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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Eu sou o Martim Madeira e hoje contamos com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Olá, Martim, boa noite.

Queria começar por falar na guerra na Ucrânia. O diretor da CIA foi até Moscovo numa viagem que não foi bem oficializada. Isto porque, segundo o Wall Street Journal, os norte-americanos sabem que vai haver um ataque da Rússia contra um país da NATO, pelo menos até 2029, e será um país na zona do Báltico. Também as forças russas testaram hoje o lançamento de um míssil balístico intercontinental, de acordo com o Ministério da Defesa Ucraniano, no dia em que o Kremlin também reconheceu que o processo de paz com a Ucrânia está completamente parado e, pra além disso, também temos o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, a considerar que os Estados Unidos estão enfraquecidos pela guerra no Irão e que tal pode dar uma oportunidade à Rússia de lutar contra os interesses norte-americanos e dos aliados na Europa, é o que diz o Washington Post com acesso a duas fontes familiarizadas com o assunto. Ora, tendo em conta estas informações, especialmente a última, estas declarações de Putin, pergunto-lhe sem alarmismos, mas é melhor a Europa começar a preparar-se para um cenário de guerra?

Sim, aliás, a Europa já devia ter começado a preparar em 2014 e até antes. Portanto, quando se começou a perceber que Vladimir Putin tinha uma intenção expansionista e uma intenção expansionista que passava por chegar a uma Rússia dos cinco mares, e esses cinco mares que neste momento também têm frotas fantasma russas. E esse é o último objetivo de Vladimir Putin. Não quer dizer que o vá conseguir e não vamos entrar aqui, como o Martim dizia, em alarmismos, porque não vale a pena, porque os recursos russos também são limitados. É verdade que a Ucrânia, neste momento, pode estar principalmente em desvantagem do ponto de vista aéreo, mas os recursos russos não deixam também de ser limitados. E o que podemos retirar daqui, dos vários pontos que englobam esta pergunta, é primeiro, o porquê de termos a CIA, o diretor da CIA, a ir a Moscovo. Ainda por cima, quando não ia um diretor da CIA a Moscovo desde 2021 e em novembro de 2021, quando tivemos William Burns a ir a Moscovo, o que disse foi precisamente aos russos que ia custar caro uma eventual invasão da Ucrânia. Essa invasão da Ucrânia aconteceu e, no final de contas, os Estados Unidos não conseguiram fazer imperar os seus interesses. Ou seja, aquilo que iria custar caro à Rússia, na verdade, custa caro, porque vamos com quatro anos e meio de guerra, isso tem as suas repercussões também na economia russa, mas os Estados Unidos não conseguiram fazer imperar nem a sua capacidade de dissuasão, nem depois uma parceria estratégica que reforçasse o poder da NATO e o poder da Ucrânia junto da Rússia. Esta ida da CIA é principalmente um sintoma, não de paz, necessariamente, não de guerra também, mas sim um sintoma de que os canais clássicos da diplomacia estão esgotados. E por isso é que há a necessidade do diretor da CIA ir a Moscovo numa visita que foi praticamente para todos, tanto em Washington como no Kremlin, e também para todos os analistas, uma surpresa, mas foi uma surpresa que não veio imbuída de secretismo, que também é interessante, porque se olharmos para as dimensões do Boeing C-17 que fez a viagem, e que fez uma viagem primeiro até Riga, com uma paragem em Riga de um dia, e depois o restante percurso de Riga até Moscovo, era facilmente detetável aquela aeronave através de qualquer sistema online de monitorização de aeronaves e os interessados da matéria descobriram facilmente aquele corpo estranho a viajar primeiro para Riga e para Moscovo. Por que é importante ter viajado primeiro para Riga? Porque os estados do Báltico estão neste momento a ser ameaçados e principalmente a Letónia, nos últimos meses, tem sido a principal visada como uma espécie de dano colateral deste conflito entre a Ucrânia e a Rússia, porque um drone ucraniano desviado pela Rússia há cerca de três meses, acabou por embater numa estrutura petrolífera dentro da Letónia, o que fez com que o governo caísse, e aqui se percebe que existe claramente uma questão existencial para estes países no Báltico, também para os países nórdicos, relativo ao conflito entre a Rússia e Ucrânia. Ao governo demitir-se, temos agora um novo governo, por isso também a CIA, naturalmente, foi estabelecer a sua representação e as suas relações paradiplomáticas com a Letónia e com este novo governo da Letónia, e também avisar, mostrar à Letónia que existe aqui um apoio inequívoco dos Estados Unidos. E depois esta viagem até Moscovo tem também algo de dissuasor. O objetivo há de ser limitar as opções de Vladimir Putin ou limitar aquilo que pode ser um ímpeto expansionista de Vladimir Putin para atacar algum país da NATO. Interessante também que, por exemplo, a Suécia e a Finlândia acabaram com o seu pacto de não alinhamento, a sua doutrina de não alinhamento relativamente às relações internacionais e ao bloco mais ocidental e outro bloco mais soviético, agora pós-soviético. E a verdade é que se juntaram à NATO no início do conflito da Ucrânia com a Rússia, e agora têm também um alvo nas suas costas, principalmente porque se juntaram à NATO. E por isso há ali um flanco leste da Europa, que é o flanco também oeste da Ucrânia, portanto, o início dos países do Báltico, que agora está em risco. Como dizia, é perigoso para os interesses europeus também, porque a Europa acordou tarde e não sabe sequer se pode confiar no flanco Americano da NATO. E isto traz aqui problemas, porque a Europa, em última instância, terá de cuidar da sua defesa e é uma defesa, porque quando falamos de defesa, falamos também de política externa, e por isso é uma defesa e uma política externa que precisa normalmente do aval de todos os membros da União Europeia. E sabemos que há forças que estão a crescer e algumas que já estão implantadas dentro dos países europeus e que não vão deixar que essa coesão, que essa unidade aconteça assim tão facilmente. Mas, mais uma vez, não devemos ser alarmistas e também devemos lembrar-nos que a Rússia, neste momento, tem sob sua posse ou ocupou cerca de 20% do território ucraniano. Isto não representa nem uma vitória clara da Rússia, nem a capitulação total da Ucrânia. E por isso, se a Ucrânia se tem aguentado com estas parcerias ocidentais, claro, mas se a Ucrânia se tem aguentado e começou em 2022 com drones arcaicos e todo um sistema de artilharia que estava em clara desvantagem para com a Rússia, a Europa também terá tempo de conseguir renovar os seus complexos militares, renovar a sua parceria com os Estados Unidos e dessa forma conseguir combater uma eventual tentativa de expansão russa ou até estas tentativas de guerra cibernética que Vladimir Putin e o Kremlin de vez em quando vão lançando.

