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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis e Isidro Morais Pereira, bem-vindos. Com a situação humanitária a agravar-se, o Conselho de Segurança das Nações Unidas vota mais logo uma nova resolução a pedir um cessar-fogo imediato em Gaza. Do Reino Unido, que faz parte do Conselho, ouvimos hoje o ex-ministro da Defesa, Ben Wallace, falar em fúria assassina em Gaza e dizer que Israel está a perder a autoridade moral e legal. Os Estados Unidos deverão manter o veto, Bruno Cardoso Reis?

Eu penso que sim, porque os Estados Unidos têm insistido sempre que qualquer resolução tem de conter uma condenação expressa do Hamas, que não se verificou até hoje, desde o 7 de outubro, não pode apenas referir Israel, e tem de incluir uma referência aos ataques que levaram ao início do conflito. Eu diria, se houvesse realmente uma grande vontade de aprovar uma resolução e de condicionar os Estados Unidos a levantar o seu veto, haveria referência a isso. Mas o texto atual não parece ir nesse sentido. Isto não significa que os Estados Unidos não estejam a reforçar a sua pressão sobre Israel, não no sentido de impor um cessar-fogo unilateral sem qualquer garantia de libertação dos reféns, embora o texto desta resolução também apele à libertação de reféns, não há nenhuma garantia, nenhuma ligação entre as duas coisas. Isso é um problema, mas os Estados Unidos têm praticamente diariamente estado a enviar altos responsáveis para falar com o governo israelita, para pressionar o governo israelita. Tivemos o Jake Sullivan há poucos dias, hoje temos o ministro da Defesa, o general Lloyd Austin. Mas aí a pressão, do meu ponto de vista, será sobretudo para Israel fazer uma campanha de menor intensidade, com ataques muito mais direcionados, muito mais em função de informações credíveis e com um nível de intensidade menor e também com menos probabilidade de causar vítimas civis na população de Gaza.

General Isidro Morais Pereira, Israel aparenta estar cada vez mais isolado. A comunidade internacional tem dificuldades já em justificar os ataques em território palestiniano.

O que me parece é que Israel tem objetivos para esta campanha militar que está a levar a cabo na Faixa de Gaza claramente definidos: a destruição do braço armado do Hamas e a libertação dos reféns. Esses dois objetivos têm oscilado de importância ao longo do tempo. Neste momento, parece-me que o governo de Israel está muito mais concentrado em destruir a capacidade militar do Hamas, o que tem vindo a acontecer de forma progressiva. Não tem vindo a acontecer com a velocidade desejada, porque ainda hoje as notícias nos surpreenderam de uma forma gritante. Como é possível que às Forças de Defesa de Israel e fundamentalmente às suas agências de informações, tenha escapado que a cerca de 400 metros da fronteira de Erez, que é cruzada todos os dias por milhares de palestinianos que vão trabalhar em Israel e regressam à Faixa de Gaza, existisse uma entrada de um túnel com cerca de 400 km, com um grau de sofisticação nunca visto até agora e que atinge as entranhas da Terra até 50 metros de profundidade. Eu não diria que há aqui mais uma falha como foi no dia 7 de outubro, mas é mais uma falha dos serviços de informações de Israel. Isto tudo tem contribuído para que o Hamas tenha conseguido até agora, pese embora todos os bombardeamentos pela Força Aérea, pela artilharia e a utilização também da infantaria para limpeza sistemática das zonas da Faixa de Gaza, o Hamas ainda consiga hoje disparar rockets sobre Israel e ainda consiga dar luta, continuar a combater na malha urbana da Faixa de Gaza contra as Forças de Israel. Dito isto, Israel tem conseguido algum sucesso e penso que está a caminho de conseguir pelo menos um dos seus objetivos. Agora é conciliar aquilo que Lloyd Austin mais uma vez vem pedir a Israel para utilizar cada vez mais as informações, como o Bruno Cardoso Reis muito bem referiu, que é preciso saber exatamente onde estão os núcleos dos terroristas do Hamas. É preciso utilizar um conjunto de munições com menos carga explosiva, mais precisas. É preciso avisar as populações com antecedência devida. Nós temos que ter a noção que estes combates estão a decorrer numa área extraordinariamente confinada. Estamos a falar de 340 km² e não mais. Estamos a falar numa área semelhante àquela que é a área do concelho de Sintra. É nisto que estamos a falar. E estamos a ver o concelho de Sintra praticamente todo ele urbanizado. Até agora falava-se em 500 km de túneis. Pelo andar da carruagem, são muito mais do que 500 km. Isto é algo que ninguém estava à espera. Voltando um pouquinho atrás, eu julgo que nada disto irá alterar a posição dos Estados Unidos quanto ao seu voto no Conselho de Segurança. Julgo que os Estados Unidos irão continuar a vetar, é aquilo que me parece Esperemos que, mais uma vez, a presença de Lloyd Austin, com a sua figura carismática e com a sua capacidade de dialogar, na sequência da vinda do secretário de Estado norte-americano, consiga, de alguma forma, que Israel utilize mais infantaria, mais tropa no terreno e menos bombardeamentos, porque é fundamentalmente devido a esses bombardeamentos que existem as baixas civis colaterais em grande quantidade. Nós temos que olhar sempre para dois aspectos muito importantes no campo de batalha. Quando um comandante, no campo de batalha, e neste caso em combate urbano, é confrontado perante uma resistência inimiga de vulto, tem duas possibilidades: ou lançar um assalto imediato às posições utilizando a sua tropa no terreno e correndo grandes riscos de perder grande parte dos seus militares, ou antepreviamente solicitar o apoio à Força Aérea e à artilharia para bombardear os locais onde a resistência inimiga se revela e só depois entrar nela. É um pouco esta segunda possibilidade que a maioria dos comandantes no terreno, os comandantes de batalhão, os comandantes de brigada, os comandantes das divisões israelitas que estão a combater em Gaza, têm utilizado aquilo que é a doutrina ocidental. Primeiro utilizar os meios de apoio de fogos e só depois assaltar e limpar os objetivos de toda a resistência. É isto que depois pode provocar naturalmente as baixas civis que todos nós lamentamos profundamente. Não me parece que mesmo depois desta presença de Lloyd Austin, se venha a alterar significativamente o padrão daquilo que são os combates na Faixa de Gaza.

