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Abrimos a porta ao "Gabinete de Guerra", o programa em que destacamos os principais pontos de tensão na geopolítica mundial. Hoje conto com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais no ISCSP. Bernardo Valente, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre uma das notícias do dia, dada por Volodymyr Zelensky, que diz que uma reunião entre a Ucrânia, os Estados Unidos e a Rússia vai realizar-se em Abu Dhabi em novembro. Admite mesmo o presidente ucraniano esse acordo trilateral de líderes. Que expectativas podemos ter, Bernardo Valente, deste encontro?
Há aqui várias dimensões que devem ser consideradas. Primeiro, creio eu, que é o falhanço da política Trump para a paz. Ou seja, aquilo que nós acreditamos que era inicialmente uma possibilidade deste estilo errático de Donald Trump de conseguir a paz, e aliás, Donald Trump acabou por acusar Joe Biden no final do seu mandato, que Joe Biden não tinha a capacidade de encontrar os mecanismos para a paz. O que temos agora é a prova que Donald Trump não conseguiu alcançar essa paz e agora está a tentar alcançar essa paz por outros meios. E esses meios são não apenas o seu corpo diplomático, que sabemos que de diplomático tem muito pouco, é um corpo muito personalizado, que não vem desse passado da diplomacia, do passado da política externa norte-americana, são pessoas próximas de Donald Trump, mas além disso, há aqui um aspecto mais importante que é Donald Trump, ao perceber que não tem esses mecanismos para alcançar a paz, como disse que iria conseguir alcançar a paz, está agora a tentar, principalmente ao longo das últimas duas semanas, desde que houve aquele problema com o bloqueio do Starlink ou do Starshield em território ucraniano, está a tentar alcançar a paz fazendo a Ucrânia capitular. E Zelensky, ao dizer e ao afirmar que agora está acordado um novo encontro, e esperemos que seja pela primeira vez um encontro em que temos frente a frente Zelensky e Putin, o que me parece bastante difícil, bem que o facto de serem em Abu Dhabi pode ajudar, o facto de ser aqui num terceiro Estado pode ajudar, porque nem Zelensky iria a Moscovo, nem naturalmente Putin iria a Kiev. Mas a verdade é que Zelensky agora está na posição mais frágil, porque Donald Trump ao tentar fazer capitular a Ucrânia para alcançar esta paz, Zelensky só tem duas soluções, ou melhor, tem uma solução e a outra que pode ser uma solução à qual se irá ver forçado. A primeira solução, e que me parece ser a mais razoável, é Zelensky, que por vezes até é bastante apaixonado na forma como reage a alguns destes aspetos e desta volatilidade da administração norte-americana, terá que continuar próximo de Donald Trump. Continuar próximo de Donald Trump, por quê? Não quer dizer que Donald Trump não o tenha hostilizado, e do ponto de vista racional até faria sentido afastar-se de Donald Trump, mas a Ucrânia não se conseguirá defender sem o apoio dos Estados Unidos. A Europa simplesmente não tem uma indústria de defesa. Diga, sim.
Quem é que sai a ganhar desse possível encontro?
Quem sairá a ganhar desse possível encontro? Se for um encontro que pegue naquele plano desenhado por Itskov e Dmitriev há cerca de um ano atrás, será a Rússia, por um lado, e também os Estados Unidos. Os Estados Unidos porque conseguem aqui não só manter-se como a superpotência que procura balizar as relações internacionais ainda entre os estados, e assim acaba por mitigar um pouco aquilo que parece ser uma espécie de suicídio político norte-americano, tanto no plano externo como no plano interno, porque aquilo que nós achávamos que eram os Estados Unidos normativos, a superpotência, estão a perder, mesmo na opinião pública, esse efeito, tanto na opinião pública internacional como na opinião pública nacional, e com um processo de paz entre a Rússia e os Estados Unidos, ainda por cima um processo de paz mediado pelos Estados Unidos, aí ganhariam uma nova credibilidade, não só a administração Trump, como também os Estados Unidos como um todo. Para além de que também ficaria com o reconhecimento do seu próprio partido, que agora está a virar aos poucos contra Donald Trump, o Partido Republicano, porque não vê com bons olhos esta espécie de supremacia que Putin tem em relação a Donald Trump. Por outro lado, ganhava também a Rússia. A Rússia eram os maiores vencedores. Por quê? Porque não só esta linha de conflito, como a conhecemos ao longo dos últimos anos, tem evoluído muito pouco. As forças ucranianas têm tido a capacidade de estancar os avanços russos, principalmente aqueles avanços na chamada Cortina de Ferro, aqueles avanços na zona do Donbass, que tem Kramatorsk, que tem Sloviansk, que tem Liman. E perante um acordo de paz, que no fundo, o que irá fazer é estabelecer provavelmente uma zona económica livre no Donbass, um Donbass que não está totalmente conquistado pela Rússia, mas que a Rússia terá o total acesso a essa zona económica livre que será mediada com presença norte-americana no terreno. Os russos saem a ganhar, sem dúvida, porque vão conquistar mais do que a guerra neste momento e a linha, a fronteira contestada, lhes dá. E isto também abre aqui um precedente, que é o Estado agressor vai de facto conseguir