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Este é o Som do Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões. Esta manhã a análise é de Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Bom dia, Francisco. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia.

Bom dia, bem obrigada. Começamos pela Ucrânia, que sofreu esta madrugada mais um ataque massivo com drones na capital, Kiev. Há milhares de pessoas sem eletricidade. Francisco, Donald Trump não falou mais deste conflito. Significa que a Ucrânia e a Europa estão agora mais sozinhos do que nunca?

Bom, está congelado o conflito. Congelou com o frio que os ucranianos vêm passando e com o massacre que os russos estão fazendo à população há quase quatro anos. Veja, falta um mês para fazer quatro anos desta nova ofensiva, a destruição de infraestruturas. Nós vemos constantemente as cidades sendo atacadas, os edifícios residenciais, as infraestruturas de eletricidade. De maneira que isso parece não ter solução. Andávamos muito esperançosos, sobretudo desde a Cimeira do Alasca. Mas veja, agora as prioridades são outras. Agora é a Romênia, agora é a Venezuela, agora é o Irão. E como eu disse outro dia, saiu do radar agora a Ucrânia. Nós temos que estar muito atentos, porque senão isto sai mesmo do radar e congela-se a situação, mas quem sofre são os ucranianos e os militares que morrem diariamente. Que são as guerras como nós sabemos.

E Francisco, há ainda a questão do lançamento do míssil balístico Oreshnik, que atingiu uma área da Ucrânia próxima à fronteira com a Polônia. Isto não representa uma escalada perigosa da Rússia e mais um sinal que não há qualquer interesse em acordos de paz?

Maria João, escalada? Nós estamos nisso há quatro anos. Quantas vezes é que já-

Já falamos em escalada.

Quantas vezes já caíram até destroços de mísseis, ou mísseis mesmo, na Polônia ou na Romênia, e houve sempre algo. Nada de novo. Não há escalada nenhuma, não há a vontade de parar com o conflito. De maneira que isto está para até o senhor Putin atingir os objetivos que ele pretendeu, que será, segundo ele, neste momento, já não é conquistar Kiev, mas pelo menos ficar com todo o Donbass. Bom, isso vai levar ainda para conquistar aqueles 20 ou 25% do território que lhe faltam, pode levar meses e o sacrifício, mais uma vez, de muitas vidas e de muito patrimônio. De maneira que nada de novo, mais uma noite de ataques, mais um míssil. Bom, mas este míssil já foi utilizado várias vezes. Tem uma característica especial, é hipersônico, é difícil de deitar abaixo. Mas é para eles mostrarem que os têm. E nós temos a capacidade de nos defender. De maneira que isto é um alerta já de há quatro anos, nós continuamos ainda sem ter as capacidades, o processo de decisão e a coragem política de uma afirmação da nossa vontade política em pôr fim ao conflito. Já alguém foi à Rússia falar com eles. Eu vejo estas explicações das vontades, é tudo muito interessante, mas os russos não estão envolvidos no processo. Nós temos garantias de segurança. Bom, já estão estabelecidas algumas delas, até já temos conhecimento de quais são. Mas os russos vão aceitar? Os russos vão aceitar tropas inglesas, vão aceitar tropas francesas? Ou não sei. De maneira que parece que andamos a brincar com a vida dos ucranianos. Não temos determinação nem vontade política. O senhor Trump saiu de cena durante uns dias, algumas semanas.

E a coisa esmoreceu.

Ainda não vi essa vontade. Foram uns discursos muito interessantes, mas ainda não houve ninguém que se metesse no avião.

Não passa disso, de discursos.

É. De maneira que eles gozam conosco, experimentam e veem até onde é que podem ir.

É verdade.

E já viram que podem ir longe.

Sim. Sobre o Irão, mais de 600 manifestantes foram mortos em 14 províncias do país desde 28 de setembro. Há ainda o registro de milhares de feridos, num número que ultrapassa os 10 mil. E Francisco, não parece que estes números fiquem por aqui.

Quer dizer, estas sublevações no Irão, sobretudo as mulheres que tanto sofrem e que tanto têm aparecido a querer novamente ter os seus direitos, a sua liberdade e a sua vontade de viver como nós vivemos, tranquilamente, sem serem oprimidas, têm sido as mais corajosas. Mas depois nós vemos as imagens na televisão, as milícias e a guarda republicana deles a atirar, a matar sua população. E o que nós vamos fazer? Bom, isto vai continuar e o regime tem o poder suficiente para, veja, já bloqueou a internet. Muito dificilmente temos comunicação do que se passa. Bom, e depois com estas interferências, eu acho que só estamos a estragar. Aquilo tem que ser uma solução interna. O Irão é muito grande. Estas sublevações já não são novas. Todas aquelas que vieram no passado foram reprimidas com extrema violência. Vamos começar a ver pessoas penduradas na praça pública para servir de exemplo. Bom, e o que nós temos feito? E o que nós vamos fazer? Bem, ao estarmos a armar os curdos e a incentivá-los no norte, estamos a dizer que estamos a apoiar a rebelião de uma forma armada, nós, quer dizer, Israel e os Estados Unidos. Isso só vai, vamos lá ver. Os iranianos, perante uma ameaça externa, vão se unificar.

Claro.

De maneira que esta solução, a meu ver, tem que ser resolvida por eles. Nós podemos apoiar com as nossas declarações todas, mas tem que ser uma solução por eles. E não se resolve com ir lá buscar um dos aiatolas com golpe de mão e raptar um aiatola. Não se resolve assim.