O Bernardo falava de que a Europa já devia ter levado a sério um possível preparamento para uma campanha militar desde 2014, a invasão da Crimeia. Também diz que não pode bem confiar, tem aqui um lado norte-americano que é um bocadinho difícil de confiar. E sai aqui uma notícia, e eu estou a lê-la neste preciso momento, é uma notícia que saiu há poucos minutos, da Bloomberg, a dizer que a Europa não acredita que a Rússia vá atacar a NATO. Portanto, a Europa a desvalorizar esta ida a Moscovo de John Ratcliffe, a dizer também que esse não terá sido o assunto que levou John Ratcliffe a Moscovo, apesar de oficiais da Casa Branca dizerem o contrário. Acha que a Europa deve desvalorizar este possível ataque da Rússia à NATO?

Acho que neste momento, até por a questão dos recursos limitados que falava, não existe uma possibilidade real, neste momento. E não existe uma possibilidade real, porque ainda hoje estava a passar os olhos pela uma parte traduzida de um dos principais jornais de Moscovo, que é o "Moskovsky Komsomolets", e tinha três ou quatro secções, uma espécie de classificados desse jornal, em que estavam a vender casas anti-drone, que custavam cerca de € 100 mil cada uma. E isto é a prova de que existe uma preocupação evidente e iminente dos russos, e até dos russos em Moscovo, portanto, bem dentro da Rússia e bem dentro das instituições russas, uma preocupação com a defesa e que a Ucrânia continua a ter a capacidade de atacar em profundidade. E se a Ucrânia tem a capacidade de atacar em profundidade e se a Rússia tem andado em passo de caracol dentro da Ucrânia, portanto, dentro daquilo que é a fronteira contestada, se não me engano, estamos a falar de, nos últimos meses, nestes meses de verão, cerca de 60 quilômetros. Portanto, seria uma distância de Lisboa a Setúbal e que não representa de todo aquele que é o grande potencial que o Kremlin tenta vender, o grande potencial militar que o Kremlin tenta sempre vender à arena internacional. Por isso, isto é a prova de que a Rússia não tem tido a capacidade, para além de ter aqui uma escassez de recursos humanos e de cada vez mais ou recrutar à força e de estar a capturar as pessoas na rua, os jovens na rua, para se alistarem, ou então irem à procura noutros mercados, subindo um pouco os salários dos seus militares, procurarem outros mercados de soldados que possam alimentar o contingente russo. Falo da zona do Sahel, em África, falo, por exemplo, da América do Sul, da Colômbia e do Brasil. Sabe-se que há um contingente de cerca de 800 brasileiros, se eu faço contas em termos muito latos, 800 brasileiros a alimentarem também o esforço de guerra, tanto de um lado como do outro, porque não existem recursos humanos suficientes.

