Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Guilherme Guerra na Rádio Observador. Analisamos nos próximos minutos alguns dos principais conflitos ativos no globo e algumas das situações de maior tensão na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo.

Obrigado.

Começamos pelo Médio Oriente. Foi localizado e identificado o corpo do último refém israelita em Gaza. O gabinete de Netanyahu tinha dito que ia reabrir a passagem de Rafah quando esta operação estivesse concluída. O ministro da Defesa israelita já veio falar, entretanto, num momento doloroso de encerramento. Acreditas que se possa estar aqui a abrir uma nova fase na região?

Acho que infelizmente isso será provavelmente demasiado otimista. Acho que é uma boa notícia, objetivamente, e é importante que tenha acontecido, mas acho que não vai alterar radicalmente as coisas. Pode até haver o risco de retirar incentivos para o governo israelita também continuar a cooperar com o processo de paz e a manter, ainda que intermitentemente, este cessar-fogo com algumas interrupções. Portanto, eu não tenho essa leitura tão otimista. Acho que os grandes obstáculos continuam a estar de pé, nomeadamente esta resistência do Hamas a desarmar-se e o facto também de não termos a certeza de que a parte do governo israelita atua realmente um compromisso sério com o processo de paz no sentido pleno do termo, que levasse realmente a uma resolução do conflito e inclusive os próprios termos deste plano de paz do Donald Trump têm o problema, compreensível, mas é um problema, de que se concentram só ou essencialmente em Gaza e são muito vagos. Só o último ponto é que faz uma alusão vaga ao resto da questão palestiniana e inclusive colocando condições como haver algum tipo de reforma que legitimasse novamente a autoridade palestiniana, o que pode abrir espaço realmente a que a questão mais uma vez fique adiada e, portanto, continua a ser um foco de conflitos.

Israel usava várias vezes o argumento dos reféns ou da continuação dos corpos dos reféns em solo da Palestina, em Gaza, para continuar operações naquele território. Agora, que argumentos é que Israel tem para não se afastar do enclave?

Isso é verdade, mas também é verdade que se o acordo caísse, era muito menos provável, para não dizer impossível, que o problema fosse resolvido. Os pretextos que pode usar é também os pretextos que já usou, a par desse que é a questão de haver atividade do Hamas, o Hamas recusar-se a desarmar, inclusive houve alguns episódios de ataques com mortes a soldados israelitas, mas acho que infelizmente não tenho grandes dúvidas que se quiser, o governo israelita conseguirá encontrar pretextos mais ou menos válidos para retomar uma ação militar mais musculada. Mas o principal será sem dúvida esse, que é o Hamas aparentemente recusa-se a desarmar e portanto isso é uma cláusula também crucial do acordo que foi assinado.

Não temos muito tempo, Bruno, por isso passo já também para a situação na Ucrânia, isto porque Zelensky disse ontem que o acordo das garantias de segurança dos Estados Unidos para a Ucrânia está 100% pronto, está só à espera de ser assinado. Assim sendo, eu pergunto primeiro se consideras que este é um passo importante e se trata de uma vitória para Zelensky.

O grande problema é que embora tenha havido pela primeira vez negociações tripartidas, se eu leio bem aquilo que Zelensky está a dizer, ele está a falar de um acordo entre ele e os Estados Unidos. Falta a outra parte, que é indispensável, que é o beligerante, o causador, a causa original deste conflito que é a Rússia, ou seja, a invasão russa da Ucrânia começou por iniciativa russa e tem de parar por iniciativa russa. Eu tenho ideia de que, de facto, as negociações, de acordo com aquilo que ouvimos de todas as três partes, estão a aproximar de uma fase crítica. Agora, isso para mim não garante de todo que estejamos com um acordo finalizado. Aliás, o próprio Zelensky também veio dizer que havia à volta de 10% de questões ainda por resolver, aparentemente com a Rússia, e se esses 10% são coisas como, por exemplo, a questão do território, isso pode ser mais uma vez um obstáculo decisivo. E eu também tenho grandes dúvidas, continuo a ter grandes dúvidas, que a Rússia realmente aceitasse garantias de segurança que merecessem esse nome, ou seja, que implicassem algum tipo de monitorização que permitisse atribuir a responsabilidade pela quebra do cessar-fogo, e não que a Rússia possa sempre alegar: "Houve um ataque ucraniano e portanto nós vamos voltar a invadir porque fomos atacados". Eu acho que realmente estamos aqui numa fase crítica, neste sentido, que vai ter de haver provavelmente uma clarificação pelas partes de qual é a posição e vai-se perceber se realmente este processo negocial, como diria a san americana, consegue chegar a algum ponto ou não. Mas eu acho que temos de aplicar o mesmo método que aplicámos, por exemplo, em relação a Gaza, que é em que houve imensas especulações de acordo concluído, acordo iminente, acordo já está fechado e depois não se concretizaram durante meses e meses. Acho que temos de esperar por todas as partes anunciarem que houve um acordo, por esse acordo ser assinado e ser assinado e aceito ao mais alto nível, quer na Rússia, quer na Ucrânia, e depois começar a ser implementado. Tudo isso são passos que não podem ser dados por garantidos.