levar os seus objetivos a bom porto, e vai conseguir levar os seus objetivos a bom porto com o apoio da grande potência, como dizia há pouco, normativa, que sempre foi o garante do direito internacional, que são as organizações internacionais com os Estados Unidos à cabeça, claro. Por isso, ganha a administração Trump, ganha a Rússia, perde Zelensky. Só um ponto muito rápido antes de terminar esta resposta. Curiosamente, Donald Trump, desde que mostrou este apoio mais musculado à Rússia nas últimas duas semanas Tem perdido nas sondagens, tem descido nas sondagens e o próprio Partido Republicano fez uma carta aberta de 12 senadores contra esta posição de Donald Trump. Claro que são senadores do Partido Republicano e não da sua base MAGA. E, curiosamente, Zelensky tem subido nas sondagens. Os ucranianos são muito críticos de Zelensky, não têm a mesma perspectiva que os europeus têm relativamente ao líder ucraniano, não só por as questões da corrupção, mas também por algumas más decisões, incluindo a decisão de retirar Fedorov do governo, e tinha vindo a descer, tinha atingido os seus pontos mais baixos quando retirou Fedorov do governo. E agora, perante esta hostilidade de Donald Trump, Zelensky tem subido uns pontos nas sondagens, porque os ucranianos têm aqui esta mentalidade que também me parece interessante, que é os ucranianos podem criticar Zelensky, mas são eles a criticar, são os nacionais a criticar o seu líder nacional. Não gostam de ver o seu líder nacional a ser criticado por outras forças externas, ainda para mais por Donald Trump e pelos Estados Unidos.
Bernardo Valente, antes de irmos também à situação no Médio Oriente, ainda dar conta de mais palavras de Volodymyr Zelensky, que diz que Marco Rubio assegurou o regresso da funcionalidade do Starlink em dois a três dias. Este sistema de internet por satélite é decisivo nas Forças Armadas ucranianas. Esta reativação ou regresso a uma função normal é um bônus para a Ucrânia? Ameniza a situação mais tensa entre Washington e Kiev?
Creio que não ameniza. Temos de ter em conta também que Donald Trump, e tem-nos habituado a isto, daqui a duas semanas pode mudar completamente a perspectiva se tiver uma pequena escaramuça com a Rússia, até em relação à questão do Irão ou em relação à questão dos fluxos energéticos pelo mundo, e virar completamente as suas prioridades políticas e voltar a apoiar a causa ucraniana. A questão do Starlink acaba por beneficiar a Ucrânia do ponto de vista militar e até o intelligence ucraniano. E é importante que se diga uma coisa, que ao mesmo tempo que foi bloqueado o Starlink, ou que foi limitado o Starlink, também as forças ucranianas vieram alegar que a inteligência norte-americana não estava a partilhar os mesmos dados que partilhava antes e por isso tinham tido alertas muito tardios de mísseis balísticos. Pois bem, isso pode não ser totalmente verdade, no sentido em que pode haver aqui um erro técnico, porque quando estamos a falar de mísseis antiaéreos como aqueles que a Ucrânia apresenta agora, que não são os Patriots, têm um alcance menor e é natural que por vezes demore algum tempo até essa alerta chegar à população. E pode ter sido esse o caso. Claro que como foi na mesma altura em que foi bloqueado o Starlink, as forças ucranianas também associaram aqui a um ato deliberado por parte da inteligência norte-americana para magoar ainda mais essas mesmas defesas norte-americanas, principalmente as defesas antiaéreas. Isto para dizer que o Starlink beneficia a Ucrânia porque devolve aquilo que foi o fluxo em rede da sua defesa aérea. E aqui estamos a falar de uma defesa aérea muito dependente do digital, muito dependente destas redes de conexão ao Starlink, mas também, curiosamente, vai beneficiar os Estados Unidos e o próprio Elon Musk em última instância, porque qualquer sistema de defesa europeu está também dependente de redes semelhantes e redes essas que muitas vezes são fornecidas pelo SpaceX, como o Starlink. A partir do momento que se desliga definitivamente uma rede e permite-se que as defesas de um Estado estejam a defender às cegas, sem ter a capacidade de controlar os drones e só os drones que caíram durante esse bloqueio causaram uma dívida na ordem de 1 milhão de euros à defesa ucraniana. Se outros Estados que dependem desse mecanismo para se defender olharem para o caso ucraniano e começarem a pensar, naturalmente com algumas reticências, sobre qual é a fiabilidade de ter ali um apoio de Elon Musk ou o apoio do Starlink para coordenar o seu setor defensivo. Bom, aí é bastante óbvio que o que teremos são esses países a tentarem encontrar outras alternativas que não o Starlink, outras alternativas de guerra digital que não passem pela dependência norte-americana, porque os norte-americanos passam a não ser confiáveis neste setor da defesa. E por isso, em última instância, mesmo que neste momento possa não ser a relação mais intuitiva, em última instância, devolver o Starlink aos ucranianos e devolver a força da rede que os ucranianos tinham inicialmente, pode devolver aqui alguma confiança também aos parceiros europeus e parceiros ocidentais no geral, que dependem de redes semelhantes provenientes dos Estados Unidos e inclusive da SpaceX para o seu setor da defesa.
