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Com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Sugeres que comecemos este Gabinete de Guerra com um tweet do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão?
Sim, exatamente. Acho que ele ilustra bem os problemas do estilo de fazer política externa de Donald Trump, em particular quando se está a lidar com questões muito delicadas, como é a questão da ordem global a nível dos mares, a questão do regime jurídico dos estreitos internacionais. No fundo, o que aconteceu foi algo que não pareceu também muito surpreendente, que foi Donald Trump claramente achou boa ideia aquilo que o Irão estava a tentar fazer no Estreito de Ormuz, com a diferença de que quer ser ele a fazer isso, quer ser ele, os Estados Unidos, no fundo, a controlarem e a cobrarem por garantir a segurança no Estreito de Ormuz, que é algo que os Estados Unidos fazem há muitas décadas e fazem gratuitamente, porque a lei internacional não permite que haja qualquer tipo de cobrança por esse serviço num estreito internacional. Sendo que ainda por cima, obviamente, os Estados Unidos nem sequer são um Estado costeiro, portanto, não têm qualquer tipo de jurisdição sobre aquelas águas, de acordo com a lei internacional do Estreito de Ormuz, ao contrário do Irão. Mas o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Araghchi, que é um negociador muito experiente, aliás, foi o principal negociador do anterior acordo entre os Estados Unidos e o Irão, é um diplomata muito experiente, veio dizer: "Realmente o presidente Donald Trump tem toda a razão. A única questão é que ele está a pedir um preço muito elevado." Donald Trump não só alinhou que ia começar a cobrar, mas disse logo que seria uma taxa de 20% sobre o valor dos bens, nomeadamente do petróleo e do gás natural que transita pelo Estreito de Ormuz. E o Irão veio dizer, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros: "Nós estamos a cobrar bastante menos, portanto, no fundo, achamos que este é um preço excessivo." Ou seja, o que Donald Trump consegue no meio de tudo isto, num contexto em que é evidente que a discussão devia ser sobre o Irão estar a violar a lei internacional e estar a criar aqui um precedente perigosíssimo de que os Estados costeiros podem começar a limitar a liberdade de navegação em estreitos internacionais e a cobrar por isso. No fundo, o que se está a discutir é que afinal os Estados Unidos querem fazer eles isso, pondo em causa uma ordem internacional que eles próprios construíram e o Irão até pode apresentar-se como o guardião mais razoável, com preço mais aceitável por esse serviço de segurança, que no fundo é uma espécie de versão política externa da máfia. Vamos fazer uma oferta irrecusável que é ou nos pagam ou nós destruímos, matamos, ameaçamos. É no fundo isso que estamos a discutir quando havia condições para os Estados Unidos, também em termos diplomáticos e do debate internacional sobre estas questões, ganharem aqui um pouco terreno e apresentarem mais uma vez o Irão como sendo aquilo que é há muitas décadas, que é um Estado que sistematicamente ignora, não respeita, viola a lei internacional.
Estava agora aqui a olhar para a televisão e aparecia ali o rodapé na SIC Notícias dando conta que Donald Trump desistiu da aplicação desta taxa de 20% numa publicação na rede Truth Social. Anuncia que em vez desta taxa de 20%, pretendem os Estados Unidos avançar com acordos comerciais que permitam então a navegação neste Estreito de Ormuz. Aqui uma inversão, mas aqui também já nos habituámos ao longo dos últimos meses e tem marcado um bocadinho esta política externa do presidente norte-americano.
Mas entretanto deu a oportunidade ao Irão de aparecer aqui como o ator mais razoável. Obviamente, o que aconteceu foi uma enorme pressão da parte da própria administração a explicar a Donald Trump que isto não teria nenhuma base jurídica e que iria criar imensos problemas com os aliados europeus, com os aliados do Golfo, com os países do Golfo. Aparentemente, no fundo aquilo que Donald Trump agora está a dizer é que vai querer extrair vantagens desses países do Golfo por outras vias, que não ponham pelo menos tão abertamente em causa o direito internacional.
Através desses acordos comerciais. Bruno, hoje assinala-se o Dia da Tomada da Bastilha com a presença de vários líderes europeus, também Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano. Surgem e emanam destas cerimônias um ambiente de unidade entre os parceiros europeus que têm apoiado de forma mais direta o regime ucraniano.
Sim, geralmente há esta tradição de um desfile militar, uma certa demonstração também do poder militar da França, mas também do seu poder de atração, da sua capacidade diplomática, convidando geralmente um chefe de Estado ou de governo de um país amigo, já aconteceu com Índia, já aconteceu também com Portugal, para esse desfile. Neste caso, de facto, o que é diferente, o que é único, é a primeira vez que acontece, é serem mais 30 chefes de Estado e de governo, ou seja, basicamente os líderes dos executivos da maior parte dos países desta coligação voluntária de apoio à Ucrânia, que se reuniu em Paris ontem, e o convidado especial é o próprio Zelensky. Isso levou também, por exemplo, pela primeira vez em mais de 20 anos os britânicos a participarem no desfile e acho que é realmente um sinal importante deste novo protagonismo europeu, de alguma ambição francesa sempre de liderar um pouco esse processo, mesmo que em termos financeiros seja a Alemanha que na verdade paga mais. Mas a verdade é que os europeus têm alguma razão para estar satisfeitos, no sentido de conseguiram mostrar que era possível realmente apoiar significativamente a Ucrânia, nomeadamente este empréstimo dos 90 mil milhões, que tinham alguma capacidade na sua indústria de defesa também para responder às necessidades ucranianas. Obviamente, ainda mais a Ucrânia, que está cada vez mais integrada neste espaço, nesta comunidade de segurança europeia, ainda que não na União Europeia. Mesmo aí o processo de adesão tem avançado um pouco. Acho que é pena que Portugal não esteja representado ao mais alto nível. É uma opção, evidentemente. Esteve o ministro Paulo Rangel e não o chefe de governo, Luís Montenegro, mas acho que é importante que Portugal também esteja representado ao mais alto nível, porque isso também é uma forma de sinalizar a importância e a prioridade que estas questões têm para Portugal. E Portugal foi dos poucos países europeus que não esteve representado ao nível de chefe de Estado e de governo e acho que isso é uma pena.
Facto que aqui fazes notar, Bruno Cardoso Reis, historiador que normalmente nos ajuda aqui no Gabinete de Guerra da Rádio Observador a analisar e interpretar alguns dos factos relacionados com os conflitos em curso, em particular Oriente Médio e também no Leste da Europa.