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Esta semana pode ser decisiva para o desfecho do conflito na Ucrânia. Há um encontro agendado para quinta-feira. Espera-se que Zelensky e Putin possam estar frente a frente, mas ainda não há certezas. Da Rússia, ainda muitas dúvidas no ar. Da Ucrânia, a garantia de que Zelensky vai estar presente. Enquanto isto acontece, no Médio Oriente, Donald Trump assina um acordo histórico: 130 mil milhões de euros num acordo de defesa entre os Estados Unidos da América e a Arábia Saudita. São temas em destaque nesta edição do "Gabinete de Guerra". Sou Miguel Cordeiro, estou à conversa com Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa. Muito boa tarde, bem-vindo à Rádio Observador. Já vamos a esta questão da Ucrânia, até porque há muito para falar sobre este assunto, mas primeiro, este entendimento histórico, 130 mil milhões de euros. Hoje Donald Trump esteve na Arábia Saudita com o príncipe herdeiro saudita e acabaram por selar um acordo de vendas no setor da defesa, também diferentes acordos comerciais. Fala-se num dos maiores entendimentos de sempre no setor da defesa, 130 mil milhões de euros. Que leitura é que faz deste acordo entre os Estados Unidos da América e a Arábia Saudita?
Antes de mais, obrigado Miguel pelo convite à Rádio Observador. É realmente um acordo monstruoso na área da defesa. Isto também leva a que Trump possa dizer que se a Europa não aumentar o seu orçamento da NATO, os Estados Unidos têm a quem vender a sua produção. Mais lateralmente, mas poderão neste momento traçar isso e isso pode ser utilizado também para consumo interno. Também dizer que esta visita de Donald Trump não vai acabar na Arábia Saudita. Donald Trump vai estar ainda nos Emirados Árabes Unidos e no Qatar, portanto, vamos esperar para fazer o balanço total daquilo que Donald Trump vai assinar nestes dois a três dias de visita que vai fazer a estes três países. Vamos esperar também que a Arábia Saudita, como sabemos, tem sido um dos equilibradores nesta região e que provavelmente continuará a ser. Donald Trump também penso que foi reforçar esse pedido à Arábia Saudita para continuar a ser esse equilibrador. Recordemos que a Arábia Saudita tem sido um mediador bastante forte nas negociações para acabar com o conflito israelo-palestiniano e na questão que moveu durante quase um ano a libertação dos reféns, a par do Qatar. Recordemos que as negociações que decorreram para a libertação e para a assinatura do último acordo de paz na região decorreram no Qatar. Donald Trump penso eu também foi diplomaticamente reforçar esses laços, porque sem intermediários locais amigos dos Estados Unidos, os Estados Unidos não terão a influência que têm neste momento na região, e isso é muito importante.
Isto aponta para essa importância das visitas que Donald Trump está a fazer pelo Médio Oriente por estes dias, mas apesar destas visitas estarem a acontecer e de ontem até o Hamas ter libertado um refém com cidadania norte-americana, cidadania israelita, mas também norte-americano, certo é que o conflito na Faixa de Gaza parece que vai ter mais dias complicados. Hoje Netanyahu prometeu avançar com toda a força em Gaza durante os próximos dias com o objetivo de derrotar totalmente o Hamas. Netanyahu está a tentar colocar mesmo um ponto final neste conflito, poder chegar a uma conclusão de vitória sobre o Hamas, algo que não tem conseguido desde outubro de 2023, no dia 7 de outubro, quando começou esta fase do conflito?
