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Este é o som do Gabinete de Guerra das manhãs 360º esta quinta-feira com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Comecemos por um ponto de situação no conflito entre Estados Unidos e Irão. Enquanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, diz que está por horas a reabertura do Estreito de Ormuz, Trump trava as expectativas ao dizer que não há pressa para acordos. Bruno, estes sinais contraditórios servem para gerir a ansiedade dos mercados petrolíferos, sem dar a Teerão a sensação de que Washington está descontraída para ceder?

De facto, talvez faça algum sentido do ponto de vista da gestão das expectativas de mercados. Agora, realmente em termos de uma gestão estratégica do conflito, só confirmam que aparentemente os Estados Unidos não têm realmente grande ideia de como resolver o conflito e também que, aparentemente, o Donald Trump não parece perceber, ou faz de conta que não percebe, realmente a gravidade da situação. É verdade que o mercado da energia, o mercado dos hidrocarbonetos, do petróleo, tem conseguido, apesar de tudo, absorver melhor problemas muito sérios, praticamente um corte quase completo da navegação normal no Estreito de Ormuz, mais do que muitos analistas pensavam. Provavelmente isso é uma combinação de fatores que tem a ver com ganhos muito significativos em termos de eficiência energética, de alternativas, o facto, sobretudo no caso da China, haver realmente uma enorme capacidade de gestão de estoques petrolíferos, de alternativas, usar muito mais o carvão quando é necessário. Mas a verdade é que os custos ainda assim têm sido muito grandes, sobretudo em termos de preços. E por muito que haja, de facto, essa capacidade de absorção, que haja países como a Arábia Saudita também que conseguem, pelo menos em grande parte, ter rotas alternativas, utilizar a ligação entre a zona dos campos de petróleo e depois o mar Vermelho, o oleoduto que permite criar essa alternativa. Por muito que isso seja assim, a verdade é que isto é muito negativo para a economia global. É muito negativo também para a economia dos Estados Unidos. E realmente dizer que não há pressa em resolver a situação é algo que não faz realmente nenhum sentido do ponto de vista de um estimamento racional das consequências do conflito.

Trump também diz que acredita que o líder supremo do Irão está vivo, mas lançou dúvidas sobre o estado de saúde e o controle do regime. Esta jogada retórica de Washington é uma forma de desestabilizar a cadeia de comando de Teerão?

A questão é: mas com que objetivo? Ou seja, um dos grandes problemas para terminar um conflito muitas vezes é ter com quem negociar o fim desse conflito, ter do lado do inimigo alguém que esteja disponível para assumir um compromisso e depois ter a autoridade, a capacidade, a legitimidade para garantir a implementação desse compromisso. Realmente, esse é um problema bastante evidente no caso do Irão. O regime tem claramente várias fações. Eu não gosto muito de falar de moderados, mas há, de facto, uma facção mais pragmática do próprio presidente eleito, do presidente do Parlamento, mais preocupada com a questão da economia, com o impacto negativo de tudo isto, que quer chegar a algum tipo de compromisso. Mas é evidente que não são essas figuras que controlam plenamente o regime e que se há uma figura, se há alguém que pode levar toda a gente a aceitar legitimar algum compromisso, é a figura do guia supremo. Portanto, não se percebe muito bem qual seria o objetivo em eliminar essa autoridade, embora, do ponto de vista da análise, acho que é realmente uma análise que faz algum sentido. Aparentemente, Mostafa Khamenei está vivo, mas claramente não está em grande forma. Esta quase completa ausência de imagens é bastante suspeita. Agora isso é uma questão para os analistas. Do ponto de vista do presidente dos Estados Unidos, não me parece que haja grande vantagem em alimentar essa especulação ou pôr em questão a autoridade ou o papel do guia supremo.

Na guerra da Ucrânia, a notícia que a Bielorrússia está a construir uma linha ferroviária junto à fronteira ucraniana, o que confirma as suspeitas de Kiev sobre um maior envolvimento de Minsk no conflito. Bruno, esta movimentação logística é o pronúncio de uma nova ofensiva vinda do norte ou mais uma manobra de intimidação coordenada entre Lukashenko e Vladimir Putin?

