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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia e obrigado.
Olá, Bruno, bom dia. Começamos pela Alemanha, que acusou formalmente Moscovo de tentativa de ataque com drones no aeroporto de Leipzig. A Rússia, entretanto, prometeu retaliar pelas medidas contra Moscovo anunciadas por Berlim. Bruno, isto não é novo. A Alemanha tem estado sob ataques híbridos há já algum tempo, está é a chegar ao limite e não é exatamente isso que a Rússia quer? Ataca, mas não frontalmente, para a seguir arranjar desculpas para atacar diretamente. E pergunto também se a Alemanha e a NATO têm meios para travar estas ações russas sem ter de responder militarmente.
A ideia dos ataques híbridos é fazer ataques que são difíceis de atribuir de forma inequívoca ou pelo menos de forma rápida e clara, e também que à partida estão num limiar de intensidade abaixo daquilo que exigiria claramente uma resposta militar também de grande escala. Por exemplo, a dificultar questões como a evocação do artigo quinto. Obviamente, a Alemanha, por exemplo, é um Estado-membro da NATO e há este famoso artigo que é uma garantia de defesa coletiva e mútua, de um por todos e todos por um. De facto, o objetivo da Rússia é claramente esse. Agora, isso não significa que não seja possível, através de vários indícios, realmente depois demonstrar que essas ações vêm da parte da Rússia e também que não haja a possibilidade de uma resposta calibrada, que não seja uma declaração de guerra, mas que também não signifique completa impunidade. É muitas vezes aí que depois surge também a discussão, mas em todo o caso é sempre uma resposta mais difícil ou mais dificultada precisamente por esta natureza na zona cinzenta, portanto dificuldade de atribuição e de intensidade mais baixa. Em termos do que é que se devia fazer. Pode-se fazer coisas como aquilo que agora a Alemanha anunciou, que é uma resposta mais política e diplomática, fecho de consulados, por exemplo, retirar o acesso da Rússia a uma zona bastante prestigiada da capital alemã, porque isso era com base num acordo de longo prazo com o Estado alemão. É uma ameaça também mais vaga sobre a questão da navegação, a tal frota cinzenta, que é algo muito importante também para alimentar o esforço de guerra russo e tem estado sob alguma pressão. Mas realmente isso é uma questão que é discutível, se isso é suficiente. A mim parece-me que já há muito tempo que os Estados europeus, e em particular a Alemanha, que têm sido os mais visados, deviam ter reagido de uma forma muito mais robusta para sinalizar exatamente que não pode continuar a haver esta intensificação, esta escalada neste tipo de ataques, porque realmente só não houve ainda uma tragédia, quase por milagre. Estamos a falar, por exemplo, de drones armados num aeroporto.
Exatamente. A Rússia diz que ia retaliar por essas medidas que descreveste anunciadas por Berlim. Que tipo de ação pode vir agora?
Essa questão é o que se chama em estudos estratégicos de o domínio da escalada. No fundo, havendo o risco de haver aqui uma resposta, quem é que tem mais condições, mais credibilidade na ameaça de responder de forma mais robusta. É uma questão também em aberto, que se pode discutir. A mim parece-me que a Rússia tem uma vantagem, que é toda a gente sabe que o regime russo não tem grandes problemas em usar a sua população como carne para canhão, sobretudo quando estamos a falar da população de zonas mais periféricas. Por outro lado, a verdade também é que a Rússia já está envolvida num conflito de elevada intensidade contra a Ucrânia.
Com muitas baixas.
Exatamente, foi o conflito em que sofreu mais baixas desde a Segunda Guerra Mundial, mais de 1 milhão de baixas, certamente entre mortos e feridos graves, se calhar 500 mil mortos, e isso obrigou a uma enorme concentração de esforços de homens, de material, etc. E qualquer dispersão, à partida, seria negativa para a estratégia russa.