Primeiro temos que esclarecer, e os ouvintes ouvindo-nos em vários sítios, esclarecer o que é uma vitória. Vitória é realmente o quê? Depois de tanto banho de sangue, tanto de um lado como de outro, mais de um lado do que de outro, nós temos que esclarecer realmente o que seria hoje uma vitória para Netanyahu. Acabar com o Hamas não me parece que isso seja possível, até pelas ramificações que o Hamas tem até fora do território de Gaza e noutros países com outras células de ex-combatentes e de líderes que estão noutros países. Não me parece que isso seja possível. Aliás, Netanyahu propôs um plano para dividir Gaza ao meio, fazer realmente uma divisão e um corredor que lhe permita dividir também logisticamente e estrategicamente o Hamas. Isso está a ser analisado no terreno. Lá está, com o apoio dos Estados Unidos, mas não me parece que essa seja a melhor estratégia para conseguir derrotar o Hamas, até porque vou utilizar aqui uma analogia que é quase como uma colmeia e um ninho de vespas. Se me permite a analogia, em que quando as coisas estão calmas as coisas vão correr melhor, mas aquilo que Netanyahu me parece que está a fazer é provavelmente a procurar ainda mais problemas para Israel, e não me parece que seja assim que vai conseguir resolver o conflito. Com isto também termino sobre esta questão. Parece-me também que Netanyahu tem que promover uma certa cultura interna, também dentro do seu governo, para conseguir os equilíbrios que precisa para manter a governação e para se manter no cargo.
Vamos então falar aqui um pouquinho da Ucrânia, até porque há esse encontro que pode ser decisivo na quinta-feira. Hoje Zelensky veio dizer que só vai viajar Se for para se encontrar com Putin, a única pessoa com quem quer reunir-se é com Vladimir Putin. A Rússia respondeu que só vai dizer quem vai estar presente quando Putin considerar que é necessário dizer isso. Não confirma nem desmente essa presença. Entretanto, o chefe de gabinete de Zelensky veio dizer que Zelensky vai estar na Turquia, está pronto para reunir-se com Vladimir Putin. Agora, a dúvida é esta: com aquilo que temos nesta altura, vai haver este encontro, vai acontecer este encontro? Qual é a probabilidade de acontecer efetivamente um encontro entre Zelensky e Putin ainda esta semana?
Infelizmente, estas declarações e estes avanços e recuos, isto é quase como um jogo de xadrez. É preciso percebermos o que vai acontecer para percebermos o que é que poderá acontecer na movimentação da peça seguinte. O que eu quero dizer com isto? É preciso percebermos realmente. Sabemos que Donald Trump se queria juntar a este encontro. Sabíamos também, há vários meses, que Zelensky não queria estar de maneira nenhuma com Putin e como disse agora e bem, o chefe de gabinete abre a porta a que isso seja possível. Há uma abertura do lado da Ucrânia. Agora, Putin também já percebeu uma coisa e já percebeu que Zelensky não vai vergar, não vai sair da liderança da Ucrânia só porque Putin está a pedir aos Estados Unidos para que isso aconteça. Putin já percebeu que mesmo que chegue a um acordo e que ele seja até benéfico para a Rússia, isso terá que passar por Zelensky. Aquilo que eu penso é que Putin, ao pedir e ao deixar a porta aberta para que isso possa acontecer e não envolver os Estados Unidos, poderá estar a querer também cavalgar sobre uma vitória de um acordo ou de um cessar-fogo. O que eu quero dizer com isto? Quero dizer que acontecendo um acordo de cessar-fogo em que esteja Putin ou as suas entouras, portanto, os seus gabinetes e Zelensky, e não esteja nesse encontro os Estados Unidos, Putin poderá sempre dizer: "Fui eu que consegui. Estão a ver? Eu fiz o que tinha que ser feito na Ucrânia, garanti que os territórios ficavam sob o nosso controle e consegui com Zelensky chegar a um acordo sem a interferência dos Estados Unidos". Isso para ele, em termos de ego, em termos de orgulho da pátria russa e em termos estratégicos, é muito importante. Agora, Donald Trump querá apanhar para não estar-
Vladimir Putin é capaz de encontrar-se com Zelensky sem a presença de grandes líderes mundiais, tendo em conta aquela perspectiva que temos desde o início do conflito, de que para Putin, a Ucrânia é um território que pode ser anexado e é um território de dimensão inferior. Vê, neste caso, Putin encontrar-se com Zelensky sem mais ninguém mediar esse encontro?
