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Abrimos a porta a mais um gabinete de guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos fazer um ponto de situação em dois dos conflitos ativos no globo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Para tal, contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno. É sempre um gosto contar com a tua presença e com a tua análise. Vamos começar pela Ucrânia, ainda no rescaldo desta reunião de emergência que juntou delegações dos Estados Unidos, da Ucrânia e da União Europeia, na Suíça. Volodymyr Zelensky diz que a delegação ucraniana já está em Kiev, que espera um relatório completo sobre o estado das negociações. Bruno, o que é que seriam boas notícias para o presidente ucraniano e o que é que podemos esperar de tal relatório?
Boas notícias seria que os Estados Unidos mudavam de ideias e passavam a dar prioridade à segurança dos seus aliados europeus, à defesa até dos próprios interesses americanos na Europa. Enfim, os Estados Unidos estão a beneficiar com compras muito significativas de armamento, de gás natural, etc., em vez de procurarem um apaziguamento a qualquer preço da Rússia. Aparentemente há suficientes setores influentes nos Estados Unidos, na opinião pública, entre os parlamentares, senadores, inclusive republicanos, o responsável, por exemplo, da Comissão Parlamentar de Defesa, o próprio senador Lindsey Graham, que é geralmente visto como próximo de Donald Trump, mas que tende a ter uma posição bastante mais céptica em relação à Rússia. Enfim, aparentemente, até certo ponto, o secretário de Estado, Marco Rubio, que no fundo vieram aqui procurar tentar distanciar-se daquele texto que foi divulgado no final da semana passada, que basicamente era um copy paste das exigências russas, um texto mal escrito, com formulações completamente delirantes, a falar de um acordo que já nem existe sobre questões nucleares, o Start Um, a falar dos Estados Unidos mediarem negociações entre a NATO e a Rússia como se os Estados Unidos não fizessem parte da NATO, o que se calhar é um ponto significativo sobre como alguns dos atuais responsáveis americanos veem a coisa. Agora, em todo o caso, pelo menos algumas das exigências mais gravosas caírem, será importante porque isso também torna menos provável que a Rússia aceite o acordo e portanto dá menos margem a que estes setores mais isolacionistas, com simpatias às vezes até ideológicas, portanto setores às vezes chamados paleoconservadores ou da nova direita americana que tem muita simpatia pelo próprio Putin e pelo seu modelo autoritário, reacionário, nacionalista, identitário, que no fundo esses setores possam ter aqui menos desculpas para deixar cair a Ucrânia, para retirar apoio, que neste momento, vamos ser claros, basicamente resume-se à questão das informações, mas que é muito importante para identificar alvos, ameaças, etc. Em termos de apoio militar, basicamente corresponde aos Estados Unidos aceitarem vender armamento aos europeus que depois o fornecem à Ucrânia.
Ainda assim, Bruno, tivemos também Donald Trump a fazer uma publicação nas redes sociais a admitir grandes progressos. Foi assim que o presidente norte-americano descreveu. Isto são palavras para serem tidas em conta ou apenas mais uma daquelas declarações de Donald Trump que depois acaba por dar o dito por não dito?
