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Começa agora o Gabinete Guerra das Manhãs 360, à segunda-feira, com análise do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.

Olá, Maria João, bom dia.

Olá, Miguel. A tensão entre Washington e Kiev atingiu aqui um ponto crítico de ruptura. Zelenskyy acusou abertamente Donald Trump de tentar forçar a capitulação da Ucrânia, dando como exemplo a compra de gasóleo russo e os cortes na ajuda militar, enquanto Trump acusa o presidente ucraniano de não querer pôr fim à guerra. Miguel, esta relação ainda tem solução?

Há muito que nós sabíamos que Donald Trump tinha escolhido um lado. Nós sabíamos há muito tempo que o Donald Trump estava muito mais interessado em voltar a ter relações econômicas com a Rússia, a voltar a ter relações privadas na sua esfera pessoal e dos amigos no mercado russo. Nós sabíamos da intenção, e sempre foi uma intenção da política norte-americana, de afastar a Rússia da órbita da China e, para isso, Donald Trump sempre esteve disponível a utilizar todos os seus trunfos. Agora, nós sabemos há muito tempo que Donald Trump também não gosta de ficar, de alguma forma, próximo de quem ele possa achar que esteja a perder, seja uma eleição ou seja uma guerra. E portanto, há muito tempo que nós sabemos isto, de que mais tarde ou mais cedo Donald Trump faria esta situação. Onde é que há aqui o ponto de viragem? O ponto de viragem é efetivamente quando há toda aquela situação à volta de Federov, o ex-ministro da Defesa, e no momento em que Federov vem publicamente desafiar Zelensky para uma eleição, dizendo inclusive que a Ucrânia estará próxima de perder a guerra dentro de alguns meses, se não alterar a sua política de compra de armas, a sua política orientada para a questão da guerra. E, portanto, nesse momento, desafia Zelensky a fazer uma eleição. Nós sabíamos também que o próprio Donald Trump já tinha dito várias vezes que não faria sentido que Zelensky não fizesse a eleição. Portanto, agora o que estamos a ver é o corolário de todas estas situações, na tentativa de duas coisas. Primeiro, de obrigar Zelensky, o mais depressa possível, a aceitar um acordo que permita Donald Trump aparecer como vitorioso e dizer: "Eu consegui impor a paz na guerra, na Ucrânia". Ainda a tempo das eleições, eu acho que vai ser muito difícil, mas o que nós estamos a ver é uma tentativa de capitulação. Não é da Ucrânia em si, mas é de Zelensky, para que Zelensky aceite efetivamente um cessar-fogo que permita a realização de eleições. E nessa realização de eleições, se nós tomarmos como válidas aquilo que têm sido as sondagens que têm sido publicadas por órgãos de comunicação ucranianos, então temos um número de mais de 52% das pessoas inquiridas em que não quer Zelensky na continuidade. Portanto, a tentativa é de trocar de liderança. Aliás, Donald Trump disse, e eu termino este ponto a dizer que Donald Trump disse que tinha que se trocar e arranjar um presidente novo, porque este presidente não quer a paz. Portanto, os Estados Unidos a fazerem o papel de proteger Vladimir Putin e, de alguma forma, ao levantar sanções, ao levantar as restrições, vão financiando a capacidade econômica da Rússia, permitindo assim a continuidade da guerra.

Mas Miguel, com os Estados Unidos a cortarem apoio militar e a comprarem combustível a Moscovo, a Ucrânia ainda tem capacidade para continuar a resistir ou está a ser empurrada para uma mesa de negociações onde a única opção é ceder território?

