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Cá estamos para mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador e hoje temos vários pontos na ordem de trabalhos, a começar pelas ameaças que pairam sobre a Moldávia. Estará mesmo na mira de Vladimir Putin? O professor da Academia Militar António José Telo vai ajudar-nos a analisar os últimos desenvolvimentos deste conflito. Também aqui com os membros residentes do gabinete, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.

Aumentam essas preocupações em torno da Moldávia. O chefe dos Serviços de Informações do país admite um risco real de ataque russo no arranque do próximo ano e falta pouco para 2023 começar. Professor António José Telo, obrigada por estar conosco no Gabinete de Guerra. A Moldávia terá informações tão fidedignas nesta altura como tinha a Ucrânia de uma invasão iminente?

Boa tarde. Repare, não é muito difícil prever que a Rússia prepara uma ofensiva para ser lançada na altura oportuna. Já o devia ter feito, ou seja, a melhor altura para o ter feito do ponto de vista das suas perspetivas, teria sido agora em dezembro. Não o fez e se não o fez até agora, dificilmente o fará. Neste momento, as temperaturas já se aproximam do normal para esta época do ano, embora ainda estejam acima do que é a média para dezembro, para a segunda metade de dezembro. O que significa que é normal que esteja a treinar e preparar as suas unidades para assim que a situação permita, poder lançar uma ofensiva. Onde isso acontecerá, já é uma questão muito discutível. Agora que a Rússia o está a preparar, penso que não levanta muitas dúvidas, até porque para ela é essencial. Todos os acontecimentos dos últimos três meses lançaram o descrédito sobre a sua real capacidade de se impor no terreno à Ucrânia. Como tal, é normal que aposte tudo e que tente tudo para inverter essa situação.

Professor António José Telo, deixe-me só perguntar se à Rússia, e isto é uma expressão dos serviços de informação moldavo, a pergunta não é se a Rússia vai lançar uma ofensiva contra a Moldávia, mas antes quando. Isto parece-lhe que faz sentido?

Contra a Moldávia já é uma parte um pouco mais duvidosa, porque para isso seria preciso chegar lá. E chegar lá implicava passar o terreno que está neste momento ocupado pela Ucrânia. Portanto, isso implicava não só uma grande ofensiva, mas implicava o empenhamento de muitos meios. Eu duvido que seja esse o objetivo da Rússia. Não há especial interesse na Moldávia, embora tenha aí o seu território pró-russo e haja um território pró-russo próximo. E sobretudo, isso implica um avanço tão substancial na Ucrânia que seria algo que a Rússia nos últimos meses tem mostrado incapaz de fazer. Não me parece ser a zona mais indicada para uma ofensiva da Rússia e, sobretudo, tenda apontando para a Moldávia.

Mas o maior depósito de munições da Europa fica precisamente na Transnístria, que é parte do território da Moldávia. Pode ser um alvo estratégico importante para a Rússia?

Repare, as munições em si não são um objetivo estratégico significativo. Aliás, as munições que lá estão, suponho, não sei qual é exatamente o tipo de munições que lá estão, mas suponho que sejam exatamente aquelas que a Rússia tem neste momento em quantidade. À Rússia não falta munições de armas ligeiras, munições de morteiros, munições de artilharia, inclusive de rockets de pequeno alcance. O que lhe falta sim são as armas mais sofisticadas, as armas das últimas gerações. Curiosamente, algumas inclusive que a própria Rússia tem, ou seja, que a Rússia há anos apresentou como protótipos, que a Rússia há anos anunciou que ia começar a sua produção, isso não se vê no terreno. Não surge no terreno em termos desta guerra na Ucrânia. E todas as indicações que há é que existem em quantidade muito pequena. Portanto, não me parece que isso transforme a Moldávia num objetivo estratégico muito significativo. O que aconteceria a partir disso, sim, o avanço na direção de Odesa e na direção desse litoral do Mar Negro, que é a única porta de saída para o mar que resta à Ucrânia, isso pode ser um objetivo estratégico significativo, inclusive tentando o envolvimento de Kherson pela reta quarta. Agora, só isso em si já é algo que muito dificilmente a Rússia, em termos de meios convencionais, neste momento conseguiria obter. Apontar ainda para mais disso com o ataque a um outro Estado, parece-me que ultrapassa claramente o que neste momento são as possibilidades minimamente realistas Das forças russas.

Professor António José Telo, ao mesmo tempo, tivemos aqui hoje o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a fazer uma visita de surpresa na linha da frente em Bakhmut. Qual é o significado desta visita agora e com todas estas ameaças a pairar?

Bakhmut é significativo sobre o impasse da Rússia no terreno. A Rússia, neste momento, está a empenhar as suas forças desde há semanas, em termos dessa contraofensiva no Donbass. E essa contraofensiva conduzida com meios significativos tem produzido muito pouco. Um avanço mínimo que se mede por alguns quilómetros, no máximo, e nem sequer conseguiram, até agora, reconquistar uma única povoação, cidade importante, que tenha sido retomada pela Ucrânia na sua contraofensiva. Portanto, Bakhmut e o empenhamento das forças em Bakhmut mostra o desespero russo em tentar obter uma vitória que possa ser apresentada, quer internamente, quer externamente. E diga-se de cima, nas condições em que é feito, provocando baixas muito significativas, embora também tudo indique baixas muito significativas em unidades que a Rússia não tem grande problema em ver desaparecer. Unidades de uma mobilização recente, mas uma mobilização, por exemplo, nos presídios, de uma mobilização, por exemplo, em termos de degradados que são chamados para o exército com promessas ou de libertação e de fim da pena, ou da possibilidade de uma ascensão social. Portanto, o que se está a passar em Bakhmut mostra justamente o impasse tremendo em que a Rússia chegou em termos das suas forças convencionais e da sua incapacidade de ultrapassar esse impasse.

Professor António José Telo, tenho apenas aqui mais um ponto na ordem de trabalhos do gabinete de hoje. Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente português, diz que vai visitar a Ucrânia, certamente no próximo ano, embora também não indique uma data em concreto. É natural, tendo em conta também todo este contexto, e normalmente estas datas não são assim comunicadas com tanta distância, mas de qualquer modo, é importante renovar este apoio público aos ucranianos, sobretudo neste contexto que estamos a falar e de algum desgaste também desta guerra.

Vários dirigentes europeus têm feito isso recentemente e parece-me importante reforçar o empenho europeu em termos do apoio à Ucrânia, tendo em conta, nomeadamente, que a Ucrânia está a defender os interesses europeus, não só os valores europeus, mas os interesses europeus directamente. Agora, é normal que não se anuncie com antecedência a data, até porque isso seria excelente para os planos russos. Do mesmo modo que, por exemplo, a visita do presidente Zelensky a Bakhmut, acredito que quando as imagens foram fornecidas, já o presidente Zelensky não estava lá. Ou seja, que as imagens não foram divulgadas na altura em que a visita estava a decorrer. E como, aliás, tinha acontecido nalgumas visitas em Kiev, nomeadamente, embora Bakhmut e Kiev sejam duas situações muito diferentes. E nós vimos também noutras situações, estou-me a lembrar, por exemplo, da visita de António Guterres, que coincidiu com bombardeamentos russos que claramente tinham carácter simbólico. Portanto, a Ucrânia é normal que planeie essas visitas com alguma discrição, até porque sabe que elas podem corresponder a bombardeamentos que irão atingir alvos ucranianos.

Exatamente. Professor António José Telo, muito obrigada por ter participado no Gabinete de Guerra de hoje. Boa tarde.

Boa tarde. Obrigado eu.