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Está reunido o Gabinete de Guerra da tarde em direto, hoje com o professor da Academia Militar António José Telo. Junta-se aqui ao Bruno Vieira Amaral e também à Vanessa Cruz. Vanessa, vamos olhar para novas acusações russas que têm como alvo os Estados Unidos, também para a aparente abertura de Moscovo para negociar e ainda para os encontros entre Vladimir Putin e o presidente da Bielorrússia. Em última hora, temos também uma nova decisão da Rússia relativamente ao petróleo.

Vladimir Putin decide proibir a venda de petróleo a partir de 1 de fevereiro aos países que impuseram um teto a essas importações de petróleo. Podemos começar já por aqui, professor António José Telo, obrigada por se juntar aqui ao Gabinete de Guerra. Esta decisão russa pode ser analisada facilmente como uma retaliação, até depois dessa visita de Volodymyr Zelensky aos Estados Unidos, e também às sanções que a União Europeia tem imposto a Moscovo, mas pode ter um efeito complicado?

Boa tarde. Tem que se inserir numa atitude geral da Rússia em relação a este inverno, que começa mal para ela. Foi um inverno que ela não conseguiu impor as suas condições durante o mês de dezembro. Estava à espera que as condições fossem mais favoráveis, nomeadamente através de movimentações no terreno que não conseguiu desencadear, pura e simplesmente. Ou não teve tempo para preparar os seus efetivos ou a desmoralização é demasiado forte para pensar-se em ofensivas fortes durante o mês de dezembro. O que significa que agora a sua condição está mais frágil. Esta proibição em termos do petróleo tem a ver com o facto de estar ligado com o gás natural e com o preço-limite, o teto, em relação ao gás natural. E é típico da atitude russa neste momento, que é uma atitude de fuga para a frente. É uma atitude de ofensiva diplomática e política no exterior, seguida de uma fuga para a frente, no sentido de tentar uma saída airosa num prazo relativamente curto para esta guerra, que será sempre muito difícil. Tem a ver também com as suas medidas, nomeadamente no que diz respeito à paz. A Rússia faz uma tentativa desesperada de aparecer como o partido de paz. No entanto, a sua atitude política é um recuo, inclusive em relação ao período anterior. Por exemplo, agora aparece a dizer que uma das condições de paz é a desnazificação da Ucrânia, coisa que falava no princípio da guerra, depois deixou de falar nisso e agora, de repente, foi recuperado e voltou a de cima. De mesma forma, parece dizer coisas que são de tal modo incríveis e novas nesse aspeto que mostram a fragilidade desta intenção. Por exemplo, uma das coisas que parece dizer é que as negociações têm que envolver todas as partes interessadas. Esclarece que por isso significa que as partes interessadas seriam pelo menos cinco, ou seja, seria a Rússia, seriam as quatro regiões que são independentes/anexadas pela Rússia de uma maneira unilateral e ilegal, e a Ucrânia. A Ucrânia ficaria sozinha perante cinco entidades russas ou claramente manipuladas pela Rússia.

António José Telo, parece-lhe que esta aparente abertura da Rússia para negociar pode ser apenas uma estratégia para ganhar mais tempo e evitar mais ajuda militar à Ucrânia, que aliás foi o que afirmou um conselheiro de Volodymyr Zelensky?

Não me parece, é de facto isso. Ou seja, é uma tentativa desajeitada. Nem parece a Rússia a negociar, porque é tal mal desajeitada que não está de acordo com certos aspetos da habilidade tática e diplomática que a Rússia mostrou no passado. É claramente uma tentativa de, falando de paz, colocar condições que a tornam impossível à partida. Colocar essas condições como condições prévias a qualquer negociação. Ou seja, não há aqui qualquer intenção de paz, há sim uma intenção de preparar o terreno para o que será a sua manobra de primavera, sua manobra para a partir de fevereiro. É aí sim onde ela espera resolver a guerra, num misto de ação diplomática com uma ação militar. O que acontece em termos da ação diplomática neste momento é não só um endurecimento de posição, mas mais do que isto, uma reinvenção de condições que a própria Rússia tinha abandonado e que, sem dúvida, torna impossível qualquer acordo. A Ucrânia tem uma resposta inteligente, da qual não sairá a paz, certamente, mas que é uma resposta inteligente Como está limitada pela sua própria decisão anterior de não negociar com o regime de Putin, e como quer de qualquer modo, também externamente, aparecer como partido da paz, contrariando nisso a pretensão russa, faz uma jogada hábil, que é uma jogada de colocar uma conferência da paz na responsabilidade da ONU e na responsabilidade do nosso querido António Guterres. Ou seja, de passar para um contacto que é multilateral, o que de outra maneira devia ser uma negociação bilateral, ou seja, uma negociação entre a Rússia e a Ucrânia com um mediador. Ao fazer isto, por que a jogada é hábil? Porque, por um lado, evita um contacto direto entre a Ucrânia e o regime de Putin, coisa que a Ucrânia já disse que não quer fazer, pelo menos por enquanto. Por outro lado, sendo colocado no âmbito e sobretudo, sendo colocado nos braços de António Guterres, a Ucrânia sabe que António Guterres se vai basear na Carta da ONU e no direito internacional para enquadrar qualquer negociação de paz, ou seja, que vai colocar condições que são claramente favoráveis à Ucrânia, porque a Carta da ONU e o direito internacional favorecem a Ucrânia, e que são condições que necessariamente são desfavoráveis à Rússia. Portanto, é uma jogada hábil, que permite dizer: "Vejam, não é a Rússia que é o partido da paz, nós é que somos o partido da paz, nós é que queremos a paz", o que é verdade. Ou seja, ambos os lados querem a paz. A Rússia quer a paz desesperadamente. A Rússia está desesperada por uma paz a curto prazo e sabe que se não conseguir uma paz nos próximos meses, a sua situação será verdadeiramente impossível. Simplesmente, as condições que ambos os lados querem não são coincidentes, o que torna difícil qualquer paz. E mais do que isso, qualquer dos lados, neste momento, acredita que se vai conseguir impor militarmente no terreno durante a primavera. Já agora, como um aviso, como há muitas pessoas, inclusive alguns observadores, que se deixam levar pelos acontecimentos imediatos, pelos acontecimentos conjunturais, deixem-me acrescentar que é normal que na primavera, num primeiro momento, surja o que parece ser um domínio militar da Rússia, ou seja, uma ofensiva russa que obtém resultados de imediato e que consegue inclusive um avanço substancial. Se a Rússia não conseguir pelo menos montar isso, então é porque a sua situação é de facto desesperada.