Nós sabemos que a questão do território estará sempre no papel e estará sempre na mesa das negociações. E, portanto, nós não vamos estar à espera que numa futura negociação, que Vladimir Putin vá abrir mão dos territórios já ocupados. E nós sabemos que ele quer o Donbass. Houve uma proposta e houve uma altura em que o próprio Zelensky disse que estaria disponível, por exemplo, se houvesse um cessar-fogo, de alguma forma, houvesse até um controle internacional por tropas internacionais daquilo que seria a linha da frente, que ele estaria disponível a parar a guerra onde estava agora e depois deixar lá mais para a frente a discussão dos territórios, uma vez que a própria Constituição ucraniana não permite a cedência de territórios. Portanto, teria que se fazer todo um processo de auscultação à população e depois alteração à Constituição. Agora, o que está a acontecer é isso, que a Europa sozinha pode continuar a financiar a Ucrânia, financiamento de dinheiro, mas se os Estados Unidos não venderem, se os Estados Unidos não derem, principalmente, aquilo que nós sabemos que é acesso à informação, quer através do Starlink, quer através do Startshield, que é efetivamente utilizado para a sua vertente militar, então a Ucrânia, se me permite, estará às escuras militarmente e em termos de intelligence daqui a muito pouco tempo, obrigando efetivamente a ideia de que Zelensky se senta à mesa das negociações. Desta forma, não com alguma vantagem sobre a Rússia, mas em desvantagem total. A Europa, como não consegue manter, porque não tem capacidade tecnológica, nem tem capacidade militar, além de alimentar financeiramente, alimentar também naquilo que é essa questão de inteligência e também na questão militar Isto vai levar, se continuarmos assim, a que Zelensky comece a olhar, efetivamente, de se sentar à mesa, não do ponto de vista de alguém que se senta à mesa e vai também impor condições para a negociação, mas de alguém que, se calhar, vai ter que aceitar as imposições dos outros. E aí é que eu sempre disse que a Europa deveria já ter apresentado um caderno de reivindicações para que, de uma forma proativa, protegesse Zelensky e soubesse exatamente aquilo que os 27 países da Europa, ou melhor, se quiseres, Marijó, e com isto termino, aqueles mais de 30 países da chamada coligação de vontades, que entretanto desapareceram e não aparecem a dizer nada.

É verdade. Entretanto, a uma semana das eleições em Israel, são no dia 27, a ameaça militar do Irão tornou-se o centro da campanha. Trump, como esperado, declarou apoio aberto a Netanyahu, diz que só ele pode travar Teerão, enquanto o governo iraniano acusa o primeiro-ministro israelita de provocar uma escalada de guerra no Médio Oriente para ganhar as eleições e garantir a sobrevivência política. Miguel, fazes a mesma leitura? A guerra com o Irão é o trunfo que vai garantir a reeleição de Netanyahu ou o risco de arrastar a região para um novo conflito está a assustar também o eleitorado israelita?

O eleitorado israelita tem duas percepções. Primeiro, tem a percepção de que depois do 7 de outubro, Netanyahu falhou a proteger a população israelita e Israel. Existe esta percepção. Existe a percepção também de que uma mudança de política poderia trazer alguma paz à região e, portanto, há efetivamente esta onda de tentativa de mudança, mas ao mesmo tempo, e curiosamente, isto num país que está sempre quase em estado de guerra ou em estado de alerta constante desde a sua fundação, ao mesmo tempo, o cidadão israelita olha à sua volta e vê que efetivamente tem um problema, e esse problema é que, afinal, o Irão, que se esperava que com a ajuda dos Estados Unidos, pudesse, de alguma forma, ter sido derrotado e permitisse assim haver uma paz regional, que permitisse, inclusive, voltarmos à questão da mesa dos acordos de Abrão e até ter outros países de origem árabe que pudessem aceitar os acordos de Abrão, como por exemplo, seria a Arábia Saudita, sabendo que a Arábia Saudita tem como condição sine qua non a questão da Palestina, mas Donald Trump tem capacidade de negociar junto ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Agora, a partir do momento em que os houthis, através do Iémen, atacaram a Arábia Saudita, e nós sabemos que são um proxy do Irão, criaram também uma instabilidade com a Arábia Saudita, e no momento em que os Estados Unidos e Israel declararam apoio em termos militares, mas também de intelligence, à Arábia Saudita, e a Arábia Saudita aceitou, também levanta esta questão, efetivamente, no povo israelita, que é: mas afinal, temos aqui um país árabe monstruoso, mesmo aqui ao lado, que até há pouco tempo nós achávamos que tinha esta ideia de que seria muito difícil de negociar com a Arábia Saudita, mas neste momento temos um inimigo comum. E é um pouco aquela ideia: o amigo do meu inimigo, meu amigo é. E, portanto, esta questão do voto vai ser muito focada nesta pergunta: tem a oposição israelita capacidade de formar governo? Tem, olhando para as sondagens, com o apoio dos partidos árabes, mas os partidos árabes têm uma premissa, que é a discussão da questão dos dois Estados, o que a maioria do povo israelita ainda não aceita.

Miguel Baumgartner, é sempre bom contar com a tua análise. Um bom dia, boa semana.

Muito obrigado. Boa semana, Marijó. Obrigado.