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Abrimos agora o novo Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões e esta quarta-feira junta-se a mim e ao Júlio Magalhães, António José Telo, professor catedrático de História na Academia Militar. Bom dia, professor. Bem-vindo.
Bom dia.
Bom dia. "Não esperem uma contraofensiva cinematográfica de Kiev. Este é o mundo real, não é um filme de Hollywood". As palavras são do chefe da diplomacia britânica, James Cleverly, numa altura em que a expectativa é grande, são várias as vozes de políticos, incluindo ucranianos, que tentam baixá-la. Professor, de que forma se podem ler estas indicações? Os ucranianos ainda não estão preparados para esta contraofensiva porque não têm soldados suficientes, armamento do mesmo nível e, sobretudo, caças, que Zelensky tanto tem pedido, ou porque de facto ninguém consegue ganhar esta guerra?
Ninguém consegue ganhar esta guerra é duvidoso, porque as guerras não se ganham só no campo de batalha e só pelos mesmos militares. Aliás, ganham-se principalmente pela manobra política e pela manobra da informação. Em termos militares diretamente. Eu pessoalmente há muito venho dizendo que esta contraofensiva ucraniana mudou em termos da manobra pensada nos últimos tempos. Mudou em larga medida por fatores externos, tem a ver com a crise das munições, tem a ver com o atraso na ajuda ocidental, mas mudou também por fatores que têm a ver com a resposta russa nos últimos meses. E portanto, o que é de esperar não é, de facto, uma ofensiva rápida e uma ofensiva em grande dimensão centrada num único ponto, mas sim uma ofensiva imaginosa, criativa, como os ucranianos nos habituaram ao longo deste mais de um ano de guerra. Uma ofensiva que possivelmente a sua primeira parte será essencialmente de diversão e tentativa de afastar as forças russas e dispersá-las, e depois só numa segunda fase haverá o ataque principal à zona que mais interessa à Ucrânia. Também é uma ofensiva que poderá não obter os resultados anunciados pela Ucrânia, ou pelo menos previstos pela Ucrânia uns meses atrás, que chegava a falar em expulsar por completo as forças russas do seu território. Possivelmente isso, neste momento, é ou muito difícil ou quase impossível, e a Ucrânia está consciente dessa situação.
Entretanto, professor, hoje em Istambul são retomadas as negociações para a continuidade do acordo dos cereais no Mar Negro. A reunião será de alto nível, vão estar presentes representantes da Ucrânia, Rússia, Turquia e ONU. O que pode fazer estas negociações falharem, ou se quiser, que divergências estão em cima da mesa?
Essencialmente, são as consequências em termos do comércio, quer ucraniano, quer russo. Estas negociações foram para adiante porque interessavam a ambos, ou seja, tanto a Ucrânia como a Rússia queriam exportar os seus cereais. E obviamente tentavam uma situação em que a sua parte ficava favorecida e a outra tinha dificuldades. O que é certo é que tendo a Rússia um controle sobre o Mar Negro em termos da sua marinha e um maior peso nas negociações, conseguiu uma situação em que a Ucrânia ficou prejudicada, em termos de exportação de cereais. Ficou prejudicada pela exportação por mar, o que depois se traduziu também em ficar prejudicada na exportação por terra, nomeadamente a partir da fronteira com a Polónia e da fronteira com outros países europeus, que tiveram dificuldades porque os seus agricultores não conseguiam aguentar a concorrência dos cereais ucranianos mais baratos. Portanto, a revisão tem a ver com isso, a tentativa de encontrar um acordo, na minha opinião, é possível, mas não é certo, essencialmente porque a Rússia quererá fazer perdurar a sua vantagem, ou seja, ela ter facilidades na exportação dos cereais próprios e a Ucrânia só parcialmente ou até um grau bastante menor conseguir exportar os seus. Isso era a situação anterior.
