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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Neste fim de semana em que Donald Trump decidiu levantar as sanções impostas à importação de gasóleo russo, ouviu críticas de Volodymyr Zelensky, não gostou e ripostou. O presidente dos Estados Unidos diz que é tempo da Ucrânia encontrar um novo presidente, um presidente que não ataque refinarias russas e que consiga chegar a um acordo com Moscovo. Mas as últimas horas ficam também marcadas por um novo ataque ao aeroporto de Riade, na Arábia Saudita. Doze mortos. Tudo aponta para uma iniciativa do movimento Huti do Iémen, um ataque que leva o presidente norte-americano a admitir a possibilidade de se juntar ao regime saudita para combater o grupo xiita apoiado pelo Irão. É por aqui que começamos a conversa com Liliana Reis, especialista em Relações Internacionais, nossa convidada deste Gabinete de Guerra da manhã de domingo. Bom dia, bem-vinda, Liliana Reis, obrigado pela disponibilidade. Está aqui a desenhar-se uma nova frente de guerra para os Estados Unidos no Médio Oriente?
Naturalmente. Aliás, aquilo que nós neste momento conseguimos já perceber é que não é só esta frente. Temos também com o Irão e também na Ucrânia, que parece que Donald Trump está a querer demitir-se totalmente da segurança ucraniana. Relativamente a Riade, aquilo que nós percebemos é que depois dos ataques que tinham acontecido nas últimas duas semanas a várias infraestruturas petrolíferas, aquilo que ontem sucedeu no aeroporto, aliás, nós estamos a falar de 12 mortos e mais de 300 feridos, vai impelir, naturalmente, os Estados Unidos a intervir para a proteção do seu aliado da Arábia Saudita. Agora repare, o que nós podemos ter aqui é uma frente, e deve merecer a preocupação dos europeus, que pode também comprometer, do ponto de vista da segurança marítima, o Estreito de Bab-el-Mandeb e também a navegação no Mar Vermelho. Ora, se nós já temos o Estreito de Ormuz bloqueado e que nos tem provocado, do ponto de vista económico, os constrangimentos que tem provocado, se porventura o Estreito de Bab-el-Mandeb também ficar condicionado e a navegação for afetada, naturalmente que sairão daqui problemas adicionais. Eu estava a falar aos europeus, mas também ao resto do mundo.
Consequências em todo o mundo.
Sim, com consequências complicadas em relação a todo o mundo.
Liliana Reis, só acrescentar isto numa altura em que, por exemplo, há pouco olhava para a cotação do barril de Brent, que serve de referência para Portugal e para os países europeus, e o barril de Brent está a ser negociado a 104 dólares.
Pois, por isso é que eu falava que as consequências económicas podem ser mesmo desastrosas. Mas repare, isto, o que me parece é que também está a ter mão do Irão. Primeiro foi com o Hamas em Gaza, depois com o Hezbollah no sul do Líbano e agora temos os Houthis no Iémen. Ora, naturalmente que esta dispersão de meios e de recursos norte-americanos, se porventura os Estados Unidos também tiverem que projetar poder militar para a região, para o Mar Vermelho e para o Estreito de Bab-el-Mandeb, naturalmente que terão menos recursos para depois confrontar o Irão e também proteger o aliado de Israel na outra região. Ora, nós o que temos aqui também, e deve ser sinalizado, é que há aqui uma tentativa, por parte do Irão, de destabilizar todo o Médio Oriente para poder reconfigurar a segurança regional de uma forma mais abrangente e mais alargada que o beneficie e naturalmente ameace alguns dos líderes atuais da região, como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos, mas também aquilo que tem sido a influência norte-americana na região. E por isso deve preocupar também a Europa.
Este é o terceiro ataque, de resto, dos Houthis em poucos dias contra o Aeroporto Internacional de Riade. Porquê agora? Há alguma explicação para esta concentração de ataques precisamente neste tempo?
A concentração dos ataques é exatamente para destabilizar a Arábia Saudita. Repare que os ataques iniciaram-se, sobretudo, como eu estava a dizer, em infraestruturas energéticas e sobretudo petrolíferas e refinarias. Neste momento já vão para infraestruturas críticas de domínio civil, como é o caso do aeroporto. Este alargamento do tipo de alvos, aquilo que sinaliza é que os Houthis, pelo menos neste momento, querem criar aqui um dilema de segurança para Washington, que é se os Estados Unidos estão mesmo disponíveis a fazer uma retração de força que está sobretudo localizada no Médio Oriente e deslocalizá-la também para aquela região, ou se, por outro lado, não vão ajudar a Arábia Saudita. E, por outro lado, também condicionar o governo do Iémen a nível interno. Também não nos podemos esquecer desse aspeto, porque depois destes ataques, o governo do Iémen ainda se encontra mais fragilizado e está completamente, eu diria, mais do que fragilizado, quase instrumentalizado pelos Houthis neste momento.