E falavas que as três partes têm falado de conversas construtivas, no mínimo positivas, ao longo deste fim de semana. Uma dessas três partes é a Rússia e Peskov veio assinalar isso mesmo. Faz sentido dizer que estamos a assistir uma aproximação entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos?

Era essa uma das citações que eu tinha em mente. Acho que isso realmente confirma que estamos aqui num ponto decisivo. Também do meu ponto de vista, significa que a Rússia não quer aparecer como a parte que diz que não, porque pode correr o risco de realmente isso criar problemas, tensões com os Estados Unidos. O Donald Trump empenhou-se muito neste processo, está muito determinado a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, como vimos. Até chegou a deixar claro que uma parte importante da razão pela qual estava a ameaçar a Groenlândia, aparentemente era porque não estava propriamente interessado na paz pela paz, mas era porque estava interessado na paz por causa do Prêmio Nobel. E se não lhe tinham dado, se a Noruega, que é um país amigo e vizinho próximo da Dinamarca, não lhe dava, ele sentia-se livre para finalmente já não estar só interessado na paz, como estou a citar quase diretamente o que Trump disse. Mas eu acho que ele realmente se empenhou muito neste processo e qualquer das partes, quer a Ucrânia. Mas esse também é um problema em termos de interpretar o que estamos a ouvir. Ou seja, quer a Ucrânia, quer a Rússia, têm o interesse em não alienar os Estados Unidos e têm interesse em passar a mensagem que, pelo menos com os Estados Unidos e graças à mediação americana e graças ao papel do Donald Trump, está tudo a correr muito bem. Agora não sabemos se isso é mesmo assim ou se isso é estratégia diplomática para agradar ao presidente americano, para tentar eventualmente até conseguir mais ganhos nas próprias negociações ainda em curso, ou para evitar que, no caso de haver uma ruptura das negociações, que seja a Ucrânia, seja a Rússia, sejam os principais alvos da ira de Donald Trump.

E continuamos a falar da relação de outros países com Donald Trump. Queria perguntar-te, Bruno, sobre Mark Carney, o primeiro-ministro canadiano, garantiu que não tem qualquer intenção de assinar um acordo de comércio livre com a China, depois de Donald Trump ter ameaçado com tarifas de 100% se isso acontecesse. Já muito foi dito sobre o discurso do líder do Canadá em Davos, que de alguma forma assinala uma nova era nas relações internacionais. Eu pergunto se esta constante ameaça de guerras comerciais com países que não sigam a vontade de Donald Trump não significa que essa nova era já chegou, de facto.

Estava aqui num debate com vários colegas de vários países, mas a respeito precisamente do significado do discurso de Carney e um dos pontos em debate foi esta ideia da ruptura, o que é mesmo uma ruptura, o que significa ruptura. Eu acho que tem toda a razão que o Trump e o trumpismo representam um ponto de viragem muito significativo na política externa americana e na forma como os Estados Unidos são vistos pelos aliados, nomeadamente esta questão de que países como o Canadá ou os países europeus têm de deixar de ver os Estados Unidos como um aliado fiável de longo prazo. Agora, isso é muito diferente de ruptura no sentido de uma quebra completa. Quer dizer, o Canadá tem o seu principal parceiro, a sua principal relação comercial com os Estados Unidos, de longe. Com os Estados Unidos são à volta de 70%, com a China, que é o próximo, são à volta de 8%. Agora, o que isto também representa é a retórica típica de Donald Trump, que é ele ameaça.

