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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira, com análise de Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Bom dia, Miguel, bem-vindo.

Olá, bom dia, Maria João. Como é que está? Tudo bem?

Tudo bem, obrigada. Ontem já aqui falei da Cimeira da China, mas Miguel, como é que vês o convite de Putin a Kim Jong-un para visitar a Rússia e depois também a espécie de provocação quando disse: "Deixem Zelensky vir a Moscovo". Putin que mais do que nunca sentiu-se poderoso nestes últimos dias ao lado dos líderes da China, Coreia do Norte e até do Irão.

O Putin já tinha recebido o tapete vermelho nos Estados Unidos quando Donald Trump o recebeu e o pôs no palco novamente das superpotências, dos países que importam e sentiu-se totalmente empoderado agora na China, da forma como foi recebido, como líder mundial e como líder de um país que neste momento é o grande parceiro da China. E os dois formam, juntamente com a Coreia do Norte, quase um triângulo amoroso e viu-se a entrada dos três de uma forma triunfante na Praça Tiananmen. O convite é feito e até porque se formos julgar por aquilo que foram as frases do líder norte-coreano, em que chamou irmão a Putin e que estaria sempre do lado da Rússia, portanto, existe ali uma relação importante, até porque tivemos também tropas norte-coreanas a combater na guerra da Ucrânia. Portanto, existe ali uma relação não só militar e estratégica, mas existe uma relação de alguma cumplicidade entre os dois líderes. E portanto convidá-lo a ir a Moscovo é também fazer aquilo que durante muitos anos aconteceu à Coreia do Norte, que era estar completamente isolada no palco mundial. Cabe lembrar que até há pouco mais de dois anos, a própria China aplicava sanções económicas, de alguma forma, indo juntamente com a comunidade internacional e portanto havia sanções económicas que eram aplicadas à própria Coreia do Norte, que estava isoladíssima. O que nós temos vindo a ver nos últimos tempos é a própria Coreia do Norte a deixar de estar isolada e a passar a ser um país que tem importância na geopolítica internacional. Convidar Zelensky para ir a Moscovo é quase como convidar, peço desculpa o exemplo, mas é quase como convidar o coelhinho para ir à toca do lobo e, portanto, não faz absolutamente nenhum sentido. Zelensky sabe que não pode ir a Moscovo. E Putin sabe que Zelensky não pode ir a Moscovo. Portanto, os dois sabem que não podem ir, até porque ir a Moscovo poderia até ser uma situação complicada. Primeiro, fragiliza o próprio Zelensky, que o obriga a ir falar na casa do invasor. E depois nós não sabemos, nós poderíamos ter a possibilidade de Zelensky, por exemplo, ser preso ou ser mantido na própria Rússia. Não faz sentido. Agora, Putin continua a fazer aquilo que sempre fez. Tem um objetivo, segue-o, segue a sua estratégia e neste momento continua a fazer aquele papel de tentar mostrar a Donald Trump, porque isto é uma corrida de dois lados, que é para ver quem é que convence Donald Trump de que está a fazer aquilo que Donald Trump quer, que é efetivamente tentar chegar a um consenso que pudesse levar à paz. Agora, são convites que não têm sentido absolutamente nenhum, esse convite a Zelensky.

É uma provocação mais do que um convite.

Exato, é uma provocação.

Olhemos agora para Trump, que acha que alguns países europeus estão a alimentar expectativas irracionais em Zelensky e que isso impede a paz na Ucrânia. O presidente norte-americano, Miguel, que ontem ficou muito irritado quando foi confrontado numa conferência de imprensa pelo post que fez a enviar um forte abraço a Xi Jinping e Putin, a quem muito ameaça, mas, na verdade, ainda não impôs sanções nenhumas ou pelo menos significativas.

