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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Professora Liliana Reis e professor António José Telo, bem-vindos. Liliana Reis, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky admite que a guerra está numa fase crítica, está nesta altura numa conferência de imprensa nacional, à semelhança do que fez na semana passada Vladimir Putin, sendo que o presidente russo diz-se hoje pronto para conversar sobre o futuro da Ucrânia com Kiev, com os Estados Unidos e com a Europa. Mas dificilmente haverá aqui um ponto de encontro, certo?

Com muita dificuldade. Boa tarde. Aproveito também para cumprimentar o professor José Telo. A questão é que nesta fase em que nos encontramos, para a Rússia começa a ser favorável as negociações. Repare que começa a perceber-se que do lado ocidental começam a surgir algumas dificuldades, nomeadamente naquilo que é o fornecimento, ou naquilo que se prevê que possa ser o fornecimento de mais capacidades militares à Ucrânia. Observámos isso na semana passada pelo bloqueio que surgiu por parte do Congresso, por um lado, mas por outro, aquilo que começa também a perceber-se é que a União Europeia, nomeadamente através da aprovação que se conseguiu do 12º pacote de sanções, surgem outros tipos de Estados com bloqueios que não apenas a Hungria. Aliás, tivemos o adiamento sucessivo deste 12º pacote de sanções, dos diamantes, mas não só, pela Áustria. Ora, neste momento, o pior que poderá acontecer ao presidente Zelensky é que, por um lado, os Estados Unidos bloqueiem a aprovação de mais ajuda militar à Ucrânia e, por outro lado, que a União Europeia, aliás, mesmo ao nível daquilo que também foi debatido no último Conselho Europeu, que previu efetivamente 50 mil milhões de euros e também não conseguiu aprovação para ajudar a reconstrução, quer do ponto de vista das infraestruturas, mas também a reconstrução económica da Ucrânia, fique bloqueado. Agora, aquilo que me questionou e a acontecer, empurrará, naturalmente, Zelensky para a mesa das negociações e isso beneficiará em primeiro lugar, e provavelmente em único lugar, Vladimir Putin. Vladimir Putin, neste momento, sente que provavelmente a tentar pressionar para que os aliados, quer europeus quer norte-americanos, acomodem as suas pretensões, sairá beneficiado. Não me parece é que este seja o momento ainda para que tal aconteça, até porque, e isto talvez seja o dado mais importante, implicará a amputação da Ucrânia e nomeadamente os territórios pelos quais tem vindo a lutar ao longo dos últimos meses.

Professor António José Telo, o Ministério da Defesa britânico revela que a Rússia terá disparado um míssil balístico AS-24 Killjoy contra a Ucrânia. É descrito como uma superarma. O que é que já se sabe sobre isto e quais os efeitos?

Boa tarde. Saúdo a professora Liliana. Permita-me um comentário sobre a situação geral que me parece importante. Quando ouvi o anúncio da conferência de imprensa apresentada como muito importante do presidente Zelensky, confesso que eu próprio tive dúvidas o que irá dizer. Será que irá abrir a porta a uma negociação? Será que irá contrariar as suas posições anteriores de nunca jamais negociar com o governo do presidente Putin? E no convite à conferência de imprensa, pelo menos até agora, ela ainda está a decorrer, isso não aconteceu. Ou seja, nós volta e meia tendemos a esquecer o fundamental. O fundamental é que há dois anos, um poder pequeno, muito mais pequeno que a Rússia, não só está a aguentar a invasão e está a aguentar a pressão russa, como a Rússia não pode reclamar nenhuma vitória importante no terreno desde os primeiros três meses, dos três meses iniciais da guerra que já passaram há muito tempo. E mais do que isso, embora os planos e as ambições ucranianas tenham no essencial falhado em termos da sua ofensiva do verão passado, a verdade é que a Ucrânia continua a manter o território que reconquistou depois dos avanços iniciais russos. Ou seja, há aqui algo que é absolutamente extraordinário. Devo confessar que desde o primeiro momento eu estou francamente admirado pela capacidade ucraniana de resistir a esta pressão perfeitamente anormal de uma força muito superior e de aguentar coisas que se pensavam impossíveis na Europa no século XXI e que estão a acontecer na Ucrânia. Isto para mim é o fundamental. Agora, há um problema que se tem revelado com especial acuidade nos últimos tempos, que não é um problema da Ucrânia, que é um problema da doença de fundo do Ocidente. A doença que impede de ver por cima das divisões internas, que são cada vez maiores, que impede de ver, ao fim e ao cabo, o seu horizonte estratégico Que impede, por exemplo, de muitos centros europeus entenderem que é de um interesse vital para a Europa que a Rússia não obtenha uma vitória clara na Ucrânia, porque isso irá arruinar a Europa no mundo e durante muitas décadas, se não para sempre. Mais do que isso, se a Rússia obtiver uma vitória importante na Ucrânia, não só o peso da Europa no mundo decresce em grande velocidade e cai na vertical, mas nós vamos ter a curto prazo uma Terceira Guerra Mundial, porque o caminho a seguir, o passo seguinte, é caminharmos para uma guerra global, que aliás, diga-se, neste momento, mesmo sem haver uma vitória da Rússia na Ucrânia, estão a ser dados passos nesse sentido, nomeadamente com o alargamento do conflito ao Médio Oriente. Em termos da questão que coloca, muito diretamente. Independentemente dos efeitos desse míssil em particular, eu recordo que a Rússia por várias vezes já anunciou mísseis milagrosos que eram capazes de alterar por completo a situação na Ucrânia e que inclusive mísseis de hipervelocidade, que era dito que era absolutamente impossíveis de ser intercetados. E foram. E não só foram, como a maior parte foram intercetados. Ou seja, há uma resiliência ucraniana patente desde o primeiro momento e uma capacidade de absorver o que é uma tecnologia superior, claramente, e o que são avanços técnicos que nem sequer os principais países do Ocidente neste momento têm, nomeadamente em termos de mísseis de hipervelocidade, e de, apesar disso, sobreviver e aguentar. Portanto, isto para mim é que é o fundamental. E quando nós perdemos isto de vista, perdemos o essencial de vista. O problema é a doença do Ocidente e as suas divisões. E se quiser, depois falamos um pouco mais sobre isso a seguir.

