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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do especialista em Direito Internacional, o Francisco Pereira Coutinho. Olá, Francisco, bom dia, bem-vindo.

Bom dia.

Muito bom dia. No dia em que terminou o memorando de entendimento entre Washington e Teerão, o Irão prometeu ter surpresas estratégicas para os Estados Unidos. As forças militares dizem também que não vão ceder a Trump até derrotarem o inimigo. Francisco, depois destas ameaças, ainda há margem diplomática para evitar uma guerra aberta ou o fim do acordo era o passo que faltava para uma escalada das hostilidades?

Eu creio que há margem diplomática. Agora, terá que ser um acordo bem melhor do que aquele que foi assinado em junho, há 60 dias.

Estava destinado ao fracasso, não é?

Sim, porque aparentemente o Irão não ficou convencido com as cenouras que lhe foram oferecidas por Donald Trump e preferiu escalar o conflito simplesmente a ficar com esses ganhos que tinham sido oferecidos na altura. Na altura foi oferecido ao Irão o descongelamento de ativos, foi oferecido ao Irão o levantamento de sanções, que foi efetivado, mas aparentemente o dinheiro não foi suficiente e o Irão queria outra coisa, queria controle, queria soberania sobre o Estreito de Ormuz. Portanto, decidir quem é que podia passar no Estreito de Ormuz, porque isso pra eles era a vitória estratégica. No fundo, o estreito estava aberto e neste momento o estreito está fechado e eles querem que o estreito daqui pra frente seja controlado por eles. Só entra e só sai quem o Irão entender que pode entrar e sair. Portanto, preferiram não aceitar as cenouras de Donald Trump e atacar navios no Estreito e regressar ao conflito. Essa possibilidade existe sempre, vai depender muito agora da reação de Washington. Qual é o apetite de Donald Trump para regressar ao conflito em larga escala? E já se percebeu nestes dois meses que é muito pequeno.

Já que fala no Estreito de Ormuz, temos também de falar sobre as ameaças de Donald Trump, que diz que pode vir a bombardear Omã, caso o país interfira nas negociações entre Estados Unidos e Irão. Francisco, tratar o histórico mediador neutro do Golfo com este nível de agressividade não compromete toda a arquitetura de segurança dos Estados Unidos e dos seus aliados ali no Médio Oriente?

Eu acho que sim, e são declarações muito surpreendentes, porque nós não ouvimos esse tipo de declarações nas últimas semanas sobre Omã. Trump já tinha tido esse tipo de declarações e insinuado há muito tempo, mas entretanto começaram negociações entre Omã e o Irão para abrir o Estreito. E eu achava que era no interesse dos Estados Unidos abrir o Estreito, e aquele memorando de há 60 dias teve esse objetivo. Aparentemente, Omã e o Irão acordaram abrir os Estreitos e não cobrar portagem ou taxas de serviço, que era aquilo que os Estados Unidos queriam. É muito surpreendente. Eu acho que a saída para esta crise no Golfo tem que passar por uma solução multilateral e não pelo uso da força. Aquilo que o Irão e Omã estavam a fazer é justamente aquilo que é necessário para conseguirmos sair desta situação que foi criada pelos Estados Unidos e por Israel. Mas mais uma vez, Donald Trump vem com declarações completamente incendiárias, ameaçando, e isto é uma violação de direito internacional, um Estado que não atacou os Estados Unidos, ou que não ameaçou atacar os Estados Unidos e que não tem armas nucleares, não tem coisa nenhuma, simplesmente estava a negociar com outro Estado ribeirinho a possibilidade de abertura de um estreito, que entretanto se fechou em resultado da agressão americana. Isto é mais um sinal do comportamento completamente errático do presidente americano, quando havia muitos sinais de que Omã estava a ter estas negociações com o acordo, ou pelo menos o retácito dos Estados Unidos, mas aparentemente não. Se nem assim vamos conseguir avançar no plano negocial, é muito difícil percepcionar outra coisa que não o impasse ou o resto ao conflito a certa altura.

Francisco falou do comportamento errático de Donald Trump. Que ideia é esta de tornar o Estreito de Ormuz território norte-americano?

Pois, lá está. Esse tipo de declarações incendiárias entra em completo choque com a realidade. Donald Trump gostava muito que a guerra tivesse tido outro tipo de resultado, mas não teve. Num comício, vem dizer: "Isto só acaba com Omã sob controle americano, da mesma maneira que a Gronelândia estará sob controle americano e o Panamá também. A Venezuela já está". De fato, foi o grande sucesso que ele teve este ano, mas vai ter muitas dificuldades em conseguir operacionalizar esse controle, até porque, ao contrário do que ele diz, os Estados Unidos estão com o estoque de mísseis Patriot muito baixo e têm muitas dificuldades neste momento de ter uma guerra de alta intensidade naquela região.

Francisco, olhemos agora para as declarações do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, que diz que a Rússia e a Coreia do Norte estão a trabalhar para estabelecer uma nova e justa ordem mundial. Lavrov disse ainda que as tropas de Pyongyang que combatem pela Rússia estão a tentar expulsar o grupo naziu ucraniano da região de Kursk. Que tipo de arquitetura de segurança global é que Moscovo e os seus aliados estão realmente a tentar impor?

