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Este é o Gabinete Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, obrigado. Bom dia.
Já vamos à mais recente ameaça iraniana de atacar solo europeu, mas primeiro Donald Trump que prometeu aplicar a mais esmagadora operação econômica contra o Irão, falando abertamente numa guerra financeira sem precedentes. Bruno, estando a economia iraniana já fortemente fragilizada por sanções anteriores, esta nova vaga de asfixia econômica de Washington tem margem real para paralisar Teerão ou isto é só retórica de Donald Trump, ou arrisca até acelerar a escalada militar?
O problema de base aqui, desde logo, é que nunca sabemos se as ameaças do Donald Trump ou as concessões do Donald Trump são para levar a sério. Temos este problema de base com a falta de credibilidade do Donald Trump, que torna muito problemático depois ou chegar a compromissos, ou também este efeito de dissuasão ou de coerção estratégica. Esse é um problema. Que os Estados Unidos e os seus aliados, por exemplo, os Emirados Árabes Unidos, que são actualmente o grande centro de serviços financeiros na zona do Golfo e até do Médio Oriente, podem realmente complicar mais a vida ao Irão, isso é verdade. Agora, também é verdade que o Irão e sobretudo a elite governativa iraniana, a começar pela própria guarda revolucionária e pela guarda pretoriana do regime, estão muito habituados a lidar com esta pressão econômico-financeira, toda a questão da evasão de sanções, etc. E que inclusive até criaram eles próprios, muitas vezes, empresas, estruturas econômicas no interior do próprio Irão, que de alguma forma beneficiam com esse tipo de ações. E portanto, embora, como referias, a economia do Irão esteja num estado péssimo, tenha sofrido muito com este conflito e com todas estas décadas de conflito com os Estados Unidos, a verdade é que também tem mostrado muita resiliência e sobretudo as elites do regime, em muitos casos, até beneficiam com as situações de maior pressão. Por exemplo, criaram indústrias que no fundo abastecem o mercado interno iraniano, mesmo com produtos que não sejam tão bons, precisamente beneficiando da ausência de concorrência externa. Portanto, realmente não é assim tão simples. Sobretudo, e para terminar, e vimos isso, por exemplo, também no caso de toda esta discussão sobre a guerra econômica contra a Rússia. Aquilo que a história também nos mostra é que a guerra econômica, as sanções, até podem ter um impacto grande, mas por regra, dificilmente é um impacto decisivo ou um impacto rápido. E portanto, tudo isso são coisas que são aqui cruciais para ter em conta na avaliação destas ameaças.
Entretanto, o Irão ameaçou atacar bases norte-americanas na Europa, caso Donald Trump intensifique ainda mais a guerra. A NATO diz que está preparada, mas Bruno, como é que olhas para este alastrar do conflito entre Washington e Teerão para o continente europeu, que não é novo. Em março, a NATO interceptou mísseis balísticos lançados contra a Turquia e também drones lançados contra os chips. Mas agora com esta nova ameaça, qual deve ser a resposta da Aliança Atlântica?