Volto a si, professora Liliana Reis. Moscovo garante que vai tomar as medidas necessárias em relação à Finlândia, por causa da presença militar junto à fronteira. Ouvimos nos últimos dias Putin dizer que não tem interesse em atacar países da NATO, mas que a Finlândia iria ter problemas, e antes de invadir a Ucrânia, também dizia que não ia invadir. Que medidas necessárias é que podem ser essas? Temos aqui um risco mais palpável de que a Finlândia possa ser um próximo alvo.

Repare que Vladimir Putin, nesse mesmo discurso, acusa, de certa forma, os Estados Unidos de aproveitar-se de uma narrativa, nomeadamente de possibilidade de ataque, que é completamente descabida para Vladimir Putin, mas simultaneamente ameaça a Finlândia e diz, no mesmo discurso, que irá colocar forças próximo da fronteira da Finlândia. Ou seja, apresenta efetivamente um discurso completamente contraditório relativamente àquilo que possa ser o entendimento por este lado. Naturalmente que aquilo que neste momento os estados limítrofes da Rússia começam a sentir com muito mais assertividade é a perceção da ameaça. Aliás, nós tivemos desde o início, e já tivemos a oportunidade até de falar aqui, que a perceção da ameaça por parte dos países do Báltico, pela Estónia, pela Letónia, pela Lituânia e nomeadamente pela Finlândia, aliás, que a precipitou para a Aliança Atlântica, o pedido de adesão da Finlândia e da Suécia, este último ainda não se concretizou, da Finlândia naturalmente que sim, aconteceu exatamente porque este estado começou a sentir que poderia ser um alvo próximo por parte do Kremlin. Ora, agora, decorrente desse discurso, naturalmente que Vladimir Putin diz que é completamente descabido atacar um estado membro da Aliança Atlântica. Mas, e a propósito da Finlândia, e nós estamos recordados, o professor Telmo também está recordado, que Vladimir Putin alertou que se porventura a Suécia e a Finlândia viessem a fazer parte da Aliança Atlântica, seriam um alvo legítimo. E por isso mesmo, neste momento, aquilo que quer finlandeses, quer a própria Aliança Atlântica temem, é efetivamente que se precipite, por parte de Vladimir Putin, um novo ataque. Neste momento, não à Ucrânia, mas aquilo que poderia acontecer era efetivamente que Vladimir Putin atacasse um membro da Aliança Atlântica. Agora repare, e recuperando as palavras do professor, porque me parecem muito oportunas, é que na verdade, também aquilo que nós não conseguimos perceber é que, na verdade, se porventura Vladimir Putin conseguir efetivamente levar os estados do Ocidente, não apenas da Aliança Atlântica, mas também da União Europeia, a pensar que talvez este seja o momento de se negociar a paz na Ucrânia, sem qualquer vitória contundente, e recuperando as palavras, sem qualquer vitória contundente da Rússia nos últimos tempos. Aliás, não se pode dizer que pelas vitórias no teatro de operações, levaram efetivamente à mesa das negociações, porque isso não aconteceu, nem está a acontecer. O que está a acontecer é uma fragilidade e uma debilidade do lado ucraniano. Mas se porventura houver essa perceção, quer por parte da Aliança Atlântica, quer por parte da União Europeia, o caminho que se abrirá, e eu não quero ser pessimista no mesmo patamar que o professor, mas aquilo que se abrirá, não acredito que seja de imediato uma escalada para uma guerra mundial, mas é efetivamente não apenas um sentimento de insegurança, mas uma possibilidade real de insegurança, quer para europeus mais próximos, ou seja, não apenas para os estados do Báltico e da Finlândia, mas para todos os europeus. E é este ambiente de insegurança, que neste momento nós temos em cima da mesa, e mais, é o ambiente de segurança que está comprometido em caso de uma vitória clara da Rússia na Ucrânia.

A ameaça paira no ar. O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.