Mas Trump não pensou mesmo, porque convocou para hoje uma reunião do executivo para discutir possíveis ações contra o Irão. Medidas que podem ir desde um ataque cirúrgico a infraestruturas militares a ataques cibernéticos. A lista é longa. Trump não exclui nenhuma opção. Francisco Proença Garcia, mas acredita que Trump avance mesmo depois de Teerão ameaçar retaliar contra Israel se isto acontecer?

Maria João, mais uma vez, nada de novo. O Trump foi lá, há meio dúzia de meses, e disse que destruiu as infraestruturas de desenvolvimento nuclear. Bom, não sabemos se é verdade. O que é facto é que mobilizou suas Forças Armadas e fez um bombardeamento Eles retaliaram sobre Israel e sobre as bases do Qatar. Nada de novo. O que o Trump vai fazer? Vai fazer ações cirúrgicas? Tudo bem, faz umas ações cirúrgicas. Isso resolve o problema? Tira o regime dos aiatolás? Destrói a guarda republicana? A guarda republicana já foi decapitada de vez em quando nas suas estruturas. Ainda no último ataque de Israel, a sua estrutura de comando e controle foi bastante danificada. Mas mudou o regime? Para mudar o regime, tem que ser um processo interno. Estamos numa sublevação. Da sublevação até termos uma revolução, ou seja, uma mudança de regime, pode ser uma coisa súbita. Estas coisas nós não controlamos o processo, depois de eles começarem. Mas, para já, estamos na fase da repressão e do silenciamento. E eu acho que a intervenção norte-americana vai provocar mais repressão e mais sofrimento daquele povo. Estava agora a ler um comentário. Aqueles que tiverem acesso à internet, que forem apanhados a ter acesso à internet, são considerados inimigos de Deus. Leva é à execução imediata. Mas se eles abatem as pessoas na rua, um miúdo com acesso a um TikTok, o que acontece? De maneira que a repressão vai aumentar seriamente. Mas é como eu digo, temos que, infelizmente, aguardar para ver qual é a evolução, mas isto tanto pode mudar subitamente, que eu não acredito, e a outra é continuarmos com a repressão violentíssima. E quanto mais nós forçarmos, mais violenta vai ser a repressão. A solução tem que ser interna. E veja, a classe média, a polícia já abriu. Só faltam agora mobilizar as milícias e sobretudo a guarda republicana, porque a polícia já não está a intervir. A polícia identifica com o problema, mas também não tem grande poder. Vamos ver como é que isto evolui. Infelizmente, com sacrifício de mulheres e de-

E de jovens e de crianças. Trump anunciou também a imposição de tarifas de 25% a qualquer país que faça negócios com Teerão. Isto é uma decisão com efeitos imediatos. A ideia é isolar cada vez mais o Irão?

Está provado, o senhor Trump é um homem com muito poder e muita determinação, mas com poucas leituras, penso eu, porque está provado que as tarifas são uma forma de sanções. E as sanções são sempre contornadas. Quer dizer, os chineses vão deixar de fazer negócio com os iranianos? Os russos vão deixar de fazer negócio? Os russos compraram 3000 milhões em mísseis ao Irão. Vão deixar de fazer negócio com o Irão? O Brasil vai deixar de fazer negócio com o Irão? A Índia vai deixar de fazer negócio? Veja, todos estes problemas da shadow fleet, que é a frota fantasma, são coisas de ações esporádicas, nas centenas de navios que há, de vez em quando apreendem. De maneira que isso é muita retórica. No concreto, eles já sofrem com as sanções. O que o povo iraniano tem feito? Sofrido desalmadamente. Passa fome, passa frio, não tem esperança de uma vida digna como nós temos aqui na Europa. Isso ajuda à sublevação e ao descontentamento, mas também ajuda à repressão. De maneira que eu acho que não é por aí que vamos lá. Temos que dar tempo interno, e sobretudo tempo interno para que aquilo se resolva.

Sobre a Venezuela, Maria Corina Machado deve encontrar-se com Donald Trump esta quinta-feira. Ele que disse também estar disponível para uma reunião com Delcy Rodríguez, mas depois Francisco partilha uma imagem nas redes sociais a dizer que ele é que é o presidente interino da Venezuela.

Isso é fantástico. Em regime de telecomando. Bom, ao menos já sabemos quem manda na Venezuela. Decapitou-se o Maduro, mas a Venezuela, vamos lá ver, no tempo do Chávez era fácil porque nós sabíamos quem mandava, era o Chávez. No tempo de Maduro, aquilo estava disperso por meia dúzia de pessoas, o poder. De maneira que ele decapitou. E agora fez uma coisa boa, que não fez o disparate que fez no Iraque, o que os americanos fizeram no Iraque, foi desmantelar as Forças Armadas. E agora está a negociar e aquele regime vai transitar. Veja, já começaram a libertar presos políticos, que era uma grande ambição. Isso é um sinal de esperança. É pouco. Está bem, mas desde que ele consiga comercializar, desde que ele consiga introduzir dinheiro na economia, de aos poucos aquilo poderá ir mudando. Agora, ele é que é o presidente. De facto, o outro continua a ser vice-presidente. Não sei.

E vamos ver o que sai deste encontro com Corina Machado, não é?

Não, assim, a Corina Machado, por muito que nós tínhamos estima por ela e por ser a Nobel da Paz, ela não controla a estrutura de poder. Ela não controla as armas. Se não controla as armas, poderá um dia vir a ter um futuro brilhante, mas não agora.

Não será agora.

Não agora. Porque agora quem manda é quem tem as armas e quem domina a estrutura do Estado. E ainda são os que lá estão, não é?

Sim. Francisco Pereira Garganta, muito obrigada pela sua análise. Boa semana. Obrigada, o gosto é nosso.