Donald Trump balança de um lado para o outro, parece o pêndulo de um relógio que vai andando de um lado para o outro. Umas vezes anda à esquerda, umas vezes está à direita, portanto, anda de um lado para o outro. Da mesma forma que quando recebeu os líderes europeus, disse que estava totalmente de acordo com aquilo que os líderes europeus defendiam e que de alguma forma responsabilizava os líderes europeus por continuar o apoio à Ucrânia. Agora vem dizer que há líderes europeus que ficam com grande expectativa. A expectativa dos líderes europeus, curiosamente, alguns se reúnem hoje, é efetivamente que os Estados Unidos não abandonem esta ideia peregrina de abandonar completamente à sua sorte a Ucrânia e de alguma forma insistir que tem que ser a Europa a garantir, digamos assim, paz ou poderás, mas garantir as garantias de segurança, porque veja, é o seguinte: a NATO no seu todo, mesmo até aquilo que é a proteção da Ucrânia, não funciona muito sem os Estados Unidos, porque é assim, material militar, americano; inteligência, americana; logística, americana; o comando da NATO é americano; a capacidade de organização e de alguma forma o financiamento é americano. Portanto, tudo é americano. E a Europa também neste momento não tem essa capacidade. Logo, o que é que acontece? A Europa tenta e tem vindo a tentar, juntamente com Zelensky, convencer Donald Trump a não se afastar totalmente daquilo que ele sempre diz: "Esta guerra não é minha É de Biden e está sempre à procura de uma desculpa para pôr o pé fora e dizer: "Bom, eu já fiz aquilo que podia, agora vocês resolvam". Agora, há expectativas que a Europa realmente tem, de alguma forma, em alguns momentos, revelado que depois não são expectativas que realmente são possíveis. Até porque tem o seguinte, Maria João, e isto é algo que é importante dizer, que é o seguinte: nós estamos a discutir as medidas de segurança, mas para quê? É porque nós não temos um cessar-fogo e nós também não temos uma perspectiva de chegar a um acordo de paz. Portanto, nós, neste momento, não temos nada em cima da mesa e andamos a falar de algo que depois, na realidade, não é palpável, porque se estivéssemos a conduzir isto para chegar a um momento de cessar-fogo e delinear as regras desse cessar-fogo, fazia sentido. Se tivéssemos, neste momento, os dois lados a discutir um processo de paz e estivéssemos já com uma ideia do que é que as duas partes já aceitam para chegar e assinar o acordo de paz, fazia todo sentido. Neste momento, nós não temos nem uma coisa nem outra. Nós tivemos uma reunião com Donald Trump, com Putin, que foi um fé-de-iver, e depois tivemos uma reunião em Washington, que foi outro fé-de-iver. Mas dessas duas reuniões nada saiu. Nada saiu. Portanto, andamos aqui a discutir algo que a Europa anda também a tentar ganhar tempo e anda a tentar encontrar aqui algo a que se possa agarrar juntamente com Zelensky, para de alguma forma mostrar a Moscovo que tem muita força e que quer ter uma capacidade de intervenção que a Europa ainda não tem sem os Estados Unidos. Em relação àquilo que ontem lhe perguntaram a Trump e ele ficou muito chateado, é que Trump parecia aquela amiga que tinha a expectativa de ir à festa e que não foi convidada pra festa. E, portanto, por isso é que ele, ao princípio, faz aquele Twitter, depois ao final diz: "Mas cuidado, não vão por aí falar mal de mim". Lá está, é tipo aquela mensagem que a amiga manda a dizer: "Eu sei que estás aí com as outras, mas não fiques a falar mal de mim". Portanto, pareceu muito mais um tweet de alguém que ficou aborrecido por não ser convidado pra festa do que realmente um tweet para tentar marcar alguma posição política, até porque tem uma coisa: Donald Trump já se começa a perceber que começa a ficar isolado porque se auto-exilou. Os Estados Unidos auto-exilaram-se da Europa, foram-se auto-exilando do mundo e a China foi, nos últimos 20 anos, entrando aos poucos no espaço deixado vago pelos Estados Unidos. E tem uma frase super importante no discurso de Xi Jinping.

