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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de atenção na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Olá, boa noite.

Boa noite. Vamos começar com a visita mistério do diretor da CIA a Moscovo. O Kremlin confirmou esta visita, mas esclareceu que não está previsto qualquer encontro entre John Ratcliffe e Vladimir Putin. Entretanto, Donald Trump disse hoje que alguma coisa deve estar por vir desta visita, mas desvalorizou esta deslocação, diz que se trata de uma visita de quase rotina. Pergunto-lhe se acha que esta é, de facto, uma visita de rotina ou se pode haver aqui algo mais.

Parece-me que de rotina não será. Por quê? Porque não tínhamos um diretor da CIA a deslocar-se à Rússia desde o último trimestre de 2021 e, na altura, até nos podemos lembrar das declarações de Burns, na altura diretor da CIA, em que dizia aos russos que não deviam entrar na Ucrânia, não deviam tentar esta operação militar especial, porque isso ia trazer consequências danosas para a Rússia e os Estados Unidos iam estar muito atentos a isso. A verdade é que, passados cinco anos sensivelmente, temos um novo diretor da CIA a ir a Moscovo, com uma particularidade, que é: de secretismo, esta operação teve muito pouco. Por quê? Porque se olharmos para o C-17, o Boeing militar, que também é importante que se diga que é militar, que levou Ratcliffe até Riga e depois de Riga para Moscovo, é uma aeronave extraordinária nas suas proporções. Portanto, percebemos que através de qualquer site da internet que faz a monitorização destas aeronaves e do tráfego aéreo, percebia-se facilmente que existia ali um corpo estranho, que não é normal, a fazer uma rota, primeiro até Riga e até Moscovo. Por que salientar esta questão de primeiro Riga e depois Moscovo? Porque houve aqui uma opção que é curiosa, que é Ratcliffe optou por primeiro parar na capital da Letónia e isso não me parece que tenha sido para discutir qualquer tipo de problema ou ter aqui algum tipo de representação diplomática junto do governo da Letónia. Apesar que faria sentido também, uma vez que o governo da Letónia é relativamente novo e acabou por cair como uma consequência indireta, como um dano colateral do conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Mas parece-me que isto acontece mais porque a CIA optou por não sobrevoar uma zona particularmente sensível, que é a zona dos Bálticos, a fronteira leste europeia e a fronteira leste da União Europeia também, que depois corresponderá também às fronteiras oeste da Rússia, não quis sobrevoar esse espaço aéreo durante demasiado tempo. Então por aí ter optado, no fim de semana, por ir até à Letónia e depois da Letónia viajar para Moscovo. É realmente preocupante vermos uma viagem de um diretor da CIA à Rússia depois de cinco anos, porque percebemos aqui que há qualquer coisa a acontecer. É difícil prever o que está para acontecer, mas há aqui, diria eu, duas, três possibilidades que poderemos discutir, não dar como certezas, claro. A primeira foi a que foi falada inicialmente e está relacionada com a detenção, no momento, numa situação até um bocadinho inusitada e caricata, relacionada com os sites de dating online, de encontros online, que tinham levado um veterano importante de guerra norte-americano até à Rússia e que na Rússia foi detido e que então o diretor da CIA deslocar-se-ia à Rússia para conseguir a libertação desse preso. Esta é a primeira, é talvez até, diria eu, a teoria mais consistente, uma vez que tem aqui algo palpável e uma situação por trás que de facto aconteceu. No entanto, há aqui mais duas teorias que vão surgindo e que podem ter implicação direta. A segunda é: Vladimir Putin, sabe-se agora que mudou ligeiramente a sua agenda nestes próximos dias, que faz indiciar que podemos ter realmente um encontro entre o diretor da CIA, Ratcliffe, e Vladimir Putin. E aqui temos uma representação diplomática da CIA que é quase colateral, que é uma espécie de pararepresentação diplomática, que é algo que a CIA fez em nome dos Estados Unidos muito durante os anos 60 e 70, não seria nada de novo, e fê-lo também junto do Kremlin durante a Guerra Fria, portanto, não seria nada de novo. Se olharmos para um passado histórico assim mais lato, na história moderna ou no século XXI, é de facto novo. E depois a terceira opção seria uma discussão sobre aquilo que é a falta de intercetores da Ucrânia e tentar dissuadir o poder aéreo russo e, para além disso, discutir também a questão iraniana e tentar compreender de que forma é que as sanções norte-americanas, o chamado Dia D das sanções económicas, como o Bessett o intitulou, como é que poderiam afetar a Rússia e de que forma é que poderia haver aqui uma solução negociada entre Estados Unidos e Rússia para essas sanções secundárias que os Estados Unidos colocarão aos aliados do Irão, não afetarem tanto a Rússia ou não hostilizarem completamente as partes, tanto Rússia como Estados Unidos, no momento em que temos vários conflitos a proliferar pelo mundo. Estas são, claro, as diferentes hipóteses. O que é certo é que foi algo de substancial, exatamente por estes motivos que anunciei, por termos o diretor da CIA a ir a Moscovo depois de cinco anos sem qualquer tipo de atividade desse gênero, e também porque Foram os próprios Estados Unidos a pedir um pouco antes desta viagem que a Ucrânia durante esta semana não cessasse, mas acabasse por mitigar, por diminuir o número de ataques, principalmente às grandes cidades russas, para prevenir qualquer tipo de disrupção que pudesse existir com esta viagem.

