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Está no ar o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, hoje com o Major-General Arnaut Moreira. Vai aqui com a ajuda da Judite França e da Vanessa Cruz olhar para esta estratégia que a Rússia terá em curso para este mês no teatro de guerra e também para a solidariedade da Ucrânia, que apesar do conflito, vai enviar mais ajuda do que Portugal para a Turquia, isto por causa do sismo de ontem.

E até podemos começar já por esta comparação, Major-General Arnaut Moreira, se me permitir. Bem-vindo.

Olá, muito boa tarde a todos.

Boa tarde. 87 equipas de emergência vão ser enviadas pela Ucrânia. Por Portugal, são pouco mais de 50 efetivos, entre Proteção Civil, GNR e médicos. Isto é normal, um país em guerra enviar mais ajuda do que nós, ou é aqui uma forma de agradecimento por parte da Ucrânia pela mediação que tem sido feita pela Turquia?

Estas comparações têm sempre, naturalmente, a ver com a situação também de cada uma das partes. Nós temos que perceber também que junto da Ucrânia existe, desde que se iniciou a guerra, uma enorme capacidade desenvolvida neste âmbito, porque através do conjunto de bombardeamentos a que tem sido sujeita, a Ucrânia teve que desenvolver um conjunto de capacidades nesta área verdadeiramente impressionante. Elas estão ativas permanentemente, 24 horas por dia. Por outro lado, a ligação que a Ucrânia tem com a Turquia é um elemento também fundamental para um certo equilíbrio na zona. E nós não podemos esconder que desde o início a Turquia tem sido, nas suas posições, muito favorável àquilo que são as pretensões territoriais de recuperação dos territórios ocupados por parte da Ucrânia. Portanto, existe, por um lado, um sentimento de dívida que é muito grande da Ucrânia em relação à ajuda que a Turquia tem vindo a dar, também do ponto de vista das capacidades militares. E, por outro lado, existe também uma disponibilidade por parte da Ucrânia, porque ela desenvolveu muito este conjunto de capacidades por força daquilo que são os acontecimentos trágicos da guerra. Portanto, eu encaro com naturalidade, mas naturalmente que reforço e que devemos reforçar este gesto de solidariedade, porque uma coisa é a solidariedade à distância e outra coisa é a solidariedade quando esses próprios elementos são fundamentais para a continuação da existência dessa capacidade na própria Ucrânia. No entanto, também temos que ter em atenção que estes apoios de emergência têm normalmente nesta fase, uma duração relativamente breve, porque infelizmente ao fim de um conjunto não muito significativo de horas, vai diminuindo também a capacidade de conseguirmos resgatar pessoas ainda com vida. E, portanto, devemos de qualquer maneira assinalar que num dia de catástrofe, numa época de catástrofe, numa semana de catástrofe, a Ucrânia chegou-se à frente e contribuiu com as suas equipas.

Sim, verdadeiramente impressionante. 87 equipas de emergência enviadas pela Ucrânia. Por Portugal, são pouco mais de 50 efetivos. Neste momento, deixando agora um pouco este acidente trágico de lado, se olharmos para a questão do novo ataque russo que tanto se tem falado, tantos think tanks têm falado nesta questão, a verdade é que há algum ceticismo quanto a essa possibilidade. O Ministério da Defesa britânico aponta para que o objetivo seja apenas capturar áreas no Donbass. A Ucrânia garante que Moscovo estará a enviar milhares de efetivos para Luhansk. Olhando para a sua experiência, Major-General Arnaut Moreira, como é que lê esta situação?

Nós não temos, na verdade, nenhuma indicação com um grau de probabilidade muito forte de que esta ofensiva venha a ocorrer de um ponto de vista apenas, ou de continuação do esforço que tem sido exercido, ou se, pelo contrário, ela vai romper de alguma maneira com este esforço continuado no Donbass e vai procurar assegurar a conquista de outras áreas. Podemos, no entanto, tentar perceber que Putin não tem arriscado muito nas suas diretivas estratégicas do ponto de vista da condução da guerra. E também não vejo que ele esteja tentado a correr riscos, esses sim, complexos do ponto de vista da gestão interna do poder, que é de repente arriscar uma manobra surpresa que ninguém estaria à espera e que pode correr mal. Ora, a última coisa que Putin precisava neste momento, do ponto de vista do controle da informação dentro da Federação Russa, era que Total ofensiva feita em moldes surpresa e com aspectos de natureza operacional extraordinariamente arriscados, corresse mal. Eu estaria mais tentado, mas eu não tenho nenhuma bola de cristal também. Eu apenas estou a prever em relação àquilo que me parece ser o pensamento dominante de Putin, que ele procurará consolidar aquilo que são os avanços que tem vindo a conseguir, pelo fato de estar a lançar para a guerra, sobretudo no Donbass, um conjunto muito significativo de reforços, sobretudo humanos. Isto corresponde também a uma leitura que também faço de que, do ponto de vista comunicacional, o mais seguro, sem perder de vista a questão do controle final da Ucrânia e portanto, da imposição a Kyiv de um governo controlado por Moscovo, parece-me que a consolidação de Donbass é provavelmente um objetivo prioritário, independentemente dele se constituir depois como base de partida para objetivos mais ambiciosos. E portanto, eu diria que os reforços que foram lançados agora podem ainda ser aumentados em função do conjunto de efetivos que nós temos consciência que têm estado em treino, por exemplo, na Bielorrússia, no sentido de reforçar e talvez de apressar esta ofensiva no Donbass. Porque existem aqui duas janelas de tempo que me parece que são importantes. A primeira janela de tempo tem a ver com a chegada do reforço do material ocidental e, portanto, a Federação Russa gostaria de consolidar território e de ganhar território, aproveitando um certo atraso ocidental em fazer chegar os meios à Ucrânia. Portanto, seria nesta oportunidade, quanto mais cedo o fizesse, melhor. Por outro lado, é sabido que por volta de abril os terrenos tornam-se, em face da chegada da época das chuvas, pode haver maiores movimentações. E portanto, estas duas janelas de tempo se conjugam no sentido de nos dar uma certa previsão, uma certa previsibilidade de que esta ofensiva estaria para começar nos próximos dias ou nas próximas semanas.

Só para terminarmos, Major-General Arnaud Moreira, queria só muito rapidamente que me dissesse sim ou não, se o novo Ministro da Defesa ucraniano, Kyrylo Budanov, ele que previu a invasão russa, se terá perfil para garantir uma vitória da Ucrânia.

Zelensky veio pôr um bocadinho de água nesta fervura, dizendo que é a ele e só a ele, que compete esta decisão e portanto, que esta decisão é da sua exclusiva responsabilidade. Admitindo que ele nestas declarações também não disse que Reznikov não seria afastado do cargo, podemos de alguma maneira especular que ele tenderá a substituir Reznikov neste cargo. Reznikov era uma figura muito importante. O Ocidente, os ministros da defesa ocidentais tinham confiança nele e ele acaba envolvido num escândalo que não sabemos de que maneira é que o afetou. Se houve intervenção pessoal ou se foi apanhado apenas como uma espécie de responsável político por aquilo que se passou no Ministério da Defesa. De qualquer maneira, o novo, ou o futuro novo, ou o potencial novo ministro da Defesa é um homem muito novo, mas no entanto com muita experiência nesta área, porque ele está muito ligado à intelligence das operações militares.

Averiguamos.

Seria um substituto interessante.

Muito obrigada, Major-General Arnaud Moreira, por ter vindo ao Gabinete de Guerra.

De nada. Uma boa tarde a todos.

Obrigada.