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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas no mundo. Hoje contamos com a análise do coronel José do Carmo. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre a Ucrânia, que hoje celebra 35 anos de independência, quarto aniversário celebrado em período de guerra com a Rússia. Volodymyr Zelensky discursou durante o dia de hoje, deixou um aviso a Vladimir Putin de que nada põe em causa a integridade da Ucrânia. José do Carmo, que notas é que retiramos das palavras de Volodymyr Zelensky?

Olá, boa tarde. Retiramos a ideia daquela determinação de que a Ucrânia não está perto de aceder àquilo que a Rússia sempre quis, que era uma capitulação, e portanto nestes anos que já levamos de conflito, a Ucrânia não está mais fraca, está mais forte, apesar de conjunturalmente, neste momento específico, estar com alguns problemas, com algum tipo de armas e algumas situações, nomeadamente na questão da defesa aérea. Mas o que as palavras de Zelensky mostram é que mantém a mesma resiliência com que enfrentou este conflito no início e, no fundo, frustrou tudo o que era objetivo da Rússia, que era fazer capitular a Ucrânia em poucos dias.

Ainda sobre este tema, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou hoje um novo pacote de ajuda para o combate dos ucranianos contra a Rússia, um pacote de ajuda no valor de 6 mil milhões de euros. É destinado, sobretudo, a fortalecer os sistemas de defesa aérea de Kiev e da Ucrânia em si, e também a questão dos radares. Que diferença é que isto faz no conflito? E pergunto também se chega demasiado tarde para ter um impacto.

O problema, neste momento, não é a falta de dinheiro. Dinheiro, pelos vistos, há. Há estes 6 mil milhões de euros, há também dinheiro avançado pela Noruega e a juntar-se ao que já havia. O problema, neste momento, nem é o dinheiro, é a capacidade de transformar esse dinheiro em capacidades militares para enfrentar os meses que se seguem. É evidente que há projetos que estão a ser prosseguidos com esse dinheiro, mas projetos longos, projetos que vão demorar tempo a concretizar. A defesa aérea, por exemplo, contra mísseis balísticos não é uma coisa que se possa sair ali ao supermercado comprar o míssil. É preciso um projeto longo ou comprá-los a quem os tiver e, neste momento, não parece haver muita gente que os tenha, tirando os Estados Unidos ou eventualmente alguns stocks de países europeus que poderiam fazer chegar à frente. Ainda não sei qual é o estado dos stocks que existem na Alemanha, na Polónia.

Parece-lhe que os Estados Unidos possam estar mais disponíveis em breve para ajudar militarmente a Ucrânia nesse sentido?

Aquilo que a retórica nos diz, aquilo que nos dizem os sinais, é que os Estados Unidos já não têm a Ucrânia no capítulo de quem não tem cartas. Já sabem que têm cartas. O problema é que os Estados Unidos, neste momento, também estão com, é o que se diz, nós também não sabemos, mas é o que se diz, e é o que parece, que estão com alguns problemas em algum tipo de armas, nomeadamente intercetores de mísseis balísticos. A guerra no Golfo, no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico terá consumido um número bastante grande de armas de defesa, no caso dos mísseis intercetores contra mísseis balísticos, que é uma arma mais utilizada pelo Irão. E, portanto, é previsível que neste momento estejam com dificuldades e não queiram também, para outras guerras que podem surgir a qualquer momento, nomeadamente vindas do teatro do Extremo Oriente, não queiram ficar com as calças na mão se isso acontecer. E por isso poderão, se houver boa vontade, avançar alguma parte do seu stock, do seu paiol. Enfim, no fundo, para suprir as carências ucranianas durante estes meses que aí vêm até ao inverno e que a Rússia está a aproveitar neste momento justamente para aproveitar essa suplicidade e atingir alvos que até agora não conseguia atingir com a facilidade com que está a atingir. Vamos ver se os Estados Unidos, porque são eles que os têm, de facto, e para entendê-los, vamos ver se é, mas são muitas vezes um trato político. Há também aqui planos militares, há também aqui uma certa cautela em relação ao que aí vem, mas sim, os Estados Unidos, pelos vistos, poderiam fornecer alguma parte do seu stock, se quisessem.

Falamos ainda das palavras de António Costa, presidente do Conselho Europeu, que esteve nestas celebrações dos 35 anos de independência da Ucrânia. Garantiu o português que a União Europeia vai aumentar a pressão até que a Rússia demonstre um verdadeiro compromisso com a paz. De que forma, coronel José do Carmo, é que a União Europeia pode fazê-lo?

