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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de António José Telo, antigo professor na Academia Militar. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E começamos, inevitavelmente, pelo Irão. Donald Trump anunciou hoje que o cessar-fogo acabou, diz que os iranianos são doentes e que é uma perda de tempo lidar com eles. Era este o desfecho que esperava depois de tanto tempo para conseguir alcançar o memorando de entendimento?

Não é a primeira vez que o presidente Trump nos surpreende com frases bombásticas e com adjectivos fortes. Ora bem, o cessar-fogo já terminou várias vezes, já houve vários ataques a navios, aos quais os Estados Unidos responderam com ataques seus às defesas no Estreito de Hormuz e nas defesas no litoral do Irão. Esta afirmação de que o estado de cessar-fogo acabou, entendida essa luz, é verdade. Mais uma vez o cessar-fogo não foi aceite por ambos os lados e foi cortado por ambos os lados com iniciativa partir do Irão, o ataque aos três navios que foram feitos, única e exclusivamente, como parece, porque resolveram viajar do lado de Omã e não do lado do Irão. Isso é uma questão. Outra questão é: o cessar-fogo terminou para sempre, acabou o protocolo de entendimento e acabaram as negociações? Sobre essa parte tenho dúvidas. Ou seja, penso que há um incentivo de ambos os lados para fazerem aceitar a letra do protocolo de entendimento, o que pode implicar, neste momento, um aumento da utilização da força por parte dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não podem pura e simplesmente ficar quietos perante três navios que são atacados a partir do Irão, mas de no entanto tentar, no essencial, manter a ideia de negociações que se prolonguem durante alguns meses. Isto interessa aos Estados Unidos e interessa talvez ainda mais ao Irão. Portanto, para além do radicalismo normal neste período das funerais no Irão e para além do ar quente produzido fortemente pelo Irão com apelos ao assassinato do presidente Trump e a todos os dirigentes americanos, para além disso, mantém-se esta realidade. Portanto, é normal que os Estados Unidos deem um sinal ao Irão de que têm a capacidade de aumentar o seu castigo das defesas do litoral e do Estreito de Hormuz, mas também é normal que havendo um recuo por parte do Irão em termos de actos hostis, os Estados Unidos venham a aceitar esse recuo. Portanto, sim, formalmente o cessar-fogo foi interrompido. Talvez não que o cessar-fogo tenha sido interrompido para sempre, já não tenha futuro.

Portanto, acha que isto não deve ser encarado com muita seriedade, é apenas mais um exagero de Donald Trump, como habitualmente?

Não, isto tem muita seriedade, ou seja, o Irão fez uma escalada forte ao atacar esses três navios. Essa escalada, ainda por cima, tem um objectivo perfeitamente claro, quer dizer: "Vocês têm que passar pelas rotas que nós indicamos no Estreito de Hormuz, que são as rotas perto da nossa costa, onde os vossos navios são vulneráveis, e se isso não for feito, nós atacamos. Nós atacamos os navios que tentem passar justamente na zona de Omã e na zona dos Emirados". Portanto, isto é um erro sério. E sem dúvida, se justifica, na minha opinião, uma resposta forte por parte dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não podem aceitar isso, porque isto era ignorar por completo a letra do protocolo de entendimento, que previa a abertura do Estreito de Hormuz claramente sem que obrigasse os navios a passar pelo lado iraniano e mais do que isso, sem aceitar o pagamento de taxas e de impostos por parte do Irão em relação a esses navios. Era necessário uma resposta forte.

Quando lhe perguntava da seriedade, era relativamente ao fim do cessar-fogo, portanto, acha que pode não ser definitivo isto?

Acho que pode não ser definitivo. Acho que é normal que esta noite ainda haja um ataque forte por parte dos Estados Unidos e que de alguma maneira, com eventualmente uma pequena interferência da China e do Paquistão, o Irão se diga a aceitar, nomeadamente a passagem de navios pelo lado de Omã, e que a partir daí haja, de alguma maneira, um regresso às condições de um precário cessar-fogo, porque quer do lado do Irão, quer do lado do Líbanon, este cessar-fogo é praticamente diariamente desrespeitado, mas de qualquer modo, continua a existir em termos muito precários, pelo menos continuava até há poucas horas atrás. E pode voltar, como digo, nas condições que têm que passar por um aumento do castigo por parte dos Estados Unidos, de modo a fazer entender o Irão que não lhe compensa continuar por este caminho.

