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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Orlando Sá Moisés, especialista em relações internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E começamos pelo Médio Oriente. Pela segunda noite consecutiva, os Estados Unidos atacaram alvos militares do Irão como resposta à guarda revolucionária iraniana diz ter atacado bases militares norte-americanas no Kuwait e no Bahrain. Hoje há também relatos de novos ataques iranianos a bases militares dos Estados Unidos. Como é que olha para estes ataques? Voltamos à estaca zero ou, pelo contrário, não comprometem definitivamente um cessar-fogo?
Boa noite, muito obrigado pelo convite. Não comprometem o cessar-fogo, mas também sabíamos desde o início que era precisamente frágil e parecia ser Trump a ceder bastante, porque na palavra que ficou escrita dava azo a múltiplas interpretações ou pelo menos a possibilidade de o Irão sair como vencedor, porque alguns dos pontos falavam no desbloqueamento dos ativos que estão congelados, levantamento de sanções. É certo que o bloqueio naval seria levantado e que havia a possibilidade de liberdade no Estreito de Ormuz, mas quase todos os pontos pareciam dar azo a essa possibilidade. Agora, na realidade, ao longo destes dias, foi desde o dia 17 que começamos a contar os 60 do memorando, em que no fundo submetemos a teste a possibilidade de ser mais ou menos possível, pelo menos acalmar algumas das hostilidades. A verdade é que houve sempre algumas situações de ataques mútuos, nunca foi totalmente pacífica a situação, nem houve esforços para que se aprofundasse o diálogo para permitir gizar alguns dos pontos que requeriam que houvesse conversas subsequentes. Apenas houve aquele conjunto de encontros que até se chamaram de reuniões técnicas e soaram muito a um passo atrás. Parecia que por técnico entendiam apenas a forma de manter a conversação para obter futuras conversações, para se encontrar uma maneira de formalizar conversações futuras. Ora, desta feita, e sabendo nós que o Trump também é muito impulsivo, direto, muitas vezes também disparatado na maneira como fala, ele ao dizer que acabou e que o memorando de entendimento acabou, pode lhe dar alguma força, porque na realidade estas ações parecem querer apontar mais no sentido de vincar e obrigar o ponto cinco do memorando, que era a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. É uma forma de eu recuperar aquilo que o memorando consistia e nesse ponto tão essencial, era a efetiva possibilidade de voltarmos a uma situação de mais liberdade de navegação nesse ponto, que uma vez tendo sido infringida, Trump achou que devia retaliar. Mas se virmos este conjunto de ataques, mesmo que sejam 80 mais 90, que me fale mais ou menos em dois dias é mais de 150, podem ser interpretados como retaliação. Há uma componente punitiva, claro que há, mas eu até gostaria de destacar que os ataques são nas cidades portuárias mais a sul e em alguns casos nas torres de controle de tráfego marítimo. Ou seja, estão a tentar retirar a possibilidade de o Irão controlar o estreito. Isto é uma aposta na maior liberdade de navegação e por isso é que o memorando de entendimento pressupunha, e agora estas ações militares, já sabe também que Trump mistura esta dimensão de querer falar, de dizer muita coisa e o seu contrário, mas ao dizer "acabou" ou "it's over", pode ser apenas um novo início. Porque ele também está com as expectativas muito goradas em relação aos próprios interlocutores. Ele pode ter falado com a dimensão mais política, líder do Parlamento, com interlocutores que provavelmente estiveram em contacto com os próprios enviados dele, mas a guarda revolucionária e estes comandantes, cujos nomes têm aparecido mais recentemente, que lideram a guarda revolucionária, podem de forma mais ou menos autónoma ter infligido estes ataques sobre os navios mercantes quando eles se desviaram da rota permitida pelo Irão. E aquilo permitido, entre aspas, não cabe ao Irão permitir o uso de rotas num estreito natural, que é o estreito de Ormuz, e por isso eram consideradas águas internacionais. Ou seja, voltamos ao mesmo, mas com mais conhecimento sobre aquilo que se está a passar. A informação revelada de parte a parte faz com que se calhar o Trump esteja mais de passo atrás, mais racional perante um conjunto de pessoas que ele agora apelida com os piores adjetivos, mas que em bom rigor estamos a falar de um regime que de facto também não se está aqui a tentar acomodar ou a tentar entrar numa zona de compromisso para com os Estados Unidos. Pelo contrário, há muita posição também maximalista da parte do Irão E também responde, e como disse e bem, responde sobre quem não tem culpa. As bases militares, por muito apoio que possam dar em termos de logística, e nem isso é assim tão claro. Agora temos mísseis a serem interceptados na Jordânia, de acordo com alguma imprensa internacional. É o Irão a criar instabilidade na região, mais do que a estender a mão para um acordo. E isto em dia em que deveriam estar em alguma reclusão, em algum recato, até por estarmos ainda a viver parte dos momentos das exéquias fúnebres, agora com lugar no Iraque, o que também não deixa de ser um bocadinho curioso, aqui por parte do Irão, que atua regionalmente e que até tem esta forma de olhar para este simbolismo do funeral como sendo maior do que o próprio Irão e no fundo, tentando atuar simbolicamente sobre todas as comunidades xiitas da zona.