É aquilo que está a fazer. É, no fundo, participar em programas de abastecimento de material militar para a Rússia, participar na construção da resiliência industrial da Ucrânia, garantir o apoio político também, é importante o apoio político, dar à Ucrânia uma visão do que poderá ser o futuro, mais ligada à Europa, à democracia, aos países da Europa. Participa no financiamento de programas, que neste momento já há programas que estão num estado avançado. E participa inclusive no financiamento do próprio país, serve um bocado de retaguarda segura à Ucrânia e também aumentando a pressão económica sobre a Rússia, nomeadamente económica, sobre as frotas fantasmas, sobre as firmas, as empresas que fornecem material que a Rússia precisa, por exemplo, os mísseis balísticos russos incorporam milhares de componentes tecnológicos ocidentais. Muitos deles passam por empresas também europeias. E a Europa está a fazer isto. Esta manifestação de vontade, além da produção de drones e mísseis, ainda agora a França e a Inglaterra garantiram à Ucrânia as autorizações para fabricar os mísseis de cruzeiro Storm Shadow e Scalp, a variante francesa ou inglesa, mas é o mesmo míssil. Tudo isso são passos e ao mesmo tempo demonstrar à Rússia que não vai haver cedências, que não se vão intimidar, que não vão recuar perante as ameaças russas, que no fundo era a grande arma que a Rússia tem para dissuadir a Europa de apoiar a Ucrânia, era incutir medo. Medo que, lembremos, começou por ser medo de fornecer sequer carros de combate ou aviões. Tudo isso na altura parecia linhas vermelhas intransponíveis. Já mudámos muito em relação a isso. Isso foi a Ucrânia com a sua resiliência e a sua capacidade de inovar em termos tecnológicos, mesmo a própria guerra, que no fundo levou a que esta parceria se robustecesse. Até porque há aqui um problema, a Europa não ajuda apenas porque quer ajudar, porque é bonito, porque é justo, mas porque é o seu próprio interesse está em causa neste momento. A Ucrânia é o maior exército na Europa, é o exército mais capaz na Europa e de facto é a grande garantia de segurança para a própria Europa, que se mantenha assim, porque vamos imaginar este exército submetido à soberania russa, seria um desastre de consequências bíblicas para a Europa.

Vamos avançar, falar também da situação no Médio Oriente. É esperado hoje que os Estados Unidos deem mais detalhes sobre a guerra económica contra Irão, o chamado Dia D econômico, como apelidou Donald Trump, isto depois de na semana passada o presidente dos Estados Unidos ter falado numa operação económica que seria devastadora contra qualquer país, sobretudo contra o Irão. Está previsto que o secretário do Tesouro norte-americano dê hoje uma conferência de imprensa para detalhar este Dia D econômico. O que é que podemos esperar?

O que podemos esperar, por exemplo, que Scott Bessent anuncie listas de navios, comerciantes, casas de câmbio, empresas fantasma, ligadas ao comércio petrolífero iraniano, aos sistemas bancários, às frotas fantasmas, aos registos de navios, às casas de câmbios, às empresas, à aviação, aos ativos. Há uma lista aqui que quase de certeza que vai cobrir. Haverá certamente sanções secundárias mais abrangentes contra terceiras partes que participem com o Irão neste comércio. Haverá quase de certeza prazos aos bancos e empresas estrangeiros para abandonarem o comércio com o Irão e nomeadamente aquilo que tem que haver, porque senão isso não será o Dia D, não será nada, será apenas um Dia D em termos de relações públicas, será ameaçar os grandes bancos chineses, as empresas petrolíferas, as empresas de refinarias chinesas dos estatais, de que serão excluídos do mercado americano. Se isso não vier lá, ou seja, se as ameaças aos bancos chineses, aos grandes bancos e às grandes refinarias chinesas, não aquelas independentes que o governo chinês normalmente fabrica, que não estão muito expostas ao mercado americano para continuar a fazer o que está a fazer, que no fundo é financiar o Irão. Se isso não vier lá, será apenas retórica, não haverá nada. Aquilo que realmente será uma sanção importante é que o acesso aos dólares e aos fornecedores internacionais esteja em risco para as empresas chinesas. Porque se isso estiver em risco, a China tem uma grande probabilidade de estandejar, taticamente. No fundo, cumprir, embora diga que não cumpra e depois vá paulatinamente arranjando mais esquemas e mais empresas opacas para fazer o que está a fazer, que no fundo é comerciar com o Irão como se não houvesse nada.

