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Começamos este Gabinete de Guerra pela carta aberta assinada por Volodymyr Zelensky, em que o presidente ucraniano desafia Vladimir Putin para um encontro frente a frente, olho no olho, tendo em vista um acordo que ponha fim à guerra iniciada em 2022. Putin ainda não respondeu de forma direta ao desafio, mas ontem, questionado sobre se aceita encontrar-se com Zelensky, o presidente russo não afastou essa possibilidade. Bem-vindo, Nuno Gouveia, é especialista em relações internacionais, acompanha de forma particularmente próxima a política norte-americana. Nuno, estão reunidas por fim as condições para que a diplomacia substitua o som das armas?

Olá, muito boa tarde. Muito obrigado pelo convite. Todos nós gostaríamos de acreditar que estão reunidas as condições para este conflito terminar, mas honestamente, eu não acredito que já estejamos nesse ponto. Ontem, de fato, Vladimir Putin anunciou que estaria disposto a uma solução pacífica, mas também no mesmo discurso, logo reafirmou as condições necessárias para essa paz e as condições que foram referidas foram as mesmas de sempre. Portanto, Vladimir Putin não abdica que a Ucrânia faça o plebiscito de entrar na NATO e não abdica que a Ucrânia entregue territórios que a Rússia ainda não conseguiu conquistar do ponto de vista militar. E parece-me que essas exigências, a acreditar nas palavras de Vladimir Putin, não mudaram, não nos garantem as condições para que seja possível já alcançar um acordo de paz entre as duas partes. E também não me parece crível que Vladimir Putin vá aceitar este repto do presidente ucraniano para reunir pessoalmente, até porque aparentemente as condições da Rússia não mudaram.

E sob o ponto de vista militar, têm surgido muitas análises que apontam para o facto de a Rússia estar em perda, muitas baixas, poucos avanços na frente militar. Estas condições e este contexto não favorecem um eventual desejo de Vladimir Putin de partir para a diplomacia?

A Rússia está numa situação muito difícil. De fato, a situação militar nos últimos meses não é propriamente positiva para a Rússia. O que nós temos visto é até o incremento dos ataques dentro do território russo por parte da Ucrânia. Temos visto também, pelo menos os números que temos tido acesso, que os números de baixas russas continuam elevadíssimos e que também poderemos imaginar como é que está a situação interna na Rússia, visto que esta guerra dura há quatro anos, deve haver um cansaço enorme na população russa, a crise económica é bastante, portanto, haverá um cansaço enorme. E após mais de quatro anos, a situação continua num impasse. Aliás, os relatos que temos dos últimos meses é que a Ucrânia até terá conquistado mais território do que aquele que terá perdido nestes últimos meses. Portanto, a situação não é brilhante. O que nós vimos e assistimos nas últimas semanas foi, de fato, um aumento dos ataques por mísseis e por drones por parte da Rússia em relação à Ucrânia, mas a Ucrânia também tem conseguido responder, até em termos simbólicos, como vimos esta terça-feira no ataque a São Petersburgo, num dia onde se ia iniciar uma cimeira importante para a Rússia. E temos também percebido que a componente tecnológica por parte da Ucrânia está cada vez mais forte e isso tem colocado imensa pressão sobre o regime russo e sobre esta intervenção russa. Agora, Vladimir Putin também está numa situação complicada, pois ele também não terá certamente a facilidade de terminar esta guerra, pois se ela terminasse neste momento, seria uma grande derrota para a Rússia e apesar de Vladimir Putin ser um ditador e a Rússia ser uma ditadura, isso não deixaria de trazer muitos problemas internos.

Voltemos agora o nosso olhar para o Médio Oriente. Foi alcançado há poucos dias um acordo de cessar-fogo entre o Israel e o Líbano. A verdade é que nas últimas horas sobejam as notícias de ataques israelitas a território libanês. Cessar-fogo apenas no papel?

A verdade é que houve o acordo, foi anunciado o acordo, mas pouco tempo depois, o Hezbollah disse que não aceitava esse acordo. Portanto, é difícil para Israel cumprir um acordo de paz quando continuam a cair mísseis da fronteira norte. Estando nós em ano eleitoral e também o governo israelita muito pressionado por esta população que vive na zona Norte e que continua a ser atacada pelo Hezbollah, no fundo, a não deixar de corresponder. O que me parece é que é um problema grave no Líbano. O Líbano continua a não ter autoridade sobre o seu território. O governo libanês, que está a negociar com Israel, não controla o seu território e mais do que isso, não controla o Hezbollah. Portanto, enquanto o Hezbollah tiver condições operacionais para atacar Israel e continuar a ter esta ameaça sobre Israel, é difícil para o governo israelita retirar e não responder a estes ataques.

Ainda no Médio Oriente, dos últimos dias, a informação revelada pelo ministro das Finanças de Israel de que foi dada autorização para a construção de mais 2 mil casas nos colonatos israelitas no território da Cisjordânia, território palestiniano. Esta política da construção de colonatos é um entrave ao desejo de desarmamento do Hamas?

Sim, e é preciso dizer, é um entrave também a uma construção definitiva de uma solução de paz em Israel, porque ao continuar esta expansão nos territórios da Cisjordânia, Israel, em primeiro lugar, não está a cumprir com aquilo que é determinado pela comunidade internacional, até pelos Estados Unidos, até Donald Trump disse que não era aceitável a anexação da Cisjordânia e esta expansão. Portanto, esta pressão que existe no atual governo israelita para continuar a construir na Cisjordânia é de fato um entrave à paz na região, pois não é aceitável que Israel continue a construir em territórios que estão a ser ocupados, que são territórios da autoridade palestiniana, e que numa solução futura, acredita a comunidade internacional, e acreditamos todos, que será necessário haver dois Estados e, portanto, não é aceitável que Israel continue com este crescimento. Sabemos que são questões internas, sabemos que são ministros do governo de partidos mais radicais que continuam a fazer esta pressão. O primeiro-ministro israelita também propriamente não é contra esta expansão, mas de fato é um problema que esperamos num governo futuro israelita que venha pelo menos colocar-se um termo nesta expansão.

E a comunidade internacional, como tem reagido? Tem tido uma voz ativa, particularmente os Estados Unidos, parceiro preferencial de Israel?

Sim, todos os presidentes americanos até o momento sempre foram contra esta expansão na Cisjordânia e Donald Trump, que tem sido, se calhar, o presidente mais amigo de Israel e mais próximo do primeiro-ministro israelita, também tem criticado esta expansão. Agora, percebemos que não tem havido uma forte pressão sobre o governo israelita sobre esta matéria, portanto, o governo israelita sente-se confortável em continuar esta expansão. O que me parece é que esta aprovação que foi determinada esta semana no Parlamento israelita, nós vamos ter eleições em outubro, portanto, iremos logo perceber se este tipo de expansão irá continuar ou não.

Nuno Gouveia, obrigado pela presença neste Gabinete de Guerra. À sexta-feira, sempre em formato mais curto, o Nuno Gouveia, especialista em relações internacionais, acompanha de forma particularmente próxima a política norte-americana. Boa tarde, Nuno. Bom fim de semana.