Entretanto, Israel já veio dizer que está preparado também para retomar a ofensiva contra o Irão, ao mesmo tempo que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu avisa que não vai sair do Líbano enquanto não houver segurança no norte de Israel. É expectável que Israel volte a juntar-se ativamente ao conflito, levando mesmo a cabo estes ataques para os quais diz que está preparado. E quanto à questão do Líbano, perguntava-lhe também se poderá ser um dos motivos que reacendeu o conflito agora.
O Líbano é o ponto um do entendimento e do memorando. Os Estados Unidos pareciam estar a querer pressionar Israel em cumprir a sua parte e até se falou em deslocarem as suas tropas do sul do rio Litani até à fronteira e proporcionalmente ou gradualmente essas zonas serem ocupadas pelo exército do Líbano. Até havia uma estratégia de exigência de uma desocupação de Israel. Ora, mais uma vez, perante os recentes acontecimentos, o que me parece é que Israel vai seguir a sua ideia com um pouco mais de legitimidade, porque de facto as negociações com o Irão sempre foram vistas com muita suspeita por parte de Israel. E aqui, no fundo, tem um pouco a prova da dificuldade de manter uma conversação ativa, porque pode não haver uma total boa-fé. Agora, também não quero com isto dizer que acho que Israel vai vincar ainda mais as suas posições. Parece-me até que a forma que têm de ocupar e de fazer guerra, a tentar desmobilizar estas forças que no fundo atuam a mando do Irão ao longo de toda a fronteira de Israel, alguns ainda em Gaza, onde a situação ainda não é totalmente esclarecida. Mesmo na Cisjordânia, onde criticamos tanto Israel por terem os colonatos e pela ocupação. E até sob essa perspetiva, darmos muito mais contenção à moderação e como vai contra o direito internacional, até há uma exigência maior a fazer sobre Israel, mas em questão do Líbano, o Irão também nunca conseguiu travar o Hezbollah e parece-me que Israel vai continuar um pouco em linha reta, ou seja, um pouco independentemente daquilo que se está a passar, parece que o seu plano, e isto acabo por dizer pro bem e pro mal, muitas vezes pro mal, não ouvem os apelos, não só da comunidade internacional, mas muitas vezes os próprios Estados Unidos. Tantas vezes que Trump tentou dar a entender que era um exagero a maneira como derrubavam prédios até no sul de Beirute, quando tinham a suspeita de haver algum membro do Hezbollah. Trump criticou, apelou à contenção, mas parece que Israel faz na mesma, até não está preocupado com a maneira como toda esta falta de cuidado e este, muitas vezes, exagero no uso da força é percecionada e continua a sua linha. Mas neste momento podem provavelmente dizer que têm um bocadinho mais de legitimidade, porque afinal o memorando de entendimento também não foi levado a sério pelo Irão, por muito que até tenha sido favorável ao Irão, pelo menos na letra daquilo que fica escrito, porque na realidade, como vemos, os Estados Unidos mantêm a pressão, continua de facto a ter um conjunto de ações militares cuja resposta é proporcional, porque se calhar o Irão também não está investido em tentar irritar ainda mais, mas que alguma falta de paciência há. O estreito tem que abrir, é um acidente natural, não há ali um conjunto de infraestruturas que tenham sido necessárias construir por parte do Irão e não cabe ao Irão decidir como é que passam os navios. Se houver algum tipo de serviços que possam fazer de salvamento, de busca, como acontece, por exemplo, no Bósforo, é diferente, mas de um modo geral, não há razão nenhuma, isto para além de um regime político altamente criticável, sanguinário, que atua contra a sua população permanentemente. Para além disso, há de facto esta questão, este uso do estreito de Ormuz como arma de arremesso e os Estados Unidos agora juntaram a voz à própria NATO, porque se virmos o comunicado de ontem, a declaração conjunta e para todos os efeitos unânime, torna claro que a NATO, apesar de ser uma aliança política de defesa e do Atlântico, e portanto não ter uma pretensão sobre qualquer tipo de paz noutros sítios que não seja à volta do Atlântico e perante os seus membros, deixa claro no ponto cinco da declaração de que a abertura do estreito e um Irão não nuclear Passam a fazer parte e são declaração unânime em aliança da Aliança Atlântica, o que significa que são 32 países, neste momento, de acordo com esta investida dos Estados Unidos. Sabemos que muito criticável, até porque desarticulada ao início, no dia 28 de fevereiro, mas muitas vezes nós temos a tendência a interligar o fecho do estreito com a guerra, mas uma coisa podia ter acontecido independente da outra e neste momento devia estar a Europa muito mais investida na abertura do estreito para defender a liberdade dos mares, do comércio internacional e a prosperidade de todos.