Neste momento, estamos numa espécie de guerra de palavras ou de declarações de intenção. De facto, esta notícia surge porque o Financial Times, que é um jornal importante, de referência e bastante credível, publica uma notícia que é resultado de altos responsáveis iranianos, diz o Financial Times, terem contactado o jornal para fazerem esse tipo de declarações, inclusive ameaçarem até concretamente com bases ou na Bulgária ou em regiões mais da Europa de Leste. E portanto, se o Irão quisesse atacar com o máximo de eficácia, até podia não visar. Portanto, estamos aqui nesta guerra de sinalização e de o Irão procurar passar a mensagem que tem formas de também responder a uma escalada, a uma intensificação das ações armadas pelos Estados Unidos visando os seus aliados. Esse é o segundo ponto importante, que a Europa, queira ou não, de alguma forma acaba por ser impactada por este conflito, para já sobretudo indiretamente, e objetivamente também está mais vulnerável que os Estados Unidos. Ou seja, o Irão tem mísseis que têm alcances para permitir atacar bases, de facto, sobretudo na Europa mais do Sul, mais do Leste, sobretudo se também manipular um pouco as cargas explosivas, o peso em explosivos que esses mísseis são supostos transportar. Basta isso, por exemplo, para aumentar logo o alcance desses mísseis e portanto, não há dúvida que, seja com mísseis, seja com drones, esta ameaça não é uma ameaça vã, pode realmente concretizar-se. Em termos da capacidade de resposta do lado europeu, da NATO europeia. Por um lado, há que ter em conta que nós estamos a falar apenas dos países-alvo ou estamos a falar do conjunto dos países da NATO e em particular e também dos Estados Unidos, que neste caso, em especial, teria a obrigação também de ajudar a responder a essas ameaças, uma vez que elas são resultado da ação Norte-americana e até o alvo que é apontado seriam bases americanas nesses países. Portanto, os Estados Unidos teriam também o interesse em ajudar a responder. Agora, o problema é que, neste momento, não apenas a Europa, que tem esse problema crônico, mas também os Estados Unidos, estão realmente com problemas na eficácia dessas capacidades antiaéreas, nomeadamente porque sabemos que as munições para esses interceptores estão sob pressão, porque realmente os arsenais norte-americanos estão muito reduzidos. No caso dos Patriot, fala-se que estão reduzidos para metade daquilo que seriam. E essa capacidade de intercepção também, isso tem sido demonstrado, por exemplo, no caso do Golfo Pérsico, também não é garantia de 100% de eficácia. Portanto, eu diria, alguma capacidade de resposta têm, sobretudo porque isso também envolveria os Estados Unidos, mas este conflito tem mostrado que realmente não há sistemas 100% eficazes, sobretudo quando estamos a falar de pelo menos dois conflitos já relativamente prolongados e de uma intensidade muito elevada, como é o caso da guerra entre os Estados Unidos e o Irão, mas também da guerra que envolve a Rússia e a Ucrânia.
Precisamente à Ucrânia. A Rússia lançou mais de mil ataques num só dia na região de Zaporíjia e esta noite voltou a atingir Kiev com mísseis balísticos. Bruno, esta vaga massiva de bombardeamentos mostra que Moscou está a tentar acelerar o colapso das defesas ucranianas antes do inverno ou é uma demonstração de força para esvaziar qualquer plano de paz?
Eu penso que é, sobretudo, a exploração de uma vulnerabilidade ucraniana que é o resultado exatamente destas contas que estávamos a falar. Ou seja, Zelensky já disse, aliás, publicamente, que precisaria de talvez 5% daquilo que são as reservas americanas desse tipo de interceptores, sobretudo os Patriot, idealmente 10%, mas pelo menos 5%, e está nos 1%. Portanto, são cinco vezes menos do que aquilo que ele considera como minimamente necessário. Isso é muito resultado dos Estados Unidos com Donald Trump terem desinvestido do apoio à Ucrânia e só o fazerem, aliás, por via de pagamentos feitos pelos países europeus para compra de armamento americano. Portanto, isso deixou de ser uma prioridade claramente para os Estados Unidos e no contexto da guerra da Ucrânia, passou a ser ainda menos uma prioridade ou passou a haver ainda mais reservas em relação à venda deste tipo de interceptores, porque realmente a estratégia russa desde o início do conflito, tem sido fazer esse tipo de guerra aérea indiscriminada contra a população civil, embora isso não tenha resultado até agora na quebra da vontade de resistência da Ucrânia. Pelo menos, no fundo, é uma espécie de retaliação, de vingança em relação ao fato da Ucrânia se ter atrevido a continuar a resistir até hoje à invasão russa e ter conseguido ter uma eficácia crescente também nesta guerra aérea nos últimos meses.
E já lá vão quatro anos e meio. Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana.
Obrigado.
Obrigada.
Obrigado