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Em destaque continua claro o processo negocial, tendo em vista um acordo de cessar-fogo, um acordo de paz no leste da Europa entre a Ucrânia e a Rússia. Esta quarta-feira fica marcada pela polêmica, depois da divulgação pela Bloomberg de uma conversa em que o enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, terá dado conselhos ao conselheiro do Kremlin, Yuri Ushakov, sobre um possível acordo de paz na Ucrânia. Witkoff, de acordo com esta notícia, terá sugerido que a Rússia controle Donetsk e elogie Trump, apelidando-o de verdadeiro homem da paz. Senhor Major-General João Vieira Botas, bem-vindo a este gabinete de guerra. Pergunto se esta polêmica pode ter o condão de representar uma areia na engrenagem da negociação em curso ou se, pelo contrário, é um episódio mais folclórico que em nada deve condicionar esse processo em curso.

Muito boa tarde. Em nada deveria condicionar esse percurso, mas já condicionou. E condicionou exatamente porque o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo já disse que a Rússia não está preparada pra discutir detalhes dos planos. E, portanto, a Rússia, desde o início, fica particularmente incomodada quando são "vazados", entre aspas, agora a expressão que se vem usando, as informações, designadamente os planos de paz. E isso dá-lhe menos liberdade de ação, porque a partir do momento em que eles vão pra o conhecimento público, naturalmente que há uma reação e há uma pressão, quer sobre a Rússia, quer sobre os negociadores. Isto acontece, sobretudo, da parte da Rússia, obviamente, neste caso, de vazamento de informação que põe sempre em causa a Ucrânia, interessa à Ucrânia, portanto, que venha pra o exterior, que depois haja pressões, sobretudo dos aliados, sobre a Rússia. E nós também temos visto que isso não tem sido positivo depois pra concretização dos processos. Esta é mais uma que obviamente não é novidade pra ninguém, o que aí está, certamente que é verdade, por aquilo que são depois os dados que nós temos conhecimento, designadamente os 28 pontos, porque os 19 ou 20 nós não temos. Mas obviamente que não está muito longe da verdade. Isso que foi noticiado, mas incomoda mais a Rússia, certamente, do que a Ucrânia.

Senhor Major-General, hoje ouvimos aqui esta manhã os enviados especiais do Observador, que estão na Ucrânia, o Rui Pedro Antunes e o João Porfírio, davam conta que, ao contrário da forma como aqui no Ocidente se olha para este processo negocial, em que há a perspectiva que dentro de muito pouco tempo conseguiremos chegar a um cessar-fogo, não é esse o sentimento dos ucranianos que não acreditam neste processo de paz. Há razões, à luz daquilo que sabe, para estarmos otimistas relativamente ao desfecho deste processo negocial?

Não há muitas razões pra estarmos otimistas pelas declarações ontem do Ministro dos Negócios Estrangeiros e hoje do vice-ministro da Rússia. A razão do otimismo é não terem dito logo à partida que esta última negociação de Genebra não estavam de acordo. Portanto, já é positivo, porque por princípio, estão sempre contra qualquer intervenção dos europeus ou qualquer intervenção da Ucrânia no sentido de alterar aquilo que foram o acordo, neste caso, que já tinha sido feito entre a Rússia e os Estados Unidos da América. Independentemente, depois de Trump ter dado alguma liberdade para negociar, da parte de Lavrov, aquela expressão de ontem de que desde que qualquer coisa do gênero se refletisse as exigências da Rússia, obviamente que havia interesse, mas é sempre aquela linguagem dos interesses e do substancialmente menor do que a versão original não aceitaria. De qualquer maneira, já usou uma expressão ligeiramente diferente, o que dá origem a que eu responda à sua questão da seguinte maneira: se houve situações em que eu acreditei mais, foi nesta. Neste processo, nestes dois dias, acredito que da parte da Rússia há uma vontade maior em negociar, mas não em abdicar daquilo que são obviamente as suas imposições originais, designadamente as territoriais e outras que saberemos em breve.

Certo. E sob o ponto de vista dessas imposições territoriais, pode a Ucrânia aceitar essas imposições? O mesmo é dizer, há, de fato, caminho para que cheguemos a esse acordo de cessar-fogo ou na perspectiva de Kiev, não é possível abdicar da parte do território que a Rússia quer impor?