Não sabemos, mas nós sabemos que Donald Trump tem este estilo hiperbólico, portanto está sempre tudo a correr bem, é sempre tudo o melhor do mundo, a paz vai fluir por todo o mundo. Enfim, no fundo nós tivemos declarações de Donald Trump a dizer que ele ia conseguir a paz na Ucrânia ainda antes de ser eleito presidente em 24 horas. Ou seja, o que ele diz realmente não tem muito crédito em si mesmo. Agora ele é presidente dos Estados Unidos, tem grande poder e portanto o que isto, sobretudo do meu ponto de vista, significa, e isso é relevante e bastante negativo, é esta ideia de que ele quer uma paz a qualquer preço, quer uma paz sobretudo em termos que sejam aceitáveis para a Rússia, porque para ele a questão principal é voltar a dar-se bem com o seu amigo Vladimir Putin, enfim, em linha com esta tendência de Donald Trump para procurar sempre boas relações com ditadores, homens fortes, os líderes mais violentos, mais repressivos que há no mundo, o líder da Coreia do Norte, Putin, o príncipe da Arábia Saudita, etc. Em vez de privilegiar as relações tradicionais, as alianças tradicionais dos Estados Unidos, que ele vê como limitações, como um custo. Enfim, nós estamos nesta situação surreal que há muita gente nos Estados Unidos aparentemente que acha que é natural fazer um acordo sobre a Europa, sobre um país europeu com implicações enormes pra segurança europeia, com compromissos que implicam a Europa, coisas como adesão à União Europeia ou não, o que acontece aos fundos russos que estão congelados pelos europeus, o que acontece às sanções decretadas pela União Europeia, vai haver ou não vai haver aviões na Polónia. Tudo isso está incluído no acordo que não foi discutido previamente com os aliados europeus. E portanto, no fundo, o que é que é revelador é realmente isso. Para Donald Trump, a prioridade é sempre os seus interesses, os seus interesses pessoais, entendidos sempre de uma forma também muito autocentrada e ele não quer saber dos aliados das alianças basicamente pra nada e quer uma paz a qualquer preço. Acho que também com esta ambição, ilusão de vir a ganhar o Prêmio Nobel, enfim, como dizia ontem o Farid Zakaria, o Prêmio Nobel é para quem consegue paz, não para quem consegue rendições, quem no fundo entrega democracias a invasores autoritários.
Vamos também falar um pouco sobre o lado russo. Após este encontro de emergência na Suíça, há uma reação. Vladimir Putin que teve uma chamada telefônica com o líder da Turquia, Erdogan, e diz nessa chamada que o acordo de paz dos Estados Unidos pode servir de base precisamente para esse acordo definitivo. Bruno, o que nos diz esta posição de Vladimir Putin?
Confirma aquilo que nós suspeitávamos, que é basicamente um plano russo. Houve quem tenha feito análise linguística e aquilo realmente tem um inglês miserável, portanto é normal que tenha sido uma tradução apressada do russo. Temos jornalistas que viram propostas anteriores russas com meses e que dizem que basicamente é tudo igual, com uma exceção ou outra significativa, nomeadamente nesse projeto havia uma garantia de que a Rússia se iria afastar de alguma forma da China, isso agora não está, porque claramente a Rússia não se atreve neste momento a afastar-se, não se pode dar esse luxo de se afastar da China. No fundo, para quem acha que há aqui uma espécie de estratégia, uma visão estratégica norte-americana, a ideia é que isto é uma forma de afastar a Rússia da China e de a aproximar dos Estados Unidos, como se isso fosse uma possibilidade realista neste contexto. Até porque em termos económicos, a Rússia precisa desesperadamente vender. Os Estados Unidos estão a fechar os seus mercados até em relação aos seus fornecedores tradicionais, quanto mais à Rússia. Não me espanta que realmente Putin tenha uma visão positiva sobre aquilo que é essencialmente uma cópia das exigências russas, inclusive das mais extravagantes. E tudo isto, no fundo, corresponde já e já está a alcançar algo que é um grande objetivo histórico da Rússia há muitas décadas, que é destruir o Ocidente, destruir a Aliança Atlântica, esvaziá-la, pelo menos na prática, acabar com o papel, com a influência dos Estados Unidos na Europa para abrir espaço à Rússia, criar o máximo possível de divisões entre os países ocidentais, seja entre os Estados Unidos e os países europeus, seja dentro dos países europeus. Já é isso que está a acontecer, com este espetáculo lamentável dos Estados Unidos apresentarem um plano sem o ter discutido sequer com os seus aliados europeus. Discutiram-no com os russos, mas não discutiram com os outros membros da NATO.
É sem dúvida um tema que vai continuar a marcar a atualidade mundial. Bruno, vamos avançar, falar do Médio Oriente. Israel elevou o nível de alerta dos sistemas de defesa aérea após a morte de um dos chefes militares do Hezbollah. Bruno, podemos esperar em breve uma retaliação por parte do grupo extremista e em que escala?
