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Falamos de conflitos em curso. Começa agora o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou conversar nos próximos minutos com o Major-General Isidro Morais Pereira e vamos falar dos conflitos na Ucrânia e também na Faixa de Gaza. Começamos pelo conflito na Ucrânia, até porque, Major-General Isidro Morais Pereira, a Ucrânia começou a utilizar armas da NATO em território russo. Isto é um virar de página neste conflito, é uma mudança que temos a partir de agora com esta autorização da Aliança Atlântica de utilizar este tipo de armas para atacar posições russas em território russo?

Digamos que finalmente a Ucrânia foi autorizada a combater dentro daquilo que são as fronteiras do direito internacional, estabelecidas na Carta das Nações Unidas e nas Convenções de Genebra e seus protocolos adicionais. Portanto, é perfeitamente legítimo que a Ucrânia ataque alvos militares em solo russo, exatamente como o contrário. A Ucrânia, desde que foi invadida em fevereiro de 2022, tem esse direito inalienável de o fazer. As potências ocidentais entenderam que era preciso seguir um roteiro passo a passo, um roteiro cauteloso, para que não se desse uma escalada do conflito, para que o conflito não escalasse pra patamares depois difíceis de controlar, para que o conflito não alastrasse para fora das áreas geográficas da Ucrânia e também por medo. Por medo que Vladimir Putin fosse um ser irracional, pelos vistos continua a ser um ser irracional, como sempre foi, e que de repente lhe desse a ideia de utilizar armas nucleares ou coisa que valha, e que fosse muito para além daquelas que têm sido as narrativas assustadoras, quer protagonizadas por ele próprio, ultimamente, quer por Medvedev e outros personagens importantes ligadas diretamente ao Kremlin. Bom, neste momento, aquilo que fez transbordar o copo e ver de forma clara o quão a Ucrânia estava necessitada de ser autorizada a utilizar as armas que o Ocidente lhe vai fornecendo para destruir alvos em território russo, foi esta última ofensiva que a Rússia decidiu pôr em marcha a partir de 10 de maio em Kharkiv, ali no nordeste da Ucrânia. E de tal forma que se tornou claro, fundamentalmente quando Antony Blinken visita pela última vez Kiev e se inteira da situação e da grande dificuldade que as tropas ucranianas tinham pra poderem realizar fogos de contrabateria, pra poderem bater os sistemas de lançamento de mísseis e pra se poderem defender, de facto, de forma justa da ameaça que estavam a ser desta nova frente, que lhes fazia esticar um pouco a já longa zona de confrontação, a já longa linha de confrontação, que já tem mais de 1000 km, aqui eram acrescentados mais uns 70 e dada a proximidade de Kharkiv à fronteira russa. A Rússia estava a usar os seus meios de apoio de fogos pra apoiar as forças de infantaria e os seus blindados nas suas ofensivas localizadas ainda em território russo. A Ucrânia não podia atacar essas bases de fogos de onde eram disparadas as munições de artilharia e os foguetes e os lança-foguetes múltiplos. Criou aqui uma situação, de facto, extraordinariamente injusta e muito difícil de lidar com a mesma por parte da Ucrânia. Isto levou a que, finalmente, as potências ocidentais e que têm auxiliado a Ucrânia, vissem de forma clara o quão necessitada estava a Ucrânia de poder utilizar este tipo de armas. E já está a fazê-lo. E já está a fazê-lo com eficácia. E de tal forma que, neste momento, nesta região de Vovchansk e Lipetsk, não apenas as forças ucranianas conseguiram parar as ofensivas russas, assim como ganharam vantagem. Neste momento, a Ucrânia tem cerca de 2,2 militares ou combatentes para um russo. Ainda ontem há uma notícia que conseguiu destruir os sistemas de lançamento de mísseis S-300 ou S-400 que tinham acabado de chegar à região de Belgorod, foram atacados, ainda não se sabe bem com que tipo de armamento, mas presume-se que terá sido com foguetes lançados pelos sistemas de lança-foguetes múltiplos Himars ou por BM-270. Portanto, neste momento, o que é que podemos dizer? Aquilo que eu lhe posso dizer são as últimas declarações do porta-voz da Casa Branca, John Kirby, que acabou de dizer que o presidente Biden não descarta a possibilidade de eventualmente ampliar a autorização pro uso de armas contra alvos dentro da Rússia. E quando eu digo ampliar, e quando ele diz ampliar, foi porque, contrariamente a outros países, os Estados Unidos impuseram algumas limitações para que as armas fossem utilizadas fundamentalmente nesta ofensiva nas proximidades de Kharkiv. Mas ele próprio começa a dizer Que é possível que, eventualmente, esta autorização seja dada para atacar alvos noutros locais e na profundidade do território russo, aliás, como já fizeram outros países.

Major, enquanto isto acontece e enquanto temos este alargamento de utilização por parte de armas da NATO para atacar a Rússia em território russo, temos muito em breve uma conferência de paz a acontecer na Suíça. Zelensky fez um apelo aos Estados Unidos da América para que Joe Biden estivesse presente. Acabou por ser confirmado, entretanto, que não será Joe Biden, mas sim Kamala Harris, a vice-presidente dos Estados Unidos da América. Gostaria de perceber que mensagem passa os Estados Unidos com essa decisão e também olharmos um pouco para o que diz a Rússia, que já fala numa cimeira absurda.

