo aquilo que é, talvez não seja, não vou dizer que é um moderado, naturalmente, não seja dos elementos mais radicais da idiossincrasia imperial russa. Portanto, há margens mais radicais do que ele e depois há um conjunto de oligarcas e uma elite política mais moderada que está muito preocupada com esta situação, seja sob o ponto de vista económico, seja nos impactos políticos que a questão da economia russa começa a fazer sentir-se nas populações. E depois, nós sabemos de uma coisa. Há um contrato não escrito entre a administração Putin, desde o início que ele entrou, e a elite, a classe média dos oblasts mais a oeste da Rússia, de São Petersburgo, de Moscovo, enfim, todos estes mais ocidentais, que é uma coisa mais ou menos do gênero: os meus amigos não se metem em política e o Kremlin toma conta de vocês. E esse contrato social está em perigo de rutura. E isso é a principal preocupação que, de facto, Vladimir Putin tem. Porque vê-se que ele começa a não perder o controle. Agora, se ele sozinho tem capacidade suficiente para escalar, a escalada que ele pode fazer é uma escalada normalmente de capacidades militares presentes na linha da frente, nomeadamente com uma possível mobilização e o recurso a fatores externos, nomeadamente a parte da Coreia do Norte, seja em recursos humanos, seja em material militar. Visto que o Irão não lhe pode dar muito e a China dá-lhe o apoio necessário suficiente em determinadas áreas, mas não lhe dá material militar, pelo menos até agora não tem dado, material militar pronto a usar. Mas essa escalada pode ir por aí. Aquilo que se fala muito de uma possível abertura de uma frente a norte, na região de Chernihiv e de Kiev, para isso é preciso recursos humanos e para isso será que há uma mobilização. Essa mobilização pode afetar mais ainda esse contrato social que existe na Rússia e a produção de capacidades militares, que serão mais difíceis, porque a Ucrânia tem conseguido também atacar muita da infraestrutura industrial de defesa russa, não só a parte económica, mas a infraestrutura industrial de defesa e os centros logísticos das Forças Armadas russas. Portanto, meter só mais homens na frente pode dar uma folga temporal, mas não é isso que vai resolver, porque o número de mortes na linha da frente dos russos vão consumir esses 150 ou 300 mil mobilizados que poderão aparecer a partir agora das eleições até à primavera.
Para terminar, general, por favor.
Sem ter impacto no terreno que seja o suficiente para ele conquistar todo o Donbass. Agora, há uma coisa que é verdade. Putin sente que tem que fazer alguma coisa, porque o noite está a correr, deu outra vez um deadline até o final do ano para as Forças Armadas russas conquistarem o Donbass, mas tudo indica que a este ritmo isso não irá acontecer.
Fica então essa preocupação, no mínimo, é reportada pelo Economist de que Vladimir Putin receia ser morto se não capturar o Donbass. Tenente-general Marcos Rojo, muito obrigado por ter estado com a Rádio Observador.
Obrigado pelo convite. Obrigado