O grupo, o Hezbollah está bastante enfraquecido, mas não quer dizer que esteja completamente impotente. Aliás, o próprio Hamas também está muito enfraquecido, de vez em quando consegue fazer emboscadas e abater soldados israelitas. Portanto, o Hezbollah, se quiser, provavelmente conseguirá retaliar de alguma forma, mas realmente tem estado aqui com uma postura digamos, muito passiva. A expectativa é que se haja de existir uma reação, será apesar de tudo relativamente limitada para não dar mais pretextos a Israel para escalar as suas ações contra o grupo, que também está nesta posição precisamente de maior fraqueza, não só militar, mas também política, porque as coisas estão relacionadas. Enfim, perdeu grande parte da sua liderança histórica, etc. Mas isso também se traduziu num certo enfraquecimento do seu peso da sua preponderância na política libanesa. Há muitos libaneses há muito tempo muito cansados com os custos para o Líbano deste protagonismo, desta estratégia de luta armada do Hezbollah, que também cria problemas até à própria coesão nacional do Líbano, ter, no fundo, um Estado dentro do Estado, um grupo armado que é mais forte do que as próprias Forças Armadas libanesas. No fundo, a expectativa é que haja uma reação que será relativamente limitada, mas não sabemos. Pode haver aqui algum erro de cálculo, pode ser que o Hezbollah decida que este é o momento de mostrar que ainda está vivo e capaz. Portanto, há sempre o risco no Médio Oriente de uma escalada relativamente descontrolada.
Bruno, temos ainda três minutos antes do final do programa e há mais um tema que eu gostaria de abordar contigo, que é a visita do chanceler alemão a Israel no próximo mês. Vai ser a primeira visita como chefe do governo alemão. A notícia é avançada pelo jornal "The Times of Israel". O que é que podemos esperar desta visita por parte de Friedrich Merz?
A Alemanha é dos poucos países europeus que continua a ter uma postura relativamente amigável em relação ao atual governo israelita, enfim, crítico, mas nunca foi tão longe como outros em termos de sanções ou em termos de limitação do fornecimento de armamento. Existiu uma limitação, mas mais limitada do que noutros casos e que entretanto também já terá sido levantada. Isto obviamente prende-se com o histórico, com esta herança muito pesada que a Alemanha tem do seu passado nazi, do Holocausto e portanto realmente há na cultura política alemã, por acaso não está propriamente consagrado na lei, mas é uma norma informal esta ideia de que há uma responsabilidade histórica da Alemanha ajudar Israel, inclusive a defender-se. E portanto mesmo quando há críticas sobre o excessivo da força, sobre até crimes de guerra, etc, sobre a ação dos colonos muito violenta na Cisjordânia, essas críticas têm crescido, mas de facto nunca levaram, como eu digo, a ruturas do género que existiram com outros países europeus. A expectativa é que provavelmente será um equilíbrio entre estas diferentes tendências, ou seja, mostrar alguma solidariedade com Israel, encorajar o processo de paz, reafirmar o compromisso com os dois Estados, que é algo que Netanyahu não gosta. Enfim, mas no fundo, neste contexto também em que há um processo de paz em curso, eu diria que o mais expectável é que a Alemanha apoie esse processo de paz, apele a que ele continue e que leve a esta conclusão, que essa é consensual entre os europeus, da ideia de dois Estados a viverem em segurança e em paz um ao lado do outro, Palestina e Israel. Portanto, imagino que seja algo desse tipo.
E Bruno, só em 30 segundinhos, só para esclarecer aqui também uma dúvida, que influência é que tem Friedrich Merz perante o governo israelita?
Tem uma influência limitada, até porque Israel sabe que a Alemanha está condicionada por causa desse seu histórico e genericamente a Europa tem uma influência limitada, até porque está também dividida sobre o que fazer. Enfim, há Estados muito críticos de Israel e muito hostis à relação Israel, como a Irlanda ou Espanha. A maioria dos Estados estão um pouco aqui numa linha mais intermédia, é o caso também de Portugal. E depois há Estados mais favoráveis, também por razões históricas ou mais condicionados, como por exemplo a Alemanha. A Alemanha sozinha tem um peso importante, mas está longe de decidir esta política, até porque tem aqui uma posição nesse aspecto bastante peculiar.
Mas para já fica essa notícia de que o chanceler alemão vai visitar Israel no próximo mês. É a primeira visita como chefe do governo alemão. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado. Fica por aqui este Gabinete de Guerra. Ponto final. Estamos de regresso amanhã e este episódio fica, como sempre, disponível em podcast. Um abraço, Bruno.
Obrigado.