E para concluir, Miguel, para ainda irmos ao Medio Oriente.

Que são duas, que é a paz e a coexistência pacífica entre as duas potências. E, portanto, houve aí uma mensagem muito directa a Donald Trump.

Sem dúvida. Sobre o Medio Oriente, Israel rejeitou a proposta do Hamas para um cessar-fogo e exige o desarmamento do grupo. Diz que o Hamas só tem duas opções: aceitar as condições de Israel ou enfrentar uma ofensiva devastadora. Já Trump exige a libertação imediata dos 20 reféns. Miguel, não saímos disto e no próximo mês vamos com dois anos de conflito.

Não saímos disto porque Israel não quer. Porque Israel disse-nos em novembro passado que o Hamas já não era um perigo porque o Hamas tinha sido dizimado. E, portanto, nessa altura, Israel dizia que efetivamente poderia existir meia dúzia de membros do Hamas espalhados na população, mas que o Hamas já não era um problema. Depois tem outra coisa, neste momento já não existe qualquer objectivo militar na Faixa de Gaza. A destruição é total e é de uma proporção tão grande que não existe um objectivo militar dentro da Faixa de Gaza. E Israel nunca aceitou nenhuma proposta de cessar-fogo que tenha sido aceite pelo chamado Hamas político, que é quem está em Doha. Por mais que quer até Egito e o Qatar, que são os outros membros da mesa de negociações, tenham sugerido, Israel demora sempre muito tempo e depois à última da hora diz que não aceita. Neste entretanto, continua a sua ofensiva e continua o seu objectivo militar, que é o que interessa. É entrar na Faixa de Gaza, dividir a Faixa de Gaza com a Cisjordânia, esvaziar qualquer capacidade à Autoridade Palestiniana, para que quando chegarmos a setembro na assembleia, ou já estamos em setembro, mas quando chegarmos à Assembleia das Nações Unidas, dizer que efetivamente: "Mas Palestina? Mas qual Palestina? Isto aqui agora é um território administrado militarmente por Israel. A Autoridade Palestiniana não tem qualquer capacidade. Mahmoud Abbas tem 90 e poucos anos e não tem ninguém que se conheça que tenha capacidade de liderança. A Cisjordânia possivelmente será outro espaço que vai ser também invadido por parte de Israel e o objectivo de Israel não é efetivamente chegar a um acordo de paz que permita que exista do outro lado uma capacidade de formar a tal ideia dos dois Estados. Aliás, Netanyahu faz toda a sua carreira política a combater completamente e a arrasar completamente aquilo que foram os acordos de Oslo de 94 entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, que foi o momento histórico em que os dois líderes reconheceram a existência do outro, ou seja, quando Israel reconhece o Estado da Palestina e quando a Palestina reconhece o Estado de Israel. Portanto, tudo isto foi para destruir, para deitar abaixo, e o propósito deste governo em Israel não vai parar. Portanto, por mais que a comunidade internacional insista, que é na possibilidade de um cessar-fogo, por mais que o Hamas, que está em Doha, tente encontrar uma solução ou tente aceitar algum passo ou esforço, o Hamas que está na Faixa de Gaza, que nós sabemos que está, neste momento, desvinculado do próprio Hamas que está em Doha, não vai entregar, infelizmente, aquilo que ainda são os reféns. Existe até o grande medo e o receio das famílias dos reféns é que eles possam ser utilizados como escudo humano nesta contínua invasão. E, portanto, o Estado de Israel até já considerou, principalmente a ala mais à direita do próprio governo, já considerou que neste momento a questão dos refugiados é secundária e a questão importante é invadir para poder ficar naquelas terras. E veja-se que uma das coisas que foi aprovada no próprio Parlamento é a autorização do aumento dos colonatos por parte de Israel. Portanto, não existe vontade de aceitar um acordo, o que existe é de Israel querer impor a paz através da força militar.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise. Bom final de semana.

Eu que agradeço, Maria João. Obrigado, igualmente.

Obrigada, bom dia.