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Abrimos agora o novo Gabinete de Guerra para falarmos sobre os avanços militares na Ucrânia, no dia em que se assinalam oito meses de guerra. Eu sou a Maria João Simões e esta manhã juntam-se a mim e ao Júlio Magalhães, o major-general João Vieira Borges, presidente da Comissão Portuguesa de História Militar, e Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE e da Academia Militar, que faz também parte dos programas "Café Europa" e "Cinco Continentes" da Rádio Observador. Muito bom dia aos dois e obrigada por se juntarem a nós.

Muito bom dia.

Bom dia. Zelensky volta a acusar a Rússia de preparar ataques para depois atirar as culpas para Kiev. São declarações que surgem depois do ministro da Defesa russo admitir que a Ucrânia pode estar a preparar-se para usar uma bomba suja, uma bomba que inclui elementos radioativos. Major-general João Vieira Borges, começo por si. De que bombas sujas estamos a falar? E esta não era uma estratégia já gasta pelos russos, mas para a qual não há retórica possível?

Muito bom dia. É uma estratégia gasta, mas é uma estratégia que funciona, como temos visto, que é secundada por contrainformação e desinformação. A bomba suja é uma arma radiológica que combina material radioativo com explosivos convencionais, ou seja, é diferente da bomba nuclear de fissão ou de fusão nuclear, porque não tem a onda de choque, não tem a onda de calor, mas tem material radioativo que funciona naquela área e impede a populização da área e que se ocupada por população, como foi o caso do bombardeamento de Osirak em 81 na central iraquiana, depois tem efeitos respiratórios irreversíveis, problemas cancerígenos na população. De qualquer maneira, aquilo que está aqui em causa foram vários telefonemas feitos pelo ministro da Defesa russo, indicando que a Ucrânia estava a preparar a utilização destas bombas. Imediatamente, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano desmentiu, diz que não tem, não quer ter e respeita os tratados e que não tem interesse absolutamente nenhum, obviamente, em utilizar isso no seu próprio território. Isso é lógico. E agora houve uma resposta esta manhã, uma declaração conjunta das potências nucleares. É preciso terem atenção que os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, curiosamente, são as três potências nucleares que mostram o apoio continuado à Ucrânia.

E rejeitam a acusação russa, não é?

E rejeitam. Aliás, a terminologia, eu estive a traduzir, são falsas alegações do ministro da Defesa russo sobre a bomba suja, pretexto para a escalada. Efetivamente, assim é. É o pretexto para a escalada, mas por outro lado, não o escreveram lá, é também o pretexto para justificação da utilização da sua parte, que é a acusação da Ucrânia relativamente à Rússia. Isto cria aqui uma situação que já era crítica quando falámos a semana passada relativamente às consequências do rebentamento da central hidroelétrica. Agora temos uma outra dimensão. Esta é uma dimensão, obviamente, com consequências muito mais complicadas para a humanidade no seu conjunto. Isto já a par das questões de Zaporizhzhia, que também têm sido discutidas e que hoje também já houve um discurso do vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, que concordou com a zona de proteção em redor da central, desde que a central, obviamente, seja defendida pela Rússia e ocupada pela Rússia. Portanto, há aqui várias questões neste âmbito que estão a desviar a atenção ou a tentar desviar a atenção dos insucessos táticos e operacionais, a par daquilo que também para desviar a atenção é o continuar dos ataques sobre instalações energéticas ucranianas com os tais drones iranianos.

Bruno Cardoso Reis, tens a mesma leitura? Gostávamos de ouvir também tua opinião sobre esta questão da bomba suja e o que pode significar nesta fase da guerra.