Bernardo Valente, temos ainda três minutos para abordar a situação no Médio Oriente, no dia em que Alemanha, França e Reino Unido estarão prontos para negociar a questão nuclear com o Irão. É o que diz o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha. Que papel, Bernardo Valente, é que podem ter os países europeus nesta questão? Temos três minutos até o final do programa.
Os países europeus, e assim em três minutos, tentando ser muito telegráfico, o que posso dizer é que os países europeus não têm grande agência no Médio Oriente. Porque repare, se os países europeus estão, e estamos a falar de um conflito que se regionalizou e não está apenas no Irão. Os países europeus têm presença para controlar atos de pirataria provenientes, por exemplo, do Iémen ou da Somália, uma operação chamada Aspides, na zona do Estreito de Bab-el-Mandeb, e isso não impediu que os houthis tomassem conta do Estreito de Bab-el-Mandeb. Têm também, no outro lado, em África, no outro extremo do estreito, têm também presença militar no Djibuti e não conseguiram, através daí, dissuadir essa tomada do Estreito de Bab-el-Mandeb pelos houthis. Agora, perceberam que têm que tomar uma decisão. Por quê? Porque Donald Trump A escolha que fez ou a solução que encontrou, a alternativa que encontrou à falta de fluxo energético que escoava agora do Médio Oriente, foi escoá-lo a partir da Rússia e isso vem favorecer o maior inimigo da Europa e a Europa finalmente acordou também do ponto de vista energético e percebeu que é preciso ter algum tipo de agência relativamente não só ao fluxo energético que vem do Médio Oriente, mas claro, ao conflito entre o Irão e os Estados Unidos. Optar por negociar a capacidade nuclear iraniana, que é a melhor solução neste momento. Por quê? Porque começam a surgir novas organizações de defesa no Médio Oriente. Essas novas organizações de defesa do Médio Oriente ameaçam o Irão e essas novas organizações de defesa, aliás, têm também capacidade nuclear, não só através do Paquistão, mas também através de um novo programa que está a ser acordado com a Arábia Saudita e a Arábia Saudita pode rapidamente desenvolver mísseis balísticos nos próximos anos, porque o enriquecimento de urânio é muito mais rápido nas suas fases iniciais. É difícil conceber depois ou concretizar a chamada bomba nuclear, mas mísseis balísticos com pouca carga nuclear são relativamente rápidos e fáceis de adquirir. Essa possibilidade de termos uma Arábia Saudita equipada pelos Estados Unidos com capacidade nuclear própria e autónoma a ser desenvolvida nos próximos 10 anos, coloca o Irão numa situação de extrema fragilidade que faz acreditar que este coquetel, este momento de ebulição no Médio Oriente possa levar a uma escalada com consequências enormes para a região e também para o mundo. E os europeus perceberam que se deixassem essa mediação a cargo de Donald Trump, se deixassem essa mediação a cargo de alguém que tem trazido o caos ao sistema internacional e também aos próprios Estados Unidos da América, seria quase que assinar uma sentença de morte para o bloco ocidental, não apenas para a NATO, mas para todo o bloco ocidental, incluindo para a Europa. Então agora temos novos mediadores, que não são apenas o Paquistão como foi antes, e o Paquistão que é muito influenciado pela China a nível da mediação, é a Europa que aqui a tentar se assumir também como uma potência no sistema internacional. Se resultará ou não, é muito difícil falar com aquele regime iraniano, um regime muito opaco, que não se percebe sequer qual é a sua capacidade nuclear, mas é bom ver pela primeira vez a Europa a tomar uma decisão cabal no que toca à sua presença no Médio Oriente.
Bernardo Valente, chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado pela análise neste Gabinete de Guerra. Estivemos a escutar Bernardo Valente, é professor de Relações Internacionais no ISCSP. Esta edição e todas as edições do Gabinete de Guerra ficam disponíveis em podcast.