Maria João, justa não será, porque esta nova arquitetura mundial basicamente engloba a Rússia, que está envolvida numa guerra de conquista e anexação na Europa, a primeira desde o final da Segunda Guerra Mundial, e quem mais? A Coreia do Norte, que é o regime totalitário, um dos regimes mais brutais que existem à face da Terra, grande aliado de Moscovo, fizeram um tratado de defesa mútuo e já vão enviar agora soldados. Poderá englobar também os talibãs no Afeganistão. O governo talibã só foi reconhecido por um único Estado no mundo inteiro, que foi a Rússia. Aparentemente, são estes os parceiros Os companheiros da Rússia para essa nova ordem mundial. Eles não têm essa capacidade para impor, porque a Rússia claramente é uma potência em declínio, porque não consegue sequer levar à capitulação a Ucrânia, ao fim de cinco anos, o seu vizinho muito mais pequeno. Mas se pudessem, seria com estes Estados que eles então tentariam criar uma nova ordem internacional. E esta designação dos ucranianos como nazis mostra bem este líder orwelliano que existe muito nestas lideranças russas. E claro, os ucranianos são nazis, mas os talibãs são combatentes pela liberdade, aparentemente.

Entretanto, Donald Trump ordenou ao Pentágono para cortar e reduzir os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, na mesma altura em que surgem alertas de que os mais recentes testes de mísseis da Coreia do Norte revelam avanços tecnológicos fora do comum e que vão ser testados no campo de batalha na Ucrânia. Francisco, Trump não está a dar um sinal de fraqueza no momento errado e esta decisão não fragiliza tanto a Ucrânia como a Coreia do Sul?

Até por aquilo que falávamos há bocado sobre as relações da Rússia com a Coreia do Norte. E isto é um pouquinho orwelliano também. É um pouquinho guerra é paz, os inimigos são amigos, os amigos são inimigos. Portanto, a Coreia do Norte e Kim é um grande amigo, a Coreia do Sul, aliado histórico, é o inimigo. Omã, o mediador, é um inimigo, mas já a Rússia, aparentemente, inimigo histórico, afinal é um amigo. Com Donald Trump, realmente é muito difícil garantir qualquer tipo de estabilidade nas relações internacionais, dado o nível de volatilidade que ele tem. Claro que isto depois depende um pouquinho da hora do dia. O Kim, o presidente coreano, é o Rocket Man, como é o seu melhor amigo, tudo depende um pouquinho da semana em que estamos. Mas isto claramente cria ali um enorme problema, porque, por exemplo, os coreanos do sul estavam interessados em que os Estados Unidos lhes oferecesse aquilo que ofereceu recentemente à Arábia Saudita, que lhes permite um enriquecimento de urânio, por exemplo, a opção nuclear. E em vez disso, aquilo que vemos é hostilidade em relação a este aliado, porque aparentemente não terá ajudado os Estados Unidos nesta guerra contra o Irão, tal como ninguém ajudou, na verdade, porque consideraram que isto era uma guerra completamente absurda e que poderia levar a resultados catastróficos, como levou. Mas isto é Donald Trump, no fundo, a retaliar contra a Coreia do Sul, muito no plano retórico, mas isto depois pode ter consequências práticas.

Ainda sobre a Rússia, o Banco de Desenvolvimento despediu o seu economista-chefe depois de este ter alertado publicamente para o risco de derrota na guerra de desgaste e para uma inevitável crise social na Rússia. Francisco, até quando é que Putin vai conseguir disfarçar os custos económicos reais desta guerra e numa altura em que Kaja Kallas diz que este outono vai apresentar novas sanções, sanções que serão as mais abrangentes até agora?

Eu acho que cada vez menos. É claro que nós já estamos a dizer isto há cinco anos e muita gente tem dito que a Rússia tem sido sancionada desde o início do conflito. Já passaram quatro anos em maio e a economia russa não colapsou. Aliás, nos primeiros anos até progrediu, porque houve um grande investimento na indústria de defesa. Putin tinha grandes reservas, reservas dor, reservas financeiras que pôde injectar na economia, levou a economia russa inclusivamente a crescer bastante. E, portanto, houve uma sensação nos próprios russos que estavam melhores do que estavam no início do conflito. Mas isto tem um limite. E eu acho que estamos a chegar cada vez mais perto desse limite. Eu creio que esse economista-chefe terá números que nós não temos.

Pois, exactamente. Não têm acesso. Claro.

Que as condições agora sim se começam a degradar e o déficit russo tem vindo a aumentar. Zelensky fala das suas próprias sanções, dos ataques ucranianos na retaguarda Rússia com drones e agora cada vez mais com mísseis, a destruição destes centros logísticos da Wildberries. Tudo isto vai ter um impacto sobre a Rússia e vamos perceber isso, acho eu, Maria João, muito em breve, porque os ucranianos este ano estão a ter muito sucesso no campo de batalha, não propriamente a avançar, mas a eliminar soldados russos e, portanto, há a expectativa de que Putin terá que fazer uma mobilização geral para conseguir ter mais soldados, até porque já não tem muito dinheiro para os recrutar na periferia. E esse será o momento crítico, creio eu, para a liderança de Putin, de saber se os russos aceitam uma mobilização geral, porque aí torna-se impossível esconder os efeitos da guerra sobre toda a sociedade russa.

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela sua análise. Boa semana.

Obrigado.

Obrigada, Francisco.