Sim, de facto, nós não temos precedentes, ou seja, nunca foi usada, mas há muito que se fala. Aqui é importante, de facto, sublinhar este aspecto, que é em termos da dimensão da explosão ou da natureza mesmo da explosão. De facto, numa bomba suja é a de explosivos convencionais, portanto, não estamos a falar de nenhum tipo de bomba nuclear. Aquilo que acontece, e falou-se disso inclusive e fala-se disso a respeito desta ideia de um risco, uma espécie de terrorismo com uma dimensão nuclear, seria pegar em explosivos convencionais, seja com a potência que tiverem, e depois juntar a isso material radioativo, material radiológico, que significaria que a par do efeito convencional da explosão, haveria este efeito de difusão de material radioativo e, portanto, também um efeito de haver ali um nível de radiação perigoso. Portanto, como eu digo, não houve até agora precedentes para isso. Acho que isto é uma espécie de correção da campanha de desinformação russa, que houve uma fase em que inclusive dizia que a Ucrânia estava a preparar-se para desenvolver armas nucleares com a ajuda de países ocidentais, que iriam utilizar armas nucleares, o que obviamente era completamente falso e só ajudava a chamar a atenção para o facto de que a Ucrânia já foi a terceira maior potência nuclear do mundo, herdou um terço das armas nucleares da União Soviética e em 94 assinou um acordo em Budapeste com a Rússia e com os Estados Unidos, em que quer a Rússia quer os Estados Unidos garantiram à Ucrânia, em troca da Ucrânia entregar todas essas armas à Rússia e de muitas delas serem Desativadas em troca de uma garantia da sua segurança, da sua integridade territorial, das suas fronteiras tal como elas estavam em 91 e em 94, incluindo a Crimeia, incluindo Donbass. Mas acho que é, no fundo, parte destas campanhas de desinformação. Aqui o que é dramático é que realmente estamos a falar de uma potência nuclear, que obviamente tem material radiológico e que mais do que uma vez, de facto, acusou o outro lado, ou tem acusado o outro lado, de ações que ela própria cometeu. Basta pensar em todas aquelas alegações da desinformação russa de que os massacres em Bucha e noutros locais ou seriam simulações ou seriam os próprios ucranianos a fazer contra a sua própria população. Portanto, nunca se pode afastar completamente a possibilidade de isto ser, de facto, uma preparação para a Rússia fazer aquilo que está a acusar outros de fazer. Enfim, tivemos aqui este dado adicional que foi algo que é à partida importante e que deve ser uma forma de evitar uma escalada perigosa, que são este tipo de chamadas, este tipo de diplomacia militar, estas chamadas entre ministros da defesa. Foi utilizada, neste caso para passar uma falsa narrativa, ajudar a criar confusão. Aparentemente, no caso do ministro da defesa norte-americano, este aspecto não foi referido numa primeira chamada, que nós já tínhamos comentado na sexta-feira. Houve agora uma segunda chamada e uma chamada para outros ministros. Aqui um último ângulo que ainda se pode especular é que o facto de terem sido incluídos nesta ronda de chamadas o ministro da Defesa francês, o ministro da Defesa da Turquia, a par do ministro britânico e do norte-americano, pode também ser uma forma de tentar criar alguma divisão ou alguma tensão no seio da NATO. Aparentemente não será assim, ou seja, não há de facto nenhuns sinais de que a coesão da NATO e a determinação de continuar a apoiar a Ucrânia tenha sido abalada por este tipo de estratégias da Rússia.

Major-General João Vieira Borges, Zelensky defende que quando o Kremlin lança este tipo de avisos é porque se está a preparar para um ataque, volta a pedir a intervenção do Ocidente. Também é um argumento permanente de Zelensky, este de pedir ajuda ao Ocidente, acontece todos os dias. Para já, o que pode fazer o Ocidente a mais do que tem feito, que é enviar armamento e dinheiro, e se de facto pode estar mesmo a ser preparado um ataque de larga escala da Rússia.