Há duas visões para esse tipo de resposta. Ou Putin continua nesta saga e continua com a guerra, e aí essa é a sua visão, ou Putin pensa que está no ponto em que pode conseguir um cessar-fogo e um acordo que lhe permita, internamente e exteriormente, dizer: "Eu ganhei esta guerra porque garanti estes territórios". E nessa medida, parece-me que Putin pode aceitar estar com Zelensky para firmar esse acordo. Parece-me menos provável que Putin aceite ser mediado pelos Estados Unidos e Donald Trump dizer que foi ele que conseguiu convencer Putin. Isso parece-me menos viável, até porque Putin fica mais fragilizado com isso. Até porque as próximas relações, em termos internacionais, se Putin conseguir sentar-se à mesma mesa com Zelensky, poderão ser uma maneira de Putin começar a normalizar algumas das sanções que foram impostas por muitos países mundiais.
Quanto àquilo que deve ser discutido nesse encontro, a questão do território e da possibilidade da Ucrânia renunciar a território, tem de estar em cima de uma negociação destas?
Eu penso que Zelensky, como ele já próprio disse, não vai renunciar a território. Aquilo que eu penso, e poderá ser essa provavelmente a única solução para essa situação dos territórios, é a Rússia garantir que tem controle sobre esse território, mas Zelensky não admite que esse território é russo. Aquilo que admite é que o que está, está. Muito pouco se falou nisto, mas o acordo de Minsk dos Estados Unidos está assinado para 10 anos. Há aqui, de certa forma, alguma visão de Zelensky no pós-guerra. Eu acho que Zelensky quer garantir neste acordo uma visão e uma esperança aos ucranianos para que mais tarde, provavelmente com outro presidente do lado da Rússia e provavelmente com outro presidente do lado da Ucrânia, possam recuperar os territórios que hoje vai deixar como ocupação russa. Isso poderá ser conseguido no papel de diversas formas, não conhecemos todas, mas penso que este poderá ser o ponto de entendimento dessas negociações. Zelensky admitir que o território está ocupado pela Rússia e não vai retaliar sobre isso, é a Rússia que tem o controle, mas também não diz que aquele território pertence à Rússia. E a Rússia sabe que tendo o controle do território, poderá fazer o que quiser naquele território. Eu penso que é por aqui que terá que passar o acordo de paz.
Como é que isso fica para uma possível entrada da Ucrânia na União Europeia? Que território é que passa a ser reconhecido pela União Europeia num cenário desses?
Hoje já são perguntas difíceis, Nuno Guerra, mas eu vou tentar responder. Aquilo que me parece é que a União Europeia terá também de estar em contacto com Zelensky sobre este assunto e havendo uma abertura de Moscovo para que a Ucrânia, e Lavrov disse isso uma ou duas vezes, já publicamente, que não aceita que estejam tropas de quaisquer alianças, portanto, OTAN ou de outros países da União Europeia em território ucraniano, mesmo que seja em manutenção de paz, isso ele não aceita. A Rússia não aceita isso, mas aceita economicamente que a Ucrânia possa entrar na União Europeia. Que parte é que possa entrar? Aquilo que a Rússia vai dizer é que pode entrar aquela que está sob o controle de Kiev. E aí vamos perceber se a União Europeia abre uma exceção para que entre um país que não tenha conflitos em curso e que isso seja um dado adquirido por parte também de Kiev e por parte de Moscovo. E é esta barreira muito ténue que é difícil de percebermos aqui no próximo ano, provavelmente, e como é que ela fica explanada sobre os tratados e sobre aquilo que possa acontecer nesta matéria.
Muito bem. Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa. Muito obrigado por ter participado nesta edição do "Gabinete de Guerra". Estamos de regresso amanhã, novamente, para analisar os conflitos em curso.