E essa ofensiva, professor António José Tello, pode vir a ser feita uma nova grande ofensiva com a ajuda da Bielorrússia. Pergunto-lhe isto, tem sido tema nos últimos dias, mas a agência estatal de notícias bielorrussa diz que Putin e Lukashenko se encontraram duas vezes em apenas 24 horas para finalizar muitas questões e tem parado esta ameaça de uma eventual nova grande ofensiva no início do ano e também com essas suspeitas de envolvimento bielorrusso.

O envolvimento bielorrusso não é uma suspeita, é uma realidade.

Mas mais activo.

Sim, mais activo se calhar só com o envolvimento direto das forças da Bielorrússia, porque a verdade é que o território da Bielorrússia é um território beligerante. A ofensiva inicial russa teve como um dos principais eixos o avanço a partir da Bielorrússia e actualmente o que nós vemos é que sempre que há um bombardeamento, sobretudo sobre a zona de Kiev, é a partir do território bielorrusso que é feito. Ou seja, quando um Estado abre o seu território para bombardear outro Estado, para atacar outro Estado, por terra e pelo ar, é um país beligerante, não merece outra classificação, não é possível outra classificação à luz do direito internacional. Agora, é uma beligerância que embora tenha envolvido, por exemplo, a entrega de território bielorrusso para campo de manobras e treino da Rússia, embora isso desde o primeiro momento esteja em cima da mesa, a verdade é que até agora não houve um envolvimento direto de forças bielorrussas. Mas isso é a única coisa que falta. O que aliás, diga-se, também é compreensível, porque as forças bielorrussas, tudo indica que estão mais desmoralizadas que as forças russas e são em número relativamente pequeno. Mas, sobretudo, é muito duvidoso que o regime controle de facto ou tenha confiança nas capacidades ofensivas das suas forças armadas, o regime da Bielorrússia. Aliás, faz parte desta manobra de inverno o aparecimento de várias inventonas, ou seja, de várias ofensivas irriais para a próxima primavera. Eu tenho muitas dúvidas de que qualquer ofensiva terrestre forte seja lançada pela Rússia a partir da Bielorrússia na próxima primavera, seja na direção de Kiev, seja na direção de Lviv. Do mesmo modo que me parece também uma inventona as hipóteses do envolvimento da Moldávia em termos dessa ofensiva, ou seja, de um ataque à Moldávia a partir da zona separatista dos separatistas russos da fronteira da Moldávia, eventualmente apoiada pelo mar Isso parece-me ser claramente uma manobra russa no sentido de criar a dúvida, tentar a dispersão das forças ucranianas e criar uma impressão de força superior àquela que ela tem neste momento. Até porque um ataque, por exemplo, uma repetição da tentativa desastrosa de atacar Kiev na fase inicial da guerra, na segunda fase da guerra, tudo indica que seria ainda mais desastrosa. Kiev é relativamente fácil de defender a partir de um ataque que venha do norte. A pior direção de onde se pode lançar um ataque a Kiev é do norte. Aliás, nesse aspecto, recordo que embora na segunda fase da guerra as atenções se tenham focado no ataque que foi lançado a Kiev a partir da Bielorrússia, a verdade é que o principal eixo do ataque a Kiev vinha não dessa direção, vinha do leste, vinha da fronteira russa, portanto na zona a norte de Kharkiv, uma penetração profunda em direção a Kiev. Ou seja, há aqui uma situação que torna muito difícil o avanço de norte para sul de forças russas a partir da Bielorrússia. A mesma coisa em relação a uma ofensiva que talvez venha a ser lançada da Bielorrússia sobre Lviv. O objetivo estratégico até parece interessante, que é cortar as ligações com a Polónia a partir da fronteira. Simplesmente implicaria um avanço, uma progressão de quase 500 km de forças móveis russas a partir da Bielorrússia, com uma cauda logística que seria um pesadelo horroroso e com um flanco aberto que seria extremamente vulnerável. Qualquer contraofensiva ucraniana que fosse lançada perto da fronteira da Bielorrússia iria empurrar as forças russas contra a Polónia, ou seja, contra a NATO.

