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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. São duas guerras em curso em partes bem diferentes do mundo, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Nos próximos minutos vamos falar sobre esses dois conflitos em curso, com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis, a quem desejo desde já muito boa tarde, Bruno. Boa tarde. Viktor Orbán diz que sem Biden o conflito na Ucrânia não existia e deixa elogios a Donald Trump. Diz o líder do governo da Hungria que há dois presidentes norte-americanos, um apoia a guerra, outro é pela paz. Esta leitura de Viktor Orbán da posição dos dois presidentes é adequada?

Não é surpreendente, corresponde muito àquilo que ele pensa. Orbán, como aliás uma série de figuras próximas de Donald Trump, tem uma simpatia declarada por Putin e pelo regime Putin. O que eles gostavam era destruir uma democracia pluralista plena para substituir por eleições de fachada e uma completa concentração de poder, neste caso, no chefe do Executivo, no caso da Hungria, do Orbán. Essa simpatia também, pelos vistos, tende-se a entender que a Rússia pode invadir em paz os países que entender e que alguém atrever-se a exercer aquilo que é um direito, mas até um dever, de acordo com a Carta das Nações Unidas, que é ajudar um país que está a ser agredido, que está a ser atacado, que está a ser alvo de uma guerra de agressão, de conquista, ajudar esse país a defender-se, que isso é que é o problema. O problema não é a Rússia de Putin ter decidido invadir a Ucrânia, é a Ucrânia ter decidido defender-se e ter tido apoio dos países ocidentais. Essa é uma das teorias da guerra. É verdade que se a Ucrânia se tivesse rendido, não havia guerra. Também é verdade que se a Hungria em 1956, os nacionalistas húngaros em 1956 não tivessem resistido à invasão soviética, também não tinha havido conflito. Pelos vistos, o presidente Orbán achou que o problema em 1956, da invasão russa da Hungria, que de acordo com o nacionalismo húngaro, de que ele é um grande representante, foi uma heroica resistência a uma terrível invasão soviética, e foi uma vergonha que o Ocidente na altura não tivesse entrado militarmente na Hungria com tropas para apoiar essa resistência nacional, pelos vistos agora acha que isso foi um erro histórico trágico e que o que devia ter acontecido era os húngaros terem se rendido aos invasores soviéticos.

Praticamente dois pesos pra duas medidas. Bruno, o jornalista comentador norte-americano Tucker Carlson esteve em Moscovo, entrevistou Sergei Lavrov e nessa entrevista que hoje foi publicada, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros disse que Donald Trump é uma pessoa muito forte, amigável nas conversas e acrescenta que uma bola pra um cessar-fogo está do lado de Donald Trump pra resolver a guerra na Ucrânia. Ainda assim, Sergei Lavrov faz questão de vincar que Trump não é pró-russo, como muitas pessoas o querem fazer parecer. Estou a citar aqui um excerto da entrevista e recorda a quantidade de sanções que Moscovo, que a Rússia recebeu durante a administração de Donald Trump, foi muito elevada. Esta simpatia que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, o líder da diplomacia russa, tem por Donald Trump parece ser evidente, mas Sergei Lavrov quer passar esta mensagem: "Donald Trump não é pró-russo." Tem razão?

É extraordinário. Nós temos o ministro dos Negócios Estrangeiros de um país que tem na sua doutrina estratégica, nos seus documentos orientadores como um dos seus objetivos prioritários combater a influência dos Estados Unidos no mundo, acabar com o sistema em que eles consideram ilegítimo os Estados Unidos ter tanta influência na Europa e no resto do planeta, vir defender um presidente dos Estados Unidos. À partida eu diria que isso é capaz de ser um pouco suspeito. É capaz de haver aqui qualquer coisa de estranho. É verdade que no primeiro mandato Donald Trump esteve longe de ceder em tudo à Rússia, mas isso foi o resultado, sobretudo da pressão no Congresso e até dentro do seu próprio governo, de setores de republicanos mais tradicionais, na linha do Partido Republicano que nós nos habituamos durante muitas décadas, do Ronald Reagan, de Eisenhower, etc. Que realmente tinha na promoção da democracia uma prioridade, que tinha na resistência às ditaduras e à sua influência global uma prioridade, que via a Rússia e a União Soviética, no mínimo com desconfiança e em muitos casos como uma potência hostil. Isso não se deveu a Donald Trump, aconteceu na minha interpretação, apesar de Donald Trump, porque Donald Trump ainda estava longe de controlar completamente o Partido Republicano-

Como controla hoje

...o Congresso e até o seu próprio governo, que tinha muita gente que nós sabemos ativamente procurou desviá-lo daquilo que eram as suas inclinações, por exemplo, favoráveis a Putin. Lá está, tudo isto é bastante estranho, é bastante bizarro e deve nos fazer suspeitar de quais são as reais intenções de Donald Trump em relação à Rússia, embora também seja verdade que embora o presidente tenha um enorme poder na política externa, isto também mostra que não tem um poder absoluto. Sobretudo, do meu ponto de vista, aquilo que poderá limitar a aproximação entre Donald Trump e a Rússia é ele perceber que isso pode ter custos pra sua imagem, sobretudo pra sua imagem de força E prestígio a nível interno. Se ele começar a perceber que entre os seus apoiantes este espetáculo de cedências à Rússia é mal visto, isso pode eventualmente levá-lo a mudar de posição e acho que o Kremlin até tem alguma razão em não dar por adquirido que vai ter em Donald Trump um aliado seguro.