E não podemos, coronel, esperar uma reação, digamos assim, mais ativa por parte da China?

Podemos, mas a China não vai pôr em causa o seu acesso aos mercados americanos e internacionais por causa do Irão. A China não vai abandonar o Irão estrategicamente. Se essas ameaças forem cumpríveis ou se os Estados Unidos forem intransigentes nisto, já aconteceu antes, em 2009 aconteceu isto, o comércio com o Irão reduziu-se a níveis mínimos de petróleo e depois a China deu a volta com a criação de empresas fictícias, barcos fictícios, refinarias independentes, entre aspas, do Estado chinês. Mas isso demora tempo e portanto a China não tem ainda capacidade para se afastar, até porque baseia-se muito no comércio internacional, para se afastar do mercado internacional, do mercado americano e por isso os seus bancos não se arriscam a ficarem no index do sistema financeiro americano. Agora, é evidente que poderá retaliar nas terras raras, nas licenças, nas empresas americanas, no fundo, para não dar uma ideia de submissão. Mas eu creio que eles podem abandonar uma refinaria, um banco periférico, uma refinaria dessas independentes que eles têm lá, mas não creio que desafiem publicamente, ou seja, continuem a fazer o que estão a fazer, no fundo é permitir ao Irão, através do seu sistema financeiro e das suas empresas petrolíferas Continuar a fazer negócio e a comprar petróleo, porque a China compra, na verdade, 80% do petróleo iraniano. Comprava, agora compra menos, porque também não há disponível. Mas comprava. E portanto, também não vai querer ficar sem esse petróleo. Mas vamos ver, estas sanções, se puserem empresas chinesas, bancos chineses importantes e empresas chinesas de refinação importantes, portanto, as estatais, em causa, têm boas hipóteses de conseguirem chegar a bom termo. Senão, não. Senão é apenas relações públicas.

Temos ainda dois minutos e meio, coronel José do Carmo, para analisar um tema que envolve os Estados Unidos e também a Coreia do Sul, até porque foram cancelados os exercícios militares entre os dois países. São habituais, acontecem todos os anos, até mesmo para, de certa forma, manterem controle o perigo da Coreia do Norte, mas agora foram cancelados, diz a Coreia do Sul, porque os Estados Unidos estão com restrições de disponibilidade de forças causadas pela guerra com o Irão. Não há meios nos Estados Unidos para esse tipo de exercícios? Temos dois minutos para o final do programa.

Há meios, certamente. Se tentarmos ver a racionalidade nisto, o que poderá estar aqui a acontecer é os Estados Unidos a quererem ficar nas boas graças da Coreia do Norte e, no fundo, tentar influenciar a Coreia do Norte a afastar-se um pouquinho da órbita russa e não ser tão amiga, digamos assim, da Rússia, que até forneceu, aliás, mísseis balísticos, tropas, artilharia, etc. Essa será a versão racional. A versão menos racional, e nós não sabemos qual é a verdadeira, é os Estados Unidos ficarem irritados com a Coreia do Sul, porque a Coreia do Sul não participou na operação no Golfo, não se colocou pronta a ajudar, como muitos países europeus, no Golfo Pérsico contra o Irão. E portanto, será nesta versão menos racional, digamos assim, uma maneira de Donald Trump castigar mais um aliado. Isso tem consequências largas. Evidentemente, quando um país como os Estados Unidos, em função do qual toda a estrutura de segurança no Extremo Oriente, Japão, Coreia do Sul, etc., está montada, se mostram pouco amigos dos seus aliados, isso vai levar a alterações graves. Vai levar, por exemplo, eventualmente, esses países começarem mais tarde ou mais cedo a pensar em adotar armas nucleares para enfrentarem os adversários que têm e que são bastante agressivos na região, como a China e a Coreia do Norte. Portanto, é um risco os Estados Unidos fazerem isto. Pode haver aqui um ganho tático nesta questão da Coreia do Norte não se juntar tanto à Rússia, mas em termos estratégicos pode ser perigoso e pode alterar completamente a ordem que prevalece no Extremo Oriente.

Chegamos ao final do nosso tempo. Coronel José do Carmo, obrigado pela disponibilidade e pela análise a estes focos de tensão geopolítica no mundo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, mas está disponível, como sempre, em podcast.

Obrigado eu. Boa tarde.