Vamos ainda olhar rapidamente para a Ucrânia. Fontes próximas do Kremlin dizem que Vladimir Putin continua a rejeitar as negociações de paz e que se prepara para intensificar a ofensiva. Ora, isto coincide com o fornecimento contínuo de armamento pela NATO à Ucrânia. Se de facto vier a concretizar-se esta escalada, é uma maneira de a Rússia mostrar que mesmo estando praticamente sozinha continua com força, mesmo que na realidade não seja bem assim?
Sim. Nós estamos a viver aqui em vários palcos e tabuleiros uma situação muito importante neste momento. Temos, de facto, a figura de Zelensky um pouco mais apoiada pela NATO e um dos pontos da declaração conjunta de ontem foi o quatro, a maneira como fala da Ucrânia e o apoio que dá não só este ano, mas para o próximo. Não sabemos se estes valores incluem alguns valores já anunciados anteriormente ou não, mas permitem de facto dar algum conforto à Ucrânia no que diz respeito até à aspiração de poder vir a produzir os tais intercetores e as antiaéreas Patriot. Não sabemos qual será o modelo exato. Eu não tenho a certeza, mas creio que os Estados Unidos são mesmo muito relutantes em dar as licenças de fabrico. Creio que a licença de fabrico do modelo que seria mais avançado, creio que nem a Polónia nem a Alemanha têm exatamente esse contrato, mas há ali uma questão técnica em que podem fazer algum tipo de manutenção, mas a produção efetiva deste tipo de míssil, de antimíssil, seria um avanço importante. Não é uma mudança total do jogo, mas daria um apoio gigantesco à Ucrânia, porque neste momento, e como a sua pergunta diz, e bem, na realidade a Rússia, por muito que pareça parada ali na linha da frente, a verdade é que tem tido uma ofensiva sobre várias cidades da Ucrânia com muita força, mesmo da capital e em Kharkiv, em várias cidades importantes. Tem deixado, de facto, as pessoas a passar noites muito difíceis e, portanto, a investida russa continua, continua com muita força, é uma economia mobilizada para a guerra e por isso mesmo a produção dos Patriot na Ucrânia, a vir-se a verificar, não sabemos nunca em que quantidade. São difíceis de produzir porque são muito caros e utilizam materiais muito sofisticados e também não sabemos qual é nem a quantidade, nem o timeline, nem o grau de tecnologia que será concedido à Ucrânia. Ainda assim, Trump, ao dizer muita coisa, também dá a entender que está disponível a isso no dia de ontem. É uma notícia, de facto, que devemos acolher com satisfação, mas toda a estratégia, isolamento da zona da Crimeia, conter a linha da frente e tentar atacar em profundidade para limitar as capacidades de refinação dos combustíveis na Rússia, para criar também este efeito sobre a opinião pública, esta pressão que está a começar a ser mais visível. E tivemos recentemente, não é mesmo, publicamente uma nota dada a Putin, precisamente sobre um dos membros do governo, em que ele dava a entender que essa situação era mesmo real, da dificuldade de obter combustível na Rússia neste momento e, portanto, é as pessoas a começarem a sentir os efeitos. Pode criar uma dinâmica um bocadinho mais equilibrada, mas que está longe de trazer a Rússia para já para as conversações. Por muito que, por vezes, mesmo o Kuleba tem dito que pode haver possibilidades a breve trecho, e o breve trecho é sempre ao longo do ano, da Rússia pressionada como está, e perante mesmo uma NATO que inclui os Estados Unidos, que deixam trespassar a ideia de que estão dispostos a mediar mais a situação e, portanto, a dar um apoio um bocadinho mais vigoroso à Ucrânia. Apesar de tudo, creio que os pratos estão mais equilibrados, mas não quer dizer que não possa, enfim, nos próximos tempos ainda decair para o outro lado. Zelensky está disponível, mas agora a última vez que respondeu a Trump, também na Cimeira da NATO, até foi com alguma piada, porque Trump quando questionou se estava disposto a ir a Moscovo, ele disse que estavam muitos drones ucranianos em Moscovo, portanto seria perigoso. É um retorno de Zelensky, chefe agora do país, presidente e, portanto, chefe das Forças Armadas, a regressar um pouco à sua dimensão de comediante. Quem sabe se ele não poderá mesmo regressar a comediante em breve, em alguns anos, com o fim. E, portanto, teremos, se calhar, aquele momento daquela conferência de imprensa como um dos pontos de viragem em que ele já consegue fazer piadas sobre a guerra, o que significa que as conversações, mesmo na parte em que não estava aberta a comunicação social, não devem ter sido muito contrárias às suas intenções. E ele mantém a sua resistência, mas creio que a Rússia também ainda está para durar e continua a manter muita força nos seus ataques. E, portanto, vamos ver como é que a coisa corre.
O nosso tempo chegou ao fim. Obrigada pela sua análise, Orlando Sá Mendes, especialista em Relações Internacionais.
Muito obrigado.
Obrigada. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.