Bruno, uma última pergunta a olhar para a Europa. Hoje mesmo o Tribunal Constitucional da Roménia veio anular os resultados da primeira volta das eleições presidenciais, uma decisão da Justiça que está a ser descrita como sem precedentes, tomada apenas dois dias da segunda volta e definitiva. Esta decisão foi tomada depois do presidente do país, da Roménia, ter desclassificado informações que alegavam uma campanha russa em grande escala para promover um dos candidatos, o ultranacionalista que venceu na primeira volta. Depois da Geórgia, esta intervenção russa em processos eleitorais, em governos no continente europeu é um cenário cada vez mais preocupante?

Aquilo que a Rússia tem estado a fazer em termos de escalada contra a Europa não é a Terceira Guerra Mundial, não é um alargamento num conflito convencional ou nuclear, porque isso seria terrível para a própria Rússia, é realmente uma escalada na desinformação, na interferência política eleitoral e em ações de sabotagem. Temos indícios muito fortes, nalguns casos provas de provavelmente mais de uma centena de incidentes graves com explosivos, de sabotagem, de tentativas de assassinato etc., em vários países europeus. O que eu estranho é que a Europa não seja mais assertiva a responder a esta parte das ações de sabotagem do que é essa dimensão. No caso da Roménia, que houve interferência russa parece-me bastante evidente. Também me parece questionável que um tribunal anule eleições que vão entrar na segunda volta daqui a dias sem provas muito fortes de fraude generalizada, de uma interferência que tivesse um impacto brutal nas eleições. Eu tenho muito também esta tese que é: eu acho que a desinformação russa é inaceitável e deve-se procurar ativamente denunciá-la e tentar combatê-la, dar pelo menos a possibilidade às pessoas de perceberem o que está a acontecer, mas também me parece que muita dessa desinformação é comprada pelas pessoas porque as pessoas querem comprar, porque ideologicamente têm simpatias pelo regime Putin ou porque a desinformação russa no fundo alimenta narrativas que ideologicamente eles acham convenientes, que já correspondem àquilo que eles pensam e tenho dúvidas que isto seja a melhor decisão, que seja a decisão mais sensata, mas isso não quer dizer obviamente que eu não considere que é inaceitável uma interferência russa nas eleições europeias, que é uma parte desta guerra híbrida que a Rússia tem estado a fazer contra os países europeus, aliás já antes da invasão da Ucrânia em 2022, mas muito mais intensa a partir daí.

Olhando para o Médio Oriente, Bruno, as Forças Armadas de Israel, as Forças de Defesa de Israel, disseram hoje ter bombardeado o que chamaram de rotas de contrabando de armas na fronteira entre a Síria e o Líbano, um ataque que surge já uma semana depois do cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah. O que eu pergunto é se com estas notícias recorrentes de ataques de parte a parte, se achas que o cessar-fogo está ou não para durar.

Realmente o Médio Oriente está numa situação extremamente volátil, o próprio regime sírio está em sério risco, mas que é aqui uma plataforma logística fundamental para o Irão no apoio ao Hezbollah. Não é por acaso que Israel tem atacado muito também na Síria. Isso aliás ajudou a enfraquecer muito o regime, como aliás os próprios ataques ao Hezbollah. Mas no fundo aqui a questão do cessar-fogo, eu volto ao ponto que fui referindo, que era muito difícil de acontecer esse acordo, apesar de tudo mais fácil no Líbano, mas sobretudo era muito difícil de implementar, porque as partes têm uma enorme desconfiança. Israel sinalizou logo que se ia reservar o direito de continuar a atacar o Hezbollah se achasse que estavam a violar o cessar-fogo. Tipicamente não é isso que acontece no cessar-fogo. Como o nome indica, quando cessa o fogo, cessa o fogo. Se há violações, elas são reportadas às potências garantes desse cessar-fogo e que lidam com isso. Estamos numa situação em que há dezenas e dezenas de ataques, parece-me que já é no mínimo um cessar-fogo extremamente frágil e eu acho que a qualquer momento pode realmente colapsar completamente se o Hezbollah decidir que também é altura de recomeçar os seus ataques contra Israel.

Bruno Cardoso Reis no Gabinete de Guerra desta tarde. Muito obrigado, Bruno. Estivemos a olhar a guerra na Ucrânia e a guerra no Médio Oriente. O Gabinete de Guerra volta já na segunda-feira.

Obrigado.