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Dia importante nas negociações entre Ucrânia e Rússia, dia em que Vladimir Putin escolheu não estar presente na Turquia. Enviou uma delegação. Zelensky viajou para o país, mas também não vai estar presente nas negociações diretas com a Rússia. É também destaque nesta edição do Gabinete de Guerra. Eu sou o Miguel Cordeiro, estou à conversa com o Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito boa tarde. Obrigado por estar conosco. De facto, Zelensky acabou por deixar também essas negociações entre Kiev e Moscovo, a acontecer hoje na Turquia. Viajou de manhã, reuniu-se com o chefe de Estado da Turquia, Erdogan, e nas negociações em Istambul vai estar agora uma delegação da Ucrânia, liderada pelo ministro da Defesa, que vai reunir-se com uma delegação russa. De qualquer forma, Zelensky também já disse que se houver um entendimento para cessar-fogo nestas negociações, então a reunião com Putin também não precisa de acontecer no futuro. Como é que vê estes encontros na Turquia? Primeiro, perguntar-lhe se depois de tudo aquilo que foi descrito ao longo da semana que poderia ter de importante esta reunião, estamos perante um encontro já um pouco fracassado.

Boa tarde, Miguel. Não considero que seja um encontro fracassado, principalmente porque é um primeiro momento em que estão os dois lados sentados à mesa, obviamente após três anos. Vamos começar pelo princípio, que a grande questão começa logo o porquê de ser na Turquia. Naturalmente que o facto de Erdogan procurar ser mediador e ter procurado estar numa posição de ponta entre os dois lados, inclusivamente a servir de interveniente em alguns momentos importantes, seja a nível de apoio diplomático, de apoio a nível nas negociações ministeriais, etc., de alguma forma também procura ser um componente deste processo para conseguir encontrar os tais pontos de ligação. Agora, mais do que tudo, o que nós estamos aqui a considerar é uma questão de identificar o ponto de partida. Esse ponto de partida é o Protocolo de Istambul. E aqui o relevante é que o Protocolo de Istambul exigia uma capitulação e uma completa ausência de forças da NATO ou adesão da NATO ou forças estrangeiras na Ucrânia. Nesse sentido, é um ponto de partida que naturalmente não interessa à Ucrânia, não interessa começar tão longe de um ponto de equilíbrio. Esse será, à partida, um dos momentos mais relevantes, sendo que também as comitivas em si não são despiciendas. As comitivas, ao considerarmos que a Rússia está com uma segunda linha, não poderemos considerar necessariamente estranho, porque também não poderemos identificar logo que Putin deve ser o interveniente ou os líderes devem ser o interveniente. Normalmente, eles aparecem numa fase mais avançada, numa fase em que os acordos estão mais avançados, em que realmente há ali uma situação já de maior proximidade e verdadeiramente temos que apresentar uma imagem para cortar umas fitas. O que está aqui é que realmente estes intervenientes já interviram noutro momento, já interviram inclusivamente em negociações fracassadas e estão capazes de fazer um primeiro passo. Esse primeiro passo, e é o último ponto que eu gostaria de salientar nesta fase, poderá ser exatamente conseguir um cessar-fogo, que seria um cessar-fogo total, com algumas referências relevantes para os próximos passos, em que eventualmente os 30 dias que têm vindo a falar. Ou seja, respondendo de uma forma mais direta, sem dúvida alguma que é positivo estarmos já com uma ligação direta entre as duas partes, mas ainda deixa aqui alguma margem que poderia com uma delegação um pouco mais forte, pensar em avançar um bocadinho mais.