Gostávamos ainda de olhar aqui agora Bruno Cardoso Reis para a BP, que suspendeu a navegação no Mar Vermelho por causa dos ataques dos houthis do Iémen, um grupo apoiado pelo Irão e pelo Hamas. Os Estados Unidos estão a ponderar contra-ataques a esses ataques. A segurança está cada vez mais comprometida no Mar Vermelho. Esta frente de guerra está a ganhar cada vez maior importância?

Sim, do ponto de vista do impacto a nível global, é a frente mais importante. No fundo, nós estamos a falar de uma via de comércio marítimo absolutamente vital para a ligação entre a Ásia e Europa, ou seja, para o fornecimento de todo o tipo de produtos industriais, nomeadamente, e também para o abastecimento de petróleo a partir do Golfo Pérsico. Nós falamos sempre muito do Estreito de Ormuz, que é realmente a via de saída indispensável, mas para aqueles petroleiros que vêm para o Ocidente, que vêm para a Europa, nomeadamente, obviamente a seguir têm também de passar por um outro ponto de estrangulamento, que é esta zona do Estreito de Aden. Os houthis têm estado a fazer uma pressão crescente, a ameaçar e atacar deliberadamente estes navios de comércio civil, nomeadamente petroleiros. E realmente é bastante alarmante que uma das principais petrolíferas tenha dito que não quer que a sua própria frota circule por essas águas, porque elas são demasiado perigosas. O risco aqui é que isto tenha um efeito cascata, que mais venham a fazer a mesma coisa e portanto acrescentar quase uma semana de navegação, acrescentar custos, tudo isso obviamente vai ter um reflexo evidente no preço dos combustíveis. Já teve, aliás, no curto prazo. Se isto for uma coisa temporária, se rapidamente, nomeadamente as marinhas ocidentais e em particular a dos Estados Unidos, conseguir dar sinais de que vai ter uma posição mais robusta de reação a esta ameaça houthi, talvez a coisa se controle. Mas se não for assim, eu temo que vamos ter aqui mais uma crise de inflação dos preços, nomeadamente dos combustíveis, com efeito global e particularmente negativo para as economias europeias.

"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 e tem nova edição depois da síntese das 16h30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.