Pode haver uma outra dimensão. A convocatória de urgência do Conselho de Segurança das Nações Unidas pressiona a comunidade internacional a pressionar mais uma vez a Rússia. Poderá acontecer logo que haja mais indícios na sequência daquilo que se passou agora relativamente a este comunicado ou a esta declaração conjunta das falsas alegações, mas é preciso haver mais indícios, concretamente. E ele usa todos os instrumentos. Nós temos que compreender que todos os dias está a ser alvo de ataques e são centenas de mísseis e de drones, e não falam daquilo que são os sistemas de lança-foguetes múltiplos e a artilharia nos ataques nas várias zonas. Estão a morrer muitos ucranianos. Da mesma maneira, já agora, o relatório desta manhã dizia que nos combates de ontem morreram mais de 500 russos. Há aqui uma pressão muito grande, porque aquilo que vem nas notícias normais é de que morreram 10, três pessoas, cinco civis. Nunca mostram os militares e mais uma vez eu reitero esse aspecto. Morrem 500, 600, 1000 militares por dia. Dos dois lados. E os militares são cidadãos, os militares independentemente de alguns serem mercenários, são cidadãos e a guerra é destruidora nas imagens que vemos, mas é destruidora também, neste caso, uma mortandade tremenda e eles sentem, sobretudo o Zelensky, que tem esses relatórios diários e sabe aquilo que está a passar e pede esse apoio continuamente, porque se não o fizer, nós sabemos como é que funciona a burocracia e como é que funcionou no início da guerra. Efetivamente, se dispusessem mais antiaérea, obviamente que aquele terço de só conseguem destruir cerca de 60%, quer dos mísseis, quer de outros. Obviamente que esse terço que atinge a Ucrânia já destruiu 40% da sua capacidade energética. Se tivesse mais antiaérea, isso não aconteceria. Ele reitera isso sistematicamente, independentemente também do outro lado. Nós hoje tivemos um relatório do ministro da Defesa ucraniano, esta manhã, a dar conta da existência de material russo, designadamente também dos mísseis, e por isso eles estão a usar muitos drones e por isso usam mais artilharia. Os Iskander, os Kalibr, os KH-101 e 555 estão a atingir abaixo do nível das reservas de 50% e por isso começam a utilizar S-300 e S-400, que são mísseis antiaéreos para ataques terrestres com efeitos colaterais enormes. Há dificuldades dos dois lados, obviamente, em termos de armamento, mas estamos a falar da potência que foi invadida ilegalmente, a potência que tem que defender aquilo que é a sua independência, a sua integridade territorial, o seu povo que está a ser claramente destruído com este tipo de ataques. Porque este tipo de ataques sobre estes objetivos não são objetivos militares. Também certamente que eles destroem objetivos militares, mas isto está, como eu dizia na semana passada, na fronteira do crime de guerra, se não estiver exatamente no crime de guerra. A partir daqueles três primeiros dias em que o próprio Putin assumiu que efetivamente era uma vingança da Ponte Kerch e ao assumir, estava ele próprio a assumir o crime de guerra sobre estes objetivos, a partir daí viu que resultava e continua esse tipo de ataques. Estamos a assistir a algo que já não víamos desde a Segunda Guerra Mundial Que pelo menos desta maneira, explicitamente da parte de uma das potências. E a comunidade internacional tem que fazer mais. E por isso Zelensky não faz mais do que proteger o seu povo, do que proteger a independência e integridade do seu país.

Bruno, neste contexto insere-se a ponte de Nova Khakovka, que travou todo o fim de semana e que mantém essas ameaças. Isto é apenas uma guerra de palavras e de tensão entre os dois lados, mas nenhum verdadeiramente interessado em destruir esta barragem ou pode haver mesmo essa intenção?

Voltamos aqui a este ponto, mas há aqui um aspecto muito importante que eu queria sublinhar também no que disse o João Vieira Borges, que é realmente um dos efeitos deste tipo de campanhas de desinformação russas, de lançar estas ameaças que são sempre atribuídas a outro lado, mas que há sempre o receio que correspondam, de facto, a uma ação depois de dissimulação por parte da Rússia, é que também desvia a atenção e leva-nos a estar a comentar isso, em vez de estarmos a destacar este aspecto, que obviamente vocês colocaram e não se está aqui a ignorar, mas acabamos por dedicar uma parte do tempo, pelo menos, a comentar algo que não aconteceu e que não sabemos se vai acontecer, mas que é parte claramente da estratégia de informação ou desinformação russa, em vez de estarmos a falar desta campanha de terror aéreo por parte da Rússia, desta campanha de destruição de infraestruturas críticas que terão utilização militar, mas que são absolutamente indispensáveis para a vida dos civis e que, portanto, à partida, não devem ser alvos no contexto de uma guerra. Estamos a falar de ataques que são feitos sistematicamente em horas de ponta, em horas em que está o máximo de pessoas vulneráveis a estes ataques. Tudo isso mostra que realmente há aqui uma estratégia russa de tentar aterrorizar, quebrar a resistência da população por essa via. Historicamente, nós sabemos que isso tende a não resultar. Temos a experiência da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, do Blitz, ou mesmo daquela estratégia disparada, as chamadas armas de vingança do Hitler, a primeira utilização precisamente de mísseis, os foguetes, o V2 contra Londres em 44. De facto, nada disso levou a Grã-Bretanha a desistir de combater, mas realmente é uma prova terrível e obviamente tem efeitos terríveis sobre a população civil. Esta questão da barragem é mais uma componente dessa campanha e voltamos a ter os mesmos problemas, que é não sabermos se é simplesmente uma campanha de desinformação para tentar criar receio, para tentar condicionar a ação da Ucrânia, nomeadamente esta ofensiva no sul, em direção a Kherson. Não sabemos se é realmente a preparação de uma componente de desinformação de uma operação real em que realmente os russos iriam destruir a barragem. À partida, aquilo que eu sublinharia é que esta barragem também tem uma ponte, como acontece muito com barragens, é dos poucos pontos de atravessamento. Se a Ucrânia quisesse destruir completamente a barragem para destruir completamente esse ponto de atravessamento, o que seria lógico era que já tivesse feito isso quando destruiu outras pontes. E portanto, acho que é evidente que é muito mais lógico que se vier a acontecer, de facto será por iniciativa da Rússia e provavelmente será associada a uma retirada desta zona da margem ocidental do Dniepre e no fundo será uma tentativa depois de dificultar ações da Ucrânia no sentido do atravessamento do rio e, portanto, da continuação da ofensiva noutras regiões. Mas acho que para já eu associaria sobretudo a estas campanhas de desinformação em que a Rússia realmente se tem desmultiplicado ao longo de toda a guerra e nomeadamente agora nestes últimos dias.