Para a próxima semana está previsto o encontro entre Vladimir Putin e o presidente iraniano no Quirguistão, à margem de uma cimeira. O que é que se pode esperar deste encontro, se é que se pode esperar alguma coisa relevante?

Creio que este encontro, quando estava marcado, era até mais no âmbito de perceber qual a reação caso os Estados Unidos aumentassem as sanções económicas. Porque o que conseguimos perceber aqui é que de facto faltou uma solução diplomática, faltou uma solução militar aos Estados Unidos, e então estão agora a recorrer a este tipo de sanções económicas que não são novas para o Irão. O Irão desde a revolução islâmica, desde 79, que quase que de imediato começou a ser sancionado pelos Estados Unidos. Os anos 80 foram também de grandes sanções, até de investimento norte-americano no Irão, e aí teve a mão de Bill Clinton, principalmente. E depois tivemos ao longo dos anos 90 e 2000 o crescimento dessas sanções e, portanto, um crescimento completamente à parte daquilo que era a economia iraniana, daquilo que era o investimento norte-americano. Donald Trump, no seu primeiro mandato, mal entrou, criou o CAST, com dois As, que seria uma espécie de supersanção, era o início da sua guerra tarifária, uma espécie de supersanção contra o Irão, contra a Rússia, contra a China e contra a Coreia do Norte. Portanto, nada disto é novo, nem no comportamento de Donald Trump, e também nada disto é novo para o Irão, que já lidou com este tipo de sanções antes e durante décadas. Por isso, é precoce achar que estas sanções serão mais do que residuais naquilo que é a economia iraniana e naquilo que é a força do regime iraniano e a resistência que tem tido a esta intervenção norte-americana. No entanto, parece-me que o que será discutido, principalmente, e quando foi marcada esta reunião, o objetivo seria discutir não só as consequências destas sanções secundárias económicas na relação entre a Rússia e Irão, mas também na relação com os restantes estados do Centro Asiático e estados esses que foram parte da União Soviética, e muitos desses são os chamados hoje o Turcomenistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, e por aí fora, que continuam a manter relações com o Irão e também com a Rússia. Existe uma parte do eixo da resistência que se está a mover para esses países, percebendo que a Europa e os Estados Unidos têm aqui uma hostilização, que existe de ambas as partes, que existe uma separação cada vez maior entre aquilo que são os valores ocidentais e os valores do eixo da resistência, e esta discussão entre Vladimir Putin e os representantes iranianos parece-me que será principalmente para perceber como é que se consegue contornar estas sanções económicas. Porque as 60 entidades que até agora foram visadas por estas sanções económicas são no mínimo caricatas, porque muitas delas, e principalmente até da economia russa e da economia chinesa, são cadeias de logística, empresas que estão responsáveis pela logística e pelo transporte petrolífero, não são necessariamente as próprias refinarias, que isso é que magoaria, de certa forma, não só o bolso dos iranianos, mas também o bolso dos russos e consequentemente dos chineses. Essas sanções têm sido colocadas a estas empresas de logística que no fundo já estão paradas desde o início da intervenção do estreito de Ormuz, porque são dessas empresas os navios que deixaram de passar no estreito de Ormuz assim que se deu o bloqueio e que muitos deles nem sequer querem passar porque têm medo dos prémios das seguradoras e da subida dos preços das seguradoras. Por isso, o bloqueio que se cria através destas sanções económicas, mesmo para a economia russa e para a economia chinesa, não é nada por aí além. No entanto, há sistemas de pagamento fora daqueles sistemas de pagamento comuns, como é o Swift, por exemplo, que são usados em transações pelo mundo todo e que estão diretamente ligados ao euro, mas também ao dólar. Há formas de contornar esses tipos de pagamento, e muitos deles estão relacionados com criptoativos, e esses meios estão a ser ativados agora tanto pelo Irão, como pela China, como pela Rússia, para conseguirem contornar estas sanções económicas colocadas a estas 70 entidades, a estas 70 empresas que explicava. E creio eu que esta discussão entre Vladimir Putin e os representantes iranianos estará muito mais relacionada com o aspecto económico do que propriamente com o aspecto bélico, porque as cadeias de abastecimento bélico e as transferências de conhecimento bélico entre Rússia e o Irão não começaram agora, por isso isso está mais que estabelecido e sabemos que continuam a existir e que os drones russos têm muita tecnologia chinesa e iraniana. E por isso, o que falta aqui acertar, no fundo, é agora a reação a estas sanções económicas.