Sim. Há aqui vários pontos. O que vamos ter agora é uma delegação ucraniana, sem Zelensky, a reunir com uma delegação russa, sem Vladimir Putin. No caso da delegação do Kremlin, é Vladimir Medinsky a chefiar essa delegação em Istambul, do lado ucraniano é o representante por parte do Ministério da Defesa que vai estar também nessa delegação. Eu vou buscar precisamente declarações já de Medinsky, o representante do Kremlin em Istambul, diz aos jornalistas que o objetivo da presença russa é eliminar as causas fundamentais do conflito com a Ucrânia. Diz que é isso que vai colocar em mesa nestas negociações. Causas fundamentais do conflito, que se recuarmos quase três anos e meio desde o início do conflito, na altura, nazificação na Ucrânia, as questões territoriais, o armamento, a tentativa de aproximação à NATO. Isto é possível, de facto, estas causas fundamentais do conflito chegarem a um entendimento com a Ucrânia por parte da Rússia?

Como dizia há pouco, Miguel, de certo modo o ponto de partida é que é o problema. Realmente, esse Protocolo de Istambul deixava um conjunto de ideias que dificilmente podem ser aceitas pela Ucrânia. Repare, como eu dizia há pouco, a capitulação, a neutralidade, os diversos acordos de defesa e cooperação com as entidades estrangeiras, sem ter qualquer tipo de elementos/equipamento de outros países em território ucraniano, o máximo de, salvo erro, 85 mil combatentes militares, mísseis com alcance máximo de 40 km, o que permitiria logo à partida a Rússia estar muito próxima do território ucraniano e portanto motivar uma nova fase, uma segunda leva, ou melhor, uma terceira, visto que já houve em 2014 uma primeira. Tudo isto é inaceitável para a Ucrânia. Há pontos que eu compreendo que têm que ser negociados numa outra dimensão e as causas profundas que Putin utiliza. Naturalmente, há aquela sensação de cerco que a Rússia sente, o controle da sua zona de influência é muito relevante para Moscovo. Mas como dizia o "Washington Post" hoje, de alguma forma têm que ser dados algum tipo de passos para encontrar uma posição mais central. Mas haverá sempre aqui uns problemas difíceis de ultrapassar e serão essas mesmas causas profundas, mas também as questões dos territórios, desde a central de Zaporizhzhia, que está em causa a segurança energética, uma eventual força de monitorização/interposição, de que países, com que missão, realmente a dimensão das Forças Armadas e os protocolos de defesa e segurança que naturalmente Kiev vai necessitar para evitar que daqui a uns anos se repita exatamente o que estamos a ver hoje.

A Turquia, nas declarações que teve hoje e na conversa que teve com o Zelenskyy, acabou por reconhecer a Crimeia como território ucraniano. Isto foi dito por Zelenskyy. Isto pode ser um problema para o papel da Turquia como mediador?

A Turquia adoraria ser um mediador efetivo. A verdade é que lhe falta, das três grandes condições, falta uma: a capacidade de impor qualquer tipo de acordo, portanto nunca irá conseguir ter essa dimensão. Erdogan, de alguma forma, tem conseguido ser uma pessoa dentro de um equilíbrio em que vai apoiando um lado, vai apoiando o outro conforme necessário. Manteve realmente, e isso é muito importante, uma componente de comunicação com Putin, numa altura que ninguém tinha. Realmente ele conseguia chegar a Putin, acabava por ser um representante ocidental em Moscovo, mas também não esquecemos que vendeu algum tipo de armamento importante, como nomeadamente os drones logo no início, a Kiev, e permitiu, de alguma forma, assegurar uma defesa num momento crítico por parte das Forças Armadas ucranianas. Esta questão, a ser confirmada, é bastante relevante, porque a Crimeia é exatamente uma primeira fase do assumir de territorialidade por parte da Rússia, porque além de ser uma questão histórica, agora também numa segunda fase em 2014, assumiu de facto aquele território. Dificilmente a Rússia vai abdicar daquela região, portanto a ser verdade, cria aqui um irritante, diria assim, mas não será definitivamente forma de cortar este processo. Portanto, o Erdogan irá manter as pontes entre os dois lados.

Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por ter estado conosco esta tarde no Gabinete de Guerra aqui na Rádio Observador.

Até breve, Miguel.