Olhando para a guerra na Ucrânia, Putin diz que quer negociar a paz com os Estados Unidos de Donald Trump, rejeita conversas diretas com Kiev e diz que a economia de guerra russa está a aguentar os ataques às refinarias. Bruno, qual é a estratégia do Kremlin? É esperar pelas eleições americanas, intercalar-se e desgastar a Ucrânia até ao limite?
Na minha leitura, a Rússia já não foi tão taxativa como no passado a dizer taxativamente: "Não falamos com Kiev, isso não interessa nada". Disse: "Preferíamos falar com os Estados Unidos".
Como se apenas fossem eles.
Exato, um certo atenuar. Mas realmente isso é algo que se verifica desde o início do conflito, corresponde à narrativa, à propaganda russa também desde o início, que é dizer: isto é um conflito por procuração, uma proxy war, como se diz em inglês. E depois, como eu muitas vezes costumo com estes conceitos que vêm dos estudos de segurança, usá-los mal, ou seja, haver uma proxy war, uma guerra indireta, não quer dizer que o lado mais fraco e que tem aqui o apoio de outras potências que não se envolvem diretamente, mas indiretamente, não quer dizer que esse lado mais fraco seja uma completa marionete, que seja completamente irrelevante, não tenha a sua própria agenda ou a sua própria vontade de combater. Por exemplo, as guerras coloniais tardias ou a Guerra do Vietnã, foram também guerras por procuração durante a Guerra Fria. Isso não quer dizer que os povos colonizados ou que os vietnamitas não tivessem a sua própria agenda e fossem simplesmente marionetes na mão de outros. E depois há também uma obsessão tradicional, que está até bastante estudada, há todo um livro só dedicado a isso, da Rússia com o seu estatuto como grande potência e conseguir o reconhecimento desse estatuto de igualdade com os Estados Unidos, que são realmente a grande potência, indiscutivelmente a grande potência desde a Segunda Guerra Mundial. E, portanto, no fundo, a ideia de que os Estados Unidos, o Ocidente, é que estão realmente em guerra na Ucrânia e depois que isso seria um reconhecimento do estatuto de grande potência da Rússia. Isso ainda é menos credível, tendo em conta que com Donald Trump, realmente, grande parte da ajuda à Ucrânia por parte dos Estados Unidos foi cortada. E, portanto, se realmente a resistência ucraniana continua, é claramente pela vontade de resistir, pelo heroísmo dos ucranianos e também pelo apoio militar e econômico do lado europeu. E, portanto, esse argumento não faz muito sentido, mas realmente tem sido sempre essa a postura da Rússia desde o início do conflito.
Entretanto, a Ucrânia pediu aos Estados membros da ONU que não reconheçam as pseudoeleições ilegais que a Rússia pretende realizar nos territórios temporariamente ocupados. Bruno, estas votações servem apenas para o consumo interno em Moscovo ou fecham de vez a porta a qualquer cedência de terra no futuro?
À partida, a lei internacional é bastante clara. Um Estado ocupante não pode alterar o status quo e uma das coisas que não pode fazer é organizar eleições. Desde logo, é evidente qual é o problema de organizar eleições num contexto de ocupação militar. Portanto, tropa lá com armas a condicionar a eventual votação, o facto de haver muita população também que fugiu. Portanto, todas aquelas discussões, por exemplo, que existem em relação à Palestina ou que existiram durante muito tempo, aplicam-se também aqui. Portanto, à partida, isto não altera nada na legitimidade substantiva da ocupação russa. Agora, sem dúvida, vai ser usada pela Rússia exatamente para tentar vender esse tipo de argumento, que isso é uma demonstração que realmente a população que está lá, que apoia a ocupação russa. Na verdade, nós sabemos que, inclusive, entre outras coisas, temos também um movimento de resistência armada clandestina, em que as pessoas arriscam literalmente a sua vida, também para resistir à ocupação russa nestes territórios. Mas realmente será claramente esse o objetivo russo e o argumento russo e a razão de ser de haver este esforço de organizar algum tipo de eleições.