Uma coisa é abdicar do território ocupado efetivamente pela Rússia e ser tratado em termos negociais de fato e não de juris. Isso é um aspecto. O outro aspecto é a cedência de território não ocupado. Eu tenho a certeza absoluta que esse é um dos pontos mais críticos da negociação, os tais pontos que Zelensky quer discutir com Trump desde o início, que esta é uma situação que se coloca, mas digamos que Zelensky e a Ucrânia ficarão muito fragilizados a partir do momento em que Pokrovsk seja ocupado. Pokrovsk é importante neste processo negocial. As pessoas estranham como é que a Rússia está a tentar negociar, a Ucrânia e os Estados Unidos a tentar negociar com a Rússia e continuarem os ataques ou haver ataques com maior intensidade. Não é por acaso. É porque a Rússia sabe que tem muito maior poder negocial a partir do momento em que conquista Pokrovsk. Pokrovsk está a ser atacado Não só a cidade em si, quase ocupada, em mais de 80%, mas também todas as rotas de ligação a Pokrovsk. Depois de Pokrovsk ser ocupado, os cerca de 10% que sobram de Donetsk, obviamente que ficará muito mais facilitada a sua conquista, tendo em conta a disposição do território. E depois de concedido todo esse território, a situação ainda será muito pior. O tal cinturão defensivo fica particularmente fragilizado pra Ucrânia, e por isso a Ucrânia não quer ceder. Não é só uma questão de ceder, nem que fosse trocado por outros territórios. Pra Ucrânia, não é só uma troca, nem que fosse por troca de outros territórios ocupados pela Rússia, que a Rússia referiu isso, alguns territórios ocupados em outros oblasts. Não, é que este território é fundamental em termos militares, em termos defensivos. Outros não o serão. E por isso é que a grande disputa vai ser aqui, no cinturão defensivo, que se ocupado ou cedido, em termos de um acordo, obviamente cria condições para que a Rússia, num próximo cenário adverso, tenha uma grande facilidade em qualquer operação ofensiva, com um eixo de ataque que será um eixo de mais de três ou quatro divisões, de uma linha da frente, portanto de 80, 100 km. E é isso que está a ser discutido. Não é só a questão político ou estratégica, há aqui também uma questão militar subjacente a esse ponto, que é um ponto muito importante, quando há cedências de territórios não ocupados, é sempre importante.

E sob o ponto de vista militar e territorial, está a Rússia em condições de num futuro próximo, imediato, conquistar este território com esse valor estratégico que aqui sublinhou?

Está muito próximo de o conquistar. A situação é muito crítica naquele espaço. Eu bem gostava que fosse o contrário, mas infelizmente a Ucrânia não tem nem capacidade em termos de pessoal, nem capacidade em termos de material. A relação de pessoal naquela região está de um pra cinco, um pra oito, tendo os dados da Rússia ou os dados da Ucrânia. As relações de combate pra uma ofensiva é de um pra três, normalmente, isso pro cidadão comum. Desde que haja três pra um, isso depois depende de vários fatores, mas de qualquer maneira, já há condições para desenvolver um ataque, muito embora não seja uma frente normal. Nós estamos a falar de uma cidade circundada por aldeias, que é olhar pro terreno. Mas seja como for, uma relação de um pra oito em termos pessoal. É muito difícil combater, combate-se de outra maneira, com forças especiais que se infiltram e vão, e com apoio tecnológico de drones e até de robôs em algumas partes. E por isso, com estas novas tecnologias, é que a resistência tem sido maior da parte da Ucrânia, que se fosse com outros meios do antigamente, não era possível. Por outro lado, em termos de sistemas de armas, independentemente dos da linha da frente, que é os drones FPV ou mesmo alguns robôs, depois não há uma capacidade para bater as retaguardas, combate em profundidade sistemático e combate em artilharia sistemático, porque aí o poder também é maior da parte da Rússia e tudo isto tem a ver com muita conversa e depois pouca. Muita conversa dos europeus, muitas reuniões. Os discursos são todos muito bonitos, mas as palavras não ganham guerras, alguém já o disse. E ali eles não têm nem pessoal, nem material pra fazer frente à Rússia. E portanto, nós continuamos a discutir, muitas reuniões, os americanos deixaram de dar equipamentos, nós temos que ir comprar equipamentos aos americanos e eles não estão onde devem estar na linha da frente. Portanto, a situação é muito crítica e nós temos que ser realistas. O ser realista não é dar liberdade de ação aos russos. Infelizmente, temos que ser realistas, porque isso faz parte do processo negocial. E, portanto, este é um momento muito crítico, porque se Pokrovsk é conquistado, obviamente que não há autoridade da parte negocial da Ucrânia pra depois dizer que não, a não ser que continue a guerra num cenário muito mais complicado. Portanto, infelizmente chegamos aqui, exatamente porque também a Rússia e porque os aliados não deram o apoio que deviam ter dado à Ucrânia.

Vida difícil para-

Os Estados Unidos e os aliados, penso que não deram o apoio que deviam ter dado.

Claro. Vida difícil para a Ucrânia nos dois tabuleiros, se calhar um por causa do outro, no terreno e também no campo negocial. Senhor Major-General João Vira-Borges, muito obrigado por ter estado conosco e por nos ajudar a ler este conflito e o momento que atravessamos neste conflito no leste da Europa, que opõe a Ucrânia à Rússia.