Mesmo possivelmente também os norte-coreanos.

Precisamente, os norte-coreanos. Exatamente. Obrigado, Martim. E se sabemos que existe esta limitação, e uma limitação também de armamento, porque falando da Coreia do Norte, sabemos que também a Coreia do Norte está a alimentar a Rússia por trás com armamento e agora os russos criaram uma espécie de um drone Shahed que está equipado com um míssil balístico, uma espécie de duplo uso desse armamento, que é também feito de componentes iranianas e chinesas, isto prova que a Rússia não é autossuficiente no seu armamento e que precisa da ajuda, tanto do ponto de vista do seu inventário, como também do ponto de vista dos recursos humanos, de outros mercados, de outros Estados e de outras nações, do chamado eixo da resistência, se quisermos. E isto prova que uma entrada agora numa nova frente de conflito que a Rússia poderia ter aqui com a NATO, seria, por um lado, pernicioso para a Rússia, porque teria que focar a sua atenção em dois conflitos diferentes e para além de ter que focar a sua atenção em dois conflitos diferentes, tinha também que levar armamento e recursos humanos até esses dois conflitos, e sabemos a dificuldade que tem tido na Ucrânia. Claro que tudo isto tem um reverso da medalha. Por um lado, um ataque ou uma ação subversiva, como a Rússia tem tentado com invasões do espaço aéreo, com ataques cibernéticos aos países nórdicos, aos países do Báltico, à Roménia também recentemente, tivemos dois drones na Roménia que obrigaram a levantar os caças, e caças europeus, caças espanhóis também Isto também acaba por abrir fendas dentro da NATO, ou seja, testar aquilo que é a coesão entre o eixo europeu e o eixo norte-americano da NATO. No entanto, até agora não há razão para dizer que há uma separação tal de interesses entre Estados Unidos e Europa que não serão capazes de se defender perante a Rússia. É uma ameaça iminente para os Estados do Báltico, é verdade, mas a NATO continua coordenada, e acho que também a visita do líder da CIA a Moscovo vem provar isso, a NATO continua coordenada pelo menos com a preocupação do expansionismo russo, mesmo que não seja pelos interesses europeus ou norte-americanos, é pela preocupação relativamente ao expansionismo russo e que depois tem também consequências para um possível expansionismo chinês e de outros países do eixo da resistência, como se falava.

Eu agora queria apenas, para finalizar, fazer aqui uma questão sobre as declarações de Vladimir Putin, de acordo com o Washington Post, a dizer que os Estados Unidos estão enfraquecidos pela guerra do Irão. A pergunta que lhe faço, e também vou viajar aqui um bocadinho ao passado, Kamala Harris, nas eleições norte-americanas, nos debates, disse que Trump ia ceder a ditadores como Putin e que ia entregar a Ucrânia e a Europa de mão beijada a Vladimir Putin, deixando claro que Trump não era o homem para o cargo. Tendo em conta estas considerações de que os Estados Unidos estão a ser enfraquecidos com a guerra no Irão, dois anos depois, estas declarações confirmam se Trump foi o melhor que podia ter acontecido à Rússia?