Professor António José Tella, ao mesmo tempo, temos uma guerra de informação e de construção de narrativas. Tivemos o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, a dar uma entrevista à agência TASS, a agência russa, e acusa os Estados Unidos de terem feito uma ameaça de assassinar Vladimir Putin e fala mesmo em funcionários anónimos do Pentágono. Isto será mesmo uma tentativa de construir aqui uma narrativa ou haverá alguma suspeita mais fundada para estas declarações de Sergei Lavrov?

Repare, desde o primeiro momento que um dos objetivos russos, quer para consumo interno, quer para consumo externo, tem sido o de dizer que isto não é uma guerra contra a Ucrânia, é uma guerra contra o Ocidente. Aliás, a Rússia tem dito isso claramente pela voz de Putin e pela voz dos principais responsáveis do regime. O que é muito curioso, porque se a Rússia diz que isto é uma guerra contra o Ocidente, ao fim ao cabo está a mostrar a sua fragilidade. E mais do que isso, está a dizer ao Ocidente, quando ela diz Ocidente, está falando essencialmente na NATO, portanto, Estados Unidos, Canadá, Europa, mundo europeu e não só. Quando ela diz isto, está a dizer ao Ocidente: "Atenção, nós estamos em guerra contra vocês". Ou talvez antes: "Atenção, vocês estão-nos a fazer a guerra e nós estamos a responder". Portanto, ela própria está a alargar o contexto da guerra. À parte disso, arranja depois sempre várias situações concretas que procura tomar como exemplo de concretização dessa guerra contra o Ocidente. Uma delas tem sido as conspirações em termos de Rússia. E nalguns casos, estou-me a lembrar, por exemplo, de alguns atentados que houve na Rússia, é muito difícil dizer de onde é que eles partem. Embora, até pelo seu tipo, haja indícios, mais não posso ter do que indícios, como deve compreender, mas há indícios que podem partir quer de agentes que já antes faziam atentados terroristas na Rússia, nomeadamente relacionados com a situação no Cáucaso, quer da própria oposição interna na Rússia. Muitas das sabotagens que se dão na Rússia, estou-me a lembrar, por exemplo, de fogos gigantescos que houve nos armazéns de Moscovo, ou estou-me a lembrar de algumas explosões no próprio sistema ferroviário russo, de troços de caminhos de ferro que explodiram pura e simplesmente. É muito difícil dizer qual é a origem, se é da oposição russa, que existe, inclusive com atentados, ou se é alimentada por outras forças, nomeadamente forças externas. Neste campo, há um manto noveiro. Estou-me a lembrar, por exemplo, da sabotagem do Nord Stream 2, do pipeline, que ainda hoje estamos para saber quem foi. Possivelmente ficaremos sem saber quem foi ad eternum, por toda a eternidade. Ou seja, há aqui uma situação em que há tantos agentes possíveis, no caso, nomeadamente de atentados na Rússia, que é impossível, e obviamente é aproveitado por todos os lados, determinar qual é o seu agente. Noutros casos, como é por exemplo o atual ataque mais recente a bases, nomeadamente bases aéreas da Rússia, a Ucrânia saiu dizer com todas as letras, dá a entender que sim, que foram os seus recentemente desenvolvidos drones de longa distância, capazes de percorrer 600, 700, até 800 km, que estão por trás desses ataques. E são ataques não contra alvos civis, mas contra alvos militares e alvos militares a partir dos quais se trata de atacar diretamente alvos civis na Rússia, como sejam as bases, a base de Engels, por exemplo, que é uma base de bombardeiros estratégicos da Rússia.

Sim.

Agora, ironia do destino, alguns desses bombardeiros estratégicos foram entregues pela Ucrânia à Rússia no final da Guerra Fria. Ou seja, eram bombardeiros que estavam na Ucrânia e a Ucrânia entregou à Rússia, entregou várias dezenas de bombardeiros estratégicos à Rússia com os respetivos agentes associados.

Curiosamente.

São esses que estão a ser utilizados.

Professor António José Tella, muito obrigada por ter nos ajudado aqui no Gabinete de Guerra a olhar para estes desenvolvimentos. Estamos de volta amanhã. Até lá.