Professor António José Telo, Prigozhin disse ter sido informado que ele e os mercenários do Grupo Wagner seriam considerados traidores se abandonassem as posições. Ao mesmo tempo, acusa o Kremlin de não dar o apoio suficiente. Está a agravar-se esta relação entre Putin e o líder do Grupo Wagner ou é uma falsa divergência que pode ser estratégia do lado russo?
Na minha opinião, não é uma divergência entre Putin e o líder do Grupo Wagner. É uma divergência entre Wagner e a alta hierarquia militar. Eu não tenho muitas dúvidas que o Grupo Wagner é apoiado por Putin. Ou seja, se ele consegue fazer, mesmo na televisão russa, as afirmações que faz do ataque direto à alta hierarquia militar, é porque o presidente Putin o permite. Não só o permite, como até eventualmente o favorece, o que traduz umas crescentes divisões e dificuldades dentro da elite militar e política russa, onde o Grupo Wagner só faz estas afirmações porque essas divergências existem. Senão, não seria um pequeno exército privado Que poderia chegar à televisão russa e fazer destes ataques, falando em guerras directamente, fazer destes ataques contra a alta hierarquia militar, contra o ministro da defesa, contra o chefe do Estado-Maior. Isto era impensável, a não ser que tivesse o apoio muito alto da hierarquia política, nomeadamente, na minha opinião, do presidente Putin. Por outro lado, também é normal, como o grupo Wagner se queixa, possivelmente com alguma razão, que a alta hierarquia militar tenha procurado asfixiar o grupo Wagner, que aumentou muito nos últimos tempos, nomeadamente cortando as munições, o que se vai traduzir em perdas ainda mais pesadas dentro do tipo de guerra que ele faz, uma guerra de infantaria em zonas urbanas altamente defendidas, como tal, uma guerra com grande mortalidade. E isto traduz essas divergências que são crescentes em termos da alta hierarquia, quer militar, quer política da Rússia.
A Ucrânia diz ter conseguido destruir pela primeira vez um míssil hipersónico Kinzhal, mas diz que continua a temê-los. Estes mísseis que eficácia têm? E apesar do receio da Ucrânia, a verdade é que por cada um que é abatido, há um enorme rombo económico do lado russo, dados os elevados custos destes mísseis. Até que ponto são mísseis para serem usados num conflito com estas características?
Os Kinzhal são, de facto, muito mais caros que um míssil normal. Qualquer coisa como cinco a 10 vezes mais caros para a mesma quantidade de explosivos transportada. Simplesmente a sua vantagem era, segundo a Rússia, que eles eram impossíveis de interceptar. Pelos vistos, e é de acreditar nessas afirmações, foram interceptados. Que é a primeira vez que um míssil hipersónico é interceptado em operações, como tal, de facto, tem significado. E é interceptado por um sistema que os Estados Unidos já usam há muito tempo, embora só os últimos modelos permitem essa intercepção, nomeadamente o Patriot, que só recentemente a Ucrânia colocou em operações e só cobrindo algumas áreas limitadas do seu território, nomeadamente a capital Kiev. Portanto, é uma novidade importante e vai obrigar a Rússia a repensar a sua manobra em termos dos ataques com mísseis que se revelam, mesmo os hipersónicos, como possíveis de interceptar. É normal que a Rússia faça o que já está a fazer, que é utilizar em grande quantidade os drones suicidas, que são muito mais baratos, incomparavelmente mais baratos, mas têm o problema, principalmente para a Ucrânia, da precisão ser bastante menor e de transportarem uma carga explosiva também bastante mais reduzida. É uma diferença muito substancial. Um míssil hipersónico médio ou de longo alcance pode transportar entre 600 a 1000 quilos, um drone suicida normalmente raramente chega dos 50 a 60 quilos. Portanto, é uma diferença muito grande.
Professor António José Teles, muito obrigada por fazer parte de mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia para si, professor.
Bom dia e bom trabalho.
Bom dia, igualmente.