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Câmera D. Light dois. Olha Cristiano Ronaldo. Cristiano!
Este indicativo é cheio de groove para os histórias desconhecidas de Cristiano Ronaldo. Aposto que foi o João Filipe Cruz que escolheu a música.
Não, se fosse era pior.
Era pior ainda. João Filipe Cruz, boa tarde, bem-vindo.
Boa tarde.
Ao longo dos próximos dias aqui neste estágio pré-mundial, também revelamos na Rádio Observador, sempre depois do Jornal das Quatro, histórias desconhecidas de Cristiano Ronaldo. E ontem, depois de termos tido um Ronaldo a marcar 10 gols num só jogo, hoje esta história desconhecida também tem gols.
Se não tivesse, não era sobre o Cristiano Ronaldo. Mas a história de hoje tem mais do que isso, é conversas. E hoje tem uma espécie de revisão histórica da vida e obra de Ronaldo. E a pergunta que vos faço é única e é simples: qual é que foi a primeira seleção onde jogou CR7?
A primeira? A primeira e única. Foi na seleção nacional.
Bem pensado. Também podia ser a seleção da Madeira, mas isso é o que vem nos livros de história e está errado, porque afinal Cristiano Ronaldo já jogou por duas seleções e a primeira foi esta.
Ele pertencia ao Sporting e depois foi convocado pela Associação de Lisboa para integrar a seleção de Lisboa. Os nossos treinos eram feitos todos no campo do CS, na Pontinha, e ele comparecia aos treinos com os outros colegas.
Mas no fundo, a seleção de Lisboa foi a primeira seleção do Cristiano Ronaldo.
À partida, foi. Com esta idade, foi a primeira seleção que ele teve.
Afinal, a primeira seleção do Ronaldo foi a seleção de Lisboa. À partida, porque isto nunca se sabe, o miúdo era tão bom, pode ter jogado antes numa seleção do bairro, na Madeira. Mas à partida, foi mesmo a seleção de Lisboa. Ouvimos aqui pela voz de Carlos Peres, entrevistado pelo nosso André Maia. Carlos Peres, que em 1997 era roupeiro da Associação de Futebol de Lisboa e acompanhou essa passagem de Ronaldo pela equipa da capital.
Então e conta lá como é que correu essa passagem pela seleção de Lisboa.
Será que chegou a capitão da seleção de Lisboa?
Será que havia um Carlos Queiroz?
A passagem não foi muito diferente, como seria de esperar, pelo menos no que diz respeito aos gols, e leva-nos à pergunta de partida do Nelson. E só não bateu recordes porque esteve lá muito pouco tempo, pouco mais de dois anos, porque os meninos só podiam ir à seleção de Lisboa até aos 14, mas no tempo em que esteve lá, Ronaldo fez isto.
Em Viseu foi um jogo que estava a perder 3 x 0, e ele também estava com problemas ainda no jogo, depois pediu ao mister: "Ó mister, na segunda parte já estou bem". E depois: "Então agora a segunda parte vais jogar". Depois ganhamos 4 x 3.
Com quatro gols.
Com quatro gols dele. É verdade.
O mais provável é que aquele mister "já estou bem" nem fosse verdade. Vimo-lo no Euro em 2016, o Ronaldo só com uma perna ainda se safa. Nesse jogo, em Viseu, foram quatro os gols que marcou e esses e muitos outros, deixou Carlos Peres rendido, que obviamente tornou-se um grande fã já desde essa altura.
Eu ando no futebol há muitos anos, mas não percebo nada de futebol. Vou dar um exemplo. O Ronaldo, para mim era sempre o melhor jogador. Eu fui sempre a favor do Ronaldo. Todos os jogos que há na televisão, quando é o Ronaldo, pode estar no clube A ou B ou C, eu vejo sempre os jogos todos dele.
Gostava de ver quantos é que vestiam uma camisola com a frase estampada "Sou a favor do Ronaldo". E aqui o técnico de equipamentos é claramente a favor e nunca escondeu o carinho por CR7, tanto que até pode estar a perder dinheiro com isso. Vamos a um dilema: vocês têm uma única foto autografada pelo Cristiano Ronaldo. Vendiam?
Vendia.
Eu também.
Tu não?
Prefiro não responder. Vou deixar a resposta ao Carlos Peres, que ao contrário de vocês, presumo, tem mesmo uma foto autografada.
Não tenho.
Também não, mas vendia.