A Bielorrússia, vale sempre a pena recordar isso, é na verdade um cobaia beligerante. A Rússia passa a vida a queixar-se do suposto envolvimento indevido de outros países, que na verdade, o que fazem é completamente alinha com a lei internacional E também com o que tem sido a prática durante todo o período da Guerra Fria, apoiar com armamento um país que está a ser atacado. Mas, de facto, a Bielorrússia, que muitas vezes com o Lukashenko aparece como uma espécie de uma parte que é neutra, que até se oferece para mediar, na verdade foi realmente um cobre-ligeirante, ou seja, as tropas russas usaram o território da Bielorrússia, obviamente com a permissão do regime desse país, para invadir a Ucrânia a partir do norte. E no fundo, essa utilização só não continuou dessa maneira porque a Rússia subestimou o seu adversário, depois foi obrigado a retirar muitas dessas tropas e a concentrar os esforços numa região muito mais pequena para conseguir alguns resultados. Portanto, à partida, isso significa que algo do mesmo tipo pode voltar realmente a acontecer. Aquilo que pode eventualmente levar-me a ter algumas dúvidas de que isso seja necessariamente assim, é que realmente um dos problemas de base é que mantêm-se e até se agravou. É que de facto a Rússia não parece ter efetivos, ao menos para conduzir uma campanha em todas essas frentes. Agora, eu não excluo que realmente haja aqui, por um lado, um esforço para criar problemas a Kiev ou criar dúvidas a Kiev e portanto obrigar Kiev a dispersar forças, a dispersar tropas também na zona do norte para eventualmente prevenir esse risco acrescido. Ou até que possa haver aqui alguma ação, mas provavelmente mais localizada, como parte também desse esforço para obrigar a Kiev a dispersar os efetivos, que já são escassos, por uma frente ainda mais ampla.

Por outro lado, temos a Hungria, que classificou oficialmente a Rússia como uma ameaça à segurança do país. É a primeira vez que o faz desde o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Bruno, este é o sinal de que o Kremlin perdeu o seu último grande aliado veto no seio da Europa?

Sim, agora vamos lá ver se não ganha outros no futuro. Realmente, isso é assim. Orbán era o único líder europeu que claramente e muitas vezes até abertamente demonstrava simpatia pelas posições russas e em muitos casos bloqueou decisões de consenso, seja na União Europeia, seja noutros fóruns em que está presente, mas sobretudo no caso da União Europeia. Mas a verdade é que o problema da Europa, a vantagem, diria eu, mas do ponto de vista estratégico e também das oportunidades para a Rússia, é que realmente tem verdadeiras eleições e, portanto, de vez em quando os governos mudam. Isso tem implicações para a política interna e externa. Foi o que aconteceu na Hungria. Apesar de Orbán ter trabalhado durante muito tempo para tornar a vida quase impossível à oposição, a verdade é que a oposição se organizou toda, se uniu toda, teve um bom candidato, Péter Magyar, e portanto mudou no sentido positivo para a Ucrânia e para uma maior coesão do bloco europeu. Mas, por exemplo, vamos ter eleições em França no próximo ano. Marine Le Pen tem grandes condições para ser a vencedora, portanto, vir a ser a futura presidente da França. Para já, ela publicamente alterou as suas posições de simpatia durante muito tempo pela Rússia de Putin, que aliás até ajudou financeiramente o próprio partido Le Pen. Mas depois o verdadeiro teste, realmente, até que ponto isso foi uma alteração cosmética com fins eleitorais ou foi uma alteração de fundo, vem depois quando vence eventualmente a Le Pen, vier a ter real poder, por exemplo, na ação externa, na política externa francesa e obviamente aí a França tem condições para ter um impacto muito maior no apoio à Ucrânia do que a Hungria.

Bruno Carlos Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana.

Obrigado, bom dia.

Obrigada, Bruno. Bom dia.