Entretanto, também na Cimeira da NATO, o secretário-geral, Mark Rutte, afirmou que os ataques norte-americanos ao Irão durante a noite foram absolutamente necessários. Disse também a Donald Trump que estava ao lado dele no que diz respeito ao Irão. Ora, estas declarações surgem depois das repetidas críticas do presidente norte-americano aos aliados da NATO por alegadamente os países da Aliança Atlântica não apoiarem os Estados Unidos neste conflito. Mark Rutte está aqui a tentar rebater estas críticas e mostrar-se do lado de Washington?

Mark Rutte, o secretário-geral. Está a falar do secretário-geral da NATO, não é? O secretário-geral da NATO está a seguir a tendência geral da NATO e, nomeadamente, esta Cimeira fez sair um documento, que é o único documento, um documento conjunto assinado por todos os membros da NATO e, tanto quanto se percebe, é unânime. Esse documento, que é muito curto, tem seis pontos, mas o sexto ponto é agradecer à Turquia pela hospitalidade. Portanto, tem cinco pontos. O quinto ponto diz que a NATO concorda que o Irão nunca deverá ter armamento nuclear e deve respeitar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. Isto é, de facto, a NATO a dizer oficialmente, é um memorando de todos os membros da NATO, inclusive a Turquia, que concorda com os principais objetivos da guerra que antes existiu. É pena que certos Estados da NATO, felizmente não todos, não tenham feito uma declaração semelhante antes, quer dizer: "Nós concordamos com estes objetivos", e eventualmente poderiam acrescentar, já teria um efeito diferente, pois dizerem que concordam com os objetivos, poderiam acrescentar: "No entanto, não temos meios e capacidades suficientes para fazer uma intervenção militar efetiva ao lado dos Estados Unidos. Como tal, estamos a prepará-los e a estudá-los, mas não vamos fazer essa intervenção de imediato". Não fizeram isso. Pior que isso, houve alguns que durante pouco tempo cortaram o espaço aéreo e impediram, pelo menos oficialmente, na prática não foi assim, o uso das bases no seu território. Depois voltaram logo atrás. Foi o caso do Reino Unido, da França, da Alemanha em menor grau, também da Itália, mas também recuaram. Portanto, os principais Estados europeus da NATO, Reino Unido, França, Alemanha e Itália, fizeram um erro e depois a seguir recuaram logo. Passado dois dias já estavam a voltar atrás. Se tivessem feito o que está neste ponto quinto do memorando da NATO, se isso tivesse sido dito à partida, teria sido bastante melhor para a NATO e, sobretudo, para os aliados europeus da NATO, e evitaria, nomeadamente, fazerem o que estão a fazer neste momento, porque quem está a perder a face não é o secretário-geral da NATO, quem está a perder a face, de facto, foram os principais países da NATO, que tomaram uma posição impensada e que agora estão a recuar. Estão a dizer: "Não, a NATO aceita que o Irão nunca deve ter armamento nuclear e que tem que aceitar a liberdade de navegação em Ormuz". É o ponto quinto do memorando, aprovado por unanimidade. Já agora, os outros pontos vão todos no sentido do que os Estados Unidos estavam a propor à NATO, com uma exceção, que não deixo de mencionar, que é uma exceção com a qual fiquei um bocado admirado pela sua inclusão, que é o ponto quatro. O ponto quatro do memorando diz que a NATO continuará a apoiar a Ucrânia na sua guerra contra a Turquia, embora depois acrescente que esse apoio nos últimos tempos tem sido dado principalmente, podia-se dizer quase exclusivamente, pelos parceiros europeus e pelo Canadá. Inclusive apresenta uma quantificação, diz que corresponde a 70 bilhões de dólares neste ano, em 2006, e que a NATO está disposta a renovar um montante semelhante para o próximo ano. Portanto, isto também é incluído. Isto é uma concessão importante dos Estados Unidos, em que os Estados Unidos, ao fim e ao cabo, estão a rever também aqui o que era uma sua posição anterior, que era a posição de forçar uma paz em relação à Ucrânia, que a Ucrânia não estava disposta a aceitar. Com a aceitação deste ponto no memorando da NATO, é uma concessão importante dos Estados Unidos. Portanto, há concessões de ambos os lados, mas as principais concessões são, de facto, do lado europeu, que em certa medida é um meia culpa, meia culpa. São os principais Estados europeus a dizerem, sem o dizerem com todas as palavras: "Errámos, foi um erro de avaliação e recuamos".

Entretanto, Donald Trump cortou também todas as relações comerciais com a Espanha, é pelo menos isso que disse hoje, e referiu-se a Madrid como um parceiro terrível na NATO.