Não, a Rússia já há muito tempo tenta boicotar esta iniciativa que a Ucrânia já vem planeando em conjunto com a Suíça, que vai ser o país que se predispôs a ser o host nation, o país onde vai ter lugar esta conferência em 15 e 16 deste mês. A Rússia tudo fará. A Rússia tudo tem feito, tudo está a fazer e tudo fará. Só que não tem conseguido, porque tanto quanto me apercebi, já são mais do que uma centena os países que vão estar presentes, representados uns ao mais alto nível, outros não tanto, através dos seus embaixadores. Neste caso, os Estados Unidos e Joe Biden já disse que se vai fazer representado pela vice-presidente, e não apenas pela vice-presidente, também estará presente Jake Sullivan. Nós temos que pensar que os Estados Unidos e Joe Biden, neste momento, têm uma guerra interna para ganhar.

Tem eleições.

Tem eleições. E neste momento, quer ele, quer Donald Trump, estão firmemente empenhados naquilo que nos Estados Unidos nós costumamos ouvir por aquelas duas palavras, fundraising. Estão a fazer campanha para reunirem verbas para poderem fazer uma campanha eleitoral, poderem divulgar o mais que puderem nos meios de comunicação social, porque tudo isso custa dinheiro. E Biden, neste momento, eu creio que só algo de facto extraordinariamente importante é que o retirará dos Estados Unidos, porque ele neste momento está com o seu principal objetivo, a ganhar as eleições de novembro próximo. De qualquer maneira, estando presente a vice-presidente e Jake Sullivan, eu acho que os Estados Unidos está representado a um nível adequado. Agora, a Rússia, naturalmente, vai fazer a utilização do fato do próprio Joe Biden não estar presente para continuar a menosprezar este tipo de iniciativa. A China utilizou uma narrativa agora no encontro de Shangri-La, que é curiosa, porque a China tem sempre este tipo de inescrutabilidade própria oriental, esta forma de apresentar as narrativas e as decisões que toma. Diz: "Não, o evento não deixa de ter importância, mas nós achamos que não devemos participar, porque não faz qualquer sentido. Se vamos falar da paz, se há duas potências em confronto, sendo uma delas a Federação Russa". Mas, no entender da China, não querendo minorizar a importância do evento, diz que não lhe parece adequado estar presente, porque a Rússia também não está presente.

Para terminar, e temos apenas alguns minutos, falar um pouco do conflito em Gaza e nessa região, até porque hoje o Reino Unido e os Estados Unidos da América avisaram o Líbano para uma ofensiva de Israel em larga escala a partir de junho na região. Como é que vê estes avisos?

Esta notícia já não é de hoje. Já há uma semana esta parte que o Hezbollah vem aumentando o ritmo dos ataques. E aliás, até fez menção de dizer que neste momento está a atacar objetivos de grande valor, high value targets, é assim que aparece no inglês. Estes objetivos de grande valor, é verdade, que tem no efeito, tem atacado quer bases aéreas, quer zonas de concentração de tropas mais próximas do norte de Israel, junto à fronteira com o Líbano, exatamente porque tem a noção clara de que Israel poderá estar a preparar um conflito em grande escala para resolver o problema do sul do Líbano. Isto por quê? Vamos lá ver. Nós não podemos esquecer que o governo israelita, além do problema da Faixa de Gaza, ainda tem outro problema em mãos, e é um problema que está sem solução há meses. O número de deslocados de Israel é próximo dos 100 mil. Havia cerca de 100 mil israelitas que viviam nas proximidades da fronteira norte de Israel, ou seja, a fronteira sul do Líbano com Israel, e que tiveram que abandonar os seus locais de residência, os locais onde viviam e onde têm a sua vida. E algo tem que ser feito para que estas pessoas possam retornar à sua vida normal e ocupar as casas que são suas, e dedicarem-se às suas atividades normais e porem em marcha aquilo que é a sua vida. Israel tem esta noção e para que isto seja possível e para que aquelas populações possam viver, retornar aos seus locais de origem e viver em segurança no futuro, é necessário que há uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que obriga o Hezbollah a ter forças para cima do rio Litani. O Hezbollah nunca cumpriu com esta resolução. A UNIFIL, a Força de Intervenção de Paz, que se encontra lá, também nunca foi capaz de impor esta resolução. E Israel é muito natural que esteja a planear uma ofensiva por forma cuja finalidade não é destruir o Hezbollah, assim como é destruir o Hamas na Faixa de Gaza, mas sim empurrar as forças do Hezbollah o número de quilômetros suficientes para norte para que os seus rockets não estejam permanentemente a atingir essas localidades próximas da fronteira. Portanto, é absolutamente credível que isto possa vir a acontecer.

Muito bem. Major-general Isidro Morales Pereira, muito obrigado por ter estado connosco em mais uma emissão de Gabinete de Guerra.

Obrigado eu.