Na Cimeira da Cooperação de Xangai, Putin prometeu apoio total ao Irão contra os Estados Unidos. Bruno, esta aproximação entre Moscovo e Teerão é uma aliança militar real e duradoura ou é apenas uma união de conveniência por estarem ambos sob sanções?
A Organização de Cooperação de Xangai, que é criada em 2001 e que se tem continuamente expandido. Portanto, eu gosto sempre de sublinhar esse aspecto, que é estes mesmos países passam o tempo a falar a Rússia e a China na expansão da NATO e na alegada ameaça que isso representaria, na verdade, promoveram esta organização que se tem continuado a expandir. O último membro a aderir em 2023 foi a Bielorrússia, que faz fronteira com vários países europeus. Aparentemente, aí já não há razão para ninguém se sentir ameaçado. Mas são Estados que têm também as suas próprias prioridades e têm uma postura muito pragmática na sua ação externa. Em geral, partilham historicamente uma certa aversão a um peso dominante dos Estados Unidos na política internacional e de outras potências ocidentais. Isso é realmente algo que leva a convergências importantes, mas a China não vai sacrificar os seus interesses por conta da solidariedade com o Irão. Agora, é uma manifestação realmente dessa crescente convergência estratégica e desse ponto de vista, eu acho que é bastante significativo que tenhamos, com o intervalo de poucas horas, o secretário responsável das finanças americanas, o Scott Bessent, a garantir na reunião do G20, que tem o apoio dos membros do G20 para pressionar o Irão economicamente. E depois temos o líder máximo chinês realmente a manifestar a sua solidariedade ao Irão, sendo que também a China anteriormente já tinha dito que não se iria deixar ameaçar ou condicionar nas suas relações com o Irão. Portanto, eu acho que é preciso ver isso com um certo grão de sal, ou seja, acho que a China também não vai querer completamente cortar relações econômicas, sacrificar relações econômicas com os Estados Unidos por conta do Irão, mas a China também sabe que neste momento tem uma capacidade, um peso econômico que antes não tinha e que os Estados Unidos, Donald Trump também estão muito interessados, mostraram isso, em evitar uma guerra comercial total com a China, ao contrário até com aliados tradicionais como o Canadá, e ainda por cima está previsto agora, aproximadamente, uma cimeira entre Trump e Xi. Portanto, aumentar muito a pressão sobre a China também poderia pôr em questão, em causa essa diplomacia presencial de Donald Trump, que ele claramente valoriza muito.
E Bruno, pegando nisso que disse, a imprensa fala num possível encontro em novembro entre Trump, Putin e Xi Jinping. Não corremos o risco do futuro da Ucrânia e da segurança da Europa ser decidido à revelia da União Europeia?
Eu acho que aí depende dos europeus. Ou seja, é verdade que estamos num mundo muito mais conflituoso e num mundo em que as instituições, as leis internacionais pesam muito menos e o poder e as grandes potências pesam ainda mais do que no passado e parecem estar menos condicionados por compromissos, por leis, como eu dizia, por acordos, por tratados. Agora, aí eu acho que os europeus têm que perceber isso e têm de se organizar para resistir a pressões indevidas e para garantir em questões que são cruciais para os seus interesses, para a sua segurança, que tem a ver com a própria ordem regional no seu continente, como é o caso da guerra da Ucrânia, realmente eles continuam a ter uma palavra a dizer. E a verdade é que os europeus resistiram, por exemplo, à pressão de Donald Trump para aceitar algum tipo de acordo que satisfizesse a Rússia e que não fosse aceitável para a Ucrânia e que pusesse em questão os interesses de segurança dos europeus. Portanto, acho que é, no fundo, garantir que continue a haver essa vontade de resistência a pressões indevidas.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia, Bruno.
Obrigado.
Obrigada.