Perdemos o contacto com o Bruno Cardoso Reis. Vamos tentar reaver.

Muito claro que não ia fazer, que era um acordo comercial com a China. Sim. Portanto, o Donald Trump, no fundo, ameaçou aqui com 100% de tarifas contra algo que o Canadá nunca negociou, que Carney disse claramente que não ia acontecer. Portanto, o que ele foi fazer à China não foi um novo acordo comercial, foi normalizar relações comerciais que tinham sido muito afetadas por uma crise provocada pelo Canadá ser um bom aliado dos Estados Unidos e como resultado de um pedido americano ter detido a número dois da Huawei no Canadá. Isso criou uma guerra comercial com a China. Não estava em questão nenhum novo acordo comercial e quando o Canadá agora diz que não vai assinar nenhum acordo comercial, não está a ceder a nenhuma pressão de Donald Trump, está simplesmente a reafirmar aquilo que já tinha sido dito. Agora, Donald Trump certamente vai usar isto e os trumpistas vão usar isto para declarar uma grande vitória em relação ao Canadá. Mas isto mostra também que parte da política trumpista é, no fundo, este teatro de ilusões para Donald Trump aparecer sempre como vitorioso, como vencedor, como o mais forte, mesmo que isso muitas vezes tenha pouco a ver com a realidade.

E por falar em Donald Trump, há mais um país, Bruno, a juntar-se ao Conselho de Paz de Donald Trump, desta vez é o Camboja. Parece que este órgão, com os aliados que vai colecionando, tem pernas para andar a médio prazo, especialmente se pensarmos que as lideranças destes países vão mudar nesses próximos anos.

Para já, os países que aderiram são países que têm a sua importância. Por exemplo, um país como a Indonésia não pode ser desvalorizado, ou a Turquia, mas são países muito empenhados na questão de Gaza, ou são países muito próximos do Donald Trump, ou que querem ficar muito próximos do Donald Trump e que não têm nenhum problema ou nenhuma particular preocupação com a lei internacional, com o papel das Nações Unidas, e o Camboja também se inscreve nessa linha. É um país que tem um regime mais de democracia liberal, se quisermos, cada vez mais autoritário, que tem problemas em termos de direitos humanos, democraticidade, etc. E é um daqueles países que vê na indiferença, por exemplo, do Donald Trump em relação a todas essas questões de lei internacional, dos direitos humanos, da democracia, um alívio em relação a pressões de administrações norte-americanas anteriores. E parece-me que desse ponto de vista não é surpreendente que tenha aderido. Aliás, está em linha também, por exemplo, com um país muito importante desta região do sudoeste asiático, que é a Indonésia, que aderiu logo em Davos. Mas isso não altera o essencial, que é, para já, os principais países, países como a China, como a Rússia, não aderiram e também os principais aliados históricos dos Estados Unidos, por razões diferentes, também não aderiram, embora partilhem aqui uma razão, todos esses países, que é esta preocupação com um órgão que era suposto encarregar-se de Gaza, mas aparentemente tem ambições globais, competem com as Nações Unidas, e em que o poder está todo concentrado na pessoa do Donald Trump, nem sequer é no presidente dos Estados Unidos, como referias, é na pessoa do Donald Trump, vitaliciamente, a partir de se ele quiser, isto pode continuar para sempre, sendo que obviamente se houver alterações, como dizias, no governo norte-americano, basicamente tudo isto cairá, porque inclusive este órgão e o documento que o Donald Trump escreveu para se atribuir a si próprio os poderes sobre esse órgão, não foram sequer ratificados pelo Senado norte-americano, que é a condição para terem a categoria tratado internacional e portanto, a partir de obrigarem outros governos norte-americanos que se seguissem.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por ter estado conosco na Rádio Observador.

Boa tarde, obrigado.

E o Gabinete de Guerra fica por aqui, está de volta amanhã.