"Ó Peres, podias vender isso, meter isso no site, a gente vendia isso aos chineses. Tu tiras-te lá o dinheiro, pá". Eu nunca ganhei dinheiro com isto. Nunca quis. Muitas pessoas aproveitavam: "É, o Ronaldo com 12 anos aqui, fotografia dele autografada". Os chineses metiam no Facebook, comprava logo aquilo. "Não, não quero cá com negócios desses, não. A fotografia é minha, não tenho nada a ver com isso".
O que é que significa para si estas coisas?
É tudo. Para mim foi o tempo todo que eu estive com ele. Por isso é que eu tenho um envelope só com coisas dedicadas a ele.
E o envelope é daqueles castanhos, grandes. Tinha mesmo muita coisa, nem imagina. O senhor Carlos Peres levou o envelope para esta entrevista com o André Maia e tinha desde recortes de jornal, fichas de jogo da altura da seleção de Lisboa, até à fotografia, estava ali toda uma coleção de relíquias.
Faz sentido que não venda. Para Carlos Peres faz sentido, afinal são as memórias que tem com o Ronaldo.
Pois, eu não tenho assim tanta coisa nos acromios.
É uma ligação afetiva, é diferente.
Exato, e são mesmo muitas coisas. Pelo menos guarda as que ficam em papel, que há algumas que ficam só na cabeça. Por exemplo, imaginem acordar amanhã de manhã, compra o jornal, lê o jornal, arranjam-se e vão tomar o pequeno-almoço com o Ronaldo. Pois é, Carlos Peres já o fez.
Cheguei a ir tomar o pequeno-almoço com ele, ao Magriço, aquele café que havia lá em frente, o Sporting dava-lhe umas senhas. Ele tinha duas senhas, dava-me uma senha, que eu trabalhava em Lisboa, mas eu ia para Lisboa muito cedo, deixava o carro lá em Lisboa, ali ao Pedro Games do Sporting, e depois cheguei a fazer isso. Uma vez fui tomar o pequeno-almoço com ele.
A história é engraçada, mas eu retive uma parte muito particular que nos leva até uma altura em que o Ronaldo comia o pequeno-almoço através de senhas. E ele agora, se quisesse, se calhar até comprava o café.
Ele se quisesse comprava a fábrica que faz as senhas de almoço.
Na altura ainda precisava de senhas e foi lá tomar o pequeno-almoço com o senhor Carlos Peres.
Esta memória é muito engraçada, mas eu pergunto-me: será que o Cristiano também se lembra disto? Destas pessoas, destes encontros que foi tendo. Ele já passou pelas mãos tantos treinadores e roupeiros na sua vida profissional, não deve ser fácil.
Sim, eu já nem sequer me lembro de muitos dos professores que tive e não sou assim tão velho quanto isso. Mas aqui no caso do Ronaldo e do senhor Carlos Peres, não parece acontecer isso. Pelo menos, eles conheceram-se em 1997. Em 2005, oito anos depois, reencontraram-se e, por acaso, Ronaldo, aí já com 20 anos, lembrou-se. Foi num estágio da seleção em que Carlos Peres foi dar uma ajuda breve aos roupeiros e da obrigatoriedade de passar despercebido, veio a festa.
"Ó Peres, tu falas muito, não sei o quê. Agora vamos para lá, agora cuidado. Tu agora não podes estar ali a ver aquilo. A gente entra ali e faz de conta que não conhece ninguém". "Ó Gonçalves, mas eu não tenho a culpa. Então, o que é que quer dizer? Sou amigo das pessoas e nem posso falar?" Depois, ele ia à minha frente e o Ronaldo já lá estava sentado na mesa. O Ronaldo quando vê, veio-me dar um grande abraço, fez uma grande festa, diz assim para o gajo da federação: "Olha, fui eu que falei". "Não, não, o Ronaldo é que falou contigo". Então pronto, olha, estás a ver?
Cristiano Ronaldo lembrava-se e deu a Carlos Peres uma grande alegria e esperemos que agora no mundial dê-lhe mais umas quantas.
Isto é o que acontece a pessoas que trocam senhas de pequeno-almoço.
É verdade.
Ficam ligadas para a vida. Amanhã trazemos mais uma história nunca contada do Cristiano Ronaldo, sempre depois do Jornal das Quatro. Amanhã a edição é com o André Maia. João, obrigado por esta história. Um abraço.
Câmera D. Light dois. Olha Cristiano Ronaldo. Cristiano!