Saltamos para a guerra no leste da Europa, que se traduz por estes dias numa guerra de palavras entre Trump e Zelenskyy, a pretexto da decisão dos Estados Unidos de levantar as sanções à importação de diesel da Rússia. O que leva os Estados Unidos a tomar esta decisão? A cotação do Brent nos mercados internacionais, que há pouco falávamos. Tudo vale nesta altura para estancar a subida de preços, mesmo que isso contribua, como argumenta Kiev e também a União Europeia, para alimentar a máquina de guerra da Rússia?
Claro que sim. Aliás, a primeira leitura que nós podemos fazer é que estas palavras de Donald Trump, aquilo que estão a procurar é, de certa forma, quase ajudar Vladimir Putin. Repare, Vladimir Putin, nos últimos tempos, também tem vindo a consolidar alguns ganhos territoriais e com os ataques sucessivos. Nós ainda ontem tivemos um ataque bastante forte a Zaporizhzhia. Exatamente, que provocou cerca de 20 mortos. Estas palavras de Donald Trump, aquilo que nos sugerem é que está a acompanhar o discurso de Putin em dividir as sociedades europeias, que temos visto também que estão numa situação bastante frágil, com vários problemas ao nível da coesão social e, por outro lado, também a minar a coligação ocidental entre os Estados Unidos e a Europa. Pelo menos, a leitura que faço destas palavras de Donald Trump é que, por um lado, está a querer pressionar Zelenskyy a interromper os ataques às refinarias russas. Isto vai ao encontro sempre de uma lógica transacional, de olhar para as relações internacionais que Donald Trump tem tido.
Uma perspectiva comercial.
Exatamente. Muito virada para essa lógica mais comercial. E depois, como se estão a aproximar também as eleições norte-americanas, as midterm, Donald Trump procura aqui ganhos imediatos e não consegue compreender que este entendimento com Putin sobre o gasóleo e, naturalmente, o alívio temporário das restrições norte-americanas pode, do ponto de vista estratégico, fragilizar os Estados Unidos de uma forma que ele próprio não está a perceber. Até porque, neste momento, e o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano também já veio dizer que Zelenskyy é um líder legítimo e continua a contar com o apoio dos ucranianos, e a substituição não depende daquilo que seja as ambições por parte da administração norte-americana. A sua substituição depende de eleições na Ucrânia.
Liliana, deixe-me só contextualizar aquilo que diz, porque Trump voltou a sugerir que o melhor seria os ucranianos terem outro presidente. Está aqui aberto o caminho para uma diminuição do apoio norte-americano à Ucrânia nos tempos mais próximos?
Pelo menos o Financial Times ontem vinha alertar que os Estados Unidos terão advertido também Kiev de que a continuação destes ataques por parte dos ucranianos a algumas refinarias e a algumas infraestruturas russas poderia pôr em risco o apoio de informações militares até dos Estados Unidos à Ucrânia. Parece-me óbvio que há aqui uma tensão crescente entre os Estados Unidos e a Ucrânia. Neste momento, os Estados Unidos estão a fazer escolhas, como eu falava logo no início, a propósito das várias frentes e da dispersão de recursos. E o que começa a ser cada vez mais claro é que Donald Trump não está disponível para continuar a assegurar também a segurança na Ucrânia e que terá que ser feita pelos próprios e pelos europeus. Só que repare que a União Europeia, do ponto de vista das suas capacidades militares, não se compara àquilo que são as capacidades militares norte-americanas. Isto por um lado. Por outro lado, Donald Trump pode, do ponto de vista transacional, perceber que o Médio Oriente, por um lado, o Irão, por outro lado, a Arábia Saudita, a proteção da Arábia Saudita e a fragilização do Irão, lhe dão ganhos imediatos muito maiores do que a Ucrânia. Agora, esta aliança entre Vladimir Putin e Donald Trump pode ser muito perigosa, sobretudo para a Europa.
Já falou esta questão, mas pergunto ainda assim se tem a União Europeia capacidade para substituir ou pelo menos amenizar a redução da ajuda dos Estados Unidos, caso venha a concretizar-se, como tudo indica.