24 de fevereiro, 24 de outubro, oito meses de guerra. No início do conflito, o objetivo de Putin era rapidamente conseguir os seus objetivos. Passados oito meses, a estratégia é prolongar a guerra pelo inverno. Major-General João Vieira Borges, duas estratégias bem diferentes, em momentos diferentes, que podem querer dizer que a Rússia não estava de facto devidamente preparada para os obstáculos que iria encontrar.

Seguramente. Infelizmente, não é assumido, como não são assumidas muitas outras posições da Rússia, mas isso é algo que já constatámos. Agora, isto tem consequências naquilo que é o sistema político internacional, no relacionamento entre as grandes potências, naquilo que vem no conceito estratégico americano, que foi editado na semana passada e que pouca gente tem falado, já que andamos aqui a discutir as questões mais conjunturais, mas que obviamente são importantes e que têm a ver exatamente com esta concorrência entre grandes rivais, entre os Estados Unidos, a Rússia e a China. No caso dos Estados Unidos, essa visão é de superação da China e de conter a Rússia. Portanto, o conceito estratégico americano, chama-se conceito estratégico, não é bem como nós a designação, é uma estratégia de segurança nacional da semana passada da administração Biden. No fundo, o essencial para o futuro é superar a China e conter a Rússia, mas também há uma preocupação, independentemente daquilo que se está a passar da parte dos Estados Unidos, com os chamados desafios compartilhados, que têm a ver com as preocupações com as alterações climáticas e com as pandemias. Curiosamente, e já agora, uma questão nova no conceito estratégico, eu e o Bruno Cardoso Reis discutimos essas questões do conceito há muitos anos, é que tem a ver, é uma novidade, é o fortalecimento da democracia nos Estados Unidos, fruto daquela divisão interna que certamente favoreceu, direta ou indiretamente, esta postura da Rússia relativamente a uma geopolítica que estava enraizada, de voltar às fronteiras de 91. Mas isto é uma preocupação dos Estados Unidos, essa mesma estabilidade, porque estando os Estados Unidos forte internamente, só assim haverá um Estados Unidos forte em termos de comunidade internacional, não necessariamente para a hegemonia tradicional ou acusatória da parte da China e da Rússia. Isso dava estabilidade, deu estabilidade ao mundo durante muitos anos e estamos a ver agora que esta concorrência de rivais não é benéfica para a comunidade internacional de modo algum. A Rússia, obviamente que tinha também como pressuposto um conjunto de aliados, designadamente, neste caso, a China e a própria Índia, mas já constatamos facilmente que a China tem uma postura diferente, obviamente de afastamento relativamente a posicionamentos mais claros. É tradicional também e a Índia ainda mais, obviamente, formando-se aqui quase que um grupo de não alinhados, como estamos a constatar ao longo das últimas votações. Portanto, o mundo está a mudar, certamente, fruto dessa guerra, fruto do Indopacífico. É muito importante, porque essa é que é a prioridade dos Estados Unidos. A Europa é a segunda prioridade. Isto é claro aqui também neste conselho. E nós também compreendemos isso, fruto das questões de Taiwan e das Coreias. E, portanto, o mundo está a mudar, nós estamos a vê-lo a mudar, mas de qualquer maneira as grandes potências continuam a ser as mesmas. Temos os Estados Unidos, temos a Rússia e temos a China. E a solução deste conflito passará, sobretudo, pela relação entre os Estados Unidos e a Rússia, e não tanto pelos atores menores, que obviamente são aqueles que são mais visados e mais destruídos, é o caso da Ucrânia, neste caso.

Major-general João Vieira Borges, Bruno Cardoso Reis, muito obrigada por terem estado conosco em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para os dois.

Bom dia.

Bom dia e muito obrigada.

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