Donald Trump afirmou hoje que não há pressa para o regresso às negociações com o Irão e garantiu também que a pressão económica tem sido tão eficaz quanto os ataques militares. Já abordou um pouco esta questão, mas pergunto-lhe se podemos estar aqui a assistir a uma mudança de estratégia por parte da Casa Branca.

É uma mudança de estratégia no sentido em que assumem que não existe estratégia neste momento. E é das primeiras vezes que o assumem, porque o que tínhamos tido ao longo dos últimos meses eram quase publicações diárias online Sobre o fim do Irão, o fim da Pérsia, a destruição do regime. E a verdade é que vamos com seis meses destas publicações online, algumas não online, algumas também feitas em público, em discursos e ovacionados em discursos, e que depois, no final de contas, como percebemos, resultaram em muito pouco, porque o programa nuclear iraniano já nem sequer se fala dele e o Estreito de Ormuz até ver continua bloqueado e o que existe é uma negociação entre Omã e o Irão que vai beneficiar, em última instância, muito mais os aliados do Irão do que os dos Estados Unidos. E por isso Donald Trump agora também tem que fazer aquilo que já devia ter feito desde o início. Partindo do princípio, claro, que foi um erro esta intervenção e acho que os contribuintes norte-americanos começam a senti-lo na pele também. Mas a verdade é que o Donald Trump agora tenta comprar tempo, porque é a única solução possível. Claro que esta viagem de Ratcliffe a Moscovo também poderá ter passado por uma negociação relativa às questões do Irão, como eu tinha explicado, mas o objetivo de Donald Trump ao dizer que não existe neste momento um calendário definido para a intervenção, o que está a dizer no fundo é que não existe uma estratégia definida para o Irão, porque a verdade é que Donald Trump, ao impor as sanções económicas e as sanções económicas que foram dadas como o chamado Dia D, portanto seriam sanções económicas que acabariam com o regime iraniano, essas sanções económicas não visam, por exemplo, os Teapots. Os Teapots são refinarias privadas chinesas e que muita da importação de óleo iraniano para a China vai precisamente alimentar esses Teapots. Nenhuma dessas entidades está referida nestas sanções secundárias. Por isso, logo aí há um grande fluxo de capital a entrar no Irão de forma indireta. Sabemos que há frotas fantasmas a operar também junto das estruturas portuárias da guarda revolucionária e do Irão, que são difíceis de controlar pelo sistema financeiro, difíceis de controlar pelo sistema administrativo e burocrático da finança global, e são também por aí difíceis de sancionar. Por isso Donald Trump sabe também perfeitamente que estas sanções económicas são residuais, nunca serão substanciais naquilo que é o todo da economia iraniana. E por isso enquanto não decide sobre aquilo que será o próximo passo dos Estados Unidos neste conflito, e um próximo passo que será sempre no caminho ou na tentativa de terminar o mais depressa possível com este conflito, porque não só vai magoar as intenções eleitorais do Donald Trump para as intercalares ou do Partido Republicano, como também, em simultâneo, começa-se a entrar aqui numa guerra tarifária que já foi danosa para os interesses do Donald Trump no passado, que é uma guerra tarifária entre os Estados Unidos e a China, e que penaliza muito também alguns estados norte-americanos que estão muito dependentes das importações de produtos provenientes da China, e estamos a falar de importações muitas vezes alimentícias, estamos a falar de importações que são necessárias à vida moderna, como são, por exemplo, as terras raras. E por isso, por termos eleições em breve, por termos uma guerra tarifária, parece que novamente aqui a ser digerida ou a formar-se entre Estados Unidos e China, o objetivo de Donald Trump será sempre sair o mais depressa possível. Mas perante o falhanço das soluções diplomáticas organizadas até agora, perante o falhanço das soluções militares organizadas até agora, resta agora esta pequena solução económica, que também não parece que seja a solução para o conflito, e por isso Donald Trump, sabendo que isto está para durar, diz que não há calendário, que é no fundo assumir que também não há estratégia neste momento para terminar o conflito. E o mais triste de tudo isto é que já não se fala sequer dos objetivos iniciais, que era fazer cair o regime, e para além de fazer cair o regime, acabar com o programa nuclear, que era talvez a parte mais importante, porque é esse que coloca ali uma crise existencial a vários dos seus vizinhos, e se já colocava uma crise existencial ou uma questão existencial a alguns dos seus vizinhos, neste caso Israel, no pré-conflito, no pós-conflito irá colocar um desafio existencial à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos, a todos os países que têm colocado algum tipo de embargo ou obstáculo na região ao Irão.

Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigada pela sua análise, Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.

Obrigado, boa noite.