A Europa tem capacidade, desde que se mantenha unida. Não tem, como eu dizia, naturalmente, as mesmas capacidades militares que os Estados Unidos têm. Mas neste momento, grande parte da defesa ucraniana já é desenvolvida também por capacidades feitas pelos próprios ucranianos. Aliás, a Ucrânia está com desenvolvimento tecnológico e industrial muito forte. Ainda na semana passada, aqui também no Gabinete de Guerra, eu destapava que a visita do Merz também sugeria aqui possíveis acordos no domínio da defesa entre os alemães e os ucranianos, por causa da transferência de conhecimento e por causa da introdução da Ucrânia na base tecnológica e industrial de defesa europeia Por isso, há aqui um esforço por parte de alguns Estados europeus, nomeadamente a Alemanha, em relação à manutenção do esforço ucraniano. Repare que o esforço ucraniano não é um esforço de guerra, é um esforço de defesa. Os europeus têm que perceber isso de forma muito contundente. Me parece que às vezes também não compreendem. Mas, por outro lado, relativamente à Europa, aquilo que começa a preocupar é a fragilidade da coesão interna, não apenas entre os 27 Estados-membros, mas dentro dos 27 Estados-membros, com várias posições, neste momento, cada vez mais antagônicas em relação à defesa da Ucrânia e à sustentabilidade deste apoio à Ucrânia, por um lado, e por outro lado, também à defesa do próprio inimigo. Nós temos cada vez mais vozes que nos vêm colocar no espaço público a defesa da Rússia e o empurrar da Ucrânia para negociações, a defesa do Irã, a defesa de movimentos terroristas como o Hamas, como os Houthis, como o Hezbollah. Até porque também somos democracias e convém que continuemos a sê-lo, temos aqui o destapar da fragilidade das democracias liberais, como são as democracias europeias.
A Liliana Reis há pouco punha em evidência as eleições intercalares nos Estados Unidos. Esta aparente aproximação da Casa Branca ao regime de Vladimir Putin traz alguns ganhos eleitorais ao Partido Republicano e a Trump?
Trump está a pensar que o ganho mais imediato pode ser a diminuição do preço do Brent nos mercados internacionais. Há pouco alertava que já estava nos $104 o barril. O que ele procura neste momento é que efetivamente este alívio das sanções, por um lado, dos Estados Unidos à Rússia e, por outro lado, a colocação de mais petróleo nos mercados, nomeadamente o fornecimento de gasóleo, estou a falar já do produto refinado, nos mercados, pode efetivamente levar a uma descida do preço. Mas repare, isto poderia acontecer se não estivéssemos a presenciar crises sucessivas. Olha, se o Estreito de Bab-el-Mandeb e os Houthis continuarem a atacar a Arábia Saudita, isto não vai acontecer. E por isso é que me parece que, por parte do Donald Trump, talvez fosse prudente ouvir um pouco mais Marco Rubio, aquilo que tem dito também em relação à necessidade de preservação da aliança entre os Estados Unidos e os europeus.
Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e chefe da diplomacia dos Estados Unidos. Ainda temos aqui alguns minutinhos, se calhar regressávamos ao Médio Oriente. Na Cisjordânia, notícia das últimas horas, novos ataques de colonos israelitas contra agricultores palestinianos. Como é que se combate o radicalismo e extremismo palestiniano permitindo o radicalismo e o extremismo judaico?
Sabe que isto, de um ponto de vista dialético, vão se alimentando. Ou seja, é o funcionamento do poder da forma mais crua que pode existir. Aquilo que neste momento nós observamos, até pelos ataques na Cisjordânia, é uma procura por parte também de Israel, de limitar aquilo que possa ser o crescimento da influência palestiniana daquele lado. Ou seja, uma vez que Gaza está muito fragilizada, houve uma deslocação quase para o outro lado e a maior parte do mundo não compreende e provavelmente nós também não compreendemos. Agora, a situação que está a acontecer é que, por um lado, está a fragilizar o apoio da opinião pública mundial em relação a Israel, que já estava bastante fragilizada depois daquilo que tem sido também a condução das operações em Gaza e a legítima defesa depois dos ataques de 7 de outubro, que aliás se assinalou esta semana, por parte de Israel. Por outro lado, aquilo que está também a condicionar pode ser as próprias eleições. Há pouco falávamos das eleições norte-americanas, mas Israel também terá eleições no final deste mês. E nós não sabemos ainda os resultados, nem conseguimos antecipar os resultados destas eleições para o Knesset, mas podemos ver pelas projeções que pode haver, efetivamente, uma subida da extrema-direita no Knesset. E isso é também resultado da insegurança crescente que os israelitas têm sentido nos últimos três anos. E não são apenas os israelitas que sofreram os ataques mais diretos no 7 de outubro no sul de Israel. É toda a sociedade que ainda está, e estará durante muitos anos, traumatizada por aquilo que aconteceu no dia 7 de outubro.
Liliana Reis é especialista em Relações Internacionais e ajudou-nos a analisar alguns dos temas que vão marcando a atualidade internacional, temas relacionados com conflitos. Obrigado, Liliana Reis.
Muito obrigada e um bom domingo.
Obrigado, Liliana Reis. Fica por aqui esta edição de domingo de Gabinete de Guerra.