Não é a primeira vez que Donald Trump diz uma coisa que depois não faz. Não é a primeira vez que faz afirmações mais ou menos irrealistas e disparatadas, que depois não têm aplicação. Para começar, as relações comerciais com a Espanha, Estado a Estado, são muito reduzidas. Como o governo espanhol diz, e diz muito bem, elas são de empresas privadas e tão-só há relações comerciais. E em segundo lugar, as relações que existem Estado a Estado, em termos comerciais, estão marcadas por um acordo geral dos Estados Unidos com a União Europeia. Portanto, não há um entendimento específico Estado a Estado, bilateral, comercial entre Estados Unidos e a Espanha. Por outro lado, também o corte de relações completo. Bom, o próprio Trump já voltou atrás. O próprio Trump, na última conferência de imprensa que eu lhe vi É certo que já foi há coisa de uma hora e numa hora Trump pode mudar outra vez de opinião, mas de qualquer modo, na última conferência de imprensa que eu ouvi, ele dizia que inclusive um Estado, não disse qual, mas era evidente que era a Espanha, dizia que na cimeira da NATO, numa cimeira à porta fechada, houve muito amor, houve muito respeito e elogio aos Estados Unidos. Até acabei por dizer que foi para mim, que é para não ser acusado de ser demasiado vaidoso. Mas houve muito elogio aos Estados Unidos, houve muito amor na sala e inclusive um dos Estados que teve atitudes menos próprias, voltou atrás e neste momento já tem uma posição diferente e nós estamos dispostos a rever a nossa posição com ele a essa luz. Portanto, o próprio Trump já mudou de opinião, essas coisas mudam muito rapidamente. Nos tempos que correm, o que é dito agora, às 16h00, às 17h00 possivelmente já não é bem assim.

Vamos continuar com Donald Trump, mas vamos agora olhar para a Ucrânia, também à luz daquilo que já falou aqui. O presidente norte-americano disse hoje que Putin e Zelensky vão chegar a um acordo, diz que às vezes é preciso deixá-los lutar. Acredita nisto, que eventualmente vão chegar a um acordo?

É normal que sim. O presidente Zelensky, numa longa conferência de imprensa conjunta com Trump, que esteve a maior parte do tempo calado, é verdade, mas nessa conferência de imprensa por pouco as duas, por três não fugia a boca para a verdade. E o próprio presidente Zelensky disse que estamos muito perto de um acordo, que o acordo está a ser negociado, estamos muito perto de um acordo e há ainda pontos em aberto, mas deu a entender que, de facto, ele também estava à espera que houvesse um acordo, um entendimento a curto prazo. Agora, qual será a base desse entendimento? Sem dúvida, não será o retorno do território ucraniano indevidamente ocupado pela Rússia à Ucrânia, mas como já tenho dito e repetido, não sei, milhares de vezes, desde há cinco anos, quase, para cá, será algo semelhante ao que é a paz na península da Coreia, ou seja, os dois lados, sem se reconhecerem mutuamente e sem reconhecerem mutuamente o território ocupado, reconhecem que não querem continuar a guerra. E, portanto, não faz sentido continuar a guerra e que é feita uma trégua de longa duração. E no caso da Coreia, o que acontece é que essa trégua de longa duração, já lá vão 70 anos, portanto é mesmo de longa duração, volta e meia é interrompida, volta e meia há incidentes, há disparos de um lado e de outro, artilharia, mísseis, navios afundados, etc. Mas, no essencial, a trégua tem-se mantido há 70 anos, que não é tão pouco como isso. Portanto, é normal que haja um entendimento e que haja um entendimento, eu diria, vá lá para não ser demasiado otimista, mas que haja um entendimento ainda este ano, portanto, ainda no ano de 2026. E que o discurso de Zelensky, os discursos públicos, apontam claramente nesse sentido. E que esse entendimento deverá ser fundamentalmente negociado pelos Estados Unidos, mas em que os Estados Unidos aceitam que formalmente quem apareça à cabeça das negociações sejam os parceiros europeus. Agora, lá está, falta saber quem é que fala pela Europa, coisa que está longe de estar decidida. E nomeadamente, a Europa nem sequer conseguiu encontrar um seu representante em eventuais negociações de paz com a Rússia. A Europa não vai mediar, ela própria diz que não pode mediar porque apoia a Ucrânia, mas quer estar presente nas negociações. Mas estar presente com quem? Ainda não respondeu a isso. Pode ser que venha a responder dentro de curto prazo. Vamos a ver.

O nosso tempo chegou ao fim. António José Telo, antigo professor na Academia Militar, muito obrigada pela sua análise.

Obrigado e continuação do bom trabalho.

Obrigada. O Gabinete de Guerras está de regresso amanhã.