É melhor, certamente, que Kamala Harris ou que Joe Biden para o lado russo. Tem uma simpatia por Vladimir Putin, que ficou, aliás, bastante patente naquele estender da passadeira vermelha em Anchorage e num possível acordo ou nuns pontos que foram desenhados entre Trump e Vladimir Putin para a paz, e essa paz envolveria quase dar a totalidade dos territórios ocupados, e até alguns que não estão ocupados pelas forças russas à Rússia, territórios ucranianos ocupados às forças russas. E por isso, por aí, há claramente uma ligação de Donald Trump ao Kremlin. No entanto, não nos podemos esquecer que foi o próprio Lavrov, há cerca de dois meses, que disse que já nem aceitaria os Estados Unidos sequer como mediador, porque os Estados Unidos não eram imparciais no conflito e tinham caído para o lado da Ucrânia. E é verdade que ainda há pouco tempo tivemos também a questão dos Patriots, em que Donald Trump aparece sorridente a apertar a mão a Zelensky e a dizer que ia ceder o direito de produção de Patriots à Ucrânia e depois retirou esse direito passada uma semana. Portanto, Donald Trump é volátil e a volatilidade nas relações internacionais aprimora aquilo que nós chamamos o realismo, porque todos desconfiam de todos e a Europa, com a eleição de Donald Trump, começou a desconfiar mais dos Estados Unidos e a Rússia, naturalmente, sente-se mais confiante nos seus interesses quando a Europa e os Estados Unidos desconfiam um do outro.

Mas o facto de Donald Trump ter levado os Estados Unidos para uma guerra com o Irão acabou por enfraquecer não só militarmente, mas também a posição dos Estados Unidos no palco internacional, como Putin supostamente considera?

Sim, Vladimir Putin aí faz a leitura correta e ele também sabe disso. Aliás, ele recolhe os dividendos desse enfraquecimento norte-americano, porque se olharmos para a guerra no Golfo ou no Irão e para a guerra na Ucrânia, verificamos que em seis meses de guerra do Golfo já foram enviados mais Patriots para defender as monarquias do Golfo aliadas dos Estados Unidos do que para a Ucrânia em praticamente cinco anos de conflito. Portanto, se há Patriots para um lado, faltam no outro, e essa escassez de intercetores é o que faz agora a Rússia ter aqui talvez uma pequena vantagem comparada, principalmente a nível dos ataques aéreos, como estava a explicar há pouco. E para além disso, há aqui outro enfraquecimento dos Estados Unidos, para além deste enfraquecimento armamentista, e sabemos dos relatos que nos vão surgindo até de altos quadros militares norte-americanos a explicarem que há uma falta de material militar e de portfólio militar para os próximos anos nos Estados Unidos. Mas a verdade é que há aqui um enfraquecimento que até me parece que é ainda mais danoso do que este enfraquecimento dos mísseis antiaéreos e dos mísseis balísticos e dos mísseis cruzeiro, que sabemos que os Estados Unidos têm, que é os Estados Unidos ao focarem a sua atenção, principalmente no conflito do Irão e agora no desbloquear do estreito de Ormuz, e sem sucesso algum, não só perdem credibilidade no território, mas desviam as suas frotas que tinham há muitos anos no Indo-Pacífico, frotas essas que são necessárias não só para reforçar aquilo que tem sido uma aliança a surgir entre os Estados Unidos e o Japão, mas também para evitar que a China tente algum tipo de atitude expansionista e de expansão da sua área de influência, não só para Taiwan, que aí iria exigir, obviamente, uma ação bélica, mas também junto do mar do Sul da China, e sabemos o que têm feito com as Paracels e aquelas ilhas que são, no fundo, simulações de ilhas que são criadas apenas e só para expandir o mar territorial chinês, e os Estados Unidos, que sempre tiveram uma grande dimensão militar na região, um grande aparato para precisamente impedir, estancar essa expansão chinesa para a região do Indo-Pacífico, neste momento mudaram muitas dessas suas frotas, que até fazem um exercício bianual, que é o chamado RIMPAC, na região, para mostrar a sua força, e muitas dessas frotas têm sido desviadas precisamente para o estreito de Ormuz e para junto da costa iraniana para perpetuar aquele tal bloqueio aos portos iranianos e às infraestruturas iranianas. E isto, em última instância, é mau para os interesses norte-americanos, porque não só retira credibilidade aos processos diplomáticos e militares norte-americanos e, ao mesmo tempo, deixa a zona do Indo-Pacífico, que é a zona que vai decidir, assim que começar a corrida ao Ártico, vai ser a zona que vai decidir a próxima hegemonia e a próxima organização do sistema internacional, e deixa aquela zona desprotegida à mercê de uma ascensão pacífica que a China faz questão de demonstrar e de ir expandindo aos poucos.

Chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui o "Gabinete de Guerra", hoje com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Obrigado pela sua análise.

Obrigado, Martim. Boa noite.

O "Gabinete de Guerra" está de regresso na segunda-feira, fica disponível em podcast.